quarta-feira, 10 de maio de 2023

MANIA DE VOCÊ

         

   Parece que foi ontem as meninas sentadas na porta da Escola Plínio Casado, em Brás de Pina, esperando a hora de entrar, e embaladas numa só voz, “a gente faz amor por telepatia”.
   Eram os primórdios da década de oitenta, minha geração debutando nas resenhas, nos bailes, nas praças...sim, a gente trocava ideia e namorava nas praças, tá pensando o quê? Mas não eram essas praças de hoje. Nossas praças tinham mais poesia, era outro patamar, tá ligado?
  Claro que havia outros motivos para povoar a mente fora do circuito escolar, porque jovem é foda sempre. Tudo e em qualquer lugar a mente absorvia as coisas que estavam na época de poluir a mente.
   Mas “Mania de Você“ foi o nosso turbilhão. Aquele hit chiclete, o carro-chefe da Rita Lee que ajudava a fervilhar nossas mentes cheias de pudores e perigos. Era tipo um mantra.
   Imagina, a gente ouvia “meu bem você me dá água na boca“, era um chamamento, aquilo construía várias paradas na cabeça, quem nunca? A ideia era não fazer nada só pra deitar e rolar com alguém.
   Ah, que sorte a nossa geração teve de aprender as preliminares assim, cantadas em prosa e verso e a Rita Lee embalando nossos sonhos e aspirações, tudo junto e misturado, vestindo fantasia e tirando a roupa, tudo ao mesmo tempo, com poesia e papo reto numa vibe só. A gente tirava onda duro e ainda tirava nota boa na prova.
   Eu penso como um privilégio tudo que a Rita Lee produziu e serviu como nossa trilha sonora, porque dificilmente alguém da minha geração não teve uma situação, uma grande viagem, um amor, uma parada louca, um conflito, um rolo qualquer na agenda que não tivesse, se não “Mania de Você “, mas qualquer outra balada da Rita Lee que não tenha servido de trilha sonora de uma treta qualquer, pois, a gente também era feito de carne e osso, claro.
   Agradecemos à Rita Lee pela moral, pela arte de embalar nossa juventude, por ilustrar nossas mentes e corações
   Para sorte de um grande público e da própria MBP, Rita Lee era rebelde e transgressora o suficiente para alçar altos voos até se tornar um imenso arquivo da música brasileira. O rock nacional credita à Rita Lee o pioneirismo do movimento, que as grandes bandas que surgiram depois reconhecem e sempre lhe renderão homenagens pela referência, pelo talento.
   Para nós do ginásio daquela época, de tanto a gente se beijar e imaginar loucuras, nós aprendemos a cultivar essa lembrança, essa mania de Rita Lee.

6 comentários:

  1. Genial texto ! Homenagem à altura da Rita lee

    ResponderExcluir
  2. Que texto lindo e verdadeiro e arrebatador. Chorei.

    ResponderExcluir
  3. Boa tarde amigão! A Rita Lee estava a frente do seu tempo! Enfrentando uma sociedade hipócrita e preconceituosa, em plena Ditadura Militar que havia retirado a liberdade de expressão do povo brasileiro. Enquanto as jovens eram educadas para casar e ficar submissas aos maridos, ela liderava uma banda de rock formada por homens. A cultura machista da época acompanhada pela moral e bons costumes a taxava de rebelde, transgressora e de um mal exemplo para a juventude. E na verdade ela usou sua e sua música como um grito de liberdade de forma sutil e irreverente para despertar consciências e fazer a sociedade refletir sobre as coisas da vida. Ela partiu mas deixou uma obra poética e musical para a eternidade e o seu pensamento filosófico que marcou sua época e a história do Brasil. Sou fã da Rita desde os meus 13 anos de idade.

    ResponderExcluir