sábado, 28 de fevereiro de 2015

Eu e o Rio

 
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   Esta semana passei pelo Jardim de Alah e lembrei que minha mãe um dia me confidenciou que costumava namorar o meu pai naquela praça, num daqueles bancos ficados quase à beira do canal.
   Sem querer especular sobre as estripulias amorosas de ambos naquelas cercanias, eu desconfio que fui concebido ali, em promessas de convivência conjugal nos intervalos de amassos, afagos de corpos sequiosos envoltos na brisa, ora do mar, ora da lagoa.
   Hoje, os tapumes que cercam a praça me sonegam a visão do velho banco, mas não ofuscam o orgulho que eu conservo ao longo desses cinquenta anos pela inspiração do Seu Ari e da dona Zélia em escolher aquela aprazível fronteria entrre o Leblon e Ipanema para ilustrar o meu advento ao mundo.
   Quando eu nasci a cidade maravilhosa tinha 400 anos e estava em pleno processo de reafirmação depois que deixou de ser a capital do Brasil. Agora, aqueles tapumes do Jardim de Alah e de outros cantos da cidade nos revela uma urbe ainda em construção, retida e conservada no ventre da geografia, dos relevos.
   É como se o Rio de Janeiro ainda estivesse prestes a nascer em meio às florestas, rios e serras que os Tupis, Tamoios e outras tribos só fizeram manter intactos.
   Pelas intervenções urbanas pelas quais o Rio ainda passa, parece que todo prefeito que remexe em nossas ruas, praças e avenidas é o próprio Pereira Passos começando do zero, porque a beleza do Rio de Janeiro advém de sua geomorfologia, e não do manuseio de quem aqui viveu ou administrou.
   Portanto, tudo que o prefeito Eduardo Paes promove em nossa cidade já poderia ter sido feito pelos alcaides, biônicos e outros usurpadores que só não conseguiram desencantar a alma do povo carioca.
   É nesse sentido que o Rio de Janeiro ainda é uma cidade em plena gestação, justamente por não ter se adequado aos novos tempos que outras metrópoles edificantes e modernas já usufruem.
   O que a mídia e o poder público insistem em propagar é a superficialidade de uma cidade que funciona aos trancos e barrancos, com transportes públicos e demais serviços públicos com o mesmo grau de precariedade que se confunde com a atmosfera de tempos atrás.
   Então, vamos combinar que uma cidade que ainda não é sustentável, como ficou firmado na Rio+20, o que traria benefícios a toda a população, não pode se considerar uma metrópole à frente de seu tempo.
   Pra quem vive a efervescência e as incertezas do Rio de Janeiro em seu cotidiano, há muito pouco a comemorar.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Palmas para o prefeito




Seja em erros ou acertos da prefeitura, a irreverência do carioca sempre estará presente no cotidiano da população do Rio de Janeiro, e o prefeito Eduardo Paes, é claro, não escapou das gozações nas redes sociais a não confirmação da tempestade que cairia na cidade, segundo previsão, não do prefeito, mas do Serviço de Meteorologia.
  Brincadeiras à parte, a verdade é que Eduardo Paes agiu corretamente ao alertar a população sobre os riscos de fortes chuvas que castigam a cidade e já causaram muitas tragédias, principalmente em áreas de risco.
   O poder público está longe de implementar projetos que diminuam os impactos de grandes tempestades no Rio. A ocupação irregular do solo urbano, a questão do lixo urbano e as intervenções urbanísticas insustentáveis, entre outros, ainda trazem transtornos à população e representam um grande desafio para as três esferas de governo.
   Mas os métodos de prevenção que a prefeitura adotou nas áreas de risco, instalando sirenes que alertam os moradores sob o risco de depressões demonstram a preocupação que outros governantes não tiveram.
  Isso é suficiente para evitar a perda de vidas humanas, como ocorreu em eventos anteriores de deslizamento de terra e alagamento.
   No mais, é importante que o prefeito Eduardo Paes interaja com a população e venha à público com informações necessárias à vida dos moradores.
   Nesse quesito, palmas para o prefeito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Pena de morte, não.

 

   A execução do brasileiro Marco Archer na Indonésia certamente provocaria discussões acaloradas aqui no Brasil. E mais uma vez outra questão de suma importância é tratada sob a luz do ódio e da paixão, assim como aconteceu com outros temas também relevantes como desarmamento, aborto, maioridade penal e união homoafetiva, que, tal qual o tráfico de drogas, também envolvem vidas humanas.
   E esse parece ser o cerne da questão, tanto para quem defende a pena capital imposta ao brasileiro quanto para quem vê excesso de rigor na legislação penal em vigor na Indonésia.
   Pela dimensão global em que o tráfico de drogas atua em todos quadrantes do planeta, mobilizando o aparato de segurança em praticamente todas as fronteiras, o comércio internacional de entorpecentes já deveria ter um tratamento específico comum a todas as nações onde a ação nefasta desse negócio ilícito vai ceifando vidas humanas pelo mundo afora.
   E como não há um instrumento jurídico de âmbito global como modelo a ser seguido e observado, cada país, dentro de sua prerrogativa de nação soberana, enquadra e pune como convém a cultura e a conveniência local, mesmo que isso custe a vida do infrator.
   A essa altura do campeonato, é inútil discutir a discrepância entre a rigorosa legislação da Indonésia e as penalidades mais brandas do Código Penal brasileiro.
   O que se discute é a perda de vidas humanas, tanto na observância da pena de morte, como infelizmente defendem os arautos da pena capital aqui no Brasil, como no próprio consumo de entorpecente que fulminam cidadãos do Brasil e do mundo.
   A ONU, que no século passado patrocinou a Declaração dos Direitos Universais do Homem, sempre fez vista grossa com vidas humanas, atuando com a mesma timidez de sempre em temas complexos como o comércio internacional de armas que alimenta conflitos entre povos e nações, e epidemia como aids e ebola que fustigam milhões de pessoas no continente africano, tudo isso sob a complacência do Conselho de Segurança da ONU e da Organização Mundial de Saúde, respectivamente.
   Pode se dizer com toda segurança que o tráfico de drogas está no mesmo patamar do terrorismo internacional, pelas perdas de vidas humanas.
   Com relação ao trágico desfecho de Marco Archer, em nenhum momento o ditador Joko Widodo da Indonésia contribui para eliminar essa chaga mundial, ao ignorar o bem maior que é a vida.
   Admite-se que qualquer mecanismo jurídico seja rigoroso aos extremos, desde que não seja cruel, desumano e tirânico.
    Pena de morte, não.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Pobre sintaxe


   O resultado do Exame Nacional do Ensino Médio revelou que mais de 500 mil alunos tiraram nota zero em redação, enquanto que um número infinitamente menor atingiram pontuação máxima nesse quesito.
  Não é difícil constatar os efeitos de cortes orçamentários que governos anteriores fizeram na área da Educação para atingir objetivos da economia do país.
    Agora, no momento em que a presidenta Dilma Rousseff anuncia um corte de 7 bilhões de reais na pasta da Educação aumenta ainda mais o desafio do governo federal, não só de por em prática a promessa de tempo integral na rede pública, o que implica maciços investimentos na contratação e qualificação de professores, por exemplo, muito menos de resgatar essa enorme dívida pública que vem de outros mandatários tão ou mais inadimplentes com projetos educacionais para o Brasil.
   E o projeto de pátria educadora só será possível com esforço, concentração e recursos mais que o necessário com vistas à excelência da grade curricular.
   Não faz mais sentido a área da Educação penar pelos descaminhos da economia do país. Enquanto os gastos com educação forem tratados como mera despesa, cuja matemática a equipe econômica pode facilmente interferir, continuaremos convivendo com essa deficiência na formação dos jovens no Brasil.
   No dia em que essa visão torpe der lugar ao status de grandes investimentos, deixaremos de ser pobres, pelo menos na sintaxe dominante.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Rio 450 graus


   Pela efervescência de uma grande cidade seria até normal que o Rio atingisse níveis insuportáveis de temperatura. A própria rotina dos cariocas, seja em instantes de lazer ou na labuta diária, já põe a cidade quase em ebulição.
   Mas é no constante deslocamento casa-trabalho-casa que a população sofre na pele as agruras de se deslocar pela cidade em alta temperatura e pressão. É no rush dessa metrópole em frequente estado de fervura que as mazelas do serviço de ônibus acabam por torrar a paciência da população.
   Ao longo dessas 450 primaveras a cidade maravilhosa também passou por tantos outros verões, sem que as delícias e o glamour da cidade do Rio de Janeiro reproduzissem mais e mais conforto e bem-estar para quem teve o privilégio de nascer e viver por aqui.
   Na mesma escalada dos termômetros da cidade aumentam também as incertezas e a expectativa de um dia a cidade do Rio adequar os principais serviços públicos oferecidos à realidade dos ventos que sopram e ardem seu relevo.
   Pelo tempo que essas empresas operam o serviço de ônibus no Rio, já deu tempo, recursos e tecnologia suficientes para climatizar os coletivos de acordo com a situação sazonal da cidade. O que faltou foi o pulso firme do poder público para fazer valer as regras que constam no edital de concessão do serviço.
   Assim como em 2013 o grupo político do prefeito Eduardo Paes rechaçou qualquer possibilidade de abertura da CPI dos Ônibus, hoje, segundo cálculos de especialistas, o aumento da tarifa agora sancionado é uma aberração, mesmo com a promessa de instalação dos aparelhos de ar condicionado em tempo hábil.
   Portanto, a propaganda que o prefeito vai fazer pelo aniversário da cidade do Rio não condiz com o atual retrato do Rio de Janeiro que vai cada vez mais ardendo no verão e fervendo de problemas.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O homem do ano

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 Já não faz sentido algum enumerar as melhores e as piores coisas, os grandes feitos e as lamentáveis tragédias que repercutiram no Brasil e no mundo nesse ano que chega ao fim.
 Até porque os eventos que se destacaram positivamente não representam um importante legado, assim como alguns infortúnios já eram reedições de eventos passados, e isso, de uma maneira geral, rechaça qualquer garantia de novos tempos.
   Com isso, os holofotes e os louros recaem sempre sobre um personagem ilustre, aquela figura que ensaia grandes projetos com gestos e discursos de igual tamanho.
   E o papa Francisco foi, sem sombra de dúvidas, a grande personalidade deste ano, como complemento de tudo que ele anunciou para o mundo quando chegou ao Vaticano.
   Chamando para si a responsabilidade que reza na cartilha do verdadeiro homem público, o sumo pontífice não hesitou em levar aos grandes líderes e ao próprio corpo eclesiástico da cúria a bula da ala progressista da Igreja Católica com novos ensaios sobre as relações entre grupos sociais distintos e nações equidistantes no cenário global.
   Desde suas explanações na Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco não se furtou a uma aproximação a vários segmentos, sinalizando com novos horizontes para as classes menos favorecidas, inclusive, ao alertar o agente público da falta de transparência com o dinheiro público.
   No cenário internacional, o papa Francisco também mostrou a marca de um grande líder, mantendo conversações com outras lideranças religiosas, como parte integrante  do processo de paz em regiões de permanentes conflitos, e agora, recentemente, intermediando a retomada das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba.
   Dentro dos domínios da Santa Sé, não se pode ignorar a lucidez com que o papa Francisco tratou de temas nebulosos aos dogmas da Igreja, como aborto, união homo-afetiva e a própria pedofilia  nas fileiras da cúria.
   De qualquer forma, foi importante ver esse novo líder disparar contra os preceitos da Igreja Católica e sugerir novos caminhos e oportunidades para os injustiçados, tanto para a atração de novos rebanhos, como para o destino da humanidade.
     
      

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Rio sem brilho



   Como acontece todos os anos nessa época, as cidades se enfeitam com iluminação especial para o Natal e a chegada do Ano Novo.
   Não é difícil observar o quanto algumas cidades aproveitam as peculiaridades de seu relevo urbano para destacar a beleza que quase passa despercebida no resto do ano.
  Seja uma ponte, uma igreja, um edifício ou uma avenida famosa, tudo ganha cores vivas. Independente de serem cartões-postais aos olhos dos visitantes, alguns pontos tradicionais são importantes por fazerem parte da rotina das pessoas ao longo do ano.
    Infelizmente, aqui no Rio ignoraram completamente  esse aspecto  fundamental da vida do carioca, o que, num olhar mais crítico, representa desinteresse por algo que poderia elevar a auto-estima da população.
    Imagine o  orgulho de ver o relógio da Central do Brasil todo iluminado, além do efeito visual na Avenida Presidente Vargas e nos outros pontos de onde a torre é vista.
   A ponte Rio-Niterói também causaria um impacto deslumbrante na Baía de Guanabara com um conjunto de luzes em toda sua extensão.
   Para quem passa todos os dias pelo Aterro do Flamengo, é triste lembrar que em tempos atrás aqueles postes gigantes reproduziam enormes  árvores de Natal. E agora, até o Pão de  Açúcar ao fundo fica às escuras. 
   Seguindo essa tendência de total desprezo à beleza dos elementos urbanos da cidade maravilhosa, o Estadio do Maracanã, a igreja da Candelária, a Catedral Metropolitana, o Edifício Central, os Arcos da Lapa e os prédios públicos do centro da cidade permanecem com suas belezas ocultas, bem em consonância com os problemas que o Rio já tem.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A agonia do futebol


   Pela atmosfera que cerca o futebol brasileiro, o rebaixamento de um clube grande como o Botafogo não se restringe às vacilações da equipe dentro de campo.
   Pode-se dizer seguramente que a mentalidade dos dirigentes no Brasil é que vem ao longo desses anos definindo os rumos do esporte mais popular do país.
   À medida em que os cartolas vão perpetuando fórmulas arcaicas para gerir clubes respeitados no cenário internacional por suas glórias e conquistas, como consta na trajetória do Botafogo, é difícil saber o momento exato em que o futebol brasileiro vai alcançar o nível do que já se pratica em outras praças. O próprio vexame da seleção brasileira na Copa foi um alerta para transformações profundas por aqui.
   Se por um lado o fiasco do Glorioso mancha mais uma vez sua rica trajetória, o esfacelamento de qualquer agremiação que tenha tantas ou mais conquistas registradas é o empobrecimento do próprio futebol, considerando a contribuição que o Botafogo e outros clubes de tamanha expressão deram para construir a história do futebol mundialmente conhecida.
  Infelizmente, a excelência de clubes com administração menos claudicante e equipes mais competitivas ainda não é o modelo ideal de política eficiente e moderna no atual cenário, no momento em que os principais clubes brasileiros sobrevivem de acordos judiciais na esfera tributária e trabalhista, tal qual acontece com o Botafogo.
  Além do mais, algumas práticas suspeitas e nebulosas executadas fora das quatro linhas  e destrinchadas no meio jurídico acabam enfraquecendo qualquer tentativa de modernização do futebol brasileiro.
   Houve um tempo em que o rebaixamento de um time era mera punição a quem não se familiarizava com os fundamentos do futebol e suas estratégias em campo. Agora, o descenso à série inferior é parte integrante de um processo de reestruturação que o futebol tem de sofrer, começando pelos clubes.   É claro que o Botafogo vai precisar juntar os cacos para se reerguer, mas muitos clubes precisarão imprimir o mesmo esforço porque também respiram por aparelho.
   Na verdade, a agonia do Botafogo é um emblema do que ocorre com futebol no Brasil. Quando a história de um clube com a magnitude do Botafogo se completa com fracassos e reveses, é o próprio futebol brasileiro que se nivela por baixo.