De longe parecia até um garrancho, porque ela escrevia devagar, com o cuidado de não errar o traçado das letras, num compasso uniforme até chegar ao final, pra depois cortar o Z, colocar o pingo no i e por o acento no e. Pronto, Zélia de Souza.
Pois, é... o esmero de uma simples assinatura revelava o que mamãe tinha de mais glamouroso, a arte de se empenhar naquilo que era cotidiano, aquilo que ela precisava realizar com frequência e não podia errar. Era uma questão de honra ser perfeita em escrever a única coisa que ela sabia escrever: seu próprio nome.
Quem via os contornos daquele nome simples certamente enxergava a beleza, o conceito do belo e encantador numa escrita ligeira e curta.
É claro que eu demorei um pouco para ter essa visão primorosa do que parece para muita gente algo simples. Fui aprendendo com a vida. Só fui me ater à estética de mamãe depois de todo esse tempo porque ela até hoje me lembra os desafios de tirar proveito da escassez e ainda assim realizar grandes feitos como arte final.
Hoje, nesses tempos em que as pessoas têm múltiplas tarefas, assobiam e chupam cana ao mesmo tempo, jogam nas onze, há incerteza sobre a perfeição das coisas, apenas a sensação do dever cumprido.
Para quem não tem esse privilégio ou necessidade, fica o desafio de tornar mais ou menos aceitável, reconhecidamente eficaz e satisfatório a única missão que lhe cai as mãos, justamente porque é a única ação programada para o seu destino. Ou seja, já que é a única coisa que você faz na vida, que seja irretocável.
Para mamãe, era importante atingir a perfeição naquilo que cada um se propõe a fazer na vida. Foi essa herança que ela me deixou, cuidar para que tudo seja maravilhoso, por mais que ninguém repare o luxo no final, por mais que ninguém veja o esforço empregado na empreitada, o suor escorrendo. Por mais que ninguém tenha a noção do que é verdadeiramente maravilhoso em sua essência.
Já passaram 48 anos completados hoje de sua partida e minha saudade é sempre um ensinamento toda vez que eu lembro de suas proezas, transformando o que poderia ser precário em algo magistral, o que era escasso se tornava pleno. Enfim, uma mágica que reproduzia fielmente o conceito de beleza.
A sabedoria de mamãe certamente serviria de modelo para uma vida mais fascinante.
