sábado, 23 de maio de 2026

A BOLA DA VEZ

 

    Essa Copa do Mundo já tem tudo pra ser a mais esquisita de todos os tempos, ao contrário da mídia que sempre classifica a disputa do momento como a melhor e tal, enfim, é assim desde quando nem havia televisão pra ver a cor da bola.
    Como o mundo todo vai assistir às peladas, melhor para quem vai ver os jogos de dia, o prefeito local dando feriado no dia do jogo, o patrão bem chateado porque desmancha um pouco durante a Copa a escala 6x1, enfim, um Deus nos acuda que no final das contas o cara até desconta no home office depois.
   Aqui no Brasil vai ser bem sinistro com a diferença de fuso horário os jogos do Brasil rolando de noite, atrapalhando a programação da novela, a hora da comida, fora a comemoração nas ruas que dificilmente vai ter naquela empolgação toda que a galera já está acostumada a fazer de dia. Por enquanto, a animação fica por conta do álbum da Copa, só isso.
    O povo brasileiro é tão vibrante com festa que neguim vai dar um jeito de comemorar nas altas horas, porque tem jogo da seleção às dez da noite, vai vendo Se ganhar, não tem como desligar a televisão depois da resenha e ir pra cama. Nos bares vai rolar um estica, aquela concentração regada a várias saideiras nas praças, onde há sempre um cara com aquele isopor gigante cheio de long neck, bagulho muito doido.
    Nos condomínios...bom, nos condomínios é onde costuma dar merda de fato e de sempre, principalmente com relação aos níveis de decibéis que é inevitável. Imagina o cara soprando a vuvuzella debaixo da janela, justamente do sujeito que não gosta de futebol e este, pê da vida, liga pro síndico, olha a encrenca. Não pode faltar a velha zoação clubista, que quando ultrapassa os níveis etílicos aceitáveis ganha contornos de guerra. Tem sempre uma treta que vem à tona. É o Estreito de Ormuz no playground do prédio.
    Mas são suposições, porque nem as ruas estão enfeitando este ano. Além do horário esquisito, uma parcela da torcida tá bem descrente da seleção brasileira nesses últimos tempos, de repente é isso. As gerações mais novas não sabem a saudade que a gente sente daqueles caras com chuteiras pretas e zero tatuagem. Aí, sim, dava gosto investir nos apetrechos.
    Hoje, com o futebol bem globalizado, os craques das outras seleções têm muita moral também por aqui e uma galera fica na expectativa de ver as outras seleções com boleiros de outro patamar. E isso dá à Copa do Mundo um glamour a mais. Para os brasileiros é até uma compensação, caso os brazucas deem mole mais uma vez. Em nome da alegria de viver tá valendo também ver os rivais batendo um bolão.
    A Copa do Mundo é o momento do futebol que não tem essa polarização exacerbada, por isso que mais uma vez será bom de se ver, mesmo que a seleção brasileira fique pelo caminho.


terça-feira, 19 de maio de 2026

O FATOR NEYMAR

  

    Quem nunca foi técnico de futebol que atire a primeira pedra, pois não é de hoje que geral dá palpite na escalação da seleção brasileira, e o assunto Neymar não poderia ficar de fora de mais um bafafá no seio da sociedade.
     Se em tempos passados havia uma grita quase unânime em torno de determinado boleiro, parece que agora o Neymar divide bem ao meio a opinião pública.
      É até normal nesses tempos de polarização que haja esse racha para convocar ou não o cara. Seria o caso até de fazer uma pesquisa, mas eu acho que o público em geral acaba colocando também no pacote a performance do jogador fora das quatro linhas.
     De tudo que eu tenho visto do Neymar nesses últimos tempos, suas declarações públicas, sua vida em família, amigos e fofoca em geral, nada disso serviu de peso para que eu avaliasse o seu mérito para estar na seleção brasileira. Até porque esse fatores em nenhum momento interferiram na trajetória de Neymar quando este estava no auge da carreira, jogando na Europa e tal.
    Se falta ao Neymar um título de campeão mundial pela seleção, não foi por causa de seu estilo de vida essa lacuna em seu currículo.
    Agora, o Neymar tem mais uma chance de ser protagonista na seleção por fatores dentro do contexto do futebol apenas. Eu até acho que só está rolando toda essa resenha porque Neymar está jogando numa equipe que não atravessa uma boa fase, o Santos. Se ele estivesse numa grande equipe lá fora, seu passaporte já estaria carimbado pra Copa antes de qualquer um.
       Atualmente o futebol brasileiro passa por uma fase de renovação com vários jovens se destacando em seus clubes, alguns já até convocados por Ancelotti para a Copa do Mundo. Só que nenhum deles, assim como outros que já estão há mais tempo na seleção, atingiu um patamar que permitisse à opinião pública e demais entendedores de futebol a exclusão de Neymar do plantel da seleção brasileira.
     É por isso que eu vou, sim, puxar brasa pra sardinha do Neymar.
      Eu sempre falo daquele boleiro que quando pega a bola, não sabe o que fazer com a redonda, porque não tem recursos, a bola bate na canela e sai pela lateral. Há aquele que tem aquela jogada conhecida de todos, manjada, que na maioria das vezes até funciona, dá certo.
      Agora, o Neymar...bom, o Neymar quando tem a bola ninguém sabe qual será a jogada, porque o cara tem um repertório vasto, o suficiente para iludir o adversário, operar uma grande jogada, concluir para o gol ou dar assistência, enfim, essas coisas do futebol que o Neymar tira de letra. Ou seja, enquanto os outros são burocratas demais, Neymar ainda se destaca pela habilidade técnica e talento em doses muito maiores que qualquer boleiro brazuca. E jogando pela seleção, junto de jogadores mais qualificados, seu talento pode ficar ainda mais evidente.
     Assim como já ocorreu na defesa de outros jogadores, não levo em consideração nem dou importância ao que Neymar faz fora das quatro linhas. Eu ouço as pessoas detonando Neymar por sua posição política, sua vida pessoal, seus devaneios, seu isso, seu aquilo, como se o perfil do Neymar fosse uma novidade no meio futebolístico.
     Se o Neymar vai trazer o tão sonhado hexa, é difícil prever. Não se sabe nem se ele será titular, mas o que Neymar ainda é capaz de oferecer à seleção brasileira pode perfeitamente facilitar um provável triunfo do Brasil na Copa do Mundo.
     De qualquer forma, convocar o Neymar para a Copa foi um golaço do Ancelotti. Agora, a gente espera que o Neymar também faça os dele no Mundial.
     Avante, Brasil. Avante, Neymar.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

ÁGUAS PASSADAS




  Se for pra lembrar de coisas do passado, a gente resgata o que fez diferença de fato. Para as coisas que não tiveram importância, são águas passadas. Ou melhor, há controvérsia, talvez não.
    Como já ilustra a nossa trajetória, a maré costuma ser a referência. Pois era assim naquele tempo em que eu singrava o Oceano Atlântico, de cabo a rabo. A Fragata Independência exuberante e renovada, tudo limpo e funcionado à bombordo e à boreste.
    Foi por onde eu entendi melhor o que são as tempestades e a calmaria em nossas vidas. Porque, claro, eu levei para o resto da caminhada o quanto transitamos entre os extremos.
     Por muito tempo, ou melhor, até hoje eu lembro do mar revolto, do que parecia ser o fim e a gente tendo que resistir. Mesmo com a calmaria no dia seguinte havia o trauma da tempestade em mente.
    Fora de qualquer turbulência havia a beleza daquele mar imenso e maravilhoso rodeando a expectativa do que seria a vida e o destino até chegar ao próximo porto.
   Por varias vezes eu ficava ali, na popa do navio, aproveitando que estava tudo calmo para admirar toda aquela imensidão. Um imenso azul rodeando nosso destino, nossas vidas. O vento soprando expectativas e renovando o pensamento. O sol mudando de lugar porque o navio desviou a rota. Veja como tudo se transforma por força das circunstâncias sem que a gente tenha decidido alguma coisa.
    Foi assim que eu vivi aquele tempo maravilhoso. Paralelo à responsabilidade de cada um à bordo, havia uma emoção contida no momento em que o navio se livrava das amarras no cais e se lançava ao mar. Eu amava viver aquele desafio.
    Não era fácil cumprir aquela rotina com pressão a todo instante. Tinha de estar muito concentrado para cumprir o que era determinado para aquela pernada de viagem. Havia treinamento que era comum na vida de militares. Simulação de incêndio, abandono de navio, exercícios com outros navios em alto-mar, de madrugada, com chuva, em condições completamente desfavoráveis a todos.
   O resultado de tudo isso foi o aprendizado. As marcas que ficaram ainda servem de referência pra qualquer projeto de vida. Até hoje eu vislumbro o mar, solto as amarras do tempo e me transporto para aquele tempo que me enriqueceu bastante. Foi gratificante ter vivido ao sabor do vento e das incertezas.
     Talvez eu nem olhasse para o mar com toda essa poesia se eu não tivesse adquirido a bagagem que eu carrego. Teria sido águas passadas de fato.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

A ENGRENAGEM



  O que será do mundo se a imersão em inteligência artificial for o grande filão dos novos tempos?
  O que será das pessoas, da coletividade se o poder de cognição não for mais a base das construções humanas?
 Parece que já havia nos primórdios da humanidade indicativos de evolução, pois nascemos com o dedo polegar e um progressivo aumento do cérebro até chegar a um tamanho considerado suficiente para nossas pretensões, tá ligado?
  Eu tenho visto tanta gente falando, escrevendo e discutindo sobre a inteligência artificial que, não tem jeito, nos remete a esses questionamentos.
  A maioria fala justamente do processo criativo, em que a inteligência artificial passou a ser uma grande aliada. Mas é bom que se diga que a nova ferramenta não será culpada por um eventual colapso da humanidade nesse quesito. Já há muito tempo que a capacidade de criação humana vem diminuindo.
  Se mais adiante a gente começar a ver com mais frequência obras de qualquer natureza concebidas por inteligência artificial será apenas resultado de uma tendência que já se verificava, e a nova tecnologia terá dado uma grande contribuição, acelerando o processo.
 É verdade que a inteligência artificial já promove avanços em áreas importantes como parte da proposta universal de qualquer tecnologia desde a sua concepção. Mas ela poderá também fazer avaliações fora de contexto; não atender a uma certa demanda, ou seja, oferecer o que ela, a máquina, achar conveniente. De qualquer forma, é estranho pensar que a inteligência artificial pode desmistificar a essência da criação humana e mudar o meu, o seu, o nosso perfil.
  Música, livro, filme, novela, teses ou quaisquer outras ideias que poderão ser construídas sem nenhum esforço cognitivo, apenas com a ajuda da nova ferramenta, poderão figurar na galeria de grandes criações humanas, e o pior, com o entendimento e a narrativa de um degrau a mais na evolução dos homo sapiens. Bastará uma inteligência artificial na mão e uma ideia na cabeça, vai vendo.
  Mas eu sempre vou acreditar no poder da criação, na mente como a engrenagem do homem. Nos neurônios pulsando intensamente em quilowatts de potência. Foi assim que os maiores gênios da humanidade trouxeram soluções para o mundo.
  A inteligência artificial terá valia para a agenda mundial, já deu pra perceber. Mas que através de práticas convencionais haja sempre estímulos à capacidade cognitiva do homem.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

VIVA A CIÊNCIA



     O ser humano nunca vai deixar de testar seus limites como forma de superação em quaisquer que sejam seus objetivos. Isso já era bem claro em experimentos passados de desafios para toda a humanidade, quando há verdadeiramente o propósito da evolução em todos os aspectos da vida humana.
     Eu achei bem bacana esse rolé que astronautas dos EUA e Canadá estão dando em torno da lua, numa perspectiva bem diferente das outras missões.
    Certamente não vão trazer nenhum material para estudos e análises, já que não pousaram na lua, apenas observaram parte da superfície do satélite, tiraram fotos e demais registros sem no entanto fazer contato algum, apenas recolher dados que permitam um futuro pouso na lua em 2028, ou seja, atestar a segurança da próxima missão em paralelo à capacidade humana de resistir às manifestações de matérias presentes no satélite, já que todo o conjunto e configurações daquele lugar é reconhecidamente diferente do que vivenciamos em nosso planeta, a Terra.
     Eu falo isso sem nenhum conhecimento profundo sobre o assunto, mas otimista pela cautela com que foi realizada a missão, com a segurança que faltou em outros projetos malsucedidos.
     É a parte da natureza humana, a inteligência, que revela nossa melhor faceta. A sustentabilidade em quaisquer que sejam os projetos, independente da natureza e circunstância, vai contar com esse equilíbrio, consciência, desprendimento e discernimento para conduzir as mais complexas ações e empreendimentos. É a única coisa que pode efetivamente assegurar o futuro do planeta e a qualidade de vida das próximas gerações.
    A visão da lua em uma outra perspectiva, o lado obscuro além de nossos domínios, o conceito de espaço e tempo numa outra dimensão são elementos que lançam luz sobre a mente humana em prol da evolução da humanidade. A partir desse novo olhar a ciência pode buscar soluções ainda mais eficazes para nossas necessidades. O advento de novas tecnologias pode tornar a vida humana mais agradável e produtiva através dessa nova perspectiva.
     Uma luz que contrasta com o lado obscuro da raça humana. Num mundo cheio de conflitos em todos os cantos, em todos os tempos, quando outras tecnologias contribuem para a destruição e ruína, é um alento para a humanidade a ciência em novas frentes e comprometida com o futuro de nossas vidas.
     Viva a ciência.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

A ESPINHA DO PEIXE

     


     Dificilmente o Donald Trump come peixe por conta dos festejos da Semana Santa. A religião predominante dos americanos não segue esses dogmas, mas o Trump certamente já degustou a iguaria nas comilanças em família, nas reuniões da governança ou dos negócios.
     Num desses momentos, entre uma garfada e outra, ele pensa e estuda estratégias para sair pela porta de frente nessa treta que ele arrumou com o Irã. Nesse cardápio diversificado que é a globalização em tempos de guerra ou de paz, o que o cara escolheu agora para se fartar é bem mais difícil de engolir que as delícias experimentadas na Venezuela, desde o prato de entrada à sobremesa, tudo maravilhosamente perfeito e tal.
     Agora, parece que a parada é mais intragável. Em meio ao alto índice de desaprovação dos americanos ao conflito no Oriente Médio, à resistência do Irã, aos prejuízos em áreas estratégicas da região e tudo mais que possa influenciar o seu futuro político, a digestão desse prato pode ser mais demorada.
     Eu penso num peixe caprichosamente preparado para o presidente, e Vossa Excelência tendo que separar as espinhas sutilmente ali no canto do prato. Só faltava essa agora. Como sair dessa enrascada? O Aiatolá resistindo bravamente com os recursos tecnológicos e sabedoria de que dispõe e agora uma situação mais espinhosa aqui na frente para resolver. Não tinha um peixe melhor pra servir, não, amigo?
     Pois bem, a gente costuma vê através da mídia global o Trump numa posição bem confortável, porque é da cultura do ocidente mostrar-se bem na fita, mas não é isso que acontece. A comunicação global hoje é bem acessível, o suficiente para vislumbrar as agruras do presidente americano em mais um evento de intromissão na vida alheia.
    O mundo não está mais partido ao meio como antes. Há várias frentes reivindicando seu quinhão à frente da globalização. O dólar não é mais a única moeda de troca do planeta. Há outras alternativas de negócios entre as partes. Mais povos com tecnologias de ponta, mais armas, mais parceiros, mais seguidores, enfim.
     Se em eventos anteriores os Estados Unidos sempre levavam a melhor na comilança global. Saía de pança cheia e arrotando a satisfação da vitória. Agora, há outras opções no cardápio, e é preciso saber degustar o que se põe à mesa, inclusive, o talher adequado a cada iguaria, senhor presidente.
     Então, se for possível sugerir ao Trump, que ele fique esperto e se ligue no menu, que o Irã é um peixe cheio de espinhas.




quinta-feira, 19 de março de 2026

INSÔNIA

  

   Depois de um tempo velando a noite, respirando o breu, esse monte de coisas ao redor vai tomando forma. Tem coisa que é quadrada; outra, redonda ou disforme, tanto faz. Tudo ali volta a existir. É a luz da manhã lançando holofote às coisas que têm importância na vida: os objetos, as matérias. A vida de novo iluminada pra mais um dia.
    É assim. O prenúncio de uma alvorada vem da escuridão, quando os olhos não fecham e o pensamento vaga. A mente viaja com o corpo parado, imóvel. Só o silêncio que faz barulho àquela hora. O silêncio é a atmosfera.
     No meio de toda a efervescência que é a escuridão, dá pra ouvir alguém falando, pessoas correndo, gritando. Música ao longe. Parece mensagens em vozes anônimas.
     Querem falar comigo, só pode ser. Porque, não tem sentido o mundo girar no escuro, gente respirando sem ver para onde vai o sopro e não ter ninguém pra ouvir tudo isso. Uma vibração assim do além vindo interromper meu sono só pode ser algo que só ouvindo naquele momento vai ter sentido.
     Na calmaria da madrugada, o pensamento flutua, vaga de um lado para o outro captando sinais, buscando soluções e respostas para aquele conflito, aquele drama, aquela culpa que se arrasta faz tempo. Pode ser também o momento da criação, em que a mente se abre e as ideias afloram. Parece inspirador esse momento. Talvez seja o tempo que eu precisava para completar meu projeto, uma parte do meu propósito de vida. Então, tudo se esclarece, tudo se encaixa.
     Se é a essa hora que vem o chamado, é porque alguma coisa conspira ao meu favor. A conjunção dos astros, dos planetas, sei lá. Ou pode ser de madrugada que os anjos estão mais próximos de nós. Ou de repente, é Deus mesmo que escolhe essa hora por estarmos livre da correria do dia e portanto mais tranquilo pra ouvi-Lo.
     De qualquer forma, é preciso estar atento ao chamado das trombetas que os anjos soam. Há um chamado em curso naquele breu. Talvez eu tenha que me recolher antes que amanheça. Voltar no tempo e buscar alguma situação que ficou mal resolvida, uma lacuna que não se preencheu.
    Naquela escuridão eu fico livre das amarras do mundo. Eu escolho o que fazer com essa minha liberdade. Estou aberto ao diálogo com quem se importa comigo, com quem tem energia pra gastar comigo, com quem está disposto a lançar o melhor em minha direção.
     De repente é até melhor que dormir e sonhar.


domingo, 8 de março de 2026

A VOZ DA DIGNIDADE

  

    A causa das mulheres no Brasil ganhou uma dimensão tão grande que é impossível não priorizar a questão que mais repercute hoje em dia.
    A sociedade celebra, sim, as conquistas, os avanços que foram obtidos ao longo desses tempos com muita luta e esforço junto com as políticas públicas de forma que as vozes mais ativas ecoem em todos os quadrantes, todos os estratos, enfim, que todos saibam como os discursos amadureceram a opinião pública.
    Pronto. Esse é o caminho a ser percorrido, mas há interferência no circuito. O feminicídio hoje é a grande praga que assola a sociedade. E apesar de toda a trajetória, a expectativa que se tem hoje ainda é muito pouco animadora.
      A legislação vigente no país, ainda que tenha sofrido algumas modificações, continua muito leniente com os agressores de mulheres. Enquanto não houver punições mais severas, sem esses benefícios de medidas cautelares, tornozeleira eletrônica, a população vai continuar assistindo a números cada vez maiores de agressões, ameaças, intimidações e assassinatos no pior cenário de impunidade que já ocorre em outras modalidades de crimes no Brasil.
    Há registros de sujeitos que cometem uma, duas, três vezes num curto espaço de tempo, amparado por esses atalhos que a lei oferece a eles. Ou seja, a lei beneficia o infrator e deixa a vítima completamente vulnerável, à mercê do seu algoz.
     O único ambiente que pode efetivamente operar as mudanças na legislação, torná-la mais rigorosa e adequada aos novos tempos é o parlamento brasileiro, o poder legislativo. Já há membros naquela casa que sinalizam e avançam com propostas de alteração da lei, mas há também resistência por parte daquela gente. São outros representantes do povo que não têm interesse em ver essas mudanças na realidade brasileira. Resquícios da cultura machista que ainda impera no meio e vai criando obstáculos para grandes transformações.
     De qualquer forma, o feminicídio está inserido na questão da segurança pública, em que os estados devem implementar um projeto específico para essa mazela urbana do mesmo modo com que direciona ações para outras modalidades de crimes.
    São medidas que conjugadas a uma legislação rigorosa vão permitir uma redução drástica nos números do feminicídio, resgatar a segurança e, principalmente, a dignidade das mulheres.


sexta-feira, 6 de março de 2026

O PREÇO DA GUERRA

 

   Na teoria uma guerra pode até ter vencedores e vencidos, porque há sempre um lado que tem mais poder, mais força, mais tecnologia. No caso dos americanos, eles têm mais know-how, mais tarimba, enfim, são PhD em invasão de terras alheias.
    Do outro lado ficam os órfãos, a submissão, a interferência externa, o orgulho da luta, o petróleo apreendido, e o dia seguinte pra recomeçar.
    Se há algo que pode igualar os dois lados são as vidas humanas perdidas em ambas as frentes de batalha, independente da diferença de baixas entre ambos.
     Para os Estados Unidos, mesmo aniquilando o rival, não vale a satisfação do sucesso da operação, porque no final das contas o governo americano tem contas a acertar com seu público interno, porque isso divide a opinião pública, e lá nos EUA não é diferente que parte da sociedade local rechaça essa agenda externa, principalmente por parte daqueles que perderam seus entes em conflitos anteriores.
    Ainda tem a questão financeira envolvida, o prejuízo que o erário americano terá no final das contas, porque, não é barato um míssil daquele cheio de tecnologia, além da baixas nas fileiras militares que implicam indenizações, essas coisas, enfim, toda a logística de uma guerra custa caro à população. O próprio processo de enriquecimento de urânio até seu produto final onera em muito o orçamento, pra no final das contas nem ser utilizado, servindo apenas de intimidação, ameaça, pois o seu emprego devastaria a todos, inclusive o lançador, pelo alto grau de destruição do artefato.
     Mas, quaisquer vantagens que Donald Trump venha a obter dessas últimas incursões, Venezuela e Irã, seja no plano político, pelo zelo com a política externa, ou econômico pelo confisco de petróleo e seus efeitos no ambiente interno, pode ser pouco diante do que os Estados Unidos precisam para recuperar o velho prestígio do imperialismo que parece estar se definhando diante da expansão de seu maior oponente no momento, a China, que veio pra quebrar a banca e brigar em outra guerra, comercial e tecnológica.
     É uma outra guerra a que o mundo assiste em outro plano, um outro assunto. Essa atual, de atirar pedras um no outro, é pilha da indústria armamentista que sempre argumenta que tem filhos pra criar.
     Agora, se o triunfo do vencedor traz algum prestígio para a nação, tudo isso cai por terra quando há vidas humanas ceifadas, quando a interferência à soberania alheia não surte o efeito desejado, mesmo que o rival seja também sanguinário dentro de seus domínios. Enfim, não há garantias de aplausos e holofotes para os Estados Unidos.
    Por isso que dentro desse cenário de incerteza quanto ao futuro que cerca a agenda da globalização, é que eu acredito que Trump só está metendo essa resenha porque precisa abafar a sua encrenca com a questão do Jeffrey Epstein, vai vendo.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENFIM, 2026



     Parece que finalmente o ano vai começar, porque no Brasil há sempre um ensaio de como será o ano antes do carnaval. As pessoas vão tendo uma prévia de como será mais um período na vida brasileira.
      Ainda antes da maior festa do povo vão aparecendo junto com a esperança de cada um as incertezas, os boletos e a medida da cruz que geral vai continuar carregando, o velho fardo que varia de tamanho e peso pra cada cidadão do nosso lindo e maravilhoso país.
     E a correria pode ainda ser maior do que se imagina, pois já tem gente dizendo que o dia com apenas 24 horas será pouco pra dar conta dos compromissos, dos projetos em mente, que quando chegar dezembro vai ficar faltando mais alguns meses para cumprir metas. E pelo calendário apertado muita gente pode se frustrar por causa de um monte de feriado atrapalhando desde o produto interno bruto até o leite das crianças.
     A Copa do Mundo com os jogos à noite e a seleção muquirana não devem ocupar a mente em nível nacional. De repente nem vai rolar aquela bebedeira antes, durante e depois da pelada. A safra de boleiros está tão bizarra nesses últimos tempos, que nem procede tomar uma pelos caras.
      E ainda tem aqueles casos escabrosos que sempre dão dar pano pra manga nas redes sociais, os escândalos que a gente vê toda hora, mas que parece um fato em nossa vida.
    Já as eleições vão dar uma balançada na situação mais uma vez por motivos óbvios. Um monte de gente de mal novamente, quando já estavam quase ficando de bem, a retomada daqueles almoços em família, as resenhas no bar, a pelada da rapaziada, vai ter agenda comprometida ao longo do período, porque depois de tanta treta e clima pesado, neguim ainda não se emendou, vai vendo.
    Mas, claro, a gente pensa também no lado bom de toda a expectativa para um 2026 com muita energia, trabalho, sorte e saúde. Se der tempo de no meio de toda essa efervescência cada um encaixar uma atividade paralela que possa refrescar a mente e o espírito, tudo junto e misturado, beleza, a saúde mental vai melhorar seus indicativos.
     Se for para começar de fato um ano novo, o melhor é se desligar completamente de tudo que rolava antes do carnaval como se fosse ainda o ano passado, enfim, se desprender de tempos passados. Boicote total ao que já foi. Renúncia absoluta ao que não faz mais sentido, porque a página virou.
     É desligar aquele batuque que ainda faz zumbido nos ouvidos e se preparar que 2026 vai brilhar, mas sem purpurina.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A APOTEOSE DE CADA UM

       

    O Carnaval será sempre essa festa maravilhosa dentro do nosso calendário, da nossa cultura. O momento de descontração que o povo precisa para amenizar um pouco o peso de uma rotina estafante, coisa e tal. Tem uma galera que volta ao batente depois da quarta-feira de cinzas completamente revigorado.
     Mas nada como encontrar a paz interior longe de qualquer batuque que se possa ouvir ao longe. Para quem opta por se refugiar em outras pairagens, pra não ter que ouvir uma lata sequer batendo, que maravilha encontrar a paz interior pelo menos por alguns dias.
     Eu que já aproveitei bastante o Carnaval nos velhos tempos, não tenho do que reclamar da vida. O Carnaval está no meu currículo. Cumpri todas as etapas que um folião precisa para se sentir realizado em matéria de Carnaval, tirei muita onda também.
     E a gente que não brinca mais Carnaval merece também distinção por nossas escolhas. A essa altura do campeonato passa a ser um projeto de vida ficar alheio aos níveis de decibéis da cidade nessa época. Com a vida humana hoje completamente conectada, globalizada, fica difícil não saber alguma coisa sobre Carnaval. Se você liga a televisão ou abre as redes sociais vai ter uma marchinha ou um samba-enredo embalando as notícias em geral.
      Então, que bom que há opções de todos os gêneros para distrair a mente. Bíblia, Palavras Cruzadas, Netflix, Kama Sutra, baralho, gibi, pescaria, sinuca, skate ou ir para o meio do mato só ouvindo barulho de passarinho e sentindo cheiro de vaca, porco e galinha, o lugar que eu considero ideal para se atingir o Nirvana de vez.
     Mas, enquanto eu não chego a esse nível de equilíbrio e superação, eu vou me refugiando nos meus livros, que a ficção tem me trazido alguma calmaria e algumas respostas também. Nas contradições da vida humana, a ficção otimizando a vida real, regenerando a mente e afastando o corpo dos males dessa vida efervescente do nosso dia a dia. Uma prática que vai virando um modelo de vida, quando se pode conciliar uma atividade paralela à rotina de cada um.
     A gente fala assim do Carnaval, claro, sem depreciar a maior festa do Brasil. Eu já bebi muito dessa fonte e não vou agora cuspir no prato em que comi. O Carnaval será sempre essa alegria em larga escala. Mas a gente usa de referência para outros barulhos que sempre incomodam, o que nos obrigam a procurar suporte para prosseguir na caminhada com o menor grau de riscos para a saúde mental, essa nova praga do momento.
     Que possamos sempre atingir um grau de satisfação cada vez maior em nossas vidas. Que cada um tenha a sua própria apoteose para vibrar em sua trajetória.
    Bom Carnaval.