domingo, 1 de abril de 2012

A Estética do caos

      Não faz muito tempo o único contraste  da arquitetura urbana era a diversidade de estilo num mesmo espaço, com o passado e o presente como extremos de um mesmo vetor, cada vez que a selva de pedra cria brotos nesse crescimento verticalmente galopante.
      Com a expansão horizontal  da região metropolitana do Rio de Janeiro, a estética que se pretende para a cidade maravilhosa pode não ter o efeito desejado, caso não se leve em conta a urgência desenvolvimentista  para toda a região do entorno do Rio de Janeiro.
      Aconteceu estra semana, em Londres e no Rio, dois encontros que trataram da questão urbana com ênfase socioambiental. Na Inglaterra, o documento da conferência naquele país, como apronto para a Rio+20, deu conta de que até 2050 as grandes cidades mundiais concentrarão um número populacional que já desafia especialistas a encontrarem um meio sustentável de se habitar esses centros espalhados pelo planeta. No Rio, alguns expoentes da arquitetura contemporânea promoveram uma série de palestras sobre os rumos do urbanismo no Brasil e no mundo.
      É claro que a arquitetura e todas as suas nuances e inovações contribuíram para o progresso urbano, principalmente numa metrópole como o Rio de Janeiro, cujo crescimento sem proporção necessita de elementos cada vez mais voltados para o futuro, sob pena de sermos vistos como uma cidade inviável e retrógrada. Lembrando que a cidade do Rio só tem ciclovia em caráter de lazer, para se ter uma ideia das deficiências de nossa cidade.
      O que não pode é descaracterizar a cidade com o pretexto de embelezá-la, com vistas a um suposto legado que acaba não beneficiando a população como um todo, e ainda deixando ônus para a administração seguinte, que fica exposta à opinião pública, como sempre, desapontada com a timidez dos projetos não realizados.
      Mas há outros fatores a serem considerados e dinamizados em paralelo à estética visual aos olhos do mundo. A efervescência da rotina diária do Rio de Janeiro revela, não só as nossas preocupações, necessidades e descompasso, como também a dimensão das mazelas ao nosso redor, que vão bem mais além daqueles bairros longínquos e limítrofes de outras urbes também carentes.
       Porque, quando o trem lotado, vindo de Japeri, cospe gente diariamente na Central do Brasil, significa que uma parte considerável da população do estado do Rio contribui com os números sociais e econômicos da nossa cidade, assim como o Metrô abarrotado de gente, vindo da Pavuna, leva e traz uma outra parte desse universo populacional que também vem ganhar o pão aqui no Rio e ajudam a confirmar a cidade do Rio de Janeiro como uma metrópole atraente no cenário mundial, pelo seu potencial de cidade viável e gente hospitaleira.
      Portanto, é imprescindível que qualquer projeto que seja direcionado ao Rio de Janeiro considere as cidades circunvizinhas, seja além da Ponte Rio-Niteroi, que abarca a população de Niteroi e Alcântara, e a outra parcela que depende da Linha Vermelha e Avenida Brasil para chegar ao batente.
      Estou falando isso porque vem sendo apresentado alguns projetos para tornar a cidade do Rio mais moderna no seu aspecto estético, sem considerar  seu conceito social, que envolve a sua dinâmica no dia-a-dia de uma grande metrópole.
        O Projeto do Porto Maravilha é viável, mas que alternativa o poder público apresentará à demolição do viaduto da Perimetral, com a Rodoviária no mesmo lugar e o Hospital de Ortopedia(INTO), quando este estiver funcionando com a sua capacidade máxima, já que mais pessoas se dirigirão para aquela região? Assim como aquele complexo de prédios sendo construído próximo à Praça Cruz Vermelha, sem nenhum sistema de transporte público adequado à região.
      Os governantes da cidade e do estado do Rio precisam apresentar ao mundo seu potencial de cidade aprazível e funcional, mas isso também depende de políticas que abarquem toda a população que dela faz parte. Para beneficiar o contingente da região metropolitana, como Niteroi, São Gonçalo e Baixada Fluminense, seria salutar que o poder público apresentassem medidas que concentrassem esse contingente em seu local de origem, como forma de desafogar o Rio e, ao mesmo tempo, tornar a vida dos cidadãos fluminenses mais saudável em seu cotidiano, seja em seu deslocamento para o trabalho ou no seu lazer.
      Estamos na expectativa de uma grande mudança, com uma amplitude ainda maior do que a que se apregoa por aí. Porque do jeito que as coisas andam, vamos apenas modernizar a estética do caos.
     
 

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