segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENFIM, 2026



     Parece que finalmente o ano vai começar, porque no Brasil há sempre um ensaio de como será o ano antes do carnaval. As pessoas vão tendo uma prévia de como será mais um período na vida brasileira.
      Ainda antes da maior festa do povo vão aparecendo junto com a esperança de cada um as incertezas, os boletos e a medida da cruz que geral vai continuar carregando, o velho fardo que varia de tamanho e peso pra cada cidadão do nosso lindo e maravilhoso país.
     E a correria pode ainda ser maior do que se imagina, pois já tem gente dizendo que o dia com apenas 24 horas será pouco pra dar conta dos compromissos, dos projetos em mente, que quando chegar dezembro vai ficar faltando mais alguns meses para cumprir metas. E pelo calendário apertado muita gente pode se frustrar por causa de um monte de feriado atrapalhando desde o produto interno bruto até o leite das crianças.
     A Copa do Mundo com os jogos à noite e a seleção muquirana não devem ocupar a mente em nível nacional. De repente nem vai rolar aquela bebedeira antes, durante e depois da pelada. A safra de boleiros está tão bizarra nesses últimos tempos, que nem procede tomar uma pelos caras.
      E ainda tem aqueles casos escabrosos que sempre dão dar pano pra manga nas redes sociais, os escândalos que a gente vê toda hora, mas que parece um fato em nossa vida.
    Já as eleições vão dar uma balançada na situação mais uma vez por motivos óbvios. Um monte de gente de mal novamente, quando já estavam quase ficando de bem, a retomada daqueles almoços em família, as resenhas no bar, a pelada da rapaziada, vai ter agenda comprometida ao longo do período, porque depois de tanta treta e clima pesado, neguim ainda não se emendou, vai vendo.
    Mas, claro, a gente pensa também no lado bom de toda a expectativa para um 2026 com muita energia, trabalho, sorte e saúde. Se der tempo de no meio de toda essa efervescência cada um encaixar uma atividade paralela que possa refrescar a mente e o espírito, tudo junto e misturado, beleza, a saúde mental vai melhorar seus indicativos.
     Se for para começar de fato um ano novo, o melhor é se desligar completamente de tudo que rolava antes do carnaval como se fosse ainda o ano passado, enfim, se desprender de tempos passados. Boicote total ao que já foi. Renúncia absoluta ao que não faz mais sentido, porque a página virou.
     É desligar aquele batuque que ainda faz zumbido nos ouvidos e se preparar que 2026 vai brilhar, mas sem purpurina.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A APOTEOSE DE CADA UM

       

    O Carnaval será sempre essa festa maravilhosa dentro do nosso calendário, da nossa cultura. O momento de descontração que o povo precisa para amenizar um pouco o peso de uma rotina estafante, coisa e tal. Tem uma galera que volta ao batente depois da quarta-feira de cinzas completamente revigorado.
     Mas nada como encontrar a paz interior longe de qualquer batuque que se possa ouvir ao longe. Para quem opta por se refugiar em outras pairagens, pra não ter que ouvir uma lata sequer batendo, que maravilha encontrar a paz interior pelo menos por alguns dias.
     Eu que já aproveitei bastante o Carnaval nos velhos tempos, não tenho do que reclamar da vida. O Carnaval está no meu currículo. Cumpri todas as etapas que um folião precisa para se sentir realizado em matéria de Carnaval, tirei muita onda também.
     E a gente que não brinca mais Carnaval merece também distinção por nossas escolhas. A essa altura do campeonato passa a ser um projeto de vida ficar alheio aos níveis de decibéis da cidade nessa época. Com a vida humana hoje completamente conectada, globalizada, fica difícil não saber alguma coisa sobre Carnaval. Se você liga a televisão ou abre as redes sociais vai ter uma marchinha ou um samba-enredo embalando as notícias em geral.
      Então, que bom que há opções de todos os gêneros para distrair a mente. Bíblia, Palavras Cruzadas, Netflix, Kama Sutra, baralho, gibi, pescaria, sinuca, skate ou ir para o meio do mato só ouvindo barulho de passarinho e sentindo cheiro de vaca, porco e galinha, o lugar que eu considero ideal para se atingir o Nirvana de vez.
     Mas, enquanto eu não chego a esse nível de equilíbrio e superação, eu vou me refugiando nos meus livros, que a ficção tem me trazido alguma calmaria e algumas respostas também. Nas contradições da vida humana, a ficção otimizando a vida real, regenerando a mente e afastando o corpo dos males dessa vida efervescente do nosso dia a dia. Uma prática que vai virando um modelo de vida, quando se pode conciliar uma atividade paralela à rotina de cada um.
     A gente fala assim do Carnaval, claro, sem depreciar a maior festa do Brasil. Eu já bebi muito dessa fonte e não vou agora cuspir no prato em que comi. O Carnaval será sempre essa alegria em larga escala. Mas a gente usa de referência para outros barulhos que sempre incomodam, o que nos obrigam a procurar suporte para prosseguir na caminhada com o menor grau de riscos para a saúde mental, essa nova praga do momento.
     Que possamos sempre atingir um grau de satisfação cada vez maior em nossas vidas. Que cada um tenha a sua própria apoteose para vibrar em sua trajetória.
    Bom Carnaval.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

QUEM VESTIRÁ SUAS CAMISAS?

    


    Foi um pouco estranho se livrar daquelas coisas com as quais eu convivi por um tempo suficientemente acertado entre o que eu acreditava ser importante pra mim, mas que tinha um tempo para existir ou durar.
       É claro que eu já me perguntei algumas vezes por que ficar tanto tempo atrelado a algo que vai perdendo sua funcionalidade, sua razão de ser e pertencer a alguém. Parece que o tempo das coisas tem a mesma essência do tempo das pessoas, e a gente pode tranquilamente interferir nesse processo e definir o prazo. É uma questão de tempo cair a ficha e simplesmente desapegar das coisas.
      No caso de roupas velhas, em que chega a hora do descarte, há um enredo histórico que passa ao largo da estética do modo de se vestir e acompanhar tendências. O vestígio que fica são as marcas que aquela velha peça surrada com o tempo deixam na memória. Já nem contam mais as razões e os motivos que me fizeram adquirir essa ou aquela roupa. Moda, capricho.
     Agora, são capítulos de uma história vivida e por um instante relembrada. Eu esvazio o armário, as gavetas, passa um filme na cabeça as vezes em que aquela calça saiu pra dar um rolé e foi testemunha de uma passagem qualquer, um momento que pode ser lembrado ou esquecido de vez. Talvez seja melhor rasgar de vez esse pano velho e esfarrapado, ou não.
     Como música que se ouve ao longe, as roupas também contam histórias que a gente só lembra quando joga fora. Tem peças que agora saindo de cena revela até o perfume que ela exalou quando saía para trabalhar, aquela que tinha um dia específico pra usar, será por quê? Elas desabotoavam como cortina do espetáculo que é a vida de cada um.
      Quantos abraços essa camisa velha recebeu enquanto durou? Quantas vezes ela suou também? As encrencas em que se meteu e a onda que tirou também, eita! As calças que andaram por quilômetros, pegando chuva, sol nesse mundo, ou vigiando o mar lá nas pedras, tudo vem na memória.
     Nem as voltas que ela deu na centrífuga apagaram os registros relembrados agora antes de seguir outro rumo. E bem provável que seja reutilizada por outra pessoa e compor uma outra estética, outra necessidade, uma nova roupagem na vida de alguém.
    Talvez seja esse o grande barato no processo de desapego às coisas que a gente às vezes reluta em fazer. As roupas ou quaisquer outros acessórios que compõem nosso cenário apenas ilustram um capítulo, uma história. Assim como os anéis que se vão, a gente se desnuda das roupas que não fazem mais sentido usar.
     As histórias ficam mesmo é nas mentes férteis, para quem como nós ainda tem esse privilégio de poder fazer essa viagem num instigante processo de renovação que é o desapego.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

O FASCÍNIO DE VIVER

    

    De longe parecia até um garrancho, porque ela escrevia devagar, com o cuidado de não errar o traçado das letras, num compasso uniforme até chegar ao final, pra depois cortar o Z, colocar o pingo no i e por o acento no e. Pronto, Zélia de Souza.
      Pois, é... o esmero de uma simples assinatura revelava o que mamãe tinha de mais glamouroso, a arte de se empenhar naquilo que era cotidiano, aquilo que ela precisava realizar com frequência e não podia errar. Era uma questão de honra ser perfeita em escrever a única coisa que ela sabia escrever: seu próprio nome.
     Quem via os contornos daquele nome simples certamente enxergava a beleza, o conceito do belo e encantador numa escrita ligeira e curta.
    É claro que eu demorei um pouco para ter essa visão primorosa do que parece para muita gente algo simples. Fui aprendendo com a vida. Só fui me ater à estética de mamãe depois de todo esse tempo porque ela até hoje me lembra os desafios de tirar proveito da escassez e ainda assim realizar grandes feitos como arte final.
      Hoje, nesses tempos em que as pessoas têm múltiplas tarefas, assobiam e chupam cana ao mesmo tempo, jogam nas onze, há incerteza sobre a perfeição das coisas, apenas a sensação do dever cumprido.
     Para quem não tem esse privilégio ou necessidade, fica o desafio de tornar mais ou menos aceitável, reconhecidamente eficaz e satisfatório a única missão que lhe cai as mãos, justamente porque é a única ação programada para o seu destino. Ou seja, já que é a única coisa que você faz na vida, que seja irretocável.
      Para mamãe, era importante atingir a perfeição naquilo que cada um se propõe a fazer na vida. Foi essa herança que ela me deixou, cuidar para que tudo seja maravilhoso, por mais que ninguém repare o luxo no final, por mais que ninguém veja o esforço empregado na empreitada, o suor escorrendo. Por mais que ninguém tenha a noção do que é verdadeiramente maravilhoso em sua essência.
     Já passaram 48 anos completados hoje de sua partida e minha saudade é sempre um ensinamento toda vez que eu lembro de suas proezas, transformando o que poderia ser precário em algo magistral, o que era escasso se tornava pleno. Enfim, uma mágica que reproduzia fielmente o conceito de beleza.
    A sabedoria de mamãe certamente serviria de modelo para uma vida mais fascinante.