Se for pra lembrar de coisas do passado, a gente resgata o que fez diferença de fato. Para as coisas que não tiveram importância, são águas passadas. Ou melhor, há controvérsia, talvez não.
Como já ilustra a nossa trajetória, a maré costuma ser a referência. Pois era assim naquele tempo em que eu singrava o Oceano Atlântico, de cabo a rabo. A Fragata Independência exuberante e renovada, tudo limpo e funcionado à bombordo e à boreste.
Foi por onde eu entendi melhor o que são as tempestades e a calmaria em nossas vidas. Porque, claro, eu levei para o resto da caminhada o quanto transitamos entre os extremos.
Por muito tempo, ou melhor, até hoje eu lembro do mar revolto, do que parecia ser o fim e a gente tendo que resistir. Mesmo com a calmaria no dia seguinte havia o trauma da tempestade em mente.
Fora de qualquer turbulência havia a beleza daquele mar imenso e maravilhoso rodeando a expectativa do que seria a vida e o destino até chegar ao próximo porto.
Por varias vezes eu ficava ali, na popa do navio, aproveitando que estava tudo calmo para admirar toda aquela imensidão. Um imenso azul rodeando nosso destino, nossas vidas. O vento soprando expectativas e renovando o pensamento. O sol mudando de lugar porque o navio desviou a rota. Veja como tudo se transforma por força das circunstâncias sem que a gente tenha decidido alguma coisa.
Foi assim que eu vivi aquele tempo maravilhoso. Paralelo à responsabilidade de cada um à bordo, havia uma emoção contida no momento em que o navio se livrava das amarras no cais e se lançava ao mar. Eu amava viver aquele desafio.
Não era fácil cumprir aquela rotina com pressão a todo instante. Tinha de estar muito concentrado para cumprir o que era determinado para aquela pernada de viagem. Havia treinamento que era comum na vida de militares. Simulação de incêndio, abandono de navio, exercícios com outros navios em alto-mar, de madrugada, com chuva, em condições completamente desfavoráveis a todos.
O resultado de tudo isso foi o aprendizado. As marcas que ficaram ainda servem de referência pra qualquer projeto de vida. Até hoje eu vislumbro o mar, solto as amarras do tempo e me transporto para aquele tempo que me enriqueceu bastante. Foi gratificante ter vivido ao sabor do vento e das incertezas.
Talvez eu nem olhasse para o mar com toda essa poesia se eu não tivesse adquirido a bagagem que eu carrego. Teria sido águas passadas de fato.










