sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A BALANÇA DO CACHORRO

   

  
     Nos dias seguintes ao fatídico caso do Orelha, a repercussão não poderia ser diferente de toda a dimensão que se formou, que de repente a gente nem sabe se a alma do pobre animal vai ficar sossegada.
     Com o registro de mais um caso de crueldade para entrar nos anais da história de absurdo no Brasil, agora o foco é saber como a legislação vigente no país vai interpretar, analisar e punir os assassinos do cachorro.
      Pra começo de conversa, é preciso deixar claro a todos, especialistas, palpiteiros, opinião pública, apostadores, votação, plebiscito ou qualquer outro elemento utilizado para fazer algum juízo do caso, que é possível penalizar os agressores dentro do que determina a lei, ou seja, existe lei pra isso.
      É isso que traz alento para a sociedade sobre a possibilidade de responsabilizar culpados de eventuais crimes cometidos, seja qual for o delito, os motivos, as circunstâncias, serve para qualquer um...quer dizer, não é bem assim. Existe aí um elemento que pode definir o andamento e desdobramento de todo esse processo que tramita agora.
     É que uma grande parcela da população brasileira não acredita que haverá punição aos jovens criminosos, considerando que estes são filhos de gente influente na sociedade, que são ricos, e que dessa forma não serão penalizados, que não vai dar em nada, que nesse país quem tem dinheiro não vai preso e por aí vai.
     Não tem como falar dessas coisas com todo aquele cuidado com as palavras, como antigamente, pois isso não é mais novidade no seio da sociedade, nem tampouco nos círculos do judiciário brasileiro. Não é se hoje que a população se indigna quando a justiça, ainda que dentro do que lei permite interpretar, não traduz em seus vereditos os anseios da sociedade por uma justiça verdadeiramente impiedosa com criminosos de qualquer natureza e estrato social.
     Em todas as tipificações de crimes previstos na legislação, há registros diversos de casos dessa mesma natureza, em que o martelo sempre bate contrariando o sentimento da opinião pública por punições exemplares e rigorosas.
     Da mesma forma que advogados habilidosos encontram brechas dentro dos códigos para livrar seus clientes de eventuais culpas, seja com o velho princípio da misericórdia que beneficia os coitadinhos ou a já manjada carteirinha de maluco, o magistrado também pode entender a demanda da sociedade e atender ao clamor público.
    O que não pode é uma parcela da população ficar sempre isenta de punição, porque é do mesmo círculo dos julgadores.
     Não há garantia de que se houver uma pressão cada vez maior, ainda mais agora com esse ambiente de rede nessa dimensão, vai haver alguma mudança de rumo na justiça.
     Mas seria uma forma de deixar um exemplo para a sociedade, saber que a lei vale para todos, e ainda trazer um alívio para a alma do Orelha.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PARA ONDE VAI A RAÇA HUMANA?

  

   Já há especulações sobre se a humanidade é viável em seu próprio meio. As múltiplas invenções e conquistas ao longo de sua existência podem não mais ser a garantia da tal evolução que tanto alardeiam por aí.
     Por mim estamos longe do ideal, ainda mais quando percebemos que os cachorros, os passarinhos, os peixes, as formigas e as lagartixas estão bem conectados e imbuídos de sua missão e cumprindo fielmente o seu papel, o que nos deixa em segundo plano no planeta nessa premissa básica que é a comunhão e seus desdobramentos, valores e tal.
     Não será novidade se formos extintos desse mundo, não do espaço físico, obviamente, porque daremos sempre um jeito de ficar por aqui. Haverá sempre uma tecnologia capaz de protelar nossa estadia no universo, mesmo com toda a precariedade da alma, do espírito como a aura da estupidez, que vai passando de geração em geração.
      Haverá sempre um jeito de disfarçar a ignorância sobre o pretexto da modernidade, mesmo sem qualquer indício de que há de fato evolução nessa trajetória.
     Mas me refiro à extinção conceitual, em que o homem já não é mais viável em seu espaço, principalmente porque degrada o seu meio, os seres que os cerca e junto ainda subverte a essência de seu semelhante a todo instante.
     É perigoso, assustador e preocupante sob o ponto vista humano que essas pessoas ainda engatinhando, dando os primeiros passos na vida, sem noção alguma do que move o mundo, sem princípios, sem educação, desprovidos do mínimo de caráter, incorpore a faceta mais cruel da humanidade.
     Pelo andar da carruagem, essa gente ainda vai trilhar por muito tempo seu caminho respingando o ódio como propósito de vida, cuja cultura da imbecilidade ganha corpo ainda no berço e vai se lapidando no seio da sociedade, contaminado o ambiente e engrossando cada vez mais a fileira dos imbecis
   Por mais que a gente se esforce para achar a melhor definição para essa barbárie, vão faltar adjetivos que poderão ser empregados em toda a sua plenitude.
     Eu desconfio que será mais uma questão que vai se arrastar por força da fraqueza humana em punir com severidade a sanha dos delinquentes. É mais uma tragédia sem reviravolta. É mais um absurdo se eternizando. Não será difícil para os futuros antropólogos encontrar vestígios de um povo hostil, cruel e desumano.
     Por tudo que tem realizado e difundido por aí, dificilmente a raça humana vai se repaginar.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A LUZ É A FESTA DA VIDA



    Olhe a luz que brota da gente, da alma, do espírito, da aura que cada um tem a sua tipo luz. Olhe as luzes que miram em nós em forma de providência. É festa quando tudo se acende porque é assim que se comemora a vida. É natural que estejamos envoltos em luz porque fomos concebidos assim, na confluência entre amores que se iluminaram entre si. Se viemos do pó, tudo bem, mas viemos com luz.
    Se do estrondo deu-se o caos, logo em seguida fez-se luz. Estamos no mesmo facho do Criador, porque era assim o Seu projeto, Seu iluminado projeto.
     Essas luzes que florescem assim são como nós quando sorrimos, quando suamos. Essas luzes que não param por um instante somos nós respirando essas fagulhas. Deve ser por isso que fomos feitos para brilhar. Essas luzes que espocam em festa são holofotes celebrando a nossa sorte de estar aqui. Enfim, essas luzes que não saem da gente vieram pra ficar.
    Não há nada que possa simbolizar nossos caminhos, nossas conquistas e vitórias, nossa alegria, gratidão senão as luzes. Há um simbolismo da luz em nossa própria evolução. Um novo ciclo é uma luz que acende. O dia seguinte é uma nova luz que se anuncia. O que é a luz no fim do túnel senão a possibilidade de um triunfo em nossas vidas?
     Essas luzes que anunciam um novo tempo é o próprio sentido de nossa existência. Luz do tempo, luz da vida. A confusão de luzes que nos preenche a todo instante. Então, como poderia um ser como nós não ser um ser de luz? Olhe o céu. As estrelas, o sol, a lua, os raios e relâmpagos. Como poderia não sermos de luz com todo esse esplendor de luz em cima de nós?
    O espetáculo da vida é uma luz que se acende a todo instante, porque a gente nasce sempre. Enquanto houver uma luz, nossa vida permanece. Enquanto a gente insistir em viver, uma luz sempre se acenderá.
    Estamos fadados a prosseguir porque tem uma luz lá adiante, uma luz por aí, outra que aparece e várias outras que se acendem pra nós na curva, na reta, em nossos passos, em nossa coragem. Essas luzes que acendem de repente são o caminho das pedras, pode prosseguir que é luz o nosso guia.
     Vamos celebrar a vida, que as luzes garantem a festa. Vamos festejar a vida que tem luzes pra todo mundo. A festa das luzes é a festa da vida.
     No espetáculo que é a nossa vida há sempre uma luz incidindo sobre ela.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

COM LICENÇA, ANO NOVO


     A gente vai pedindo licença pra tudo que é situação na vida, porque mamãe ensinou assim, para entrar direito e na moral nos lugares, e não é diferente em mais um ano que vai começar.
    Dá licença que eu quero passar não é uma forçação de barra pra quem acredita que pode romper o espaço e o tempo para se fazer presente, apenas a segurança de quem está preparado para uma nova missão, um novo ciclo, enfim, está pronto para prosseguir nesse mundo velho com mais percalços que fronteiras.
    Pedir licença é uma lição de moral e a garantia de saber chegar, porque o mundo tá cheio de gente sem a menor noção do espaço que ocupa, enquanto eu peço licença baseado no meu propósito de vida e a experiência de quem já acumulou funções e papéis diferenciados. Dá licença que eu não sou o dono da verdade, mas tenho algumas milhas acumuladas e sei o chão que eu piso.
     Um ano chegando ao final deve ter deixado marcas consideráveis pelo percurso, com incertezas, duvidas na mente do mais otimista de plantão, que a paciência de muita gente extrapolou o seu limite. Das resenhas inúteis e irracionais da política. Dá licença que eu não vou entrar na pilha dessa gente que precisa urgentemente de fazer análise por um bom tempo. Que estejamos sempre pronto para prosseguir na caminhada, que 2026 vai ter obstáculos de toda ordem com certeza.
    Para o futuro que nos espera, pedir licença é libertador. Dá licença. A renovação da vida, da alma, do espírito, de todo mundo começa assim, avisando sutilmente que vamos passar. Os ritos de passagem têm a licença como senha de entrada, é permissão garantida.
    Com licença é um salvo-conduto para garantir o caminho livre. Quer coisa melhor que essa liberdade hoje e sempre? A liberdade é o tal primeiro passo para uma grande caminhada. O resto é a própria capacidade de cada um fazer do próximo ano aquele tempo precioso, do jeito que você e todo mundo planejou. Cheguei, dá licença, é a minha vez agora.
    Dá licença é aquele diploma certificando a dignidade, sem a qual não se desfruta a vida, a roda de amigos, a paz em família, o trabalho, a relação com o mundo, enfim.
     Antes que ele comece, já foi dada a largada para 2026. Já vamos pedindo licença para entrar na primeira folhinha do ano, o calendário respirando, as folhas mortas caindo, a outra chegando e regulando o tempo da agenda de cada um.
    Que possamos viver com a licença que Deus nos dá, com a licença da natureza. É uma chance preciosa continuar assim, com a licença de viver o que precisa ser vivido. Dá licença, estou vivo.
    Feliz Ano Novo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

NOS TEMPOS DA LAMA

  

    Parece que está mudando um pouco esse conceito de chuvas de março no Rio de Janeiro, que é uma chuvarada danada quando assenta a primavera por aqui até os festejos de fim de ano, já reparou?
    Geralmente nessa época do ano o chão já rachava de tanto calor e o São Pedro tirando folga, que a primavera deve ser bom pra ele também e os santos que já foram gente não são de ferro, eu imagino.
    Passou um filme na cabeça, enquanto a água descia firme pelas ruas, e o pensamento lá pras bandas de Paciência, década de setenta, aquele monte de moleque sem futuro, mas cheios de sonhos que a molecada falava um pro outro como que cada um queria que sua vida fosse.
    Um temporal desse era um playground na vida da gente. Se tivesse relâmpago, mamãe cobria o espelho e a gente jogava gude no tapete, porque a gente era muito fominha mesmo. Mas, fora isso, havia um lirismo numa poça d’água, lá fora, que ninguém enferrujava nem pegava gripe e bactéria, por mais que se pulasse com os pés nus, que chinelo atrapalha, solta as tiras e estraga a brincadeira.
   Havia sempre uma deformaçãozinha no dedão, na sola do pé, nas canelas cinzentas pelo tempo decorrido de recreação. Do começo da  aborrescência até atingir seu grau máximo, eram insígnias que marcavam a maturidade e a resistência pra qualquer moleque que nunca botava galho dentro de qualquer desafio. Podia até apanhar depois, mas no dia seguinte o conceito subia no grupo. Tirou onda, moleque. No final das contas, o dedo esfolado demorava mais tempo pra sumir que a marca do chinelo no rabo quente.
    Brincar na lama era um acontecimento. Um momento sublime de consagração da infância. A delícia de chafurdar naquele barro lamacento, o campinho transformado em charco, deslizar no barranco até o calção ficar puído. Pois bem, chegar em casa em desalinho, aos farrapos era obrigação, foi combinado isso com a turma, não podia dar mole, não.
    Das cicatrizes que marcam a infância, as minhas não têm um trauma sequer, que me fizessem ressignificar o conceito de um tempo esplendoroso para as outras gerações. Nem a guerra das mamonas deixou trauma em nossas vidas. A nossa selva era diferente, fica difícil explicar como a gente sobrevivia ao perigo iminente. Madeira, arame, barbante, lata, papelão, cola e cuspe. Ficaria muito complicado mesmo explicar a métrica dos brinquedos inventados num tempo em que tudo já vem pronto.
     Deixa pra lá. De repente, nem entenderiam como o Merthiolate tirava a alma do corpo com aquela pazinha transparente, nesses tempos em que o bagulho agora vem com cheiro de tutti frutti, vai vendo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

E O DEVER DE CASA?



     Em uma de minhas passagens pelo túnel Santa Bárbara eu vi um rapaz atravessando uma das galerias de bicicleta e com aquela caixa às costas usadas para entregas, numa travessia proibida e bem arriscada pelo longo trajeto até a saída do outro lado.
     Antes mesmo de concluir o trajeto da galeria eu logo imputei a culpa à prefeitura, que a essa altura já deveria ter construído uma ciclovia naquela e em outras travessias pela cidade, lembrando que as ciclofaixas espalhadas pela cidade têm mais o caráter de lazer que o compromisso de viabilizar mais alternativas de mobilidade urbana numa cidade cheia de desafio como é o Rio de Janeiro.
     Agora, tanto a COP30, em Belém, quanto os outros encontros anteriores de pauta ambiental têm discutido a questão em escala global, com o documento final cheio de incertezas quanto ao futuro do planeta, e agora mais ainda bem divididos sobre se vão ou não ficar explorando petróleo, carvão, como forma de gerar combustível, energia, essas coisas.
     Mas paralelo aos compromissos acertados nesses eventos, certamente muitas cidades já saíram na frente e implementaram práticas ligadas diretamente à questão ambiental, num conjunto de ações pertinentes à realidade, cultura e geografia de cada região. É uma agenda isolada dos protocolos produzidos nos fóruns, mas que faz parte da mesma tendência de tornar mais moderna, funcional e sustentável a vida de uma grande metrópole.
     Já foi sugerido em várias reuniões que cabe às prefeituras a iniciativa das ações ligadas à causa ambiental, independente dos acordos dos encontros.
     Aqui no Rio, a gente anda pela cidade e vê cada vez mais as pessoas usando bicicletas de todos os formatos em seus deslocamentos sem nenhum ordenamento que atenda a essa nova tendência. Já deveria ter faixas exclusivas nas principais vias da cidades para atender um grande público que faz uso do meio para trabalhar, não para apenas respirar o ar da rua.
     Além do mais o Rio de Janeiro ainda peca muito em outros quesitos. Além dos modais de transporte bem precários, o carioca ainda convive com lixo pelas ruas e esgoto a céu aberto em várias regiões. Quando chove forte por aqui, a cidade praticamente para. Ou seja, quem vive por aqui vê que o Rio de Janeiro ainda não se enquadra nas condições de uma cidade moderna em todos os sentidos.
       De todas as intervenções urbanas que a prefeitura executa, nenhuma muda o cenário de abandono que a população sofre e acompanha todos o dias.
    É importante fazer esse relato em paralelo ao que está sendo acertado na COP30 para escancarar a realidade de muitas cidades que não fazem o dever de casa.
     E o Rio de Janeiro não é diferente.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

NOS BAILES DA VIDA

    

     Você pega o trem azul e o sol na cabeça. É a rotina normal de quem chacoalha num trem da Central. Há quem reconheça nosso esforço diário de luta, lembrando que a massa que faz o pão vale a luz do seu suor.
     O grande barato da poesia é a proeza do poeta em tornar mais lírica e bela a vida das pessoas. O que seria de nós não fossem os poetas tão empenhados e dedicados a retratar da forma mais sublime e reluzente a rua onde a gente mora, a máquina que a gente impulsiona, os conflitos que a gente engole a seco, as tempestades que nos abraça.
    Eu fico cantarolando as toadas do Lô Borges, que deixou rastros de beleza espalhados por onde andou, e agora também um punhado de tristeza entre nós, e bate aquela saudade dos tempos em que havia poetas em cada esquina, aos montes até virar um clube.
    Se cheguei a reclamar do meu fardo algum dia, foi mal. É que às vezes eu até esquecia que tinha um fundo musical na vida que a gente levava, de tanta gente cantando com poesia tudo que eu imaginava fazer naquela época. Não é pra me gabar, não, mas, minha geração é privilegiada.
    Já vai longe quando ouvi “Travessia” pela primeira vez, só descobrindo muito tempo depois a revolução que isso causou. Até hoje eu me vejo cantarolando que meu caminho é de pedra, de tanto o Bituca invadir minha mente.
    Foi minha primeira imersão na música de fato. Milton Nascimento foi o carro-chefe de todo o repertório que se criou no meu círculo de crescimento e evolução junto com matemática, história, química e biologia, até que apareceu Elis Regina no meu dial junto com Gilberto Gil, Caetano, Gal, Rita Lee, além do Beto Guedes, 14 Bis e Flávio Venturini. Essa turma era a playlist do nosso baile. Sim, minha geração curtia baile de MPB, sim, senhor. O meu era na matinê do Olaria, tirava onda.
    Mas, na década de 80 surgiram umas figuras que até hoje habitam o meu imaginário. Do mesmo pé que brotou a nata da MPB nasceu o Djavan, o Guilherme Arantes e a Marina Lima. Esse trio bagunçou o meu coreto de vez. Era como se minha juventude tivesse um LP só com trilhas sonoras das minhas crises de identidade, meus complexos, das minhas descobertas, meus amores e paixões, tudo junto, misturado e divididos em lado A e lado B. Tenho comigo até hoje as lembranças do que eu era.
     Agora, fica a tristeza de ver essa turma partindo antes do tempo, porque ainda dava para produzir mais, eles nunca param. Era bacana vê-los trabalhando com artistas da nova geração, ampliando ainda mais a influência musical de mais e mais gerações de novos músicos com novos públicos, diversificando a música popular brasileira para que ela projete nas novas gerações a mesma satisfação que a gente teve nos bailes da vida.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

OS POTES SEM TAMPA



     É muito comum a gente fazer associação de algum fato do cotidiano com a natureza humana. Há sempre alguma coisa acontecendo por aí, que muitas vezes a gente até estende para o nosso universo. E não é que nisso achamos respostas e tiramos algumas conclusões!
     Arrumar armário de cozinha é como aquelas limpas que a gente está sempre fazendo nas gavetas também, eliminando coisas que estão naquele espaço há tanto tempo não se sabe por quê.
    No caso do armário, são os potes que você procura pra guardar alguma coisa, mas que tem de ter tampa, seja a prenda para aquela visita que merece o mimo, a marmita pra fugir do Fast-food, enfim, são mil e uma utilidades. Os potes de repente já até superaram o Bombril em matéria de funcionalidade, lembra da propaganda?
    Eles já se tornaram tão importantes na vida das pessoas que tem gente que vai acumulando potes de vários tamanhos. Um para cada situação diferente pra não pegar ninguém desprevenido, tá pensando o quê? Para quem gosta de reutilizar potes nesses tempos de consciência ecológica, tudo bem guardar o pote de manteiga, pote de sorvete, eu não curto, só abro uma exceção para o pote do Spoleto, que é um luxo, de grife, mas tem de ter tampa.
   E os potes têm suas tampas específicas, no tamanho certo, não cabem em outros potes, que não cabem em outras tampas, enfim.
    E é aí que mora o problema. Justo o pote que você precisa, cadê a tampa? Então, você se dá conta de potes sem tampa, ou de tampas sem pote, olha a confusão. Naquele mosaico que se forma a sua frente, feito aquelas peças de quebra-cabeça, a gente imagina e questiona a utilidade de um pote sem tampa. O que dá pra fazer com um pote sem tampa? Eu particularmente não encontrei resposta convincente.
    Parece que a cabeça vai fervilhando nessa brincadeira de encaixar as coisas, que uma passagem qualquer de nossas vidas vem à tona de repente, as situações conflitantes, as crises, as incertezas e, claro, as pessoas que hoje só povoam sua mente, mas que num passado recente ou que vai longe esteve presente em seu espaço, respirando seu ar, quem nunca?
    Num círculo qualquer de sua vida, seja num relacionamento, ambiente de trabalho, vizinho, parentes, enfim, já deve ter tido alguém assim sem utilidades, pessoas que não serviram pra nada na vida de alguém, não acrescentaram nada em seu currículo, são pessoas como um pote sem tampa.
     Como aqueles potes sem tampa que você conservou por muito tempo e resolveu descartar por não ter utilidade alguma, quem já não deve ter insistido em conservar alguém por perto, ali, pele a pele, achando que ainda pudesse servir para conservar seus sonhos, propósitos de vida, guardar dentro a alegria de uma vida plena e saudável?
    Os potes sem tampa não conservam o frescor, a fragrância, o sabor, a essência do que se pretende guardar ou carregar consigo. Algumas pessoas são assim na vida de alguém em algum lugar, sem utilidade alguma. Então, por que guardar por tanto tempo esse negócio?
    Pois bem, quando você finalmente resolver descartar aquele pote sem tampa, olha o espaço que vai sobrar na sua vida, quer dizer, no seu armário.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O RIO DE SEMPRE

   

      Além do balanço e da avaliação que certamente serão feitos depois de toda a repercussão da ação policial mais impactante de todos os tempos é questionar também o prosseguimento da agenda do aparelho de segurança do estado no combate à criminalidade.
    Primeiramente a avaliação não pode ser considerada positiva quando quatro agentes do estado foram mortos na operação, apesar de mais de cem suspeitos mortos e uma grande quantidade de armas apreendidas. Se houve baixa para o estado, é prejuízo para a sociedade também, por isso se descarta o sucesso da operação. Isso deve ser revisto para futuras movimentações das forças de segurança em confronto com a bandidagem.
     Mas, e agora? Qual a próxima etapa dessa operação? Porque não acabou ainda. No dia seguinte a cidade volta a sua rotina normal, mas a facção criminosa que sofreu esse revés tem estrutura suficiente para recompor suas fileiras. Já devem estar até encomendando novas armas e arrebanhando sua gente novamente, é assim sempre, não seria diferente agora.
    E o governo estadual sabe perfeitamente que é preciso novas incursões em outras frentes para abafar e aniquilar as ações da criminalidade em toda sua estrutura. Se ao longo de todo esse tempo de agonia da população as facções criminosas estão sempre batendo de frente com o aparelho do estado, e afligindo a população com sua truculência, é porque o estado ainda não conseguiu implementar um plano de segurança eficaz em toda sua plenitude.
     Se todos esses que morreram tentando intimidar e enfrentar a polícia são comprovadamente criminosos, a população vai, sim, comemorar, no momento em que inocentes finalmente e felizmente ficaram de fora da linha de fogo nessa operação. É o princípio básico da segurança pública a proteção da população.
    Agora, a próxima etapa dessa operação deve mirar efetivamente o outro grupo que compõe essa grande rede de poder paralelo: aqueles que municiam os criminosos com armas e drogas, e patrocinam de fato a atividade ilegal dessa gente nas comunidades. Seria muito inocente acreditar que a estrutura do poder paralelo se limitasse apenas nesse ambiente das favelas e pronto. Há outros personagens em outros pontos nesse círculo que precisam também ser aniquilados, senão, continua tudo a mesma coisa.
    E outro detalhe...a polícia vai levantar acampamento da favela ao final da operação, ou vai ficar por lá ocupando o espaço da bandidagem, não dando chance para outros criminosos assumirem seus postos?
    A questão da segurança pública tem uma dimensão muito maior do que essa espetacularização de imprensa e polarização inútil numa hora dessa.
     Forças Armadas nas fronteiras, corrupção do agente público, reformulação da legislação, politicas publicas nas comunidades entre outras ações são fatores que precisam se ajustar e se inserir em um plano de segurança verdadeiramente sério para trazer segurança e paz, tanto para o morro quanto para o asfalto.
    Se não for assim, segue o fluxo de sempre.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

MÃOS INVISÍVEIS

  


    Antigamente ela tremia só de ver a pessoas agoniadas, sem rumo. Hoje, já faz parte de sua rotina abraçar quantos ela puder. E a gente só sabe dessas coisas porque ela explana sua peregrinação, ela não esconde de ninguém a satisfação de dar conforto a quem precisa.
     É interessante como essa causa que ela abraça não atrapalha sua agenda de trabalho, lar, família, fora os contratempos, que 24 horas é pouco para um dia tão intenso na vida dessa gente ativa aos extremos.
    Mais surpreendente ainda é que a gente não vê sua nobre obra nas redes sociais, no momento em que há uma profusão de pessoas pegando os outros de surpresa pelas ruas para uma boa ação.
    É claro que não cabe fazer juízo de valor sobre a forma como cada um ajuda o próximo. Eu sempre acredito na conveniência das pessoas, posto que existe uma história por trás de qualquer ação do ser humano, existe sempre uma razão que passa ao largo do julgamento das pessoas.
    Eu comemoro quando o sujeito ganha uma motocicleta para trabalhar, o outro tem suas compras pagas por um estranho no supermercado, um catador tem seu dia recompensado pelo fardo, enfim, não faltam pessoas com a sorte de uma providência repentina.
    Mas não deixemos nunca de exaltar aquela mulher que carrega seu cajado invisível e as mãos calejadas de tanto afagar o próximo, o espírito sempre pronto para massagear o ego de um infeliz que atravessa o seu caminho, com o fôlego e energia para prosseguir como que sem destino, que em cada esquina tem uma alma com um vazio qualquer.
    Há um calendário diferente na vida de quem espera o tempo dos outros para suprir suas necessidades. É um universo de gente que não sabe a hora de comer, beber, dormir e sorrir, mas na calada do dia ou da noite surge o vulto dos benfeitores aplacando parte da miséria refletida na escuridão. Tal como fantasma ou anjo, são seres comuns subvertendo a ordem do submundo.
   Eu gosto desse silêncio que esconde um grande projeto, uma grande campanha sem ruído, mas que faz barulho. Da escuridão com luz intensa, do inferno sem demônios por perto. Na ação dessa gente invisível, na morte iminente, a vida é que reluz.
   É um verdadeiro exército de gente invisível, almas empenhadas em renovar o mundo e diminuir o fosso entre a penúria e a sorte. Quanto mais gente retirando as pedras do caminho de um desafortunado, melhor até para quem toma coragem de estender a mão também, porque, é essa fileira de bem-aventurados que desafoga a miséria e suas várias facetas espalhadas por aí.
   Que as ações dessa gente invisível e iluminada tenham cada vez mais a dimensão da escuridão em que elas transitam.

domingo, 19 de outubro de 2025

REVIGORANTE



    Que correria é essa por aí, minha gente? Não era assim antigamente. Tudo bem que o mundo está girando, as placas tectônicas batendo, todo mundo respirando ao mesmo tempo, uma loucura esse alvoroço todo.
     Num primeiro olhar parece até alguma coisa acontecendo lá fora quando a gente abre a janela para espiar o mundo ao nosso redor. Antes fosse. Para os nostálgicos bate até uma saudade daquele pega pra capar de antigamente.
    Só que o mundo que bomba hoje é esse universo louco que a tela do celular descerra para todo mundo que está fora de seu mundo real. Com isso, tanto o quintal quanto a janela mudam de lugar. Há uma outra perspectiva sobre o que podemos vislumbrar. O mundo virtual é o verdadeiro mundo das pessoas, é onde elas ficam mais tempo. Só sai de lá pra dormir e olhe lá.
    Não que a gente não precise se informar, se inteirar das coisas, acompanhar tendências e surfar em várias ondas, mas nessa velocidade toda, eu às vezes aperto a campainha de parar pra eu descer. Pois bem, já até fiquei com a sensação de ter passado do ponto muitas vezes. Eu confesso, fica difícil acompanhar esse ritmo todo, penso até que não tô dando conta, talvez não mesmo, vai vendo esse negócio.
    É que eu sinto a necessidade das coisas que eu fazia antes, que eu larguei um pouco só pra cair na gandaia do mundo virtual sem ter hora para voltar para casa, só porque o bagulho tá maneiro por aqui também. Era a desculpa que ia dar para quem perguntasse por que demorei, principalmente mamãe.
    Eu bem tenho motivos para comemorar a adaptação ao novo estilo de vida. A minha geração se saiu bem nesse rito de passagem, ficha de telefone, bola de gude, cartinha pra namorada, eita! Tudo bem, tem coisa que não dá mais, mas é saudável reviver velhos hábitos sem complexo de inferioridade a toda essa modernidade, sem sentir inveja de ninguém, pois nos meus áureos momentos de euforia eu ria muito das histórias do Zé Carioca, Professor Pardal, Bolota, Mickey e outros ídolos com status de influencer, tá pensando o quê?
    Estava fazendo palavras cruzadas, hábito que eu retomei, tentando encaixar o significado de revigorar em sete letras, quando lembrei do conceito de se renovar.
    Não são coisas que médicos recomendam, porque eles gostam muito de empurrar remédios ou essas resenhas de podcast, grupos de whatsapp, essas coisas. Somos nós que temos em mente que eram práticas prazerosas, com efeito positivo para a saúde mental.
    Mas também não posso me sentir um estranho fazendo palavras cruzadas, lendo um livro ou jogando Paciência com cartas de verdade, enquanto as veias abertas do mundo virtual pulsam freneticamente lá fora. Esse renascimento é uma filtragem de tudo que é oferecido na grande rede. É importante essa triagem, mesmo que tenhamos que voltar no tempo.
    O melhor nesse cenário é que temos opções para tudo que for revigorante em nossas vidas.