quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A LUZ É A FESTA DA VIDA



    Olhe a luz que brota da gente, da alma, do espírito, da aura que cada um tem a sua tipo luz. Olhe as luzes que miram em nós em forma de providência. É festa quando tudo se acende porque é assim que se comemora a vida. É natural que estejamos envoltos em luz porque fomos concebidos assim, na confluência entre amores que se iluminaram entre si. Se viemos do pó, tudo bem, mas viemos com luz.
    Se do estrondo deu-se o caos, logo em seguida fez-se luz. Estamos no mesmo facho do Criador, porque era assim o Seu projeto, Seu iluminado projeto.
     Essas luzes que florescem assim são como nós quando sorrimos, quando suamos. Essas luzes que não param por um instante somos nós respirando essas fagulhas. Deve ser por isso que fomos feitos para brilhar. Essas luzes que espocam em festa são holofotes celebrando a nossa sorte de estar aqui. Enfim, essas luzes que não saem da gente vieram pra ficar.
    Não há nada que possa simbolizar nossos caminhos, nossas conquistas e vitórias, nossa alegria, gratidão senão as luzes. Há um simbolismo da luz em nossa própria evolução. Um novo ciclo é uma luz que acende. O dia seguinte é uma nova luz que se anuncia. O que é a luz no fim do túnel senão a possibilidade de um triunfo em nossas vidas?
     Essas luzes que anunciam um novo tempo é o próprio sentido de nossa existência. Luz do tempo, luz da vida. A confusão de luzes que nos preenche a todo instante. Então, como poderia um ser como nós não ser um ser de luz? Olhe o céu. As estrelas, o sol, a lua, os raios e relâmpagos. Como poderia não sermos de luz com todo esse esplendor de luz em cima de nós?
    O espetáculo da vida é uma luz que se acende a todo instante, porque a gente nasce sempre. Enquanto houver uma luz, nossa vida permanece. Enquanto a gente insistir em viver, uma luz sempre se acenderá.
    Estamos fadados a prosseguir porque tem uma luz lá adiante, uma luz por aí, outra que aparece e várias outras que se acendem pra nós na curva, na reta, em nossos passos, em nossa coragem. Essas luzes que acendem de repente são o caminho das pedras, pode prosseguir que é luz o nosso guia.
     Vamos celebrar a vida, que as luzes garantem a festa. Vamos festejar a vida que tem luzes pra todo mundo. A festa das luzes é a festa da vida.
     No espetáculo que é a nossa vida há sempre uma luz incidindo sobre ela.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

COM LICENÇA, ANO NOVO


     A gente vai pedindo licença pra tudo que é situação na vida, porque mamãe ensinou assim, para entrar direito e na moral nos lugares, e não é diferente em mais um ano que vai começar.
    Dá licença que eu quero passar não é uma forçação de barra pra quem acredita que pode romper o espaço e o tempo para se fazer presente, apenas a segurança de quem está preparado para uma nova missão, um novo ciclo, enfim, está pronto para prosseguir nesse mundo velho com mais percalços que fronteiras.
    Pedir licença é uma lição de moral e a garantia de saber chegar, porque o mundo tá cheio de gente sem a menor noção do espaço que ocupa, enquanto eu peço licença baseado no meu propósito de vida e a experiência de quem já acumulou funções e papéis diferenciados. Dá licença que eu não sou o dono da verdade, mas tenho algumas milhas acumuladas e sei o chão que eu piso.
     Um ano chegando ao final deve ter deixado marcas consideráveis pelo percurso, com incertezas, duvidas na mente do mais otimista de plantão, que a paciência de muita gente extrapolou o seu limite. Das resenhas inúteis e irracionais da política. Dá licença que eu não vou entrar na pilha dessa gente que precisa urgentemente de fazer análise por um bom tempo. Que estejamos sempre pronto para prosseguir na caminhada, que 2026 vai ter obstáculos de toda ordem com certeza.
    Para o futuro que nos espera, pedir licença é libertador. Dá licença. A renovação da vida, da alma, do espírito, de todo mundo começa assim, avisando sutilmente que vamos passar. Os ritos de passagem têm a licença como senha de entrada, é permissão garantida.
    Com licença é um salvo-conduto para garantir o caminho livre. Quer coisa melhor que essa liberdade hoje e sempre? A liberdade é o tal primeiro passo para uma grande caminhada. O resto é a própria capacidade de cada um fazer do próximo ano aquele tempo precioso, do jeito que você e todo mundo planejou. Cheguei, dá licença, é a minha vez agora.
    Dá licença é aquele diploma certificando a dignidade, sem a qual não se desfruta a vida, a roda de amigos, a paz em família, o trabalho, a relação com o mundo, enfim.
     Antes que ele comece, já foi dada a largada para 2026. Já vamos pedindo licença para entrar na primeira folhinha do ano, o calendário respirando, as folhas mortas caindo, a outra chegando e regulando o tempo da agenda de cada um.
    Que possamos viver com a licença que Deus nos dá, com a licença da natureza. É uma chance preciosa continuar assim, com a licença de viver o que precisa ser vivido. Dá licença, estou vivo.
    Feliz Ano Novo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

NOS TEMPOS DA LAMA

  

    Parece que está mudando um pouco esse conceito de chuvas de março no Rio de Janeiro, que é uma chuvarada danada quando assenta a primavera por aqui até os festejos de fim de ano, já reparou?
    Geralmente nessa época do ano o chão já rachava de tanto calor e o São Pedro tirando folga, que a primavera deve ser bom pra ele também e os santos que já foram gente não são de ferro, eu imagino.
    Passou um filme na cabeça, enquanto a água descia firme pelas ruas, e o pensamento lá pras bandas de Paciência, década de setenta, aquele monte de moleque sem futuro, mas cheios de sonhos que a molecada falava um pro outro como que cada um queria que sua vida fosse.
    Um temporal desse era um playground na vida da gente. Se tivesse relâmpago, mamãe cobria o espelho e a gente jogava gude no tapete, porque a gente era muito fominha mesmo. Mas, fora isso, havia um lirismo numa poça d’água, lá fora, que ninguém enferrujava nem pegava gripe e bactéria, por mais que se pulasse com os pés nus, que chinelo atrapalha, solta as tiras e estraga a brincadeira.
   Havia sempre uma deformaçãozinha no dedão, na sola do pé, nas canelas cinzentas pelo tempo decorrido de recreação. Do começo da  aborrescência até atingir seu grau máximo, eram insígnias que marcavam a maturidade e a resistência pra qualquer moleque que nunca botava galho dentro de qualquer desafio. Podia até apanhar depois, mas no dia seguinte o conceito subia no grupo. Tirou onda, moleque. No final das contas, o dedo esfolado demorava mais tempo pra sumir que a marca do chinelo no rabo quente.
    Brincar na lama era um acontecimento. Um momento sublime de consagração da infância. A delícia de chafurdar naquele barro lamacento, o campinho transformado em charco, deslizar no barranco até o calção ficar puído. Pois bem, chegar em casa em desalinho, aos farrapos era obrigação, foi combinado isso com a turma, não podia dar mole, não.
    Das cicatrizes que marcam a infância, as minhas não têm um trauma sequer, que me fizessem ressignificar o conceito de um tempo esplendoroso para as outras gerações. Nem a guerra das mamonas deixou trauma em nossas vidas. A nossa selva era diferente, fica difícil explicar como a gente sobrevivia ao perigo iminente. Madeira, arame, barbante, lata, papelão, cola e cuspe. Ficaria muito complicado mesmo explicar a métrica dos brinquedos inventados num tempo em que tudo já vem pronto.
     Deixa pra lá. De repente, nem entenderiam como o Merthiolate tirava a alma do corpo com aquela pazinha transparente, nesses tempos em que o bagulho agora vem com cheiro de tutti frutti, vai vendo.