quarta-feira, 22 de abril de 2026

ÁGUAS PASSADAS




  Se for pra lembrar de coisas do passado, a gente resgata o que fez diferença de fato. Para as coisas que não tiveram importância, são águas passadas. Ou melhor, há controvérsia, talvez não.
    Como já ilustra a nossa trajetória, a maré costuma ser a referência. Pois era assim naquele tempo em que eu singrava o Oceano Atlântico, de cabo a rabo. A Fragata Independência exuberante e renovada, tudo limpo e funcionado à bombordo e à boreste.
    Foi por onde eu entendi melhor o que são as tempestades e a calmaria em nossas vidas. Porque, claro, eu levei para o resto da caminhada o quanto transitamos entre os extremos.
     Por muito tempo, ou melhor, até hoje eu lembro do mar revolto, do que parecia ser o fim e a gente tendo que resistir. Mesmo com a calmaria no dia seguinte havia o trauma da tempestade em mente.
    Fora de qualquer turbulência havia a beleza daquele mar imenso e maravilhoso rodeando a expectativa do que seria a vida e o destino até chegar ao próximo porto.
   Por varias vezes eu ficava ali, na popa do navio, aproveitando que estava tudo calmo para admirar toda aquela imensidão. Um imenso azul rodeando nosso destino, nossas vidas. O vento soprando expectativas e renovando o pensamento. O sol mudando de lugar porque o navio desviou a rota. Veja como tudo se transforma por força das circunstâncias sem que a gente tenha decidido alguma coisa.
    Foi assim que eu vivi aquele tempo maravilhoso. Paralelo à responsabilidade de cada um à bordo, havia uma emoção contida no momento em que o navio se livrava das amarras no cais e se lançava ao mar. Eu amava viver aquele desafio.
    Não era fácil cumprir aquela rotina com pressão a todo instante. Tinha de estar muito concentrado para cumprir o que era determinado para aquela pernada de viagem. Havia treinamento que era comum na vida de militares. Simulação de incêndio, abandono de navio, exercícios com outros navios em alto-mar, de madrugada, com chuva, em condições completamente desfavoráveis a todos.
   O resultado de tudo isso foi o aprendizado. As marcas que ficaram ainda servem de referência pra qualquer projeto de vida. Até hoje eu vislumbro o mar, solto as amarras do tempo e me transporto para aquele tempo que me enriqueceu bastante. Foi gratificante ter vivido ao sabor do vento e das incertezas.
     Talvez eu nem olhasse para o mar com toda essa poesia se eu não tivesse adquirido a bagagem que eu carrego. Teria sido águas passadas de fato.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

A ENGRENAGEM



  O que será do mundo se a imersão em inteligência artificial for o grande filão dos novos tempos?
  O que será das pessoas, da coletividade se o poder de cognição não for mais a base das construções humanas?
 Parece que já havia nos primórdios da humanidade indicativos de evolução, pois nascemos com o dedo polegar e um progressivo aumento do cérebro até chegar a um tamanho considerado suficiente para nossas pretensões, tá ligado?
  Eu tenho visto tanta gente falando, escrevendo e discutindo sobre a inteligência artificial que, não tem jeito, nos remete a esses questionamentos.
  A maioria fala justamente do processo criativo, em que a inteligência artificial passou a ser uma grande aliada. Mas é bom que se diga que a nova ferramenta não será culpada por um eventual colapso da humanidade nesse quesito. Já há muito tempo que a capacidade de criação humana vem diminuindo.
  Se mais adiante a gente começar a ver com mais frequência obras de qualquer natureza concebidas por inteligência artificial será apenas resultado de uma tendência que já se verificava, e a nova tecnologia terá dado uma grande contribuição, acelerando o processo.
 É verdade que a inteligência artificial já promove avanços em áreas importantes como parte da proposta universal de qualquer tecnologia desde a sua concepção. Mas ela poderá também fazer avaliações fora de contexto; não atender a uma certa demanda, ou seja, oferecer o que ela, a máquina, achar conveniente. De qualquer forma, é estranho pensar que a inteligência artificial pode desmistificar a essência da criação humana e mudar o meu, o seu, o nosso perfil.
  Música, livro, filme, novela, teses ou quaisquer outras ideias que poderão ser construídas sem nenhum esforço cognitivo, apenas com a ajuda da nova ferramenta, poderão figurar na galeria de grandes criações humanas, e o pior, com o entendimento e a narrativa de um degrau a mais na evolução dos homo sapiens. Bastará uma inteligência artificial na mão e uma ideia na cabeça, vai vendo.
  Mas eu sempre vou acreditar no poder da criação, na mente como a engrenagem do homem. Nos neurônios pulsando intensamente em quilowatts de potência. Foi assim que os maiores gênios da humanidade trouxeram soluções para o mundo.
  A inteligência artificial terá valia para a agenda mundial, já deu pra perceber. Mas que através de práticas convencionais haja sempre estímulos à capacidade cognitiva do homem.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

VIVA A CIÊNCIA



     O ser humano nunca vai deixar de testar seus limites como forma de superação em quaisquer que sejam seus objetivos. Isso já era bem claro em experimentos passados de desafios para toda a humanidade, quando há verdadeiramente o propósito da evolução em todos os aspectos da vida humana.
     Eu achei bem bacana esse rolé que astronautas dos EUA e Canadá estão dando em torno da lua, numa perspectiva bem diferente das outras missões.
    Certamente não vão trazer nenhum material para estudos e análises, já que não pousaram na lua, apenas observaram parte da superfície do satélite, tiraram fotos e demais registros sem no entanto fazer contato algum, apenas recolher dados que permitam um futuro pouso na lua em 2028, ou seja, atestar a segurança da próxima missão em paralelo à capacidade humana de resistir às manifestações de matérias presentes no satélite, já que todo o conjunto e configurações daquele lugar é reconhecidamente diferente do que vivenciamos em nosso planeta, a Terra.
     Eu falo isso sem nenhum conhecimento profundo sobre o assunto, mas otimista pela cautela com que foi realizada a missão, com a segurança que faltou em outros projetos malsucedidos.
     É a parte da natureza humana, a inteligência, que revela nossa melhor faceta. A sustentabilidade em quaisquer que sejam os projetos, independente da natureza e circunstância, vai contar com esse equilíbrio, consciência, desprendimento e discernimento para conduzir as mais complexas ações e empreendimentos. É a única coisa que pode efetivamente assegurar o futuro do planeta e a qualidade de vida das próximas gerações.
    A visão da lua em uma outra perspectiva, o lado obscuro além de nossos domínios, o conceito de espaço e tempo numa outra dimensão são elementos que lançam luz sobre a mente humana em prol da evolução da humanidade. A partir desse novo olhar a ciência pode buscar soluções ainda mais eficazes para nossas necessidades. O advento de novas tecnologias pode tornar a vida humana mais agradável e produtiva através dessa nova perspectiva.
     Uma luz que contrasta com o lado obscuro da raça humana. Num mundo cheio de conflitos em todos os cantos, em todos os tempos, quando outras tecnologias contribuem para a destruição e ruína, é um alento para a humanidade a ciência em novas frentes e comprometida com o futuro de nossas vidas.
     Viva a ciência.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

A ESPINHA DO PEIXE

     


     Dificilmente o Donald Trump come peixe por conta dos festejos da Semana Santa. A religião predominante dos americanos não segue esses dogmas, mas o Trump certamente já degustou a iguaria nas comilanças em família, nas reuniões da governança ou dos negócios.
     Num desses momentos, entre uma garfada e outra, ele pensa e estuda estratégias para sair pela porta de frente nessa treta que ele arrumou com o Irã. Nesse cardápio diversificado que é a globalização em tempos de guerra ou de paz, o que o cara escolheu agora para se fartar é bem mais difícil de engolir que as delícias experimentadas na Venezuela, desde o prato de entrada à sobremesa, tudo maravilhosamente perfeito e tal.
     Agora, parece que a parada é mais intragável. Em meio ao alto índice de desaprovação dos americanos ao conflito no Oriente Médio, à resistência do Irã, aos prejuízos em áreas estratégicas da região e tudo mais que possa influenciar o seu futuro político, a digestão desse prato pode ser mais demorada.
     Eu penso num peixe caprichosamente preparado para o presidente, e Vossa Excelência tendo que separar as espinhas sutilmente ali no canto do prato. Só faltava essa agora. Como sair dessa enrascada? O Aiatolá resistindo bravamente com os recursos tecnológicos e sabedoria de que dispõe e agora uma situação mais espinhosa aqui na frente para resolver. Não tinha um peixe melhor pra servir, não, amigo?
     Pois bem, a gente costuma vê através da mídia global o Trump numa posição bem confortável, porque é da cultura do ocidente mostrar-se bem na fita, mas não é isso que acontece. A comunicação global hoje é bem acessível, o suficiente para vislumbrar as agruras do presidente americano em mais um evento de intromissão na vida alheia.
    O mundo não está mais partido ao meio como antes. Há várias frentes reivindicando seu quinhão à frente da globalização. O dólar não é mais a única moeda de troca do planeta. Há outras alternativas de negócios entre as partes. Mais povos com tecnologias de ponta, mais armas, mais parceiros, mais seguidores, enfim.
     Se em eventos anteriores os Estados Unidos sempre levavam a melhor na comilança global. Saía de pança cheia e arrotando a satisfação da vitória. Agora, há outras opções no cardápio, e é preciso saber degustar o que se põe à mesa, inclusive, o talher adequado a cada iguaria, senhor presidente.
     Então, se for possível sugerir ao Trump, que ele fique esperto e se ligue no menu, que o Irã é um peixe cheio de espinhas.