quarta-feira, 4 de julho de 2012

Corinthians

   O mais importante da conquista do Corinthians nesse ineditismo da Libertadores foi o resgate do conjunto nesse esporte, ao longo desses tempos, entregue ao estrelismo em todos os certames, local, regional e internacional. Eu confesso que achava o Tite meio que tímido, medroso, mas eis que toda aquela cautela  era  uma estratégia para se chegar aonde chegou, fruto justamente de uma disciplina implantada por ele, em que a participação de todos seria a tônica em toda a disputa.
  Geralmente, no final de toda a batalha há sempre um heroi, em que todos os envolvidos, dentro e fora das quatro linhas, atribui o feito, na verdade, conferido a toda a equipe. Em todas as rodadas da Copa Libertadores, quem decidiu a vitória, a classificação, o prosseguimento para a próxima fase, apenas cumpriu a sua parte de luta, de entrega, bem aos moldes de uma modalidade coletiva em sua origem e essência.
  Afinal de contas, a conquista invicta de uma disputa difícil como a Libertadores não se dá por obra e graça de um salvador da pátria, por isso o reconhecimento da união de todos como fator de vitória da equipe.
  Então, se teve alguém que se destacou ao longo da disputa, foi exatamente o líder, o técnico, que pôs em prática a disciplina tática da equipe; que engendrou a evolução que se viu em todas as rodadas; que soube mexer as peças certas na hora certa.
  Pelo histórico de conquistas que Tite obteve nas últimas passagens por outras equipes, não seria difícil que o técnico do Corinthians colhesse os louros agora na Libertadores, nessa apoteose que só quem tem competência pode chegar.
  
    
    

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Rio +20 IV

    Preservar. Preservar o quê? Como começa esse processo? Como se faz para preservar uma árvore, uma rua? Tudo parece muito fácil, quando o olhar é superficial, de estética, de maquiagem, em que tudo parece belo e resolvido.
   Tem gente que até hoje se deslumbra com a imagem de uma garça na beira de um rio ou de lagoa, sem saber que a ave é um indicador de poluição, portanto normal que ela esteja em local degradado, já que ela se alimenta de matéria orgânica.
    Se teve algo de positivo na Rio+20, foi a troca de informação, de ideias nos eventos paralelos. Acredito que isso pode ser um grande filão, visando o desenvolvimento sustentável. Não em campanhas de conscientização, apenas, mas a informação na forma de conhecimento que pode ser assimilado, repassado, difundido.
    Está mais do que na hora de as pessoas saberem o que se passa ao seu redor, de maneira ampla, esclarecedora, de como se dá todo esse processo que a natureza descortina aos olhos de tanta gente leiga. A publicidade dos debates e encontros entre técnicos e especialistas dificilmente chega às pessoas ou comunidades que devem efetivamente ser esclarecidas.
   As discussões e soluções encontradas, na maioria das vezes, ficam circulando entre o próprio corpo técnico. O poder público, que sempre é convidado a participar dos eventos dificilmente manda algum representante. Com isso, um universo considerável de pessoas fica sem saber como utilizar o solo adequadamente, como manejar seus resíduos sólidos, como se precaver de epidemias, enfim, os procedimentos que o cidadão comum deve tomar para tornar saudável sua própria vida e de sua comunidade, sua rua, seu bairro.
     Hoje, o Brasil paga um preço muito grande por não ter levado adiante projetos, cujos resultados poderiam ter colocado o nosso país num outro patamar, com relação ao desenvolvimento humano no cenário mundial. Deixamos de implantar a malha ferroviária para viabilizar o primeiro e segundo setor; não levamos a sério o Pró-Álcool, que certamente permitiria a nossa autossuficiência há muito mais tempo; o Plano de Metas de JK não incluiu naquele pacote investimentos maciços em educação. Só esses três expedientes foram suficientes para atravancar o progresso do Brasil.
   Passado todo esse tempo, já adotamos outro modelo de transporte comercial, e o petróleo nos deu a tão almejada independência no setor, e a educação, bom...a educação é uma dívida que precisa ser resgatada urgentemente. Porque, é inadmissível que tanta gente fique à margem do conhecimento durante todo esse tempo, sem que ninguém perceba que isso traz prejuízos sociais para o Brasil.
    Eu vejo a geologia e a arqueologia como duas grandes ciências que podem contribuir enormemente para difusão do conhecimento, visando a inclusão social e a sustentabilidade, inclusive.
   É preciso incluir na grade curricular, já no ensino básico e fundamental, os princípios da geologia, para que se tenha noção do que são as placas tectônicas, os movimentos de massa, as precipitações como eventos naturais e suas consequências no movimento dos mares e dos rios e sua influência no regime de chuva e do clima do planeta. É bem provável que isso desperte o interesse em alguém que queira se aprofundar sobre o assunto, como forma de orientar sua própria comunidade da importância da utilização adequada do solo urbano, por exemplo.
   Por parte da arqueologia, seria interessante que os alunos, desde os seus primórdios, já conhecessem todo o processo de preservação de tudo que originou a nossa história, para que se compreenda o verdadeiro conceito de sustentabilidade, em que as gerações futuras tenham a garantia de tudo que está disponível a todos, desde os recursos naturais até as grandes conquistas da humanidade.
  A educação também é um processo de desenvolvimento sustentável.
     
 
 
    

sábado, 23 de junho de 2012

Rio+20 III

  Mesmo que os representantes das delegações não demorassem tanto tempo para redigir o texto de propostas a ser apresentado aos chefes de Estados a credibilidade dos expedientes que se seguiriam ficaria arranhada, pelo simples fato de a questão de recursos contingenciados para os projetos ambientais ser o principal objeto de discórdia entre os participantes, ainda mais que essa discussão tem a crise mundial como pano de fundo. 
   Bem diferente das questões abordadas na Rio 92, pertinentes apenas ao espectro da ecologia, o tema "Desenvolvimento Sustentável" finalmente abriria um leque de opções para os debates, justamente por ampliar o cenário do meio-ambiente, agora numa dimensão que abrange todas as áreas de atuação da sociedade.
   Só que, mais uma vez, a opinião pública saiu frustada com a falta de coragem, para não dizer vontade política, para deliberar sobre as causas da humanidade de uma maneira mais justa e sustentável, na melhor extensão da palavra.
  Primeiramente, porque estavam interpretando sustentabilidade como uma coisa oportuna, restrita ao presente, sem nenhuma noção do que deve ser mantido para as gerações futuras que viverão nesse planeta cheio de incertezas, por conta da hesitação das cabeças pensantes. A economia de subsistência, por exemplo, é altamente sustentável, enquanto que um pátio cheio de carros é algo completamente dissonante à proposta que os signatários dessa conferência apregoam.
    Na verdade, a questão do desenvolvimento sustentável estava sendo discutida ainda dentro dos dogmas da Revolução Industrial, tanto que as propostas de ajuda a países pobres causaram mais discórdia, justamente porque a perspectiva de benefício ou lucro, como queiram, é praticamente zero nesse expediente de assistencialismo barato em escala global.
    O ponto alto da Rio+20 talvez tenha sido a troca de experiência, de conhecimento entre os grupos, as ONGs e os povos diversos. Aquele encontro dos prefeitos das maiores cidades do mundo foi uma experiência e tanto, mesmo que os compromissos alí assumidos não sejam levados à cabo, o que valeu pela iniciativa de se discutir um problema amplo dentro de um cenário local.
     Seria, realmente, muito difícil encontrar um modelo a ser seguido entre as nações, considerando que cada uma delas tem uma questão a ser resolvida dentro de suas particularidades políticas, econômicas, sociais e geográficas. Nesse sentido, fica mais fácil a troca de informações, num debate amplo, em que as grandes ideias vão sendo recicladas e passadas adiante, com o compromisso, sim, de um fórum permanente, com a participação, não só dos agentes públicos, mas também da comunidade científica mundial, que é quem verdadeiramente busca as soluções de resultados imediatos, fruto de observação, pesquisas e métodos comprovadamente eficazes. 
   Os problemas que nós, brasileiros, temos não dependem de nenhum modelo ou decisão de cúpula. Também não temos problemas de recursos, pois a própria carga tributária imposta aos contribuintes já permite que resolvamos nossas mazelas e deficiências. Além do mais, temos a praga da corrupção, que de uma certa forma interfere na viabilidade dos principais projetos do país.
    Já poderíamos ter resolvido o problema do inchaço das grandes cidades, a questão do semiárido com a reposição das águas do Rio São Francisco, o acesso à luz elétrica ( !% da população ainda não tem ), saneamento e coleta regular de lixo nas comunidades carentes, dentro da questão de saúde pública, não de estética, como querem alguns prefeitos, como indicam as placas depois da maquiagem feita.
    Enfim, desenvolvimento sustentável é repassar soluções e práticas, num  processo sem interrupção.

domingo, 10 de junho de 2012

Rio+20 II

    Se o poder público resolver, através de parceria entre as três esferas, solucionar o problema do inchaço das grandes cidades com a política que citei aqui de proporcionar trabalho e renda nas periferias e região metropolitana estará dando um passo importante na construção de um novo perfil para as metrópoles, de um cenário de qualidade de vida  comum a toda a população.
   A unidade da federação ou cidade que conseguir trazer os primeiros resultados promissores estará inaugurando uma nova era da administração pública voltada exclusivamente para a coletividade, o que pode servir de modelo nacional. Uma política, enfim, que remexa os números do índice de desenvolvimento humano no Brasil, é claro, numa primeira etapa de um longo caminho a ser percorrido até atingirmos a meta ideal que pode, finalmente, colocar o Brasil alguns patamares acima dessa miséria em que todos vivem, segundo os números de desconforto da população brasileira.
   É, porque, longe de acreditar que esse poder de consumo que as pessoas conseguiram para comprar geladeira, televisão, carro, e ficar um  tempão pagando seja uma conquista e tanto, quando na verdade é um expediente de se protelar por muito mais que 72 meses um problema que se arrasta há décadas.
   Eu até acho que as soluções locais podem efetivamente resolver um problema de dimensão continental, aquele trabalho de formiguinha, que acaba tomando um contorno muito maior do que se imagina, mas há muito mais coisas que precisam ser feitas dentro da nossa realidade brasileira, e é aí que entram as particularidades que cada país tem para equacionar o seu próprio problema, o seu dever de casa, enfim.
    No caso específico da superpopulação nos grandes centros urbanos, o êxodo rural até hoje define o mapa sociopolítico e econômico do Brasil, pela miséria espalhada pelo país inteiro, de promessas e promessas ao longo dessas décadas, com os agentes públicos sempre empurrando com a barriga as soluções definitivas.
    Na Região Nordeste, a questão do semi-árido está, até hoje, a espera de vontade política para amenizar os efeitos da seca e, consequentemente, a fome que fustiga quem não se aventura a se debandar para o sul. Bem antes de o Bolsa-Família ensaiar um conforto para as vítimas da seca, num passado bem distante existiu uma certa Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste(SUDENE), que não resolveu coisa alguma, certamente por influência nefasta de políticos locais e a conivência do governo federal, que certamente contingenciou toda a verba para o malfadado órgão.
 Isso, sem contar o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas(DNOCS), que envolvida em irregularidades, talvez não tenha tido tempo para trazer os resultados que o povo nordestino sempre esperou, faça sol ou faça chuva.
   Agora, se a sociedade não se mobilizar, o Projeto de Transposição das águas do Rio São Francisco não sai do papel e continuará perpetuando um velho problema, por força de interesses de grupos políticos que preferem a manutenção dessa mazela no mapa do Brasil, ainda de conceitos arcaicos, que emperram o país como um todo.
   É nesse sentido que o desenvolvimento do Brasil não depende de modelo estabelecido em cúpulas. Só a sociedade brasileira pode solucionar essa questão.
    

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Rio+20 I

  Esse viés do desenvolvimento da Conferência Rio+20 certamente vai ampliar o debate em torno das principais questões da humanidade, mas nada é mais urgente que a concentração urbana nas grandes cidades.
 Hoje, qualquer grande metrópole do planeta sofre os efeitos da falta de planejamento, o que acaba tornando praticamente inviável a maioria das grandes cidades do mundo, já que a demanda cada vez maior compromete os principais serviços oferecidos à população.
  Nesse sentido, a rede pública de saúde fica saturada; o sistema de ensino público, ineficiente; as políticas de segurança também não abrangem todos os lugares e todos os cidadãos; e o transporte...bem, esse nem se fala. Eu considero a questão do transporte coletivo o maior desafio do poder público, considerando que o sistema de transporte público afeta todas as pessoas economicamente ativas nos centros urbanos.
  Infelizmente, todas as políticas do setor de transporte, pelo menos aqui no Rio, não tem trazido os resultados e suprido as reais necessidades da população. Ao longo de todos esses tempos, estamos sempre na expectativa de uma melhora, de um grande projeto que possa efetivamente trazer o conforto das pessoas no seu deslocamento casa-trabalho-casa. 
  Quando lembramos da concepção da Transoeste, da Transcarioca, da extensão do Metrô até a Barra, e uma outra linha até São Gonçalo, logo imaginamos que isso pode finalmente desafogar o trajeto das pessoas para o trabalho e de volta para casa. Apenas lembrando que tínhamos essa mesma perspectiva quando do advento da Linha Vermelha e da Linha Amarela. Hoje, elas são verdadeiras via-crusis na vida das pessoas que se deslocam da Baixada Fluminense e da Zona Oeste para o centro da cidade.
  Tenho razões para acreditar que dificilmente a municipalidade vai resolver esse velho problema que é de âmbito estadual e federal, também.
   Primeiro, porque não vemos a inclusão de ciclovias nesses projetos de mobilidade urbana como forma de alternativa de transporte ao cidadão. As ciclovias que existem atendem ao caráter de entretenimento, na orla, para o sujeito pedalar e escutar a sua musiquinha, numa boa. Eu quero ver é instalar ciclovia na Avenida Brasil, para o sujeito ir da Penha até São Cristóvão, sem gastar combustível e passagem. Ciclovia na Avenida Automóvel Club, na Estrada Velha da Pavuna, na Intendente Magalhães, na Avenida Santa Cruz, na Avenida Cezário de Melo, na Avenida Dom Hélder Câmara, na Rua 24 de maio, na 28 de setembro, e em todas as outras vias cansadas de engarrafamento e das outras que serão inauguradas, que ficarão saturadas também, com o tempo.
  O Projeto Porto Maravilha é lindo, esteticamente, mas com os empreendimentos voltados para aquela região, que modelo de transporte público a prefeitura pretende implantar para absorver um contingente maior de pessoas que se deslocarão para lá todos os dias? Derrubando a Perimetral vai piorar ainda mais. 
   Na verdade, o que falta é uma política de trabalho e renda voltada para a periferia e região metropolitana do Rio de Janeiro. As prefeituras, os governos estadual e federal poderiam atrair grandes grupos econômicos a investirem na Zona Norte, Zona Oeste, Baixada Fluminense, São Gonçalo e Alcântara, através de políticas de incetivo fiscal, como forma de se criar oportunidade e bem-estar para uma parcela significativa da população do estado do Rio de Janeiro. Isso, automaticamente, iria desafogar os trens, ônibus, barcas, aliviando o trânsito nas principais vias de acesso ao centro do Rio.
   Se houver vontade política, o poder público pode fazer muito mais do que incentivar a compra de carro novo. 

domingo, 3 de junho de 2012

Rio+20

     Não há dúvidas de que essa conferência sobre o meio-ambiente que vai rolar em junho, aqui no Rio de Janeiro, já vem com as incertezas que cercaram as outras edições do encontro. Não que a gente não deva acreditar nas intensões dos grandes líderes mundiais e demais representantes, não esquecendo também os interesses que sempre são servidos nas mesas de negociações, o que faz de qualquer encontro dessa e de outra natureza um evento meramente burocrático, sem nenhuma solução efetiva para se projetar para o futuro.
     Eu acho até que essas indefinições e desencontros se dão pela maneira com que se olha o problema por uma ótica diferente da que deveria se encarada, considerando a origem das práticas no cotidiano das grandes nações, das cidades, enfim, das peculiaridades de cada região.
     Dificilmente haverá consenso sobre o melhor modelo a ser implementado e seguido para o meio-ambiente em nível global. Agora que a nomenclatura da chamada para essa próxima discussão também mudou de nome urge também a necessidade de uma outra visão, considerando as particularidades de cada região, de cada cidade, estado ou nação, que são distintos em seus aspectos geográficos, políticos e econômicos.
     Para os técnicos e especialistas enviados ao encontro, isso não chega a ser um obstáculo em si, pois não é de hoje que todo mundo monitora todo mundo, numa troca de informação incessante, o que poderia, pelo menos teoricamente, chegar ao tal do denominador comum, no momento em que cada representante  expuser o que tem feito, dentro das especificidades de sua região, considerando os recursos naturais disponíveis, as necessidades locais e as políticas públicas implementadas.
     Aquele negócio de cada um ficar puxando brasa para a sua própria sardinha não procede mais, pois, todos devem se empenhar nas discussões, assim como nos benefícios dispensados. Como está todo mundo discursando em torno do desenvolvimento sustentável, é bom que se lembre das lacunas de regiões, digo continente africano e demais localidades com baixo índice de desenvolvimento humano no mundo, que continuarão de fora das decisões acordadas por força de interesses de políticas ultrapassadas que não visam o bem comum.
     O grande desafio é a mudança de mentalidade em torno de um novo conceito de desenvolvimento, sem os resquícios da Revolução Industrial, que ao longo desses tempos promoveu a produção e o consumo desenfreados.
     Bom, o encontro está marcado. Resta saber o que as principais cabeças pensantes do planeta vão trazer em suas bagagens. Na verdade, não dá mais para discutir a questão do meio-ambiente com ênfase apenas na ecologia. Já há a consciência de que a fauna, a flora, os nichos ecológicos e os biomas precisam ser mantidos, assim como os recursos naturais que devem ser utilizados de foram coerente.
    Só falta agora o homem garantir o seu próprio bem-estar, dentro de um  mesmo pacote que preserve o futuro das outras gerações e estabeleça medidas que punam com rigor eventuais detratores da natureza de todos.
 
      
        

terça-feira, 24 de abril de 2012

O santo da paz


    Quase não dormi direito de tantos fogos aturdindo meus ouvidos e azucrinado o sono que eu tanto precisava, depois de um domingo cheio de outros festejos, feijoada no vizinho, futebol na tv, coisa de final de semana, enfim. Por um momento pensei que aquele foguetório em uníssono em todos os cantos da cidade só terminasse pela manhã, coincidindo com a minha alvorada sonolenta. Ainda bem que é feriado, e eu poderia dormir mais durante o dia, se não soltarem mais rojões na direção da minha janela.
     Pela manhã, já recuperado da zoada a cada minuto na madrugada, um mar de vermelho tomou conta das ruas, roupas, acessórios, o abadá da escola de coração com a estampa do santo, o rebolado, a ginga, a marra do sujeito de sapato branco, todo prosa e garboso, metido em seu blusão de linho, encomendado quase que como oferenda ao seu mais puro protetor, tudo dentro do ritual de fé, de devoção, de entrega pelo santo guerreiro, de tantas graças alcançadas.
     Quantos símbolos, quantos cânticos, dos atabaques às vigílias, tudo para consagrar e eternizar o santo de várias denominações, desse povo miscigenado de crenças, costumes, desgraças e esperanças. Há que se celebrar esse sincretismo, pelas manifestações religiosas, seja em dia de festa, misturando o devoto com o terço na mão e o outro com as guias a lhe penderem o pescoço, ou na rotina normal do indivíduo em seu grupo social heterogêneo.
     É a cidadania no seu mais puro grau de excelência, já que a liberdade de expressão religiosa também é expressamente garantida pela Constituição do meu país de Estado ainda laico.
     É melhor que seja assim, festivo, sem o fundamentalismo de outros segmentos, sem a violência dos discursos, sempre nessa cadência de exaltação sem furor, para excomungar o inimigo, sem as impertinências de uma guerra santa; para chegar à apoteose, sem passar por cima do outro; e viver o júbilo de um grande feito, sem verter lágrimas ou sangue do semelhante.
   
    
     

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Aldeia urbana

    Um achado importante na caminhada pelas ruas do Rio encontrou, não só uma construção em mal estado de conservação, como também uma história de luta, que passa ao largo dos barulhos ensurdecedores do rush urbano, no dia a dia da efervescência carioca. Na Avenida Radial Oeste, motoristas e passantes, que só miram os semáforos ao longo daquela via, apenas percebem o Maracanã, pela sua trajetória nessa pátria de chuteiras e contrassensos. Na tangência que a rua risca ou no alvoroço das torcidas em dias de jogos, um grito de alerta soa muito pouco enquanto o trem passa e o metrô desliza.
   No velho prédio branco, vizinho ao Estádio do Maracanã, ou do esqueleto dele, as marcas do abandono já duram o mesmo tempo da história que gira ao seu redor. É mais um entre as várias edificações na fila de espera por um projeto que não deixe que seu destino caia no ostracismo.
  Mas quem pensa que o descaso pela falta de conservação daquele prédio é o único problema a ser resolvido está redondamente enganado. Antes que se possa aprofundar sobre a viabilidade de um projeto de reforma da antiga residência da Princesa Leopoldina é necessário que se inclua num eventual projeto destinado à área uma ampla discussão a respeito de um velho problema que remonta de nossos antepassados: a questão indígena.
  Como, dificilmente, a reforma daquele prédio será incluída na urbanização do entorno do ainda maior estádio do mundo, por ocasião dos preparativos para a Copa do Mundo, é bem provável que esse descuido pela conservação de nossos registros históricos se confunda com a nossa capacidade de promover eventos esportivos.
   Do lado de fora do muro, pela perspectiva dos passantes, o abandono em questão se restringe ao aspecto físico, estrutural. Mas eis que dentro daqueles domínios a causa indígena está mais  viva do que nunca. Um grupo de aproximadamente 20 etnias ocupa aquele espaço  há 6 anos, reivindicando entre outra coisas, a criação da primeira universidade indígena do Brasil. 
   Se hoje o antigo prédio tem seu destino indefinido, num passado não muito distante, o local servia de sede do Serviço de Proteção ao Índio. Em 1910, foi residência do Marechal Rondon, o maior expoente da causa  indígena do país. O antropólogo Darcy Ribeiro também freqüentou o lugar, escrevendo parte de suas importantes obras, abordando a cultura dos mais antigos habitantes do Brasil, tanto que em 1975 o pesquisador fundou o Museu do Índio naquele local, que durou até 1978.
   Com o apoio dos estudantes de língua indígena da UFRJ, o grupo sobrevive no local graças às aulas de tupi-guarani ministradas ali, assim como as reuniões periódicas para narração de história e manifestação de danças. Com o objetivo de difundir sua cultura e angariar recursos eles também se apresentam em escolas públicas e particulares, onde arrecadam alimentos não-perecíveis. 
   E essa luta constante para sobrevivência das etnias ali representadas vai resistindo à efervescência urbana ao seu redor. Nesses seis anos de ocupação daquela área foram construídas algumas ocas no terreno. São, segundo eles, frentes de resistência para que as mais de 240 etnias espalhadas pelo Brasil possam usar o local para fazer reivindicações.
   Só que as ações daqueles ocupantes não se restringem à informalidade de sua rotina. No universo de todo aquele envolvimento existe um grande projeto a ser implementado, o que pode representar um avanço para a grande causa indígena, o resgate de uma dívida histórica junto aos nossos antepassados.
   Para o Pataxó Garápira, o líder do grupo naquela comunidade, o maior problema é a falta de um documento oficial do imóvel, o que inviabiliza qualquer tentativa de preservação daquele espaço, em que uma parte importante da história do Brasil se mantém viva, apesar dos tapumes como divisor de água entre o passado e o o futuro, ainda incerto. Algumas entidades e políticos saíram em defesa daquela causa, mas nada foi feito, até agora, para viabilizar esse importante projeto.
    Não se pode desprezar os projetos que alavancam a nossa cidade, cujo desenvolvimento permite que o Rio seja cada vez mais viável, seja no aspecto político, econômico e social. Seria, no entanto, salutar que esses vestígios de desenvolvimento conservassem também os elementos culturais de nosso povo, das nossas origens.
    
   










sexta-feira, 6 de abril de 2012

A paixão que ainda nos cerca

      Ainda tem muita gente falando que não se pode varrer a casa, cortar o cabelo, namorar, trabalhar, viver, enfim. Dos tempos em que os dogmas da igreja eram seguidos à risca até os dias de hoje, muita coisa mudou, por conta da liberdade que cada um foi conquistando, mesmo não conseguindo seu objetivo pessoal ou coletivo, sem deixar, obviamente, de comer o seu peixinho nesta sexta-feira da paixão, para não ficar devendo nada para os bispos e o Papa.
    Acontece que nesses tempos de lamúrias, lamentações, autoflagelo e piedade, os atabaques também soam, no mesmo instante em que os sinos dobram, celebrando o silêncio de quem quer ficar assim, refletindo sobre o futuro dos povos e a saúde de quem os cercam, para que fiquemos irmanados na mesma questão, na mesma miséria, nessa comiseração global, de comprometimento universal pelas causas da humanidade.
   Ainda bem que no meu país todo mundo lava os pés juntos, todo mundo se envolve para lavar as escadarias do sincretismo que vai prosseguindo, insistindo para que estejamos ungidos na mesma promessa e crença.
    Uma pena que o mundo não tenha seguido essa tendência de confraternização entre os povos, com muita nação peregrinando sua hegemonia, e outras tantas há muito tempo numa via-crucis para confirmar sua própria soberania, abalada pela interferência de outrem, nesse desequilíbrio sem fim.
    Agora que assistimos à barbárie lá no Egito, justamente o berço das grandes religiões, fica difícil imaginar o discurso que pode reverter esse quadro de perseguição e intolerância que impera nos dias de hoje, seja nas  relações pouco amistosas entre nações, até as picuinhas do cotidiano entre indivíduos, em seu meio social, num expediente que passa ao largo das mensagens que os grandes líderes das três religiões do ocidente propagavam, sem o fundamentalismo como pano de fundo que se verifica hoje.
   Nestes tempos de paixão ao redor da vida e da morte, torcemos para que a paz norteie as discussões e reflexões sobre o futuro que nos espera.    
       
      

domingo, 1 de abril de 2012

A Estética do caos

      Não faz muito tempo o único contraste  da arquitetura urbana era a diversidade de estilo num mesmo espaço, com o passado e o presente como extremos de um mesmo vetor, cada vez que a selva de pedra cria brotos nesse crescimento verticalmente galopante.
      Com a expansão horizontal  da região metropolitana do Rio de Janeiro, a estética que se pretende para a cidade maravilhosa pode não ter o efeito desejado, caso não se leve em conta a urgência desenvolvimentista  para toda a região do entorno do Rio de Janeiro.
      Aconteceu estra semana, em Londres e no Rio, dois encontros que trataram da questão urbana com ênfase socioambiental. Na Inglaterra, o documento da conferência naquele país, como apronto para a Rio+20, deu conta de que até 2050 as grandes cidades mundiais concentrarão um número populacional que já desafia especialistas a encontrarem um meio sustentável de se habitar esses centros espalhados pelo planeta. No Rio, alguns expoentes da arquitetura contemporânea promoveram uma série de palestras sobre os rumos do urbanismo no Brasil e no mundo.
      É claro que a arquitetura e todas as suas nuances e inovações contribuíram para o progresso urbano, principalmente numa metrópole como o Rio de Janeiro, cujo crescimento sem proporção necessita de elementos cada vez mais voltados para o futuro, sob pena de sermos vistos como uma cidade inviável e retrógrada. Lembrando que a cidade do Rio só tem ciclovia em caráter de lazer, para se ter uma ideia das deficiências de nossa cidade.
      O que não pode é descaracterizar a cidade com o pretexto de embelezá-la, com vistas a um suposto legado que acaba não beneficiando a população como um todo, e ainda deixando ônus para a administração seguinte, que fica exposta à opinião pública, como sempre, desapontada com a timidez dos projetos não realizados.
      Mas há outros fatores a serem considerados e dinamizados em paralelo à estética visual aos olhos do mundo. A efervescência da rotina diária do Rio de Janeiro revela, não só as nossas preocupações, necessidades e descompasso, como também a dimensão das mazelas ao nosso redor, que vão bem mais além daqueles bairros longínquos e limítrofes de outras urbes também carentes.
       Porque, quando o trem lotado, vindo de Japeri, cospe gente diariamente na Central do Brasil, significa que uma parte considerável da população do estado do Rio contribui com os números sociais e econômicos da nossa cidade, assim como o Metrô abarrotado de gente, vindo da Pavuna, leva e traz uma outra parte desse universo populacional que também vem ganhar o pão aqui no Rio e ajudam a confirmar a cidade do Rio de Janeiro como uma metrópole atraente no cenário mundial, pelo seu potencial de cidade viável e gente hospitaleira.
      Portanto, é imprescindível que qualquer projeto que seja direcionado ao Rio de Janeiro considere as cidades circunvizinhas, seja além da Ponte Rio-Niteroi, que abarca a população de Niteroi e Alcântara, e a outra parcela que depende da Linha Vermelha e Avenida Brasil para chegar ao batente.
      Estou falando isso porque vem sendo apresentado alguns projetos para tornar a cidade do Rio mais moderna no seu aspecto estético, sem considerar  seu conceito social, que envolve a sua dinâmica no dia-a-dia de uma grande metrópole.
        O Projeto do Porto Maravilha é viável, mas que alternativa o poder público apresentará à demolição do viaduto da Perimetral, com a Rodoviária no mesmo lugar e o Hospital de Ortopedia(INTO), quando este estiver funcionando com a sua capacidade máxima, já que mais pessoas se dirigirão para aquela região? Assim como aquele complexo de prédios sendo construído próximo à Praça Cruz Vermelha, sem nenhum sistema de transporte público adequado à região.
      Os governantes da cidade e do estado do Rio precisam apresentar ao mundo seu potencial de cidade aprazível e funcional, mas isso também depende de políticas que abarquem toda a população que dela faz parte. Para beneficiar o contingente da região metropolitana, como Niteroi, São Gonçalo e Baixada Fluminense, seria salutar que o poder público apresentassem medidas que concentrassem esse contingente em seu local de origem, como forma de desafogar o Rio e, ao mesmo tempo, tornar a vida dos cidadãos fluminenses mais saudável em seu cotidiano, seja em seu deslocamento para o trabalho ou no seu lazer.
      Estamos na expectativa de uma grande mudança, com uma amplitude ainda maior do que a que se apregoa por aí. Porque do jeito que as coisas andam, vamos apenas modernizar a estética do caos.
     
 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Mea culpa

      No dia seguinte à tragédia anunciada nada se sobrepõe à misericórdia como emblema da dor e desespero no epicentro da calamidade pública. Alívio para uns, flagelo para outros tantos, a verdade é que estamos irmanados na mesma culpa, no mesmo fardo. Não é difícil acreditar que aquelas máquinas revolvendo a terra pode estar procurando inocentes e culpados em meio àquele mosaico de entulhos, poeira e contrassenso.
     Na Cidade Maravilhosa e exuberante, a nossa miséria é a indisciplina impregnada no tecido social; nossa riqueza, a solidariedade do próximo e do estranho. Somos capazes de chorar a dor dos outros, mas não temos a petulância de detonar o sujeito que burla a lei, a ousadia de se reverter esse expediente de resolver as paradas na calada da noite, pra não lombrar no dia seguinte.
    É por isso que o que não pode fica valendo também quase que para sempre, pois estamos prestes à perpetuar o jeitinho brasileiro como status quo oficial, tal qual a corrupção como sistema de governo.
     Tudo bem que a hora agora é de encontrar mortos e responsáveis, mas lá na frente, assim que a poeira baixar, é melhor que se revolva também esse estado tétrico e de inércia, para que o responsável, o culpado, o sujeito que efetivamente permitiu a constância desse quadro de horror, que nem a poeria consegue esconder, sofra os rigores que, pelo menos, a lei permite.
      Enquanto durar o jogo de empurra que certamente vai rolar, eu fico até achando que vou levar a culpa por tudo isso. Exatamente. Serei acusado por não ter denunciado que havia uma obra irregular, do mesmo jeito que não reclamo quando neguinho joga papel no chão, com medo de ele me bater.
       Poderei ser indiciado pela omissão, já que havia um órgão fiscalizador, que certamente iria até o local, verificar a observância dos critérios, e eu resolvi me calar, assim como me calo, mesmo sabendo que se eu recorresse ao órgão de defesa do consumidor, o supermercado  não aproveitaria  as promoções para vender carne fora do prazo de validade.
     Por fim, pode ser que eu seja condenado, já que eu continuo votando nessa gente que promete um novo cenário para minha cidade, que em cada pleito surge uma maquiagem diferente, sempre com a desculpa de que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão um legado para a população, como bem foi prometido com relação ao PAN 2007, e o transporte público e a segurança da cidade do Rio de Janeiro continuam a mesma coisa.
    Por sorte poderei me safar, pois essa justiça arcaica ainda deixa brechas para que eu continue, assim, de olhos fechados, fingindo que está tudo bem.