quinta-feira, 29 de julho de 2021

POR MAIS MENTES SAUDÁVEIS

    
    Finalmente começaram a discutir um assunto que há muito tempo já faz parte da vida das pessoas em todas as suas áreas de atuação. Sim, em outras áreas também porque não é só no ambiente esportivo que a saúde mental está diretamente ligada ao desempenho em práticas de qualquer natureza.
     Na seara do esporte essa questão fica mais evidente e mencionada por causa da própria repercussão do evento em nível global, como é o caso das Olimpíadas, mas é necessário que esse assunto seja discutido em todos os aspectos e ambientes, pois, eu não lembro de alguma coisa que o  ser humano faz em que corpo e mente não estejam ligados. 
    Então, é melhor que se aprofunde essa discussão levando em consideração todas as atividades humanas. Não é difícil perceber, hoje em dia, a pressão que as pessoas sofrem em seu cotidiano por resultados imediatos. 
    Trabalho,  escola, família são ambientes em que há uma expectativa qualquer  que sempre ultrapassa os limites tolerados das coisas, seja em compromisso, em metas de estudos e resultados, enfim, as pessoas  estão constantemente correndo contra o tempo, nadando contra a maré, buscando resultados e performances, na maioria das vezes, sem qualquer perspectiva de resultados promissores.
   A decisão da Simone Biles de abandonar as disputas em Tóquio certamente vai reabrir debates a respeito, mas é bom que se dê uma dimensão maior, para que a questão  da saúde mental não fique restrita apenas a área do esporte, porque os próprios especialistas, quando chamados para fazer diagnósticos, propor medidas e soluções, ficam concentrados ali, naquele problema, às vezes numa narrativa que só funciona para aquele assunto, somente, quando se poderia ampliar o debate com base em toda agenda social da sociedade. 
   Seria o começo de uma discussão que iria atingir várias pessoas em seu cotidiano. Da mesma forma que a atleta americana chegou ao seu limite, um universo considerável de gente de todos os estratos sociais estão vivendo, trabalhando, respirando além de suas capacidades normais e não têm a mesma oportunidade que Simone Biles teve para se recolher e ensaiar um recomeço. 
   Independente da sorte e dificuldades que cada um terá para encontrar a melhor solução para seus próprios  males,  a verdade é que as pessoas estão doentes, infelizes, transitando entre a ilusão e a loucura desses tempos em que quase tudo tem de ser imediato, urgente, sem tempo para reflexão sobre a viabilidade de seus projetos, que acabam adiados ou até interrompidos.
     Na cultura do corpo, é a prevalência dos influenciadores na vida das pessoas, sempre foi assim, não é de hoje. As pessoas se deixam levar por metas que não são suas, por projetos dos outros, por sonhos alheios. É impressão minha ou o advento de novas tecnologias vão aprisionando cada vez mais as pessoas?
    De qualquer forma, há uma crise em curso no mundo que impede uma massa enorme de viver confortavelmente dentro de seu ideal de vida, mesmo um sujeito rico que não sabe usar sua grana, e mais ainda o indivíduo com fome, desempregado, sem perspectiva de vida.
    De repente os governos precisariam investir mais em psicólogos na rede pública, para ampliar o acesso, além, é claro, de inclusão na área de educação para que futuras gerações saibam conciliar suas atividades, de modo a viver plenamente, sem amarras, sem apego.

terça-feira, 27 de julho de 2021

UM VENCEDOR DE FATO


  A essa altura do campeonato geral já sabe e conhece um pouco mais da trajetória de Ítalo Ferreira, o cara da vez, o brasileiro que no momento  honra o nome do Brasil lá fora e representa todo esse universo de gente que começou do zero seus mais edificantes projetos de vida. Porque, ante a explosão de alegria do nosso surfista campeão olímpico, o que não falta é gente relembrando as agruras de um cenário adverso, de um tempo cruel, em que tudo era desfavorável a qualquer sonho.
    Na cabeça de brasileiros de norte a sul do país, a lembrança do cara que começou a surfar com a tampa da caixa de isopor trouxe à memória de quem hoje goza de prestígio e sucesso aqueles momentos de penúria. 
    Da mesma forma que o Ítalo Ferreira engatinhou nas marolas de Baía Formosa, em condições completamente adversas, quanta gente também não teve uma tampa de isopor pra chamar de sua, só que em forma de um sapato velho, de uma roupa velha, de um trem lotado, de uma vida escassa do mínimo necessário, de uma doença, uma perda ou qualquer outro obstáculo que interrompesse um velho sonho.
    Pra quem vê e se espanta como tudo começou há, sim, o reconhecimento de quem lutou pra chegar aonde chegou. Só que passou despercebido de muita gente o triunfo maior de quem chega ao topo; a glória maior de quem fez jus ao sucesso por ter encarado o mais sinistro desafio que é uma onda daquela que quebra a prancha e ainda assim o cara não desiste; enfim, uma dádiva a quem sempre acredita.
    Pois bem, ficou marcada em especial na imagem do Ítalo, ainda às voltas com o mar revolto, o agradecimento pela vitória, porque nada pode ser comemorado antes de direcionar o pensamento a quem de fato proporcionou toda aquela festa. E o Ítalo  fez isso logo de cara, ali, ainda aos frangalhos, mas de forma sublime, humilde e soberana ao mesmo tempo, como bem marca os verdadeiros campeões.
    A gente costuma dar moral aos esportistas com base apenas em suas técnicas e tal, mas é bacana quando o cara amplia esse campo, quando seus valores, de família,  de suas origens e, principalmente, de sua fé maior se somam às suas habilidades. E o Ítalo Ferreira já é um grande vencedor  nesse quesito. 
   É isso que vai servir de referência pra quem de repente pensa em desistir porque não tem um tênis, uma prancha, uma bola, uma coragem, uma fé.
   É isso que me fez fã do Ítalo Ferreira pelo conjunto da obra.
    

quarta-feira, 21 de julho de 2021

AMIGOS


     É fácil falar dos amigos quando a gente usa nosso valioso tempo para ilustrar com palavras todo o reconhecimento por tudo dispensado para nós por essas pessoas mais que ilustres em nossas vidas. 
   A própria Língua Portuguesa é rica o bastante para disponibilizar os mais diversos adjetivos, as mais belas construções gramaticais, de sintaxe, com formalidades ou de forma coloquial, enfim, o melhor mosaico de letras e palavras que possam fazer as melhores considerações às melhores criaturas de nosso convívio.
   Apenas um pouco de cautela para que cada adjetivo proposto, até uma vírgula no lugar exato reproduza o melhor sentido daquilo que realmente representa e significa um amigo de fato, porque, escrevendo para eles dá para construir um tratado sobre sua existência e a importância que dá gosto nesses dias de hoje exaltar.
    A gente fala de amigos, mas não tem nada a ver com curtidas, compartilhamentos, alinhamento ideológico, resenhas e coisas do gênero. É melhor que se esclareça que os amigos são aquela meia dúzia de gatos pingados que já se tornaram os protagonistas de nossa agenda por um motivo dos mais singelos, os mais sublimes.
    O amigo que a gente hoje dá moral pode ter, sim, uma ligação de sangue, porque o pai, a mãe, um irmão, tio ou primo também desempenham  essa função com selo de qualidade estampado no peito, o que faz de alguns mais amigos que parentes. 
   Mas nada tira a raça e o glamour daquela pessoinha que conhece até a cadência da sua respiração; aquele que  vai logo te ligando porque estranhou que seu bom dia no Whatsapp não teve ponto de exclamação hoje, o que houve? Esse amigo, de tão conectado, lá na frente vai aparecer na sua árvore genealógica, vai vendo.
    Definitivamente, a sensibilidade é o grande diferencial do verdadeiro amigo, porque poucos percebem que hoje você não tá legal; são poucos os que notam que você até cumpre sua rotina normalmente, mas carrega uma saudade, uma angústia, ou até uma raiva que a velha amiga de sempre, sempre ela, trata logo de dissipar com um sopro, tipo aquela caneca de chopp espumando pra relaxar; ou bater perna por aí, rindo das pessoas, já fiz muito isso; ou qualquer outra resenha que possa quebrar o protocolo de uma agenda rotineiramente exaustiva.
    E essa percepção de penúria do outro está restrita apenas aos amigos verdadeiros. É uma química independente do tempo de existência da amizade. É por isso que alguém que apareceu recentemente no seu círculo de amigos pode ser tão ou mais importante que aquele parceiro de longa data.
    E assim a gente vai criando vínculos importantes em nossa trajetória, paralelo ao ambiente de família, do trabalho. Eu mesmo tenho feito amizades nas redes sociais com pessoas que eu já percebi e aposto serem talentosas, além de seu próprio ofício, na arte de massagear o ego das pessoas em momentos cruciais. 
   Essas vão certamente ocupar o espaço das outras que se foram, tragadas pelas tragédias da vida; das outras que a gente sabe apenas que existem, mas que não mandam mais aquele sinal de fumaça. 
    É uma renovação natural que vai rolando. São outras pessoas que surgem pra também diminuírem o peso do nosso fardo, sem que ninguém saiba, melhor assim. 
   Se for pra alguém saber de alguma coisa, a gente procura demonstrar, apenas pra eles, o quanto eles, apenas eles, são importantes pra nós.
   

segunda-feira, 12 de julho de 2021

DE REPENTE, O MAR

      


    Hoje eu vi o mar pela primeira vez na vida, quem diria. E olha que eu já fui marinheiro, singrei alguns mares e já fiquei também várias vezes vislumbrando o horizonte nessas praias da vida, que a gente sempre frequenta em momentos de lazer.
   Mas, como é que pode um negócio desse a essa altura do campeonato de uma longa trajetória? Como se explica esse contrassenso? 
   É fácil compreender o espanto que essa constatação acima causa, mas o próprio movimento das águas em seus vários fluxos, de intervalos diferentes em cada ocorrência, parem pra reparar, é um fato novo, inédito, pelo simples fato de que há um efeito diferente toda vez que o movimento se repete e continua mais e mais vezes sem parar. 
   Se os fatores geológicos daquele fenômeno, movimento de marés, em conexão aos outros elementos da natureza, os ventos, o sol, ajudam  a atestar uma certa simetria, em que tudo parece certinho, perfeito e maravilhoso, pense na energia que toda essa movimentação gera em paralelo ao espetáculo deslumbrante produzido a todo instante.
   Não é coisa que se descobre ou sente olhando o mar de uma varanda, de uma janela, de uma foto ou binóculo. Esse panorama é muito superficial, limitado apenas  à estética das coisas, como várias outras maravilhas ao nosso redor que apenas ofuscam os olhos e pronto.
   É preciso um contato direto, tipo pele à pele com o mar, desde a mão alisando a água naqueles passeios luxuosos de barco, em que se permite esse prazer, que delícia, para quem pode, obviamente; ou os pés fincados na areia esperando a hora certa de entrar num curto  espaço daquela imensidão à frente.
   É quando começa a influência daquele fenômeno da natureza na vida de quem se projeta ali, uma troca incessante de matéria se instaura ali, num fluxo constante. Você pensa em todas aquelas coisas que você reivindica para si, e outras, das quais você quer se livrar. Olha ai a velha convergência de corpo e mente. Sim, a mente fixa e constrói o cenário de tudo que se pretende para sua vida chegando ao sabor da maré, que maravilha, e levando pra bem longe, bem além do horizonte, tudo aquilo que não presta mais.
    É claro que tem toda uma questão espiritual envolvida, porque, além da ligação com a natureza, há uma conexão com Deus, mas, sempre lembrando que a denominação religiosa fica à mercê de cada um. Se a natureza tem seu processo seletivo, as pessoas têm seu bom e velho livre arbítrio.
   E aí, gente, você fecha os olhos, eleva os pensamentos  e vê nitidamente no retorno das águas os trastes, bagulhadas  e quinquilharias que você  costumava conservar como bibelôs, agora tudo se afastando lentamente ao sabor do vento, a onda levando, vai com Deus. 
   Eu acredito que a própria natureza se renova quando cumpre esse papel de nos renovar também. É uma troca. Tanto que ela também se rebela quando a gente a maltrata, degrada e destrói.
   Portanto, é nesse sentido  de que há um fato novo a todo momento, tudo se transformando em tempos e situações diferentes, que o mar é diferente cada vez que o vemos e sentimos. Uma síntese de nossa vida, enfim, em que tudo pode ser renovador e revigorante, assim mesmo, de forma fortuita e inesperada.