terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

QUEM VESTIRÁ SUAS CAMISAS?

    


    Foi um pouco estranho se livrar daquelas coisas com as quais eu convivi por um tempo suficientemente acertado entre o que eu acreditava ser importante pra mim, mas que tinha um tempo para existir ou durar.
       É claro que eu já me perguntei algumas vezes por que ficar tanto tempo atrelado a algo que vai perdendo sua funcionalidade, sua razão de ser e pertencer a alguém. Parece que o tempo das coisas tem a mesma essência do tempo das pessoas, e a gente pode tranquilamente interferir nesse processo e definir o prazo. É uma questão de tempo cair a ficha e simplesmente desapegar das coisas.
      No caso de roupas velhas, em que chega a hora do descarte, há um enredo histórico que passa ao largo da estética do modo de se vestir e acompanhar tendências. O vestígio que fica são as marcas que aquela velha peça surrada com o tempo deixam na memória. Já nem contam mais as razões e os motivos que me fizeram adquirir essa ou aquela roupa. Moda, capricho.
     Agora, são capítulos de uma história vivida e por um instante relembrada. Eu esvazio o armário, as gavetas, passa um filme na cabeça as vezes em que aquela calça saiu pra dar um rolé e foi testemunha de uma passagem qualquer, um momento que pode ser lembrado ou esquecido de vez. Talvez seja melhor rasgar de vez esse pano velho e esfarrapado, ou não.
     Como música que se ouve ao longe, as roupas também contam histórias que a gente só lembra quando joga fora. Tem peças que agora saindo de cena revela até o perfume que ela exalou quando saía para trabalhar, aquela que tinha um dia específico pra usar, será por quê? Elas desabotoavam como cortina do espetáculo que é a vida de cada um.
      Quantos abraços essa camisa velha recebeu enquanto durou? Quantas vezes ela suou também? As encrencas em que se meteu e a onda que tirou também, eita! As calças que andaram por quilômetros, pegando chuva, sol nesse mundo, ou vigiando o mar lá nas pedras, tudo vem na memória.
     Nem as voltas que ela deu na centrífuga apagaram os registros relembrados agora antes de seguir outro rumo. E bem provável que seja reutilizada por outra pessoa e compor uma outra estética, outra necessidade, uma nova roupagem na vida de alguém.
    Talvez seja esse o grande barato no processo de desapego às coisas que a gente às vezes reluta em fazer. As roupas ou quaisquer outros acessórios que compõem nosso cenário apenas ilustram um capítulo, uma história. Assim como os anéis que se vão, a gente se desnuda das roupas que não fazem mais sentido usar.
     As histórias ficam mesmo é nas mentes férteis, para quem como nós ainda tem esse privilégio de poder fazer essa viagem num instigante processo de renovação que é o desapego.


Um comentário:

  1. Muito bom, Miguel ate as roupas usadas têm estórias para contar...

    ResponderExcluir