quinta-feira, 19 de março de 2026

INSÔNIA

  

   Depois de um tempo velando a noite, respirando o breu, esse monte de coisas ao redor vai tomando forma. Tem coisa que é quadrada; outra, redonda ou disforme, tanto faz. Tudo ali volta a existir. É a luz da manhã lançando holofote às coisas que têm importância na vida: os objetos, as matérias. A vida de novo iluminada pra mais um dia.
    É assim. O prenúncio de uma alvorada vem da escuridão, quando os olhos não fecham e o pensamento vaga. A mente viaja com o corpo parado, imóvel. Só o silêncio que faz barulho àquela hora. O silêncio é a atmosfera.
     No meio de toda a efervescência que é a escuridão, dá pra ouvir alguém falando, pessoas correndo, gritando. Música ao longe. Parece mensagens em vozes anônimas.
     Querem falar comigo, só pode ser. Porque, não tem sentido o mundo girar no escuro, gente respirando sem ver para onde vai o sopro e não ter ninguém pra ouvir tudo isso. Uma vibração assim do além vindo interromper meu sono só pode ser algo que só ouvindo naquele momento vai ter sentido.
     Na calmaria da madrugada, o pensamento flutua, vaga de um lado para o outro captando sinais, buscando soluções e respostas para aquele conflito, aquele drama, aquela culpa que se arrasta faz tempo. Pode ser também o momento da criação, em que a mente se abre e as ideias afloram. Parece inspirador esse momento. Talvez seja o tempo que eu precisava para completar meu projeto, uma parte do meu propósito de vida. Então, tudo se esclarece, tudo se encaixa.
     Se é a essa hora que vem o chamado, é porque alguma coisa conspira ao meu favor. A conjunção dos astros, dos planetas, sei lá. Ou pode ser de madrugada que os anjos estão mais próximos de nós. Ou de repente, é Deus mesmo que escolhe essa hora por estarmos livre da correria do dia e portanto mais tranquilo pra ouvi-Lo.
     De qualquer forma, é preciso estar atento ao chamado das trombetas que os anjos soam. Há um chamado em curso naquele breu. Talvez eu tenha que me recolher antes que amanheça. Voltar no tempo e buscar alguma situação que ficou mal resolvida, uma lacuna que não se preencheu.
    Naquela escuridão eu fico livre das amarras do mundo. Eu escolho o que fazer com essa minha liberdade. Estou aberto ao diálogo com quem se importa comigo, com quem tem energia pra gastar comigo, com quem está disposto a lançar o melhor em minha direção.
     De repente é até melhor que dormir e sonhar.


domingo, 8 de março de 2026

A VOZ DA DIGNIDADE

  

    A causa das mulheres no Brasil ganhou uma dimensão tão grande que é impossível não priorizar a questão que mais repercute hoje em dia.
    A sociedade celebra, sim, as conquistas, os avanços que foram obtidos ao longo desses tempos com muita luta e esforço junto com as políticas públicas de forma que as vozes mais ativas ecoem em todos os quadrantes, todos os estratos, enfim, que todos saibam como os discursos amadureceram a opinião pública.
    Pronto. Esse é o caminho a ser percorrido, mas há interferência no circuito. O feminicídio hoje é a grande praga que assola a sociedade. E apesar de toda a trajetória, a expectativa que se tem hoje ainda é muito pouco animadora.
      A legislação vigente no país, ainda que tenha sofrido algumas modificações, continua muito leniente com os agressores de mulheres. Enquanto não houver punições mais severas, sem esses benefícios de medidas cautelares, tornozeleira eletrônica, a população vai continuar assistindo a números cada vez maiores de agressões, ameaças, intimidações e assassinatos no pior cenário de impunidade que já ocorre em outras modalidades de crimes no Brasil.
    Há registros de sujeitos que cometem uma, duas, três vezes num curto espaço de tempo, amparado por esses atalhos que a lei oferece a eles. Ou seja, a lei beneficia o infrator e deixa a vítima completamente vulnerável, à mercê do seu algoz.
     O único ambiente que pode efetivamente operar as mudanças na legislação, torná-la mais rigorosa e adequada aos novos tempos é o parlamento brasileiro, o poder legislativo. Já há membros naquela casa que sinalizam e avançam com propostas de alteração da lei, mas há também resistência por parte daquela gente. São outros representantes do povo que não têm interesse em ver essas mudanças na realidade brasileira. Resquícios da cultura machista que ainda impera no meio e vai criando obstáculos para grandes transformações.
     De qualquer forma, o feminicídio está inserido na questão da segurança pública, em que os estados devem implementar um projeto específico para essa mazela urbana do mesmo modo com que direciona ações para outras modalidades de crimes.
    São medidas que conjugadas a uma legislação rigorosa vão permitir uma redução drástica nos números do feminicídio, resgatar a segurança e, principalmente, a dignidade das mulheres.


sexta-feira, 6 de março de 2026

O PREÇO DA GUERRA

 

   Na teoria uma guerra pode até ter vencedores e vencidos, porque há sempre um lado que tem mais poder, mais força, mais tecnologia. No caso dos americanos, eles têm mais know-how, mais tarimba, enfim, são PhD em invasão de terras alheias.
    Do outro lado ficam os órfãos, a submissão, a interferência externa, o orgulho da luta, o petróleo apreendido, e o dia seguinte pra recomeçar.
    Se há algo que pode igualar os dois lados são as vidas humanas perdidas em ambas as frentes de batalha, independente da diferença de baixas entre ambos.
     Para os Estados Unidos, mesmo aniquilando o rival, não vale a satisfação do sucesso da operação, porque no final das contas o governo americano tem contas a acertar com seu público interno, porque isso divide a opinião pública, e lá nos EUA não é diferente que parte da sociedade local rechaça essa agenda externa, principalmente por parte daqueles que perderam seus entes em conflitos anteriores.
    Ainda tem a questão financeira envolvida, o prejuízo que o erário americano terá no final das contas, porque, não é barato um míssil daquele cheio de tecnologia, além da baixas nas fileiras militares que implicam indenizações, essas coisas, enfim, toda a logística de uma guerra custa caro à população. O próprio processo de enriquecimento de urânio até seu produto final onera em muito o orçamento, pra no final das contas nem ser utilizado, servindo apenas de intimidação, ameaça, pois o seu emprego devastaria a todos, inclusive o lançador, pelo alto grau de destruição do artefato.
     Mas, quaisquer vantagens que Donald Trump venha a obter dessas últimas incursões, Venezuela e Irã, seja no plano político, pelo zelo com a política externa, ou econômico pelo confisco de petróleo e seus efeitos no ambiente interno, pode ser pouco diante do que os Estados Unidos precisam para recuperar o velho prestígio do imperialismo que parece estar se definhando diante da expansão de seu maior oponente no momento, a China, que veio pra quebrar a banca e brigar em outra guerra, comercial e tecnológica.
     É uma outra guerra a que o mundo assiste em outro plano, um outro assunto. Essa atual, de atirar pedras um no outro, é pilha da indústria armamentista que sempre argumenta que tem filhos pra criar.
     Agora, se o triunfo do vencedor traz algum prestígio para a nação, tudo isso cai por terra quando há vidas humanas ceifadas, quando a interferência à soberania alheia não surte o efeito desejado, mesmo que o rival seja também sanguinário dentro de seus domínios. Enfim, não há garantias de aplausos e holofotes para os Estados Unidos.
    Por isso que dentro desse cenário de incerteza quanto ao futuro que cerca a agenda da globalização, é que eu acredito que Trump só está metendo essa resenha porque precisa abafar a sua encrenca com a questão do Jeffrey Epstein, vai vendo.