quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cena carioca

     Semana passada, fui ao centro da cidade e, passando pelo Largo da Carioca, encontrei Roberto vendendo livros usados próximo à estação do metrô. Velho colega de infância, parceiro das peladas, Roberto não era lá muito bom nos estudos, mas dava muita sorte com as meninas. Estava sempre abordando uma, xavecando outra e, na maioria das vezes lograva mais êxito que fracasso, embora vez ou outra se visse em uma saia justa que ninguém é perfeito.
     O velho Roberto nunca foi íntimo dos livros na escola, e agora convive com eles para sobreviver. "Dá pra pagar as contas", dizia ele, humilde e metido num avental de livreiro. Sua inconveniência de cafajeste continua tão vivaz que caminha junto de seus próprios malogros e revezes.
     Certa vez, a prefeitura, que nunca tolerou a economia informal, resolveu importuná-lo e recolher seus livros arrumados naquele enorme plástico azul estendido no chão. Na confusão que se formou, em meio à indignação dos passantes, surge uma mulher do alto de sua elegância e de seus trinta e poucos anos, se juntando ao pequeno grupo formado para tentar convencer os guardas a aliviarem a mercadoria do infeliz vendedor. Roberto logo a reconheceu. A tal que ia todos os dias à procura de livros sobre a história da música brasileira, relembra ele, acrescentando que rolava um clima toda vez que ela vinha com a desculpa de "algo sobre a MPB". 
     A breve audiência como os fiscais durou alguns minutos e, no final, todos aplaudiram a tropa do prefeito batendo em retirada. O colega, satisfeito e sem jeito, não sabia por onde começar com tantos livros espalhados pelo chão. A multidão já começava a tomar seu rumo, quando a fiel escudeira de Roberto, com a sensação do dever cumprido, se aproximou. A ela só restava celebrar o final feliz do pequeno conflito.
     O livreiro rapidamente manifestou o desejo de retribuir tamanha gentileza. Estava disposto a fazer qualquer coisa para aquela bela que o livrou de um pequeno infortúnio, já insinuando o que poderia rolar naquele inesperado reencontro.
     Diante de tal circunstância e dona da situação, a mulher devolveu. "Estamos empatados, meu amigo! Hoje eu pude, finalmente, retribuir a sua ajuda. Sem aqueles livros, jamais terminaria a minha tese de doutorado". O amigo, surpreso e resignado, sorriu agradecido também.
     Pois, é! Nos velhos tempos de azaração, Roberto também dava uns tirinhos pela culatra que ninguém é perfeito.
      

domingo, 5 de maio de 2013

Campeão pela força do conjunto

    Esse time do Botafogo, campeão incontestável, não primou apenas pela regularidade no campeonato. A força do conjunto que Oswaldo de Oliveira conseguiu aprimorar e fortalecer ao longo da disputa fez a diferença. Já foi o tempo em que uma equipe sem a confiança, principalmente da torcida, dependia de um jogador de renome para garantir, pelo menos, fazer um bom papel durante a disputa, figurar entre os primeiros e, quem sabe, transformá-lo no salvador da pátria, aquele que decide tudo, tipo aquele que bate o escanteio e corre para cabecear. 
   Pois, foi justamente isso que muita gente acreditou quando a diretoria alvinegra contratou o holandês Seedorf. Mas isso logo se dissipou, porque tanto os dirigentes e comissão técnica adotaram a postura correta de um clube que se pretende campeão. Fazer com que um grande craque some a sua experiência ao grupo, sem o estrelismo desenfreado, que em tempos passados marcava a chegada de um grande jogador a uma equipe.
   Se nesse campeonato estadual  Seedorf marcou alguns gols importantes e decisivos, logo nas entrevistas, ao final do jogo, ele mesmo tratou de atribuir sua sorte à força do conjunto, mesmo porque, a equipe conseguiu algumas vitórias, mesmo com a ausência dele. E nas vezes em que o time perdeu com ele em campo, a torcida em nenhum momento hostilizou o jogador, entendendo a galera que todo o grupo jogou mal.
   Um detalhe importante que reforça a evolução desse time campeão é que praticamente todos os titulares do time marcaram gols. Na vitória de 5x0 sobre o Resende, por exemplo, cinco jogadores diferentes construíram o placar. Isso mostra a importância de todos os jogadores para o elenco, tanto que a equipe terminou a competição como o melhor ataque e a melhor defesa.
   Não se pode dizer que o time do Botafogo, hoje campeão, vai lograr êxito em outras competições de disputas mais acirradas, mas pelo conjunto que tem, de entrega do grupo, pode perfeitamente fazer outras boas campanhas, nas disputas que o time terá pela frente, ainda este ano. Se o técnico Oswaldo de Oliveira conseguir dar continuidade a esse trabalho vitorioso, o Glorioso pode sim, se destacar nas outras competições.
    De qualquer forma, o futebol que o Botafogo apresentou, embora ainda não seja o ideal, pelo menos segue uma tendência que se verifica em outros certames: a prevalência do conjunto. Isso ficou bem nítido na Liga dos Campeões da Europa, em que os dois times badalados da Espanha, cheios de craques consagrados, sucumbiram à força do conjunto de seus adversários.
    É claro que o Botafogo está longe de se igualar aos grandes times do Brasil e do exterior, mas dá mostras de que pode evoluir mais se houver um bom trabalho fora de campo também, através da diretoria e comissão técnica, que conseguiram dar forma a um time campeão, mesmo num campeonato deficitário e deficiente como tem se mostrado essa disputa aqui no Rio ao longo já de várias edições.
    Mas o Botafogo venceu seus adversários e as adversidades do Cariocão. Por isso, é o legítimo campeão. 
    
   
     

sábado, 4 de maio de 2013

Não rasguem a Carta

     Não poderia mesmo dar em nada essa picuinha entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Apesar das aberrações que cada instituição tem mostrado ao longo de toda história política do Brasil, em nenhum momento os procedimentos de um ou de outra atropelou o regimento que tanto a câmara quanto a corte devem seguir nas decisões pertinentes a cada casa.
    É certo que a sociedade tem se decepcionado bastante com o desfecho de projetos aprovados e decisões tomadas por ambas as instituições. No final das contas algum representante ou porta-voz fica incumbido de esclarecer à população que tudo está dentro da lei, que tudo foi decidido dentro das normas legais, de forma transparente, sem ferir os princípios democráticos, e por aí vai.
      Nesse episódio recente entre os dois poderes não há dúvida que o processo do mensalão foi o principal objeto de rusga envolvendo parlamentares, principalmente os do PT, e membros do judiciário. Não foi por outro motivo que o Congresso Nacional ensaiou um projeto de submeter a esta casa as decisões do STF, e agora, num capítulo à parte, a tentativa dos réus daquele processo de mudar o relator do caso.
      Para o ex-ministro do STF Francisco Resek, o Congresso não tem a menor possibilidade de mudar a constituição no sentido de alterar a estrutura e a faixa de competência entre os poderes.
     Se não parece aos olhos da sociedade que o Supremo Tribunal Federal se mostra com um grau de independência muito maior que em tempos passados, quando era sistematicamente usurpado pelo executivo e o legislativo, pelo menos na questão dos mensaleiros incomoda demais uma parcela do legislativo que sempre conservou o conceito de afinidade entre os poderes como sinônimo de cumplicidade com as incongruências de ambas as partes.
    A realidade brasileira já não permite mais certas práticas perniciosas, que deixam, tanto legisladores quanto julgadores da lei, em maus lençóis com a sociedade, justamente porque a própria constituição deixa margem à várias interpretações quanto a sua prática, por parte dos parlamentares, e seu ordenamento jurídico, dentro da seara do STF.
     É bom lembrar que o Congresso Nacional também mantem seus vícios, a imunidade parlamentar como o maior deles, como instrumentos de perpetuação de desmandos registrados em episódios de corrupção envolvendo seus pares.
    Por sua vez, o Poder Judiciário também já se fez vilão da sociedade em casos escabrosos de membros de todas as instâncias como protagonistas, além da composição de seus quadros, alguns compostos por indicações, sem a anuência da sociedade civil ou por intermédio de sufrágio universal.  
   A atual conjuntura política, social e econômica do país carece de sucessivas emendas no texto constituinte, como forma de enquadramento às necessidades do Brasil, isso é imprescindível, portanto seria mais conveniente que o Congresso se concentrasse nas questões relevantes ao país, e o Supremo Tribunal Federal atento à eventuais casos de desregramento da constituição, como sugerem suas atribuições legais.
    Independente do desfecho do processo do mensalão, só não vale rasgar a Carta Magna. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Nem tudo está perdido

     A morte é mais fácil de absorver, embora seja um dos maiores temores da humanidade. O difícil é conviver com as perdas que o passamento de alguém provoca na vida de quem nunca mais verá aquele amigo que se foi, o filho em quem se apostava todas as fichas, a companheira fiel na tristeza e na alegria.
     Por mais que se tente disfarçar uma tristeza profunda, a rotina muda, o semblante também se altera, e isso fica explícito aos olhos de quem está sempre próximo e estava acostumado com aquela expressão alegre, jovial, sem marcas de tortura ou de dor.
     Tenho visto frequentemente um senhorzinho passando pela rua onde eu trabalho, seguindo o mesmo trajeto de sempre, deixando transparecer que a vida continua, mas não é a mesma de outrora.
      A passada agora trôpega e inconstante tomou o lugar daquela cadência firme e segura de todos os dias em sua caminhada matinal. Em vez dos vistosos fones de ouvido, agora vive a falar  aos ventos, esbravejando com não sei quem. A saudação diária continua com afeto, mas emoldurada de melancolia fazendo as vezes de sua sombra, caminhando lado a lado, a comunhão medonha entre a angústia e a saudade.
     Sua esposa e fiel escudeira se foi e parece que levou consigo para o outro plano toda a alegria de viver do seu eterno amado e amigo. Eu fico imaginando a mesa com um talher, o lavabo com uma escova de dente e a cama com um travesseiro apenas.
     Se a música para de tocar, há um motivo para isso; se a banda não toca mais na praça existe um porquê. As madrugadas frias e insones só servem para revelar o tempo que ainda falta para se viver assim tão desoladamente.
     É numa hora dessas que nos enchemos de brios para prosseguir adiante e sempre. A tragédia alheia serve de combustível para o resto dos mortais. E o velhinho aos frangalhos vai refazendo a trajetória dos que se sentem desamparados, moribundos e infelizes, que reivindicam para si uma dignidade assim inabalável, capaz de sobreviver ao mais cruel dos revezes humanos, permitindo reconstruir tudo aquilo que parecia perdido.
     Mesmo que ainda tenhamos uma grande ferida para cicatrizar.

domingo, 28 de abril de 2013

O Brasil entre duas Copas

     Desde o momento em que aquela bola passou por Barbosa, sem pedir licença, muito pouca coisa mudou até os dias de hoje. A expectativa que se formou em torno daquele espetáculo se confundia com a própria construção do maior estádio do mundo. A cada tijolo assentado, a cada suor derramado aumentava a perspectiva de futuro de um Brasil em construção. Muito antes de Gighia desferir aquele chute que desmoronou a nossa soberania, havia um grande desafio em curso: tornar continental um país entregue à sorte dos coronéis; uma nação, cujas mazelas Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos ajudaram a desnudar.
     O triunfo do inimigo em nossos domínios parece que já prenunciava a nossa dificuldade de fazer o dever de casa. Na verdade, não era muito confiável entregar nosso destino nas mãos daquele caudilho camaleônico, cujo oportunismo o travestia, ora de déspota, ora de populista. O ópio de que precisávamos era a estética da razão, essa sim, capaz de entorpecer as mentes, tornando-as efervescente e pensante. Bem que o antídoto para essa enfermidade poderia estar prescrito no Plano de Metas! Mas nosso caro pé-de-valsa preferiu se rodopiar nos salões do high society e maquiar o país com estrada, chaminés e ilusões perdidas.
     Finalmente o primeiro triunfo brasileiro dentro das quatro linhas. O primeiro grande gozo. Nem Freud poderia imaginar o princípio do prazer em larga escala. Pronto! Temos tesão suficiente para pressionar o regime por mudanças.
     Pensando nisso, e antevendo uma aproximação maior desse povo cheio de energia, ficou decidida uma nova sede, bem longe dos centros urbanos. O artista até vai aonde o povo está; político prefere distância. E alcançar o Cerrado pode ser tão complicado quanto o caminho que vai dar ao sol. Menos mal que muitos refugiados da seca do semiárido foram ganhar o pão nos canteiros de obra do Planalto Central.
     Quando Bellini levantou mais uma vez a nossa moral, a estudantada e a classe artística já faziam barulho, ecoando muito além das cercanias do Plano Piloto. A canetada dos generais operou uma mudança drástica no nosso cotidiano. Um misto de repressão e dor manchava de sangue a minha, a sua e a nossa dignidade. Com esse rodo cotidiano ficava difícil fazer barulho como se fazia em Praga, Paris ou Woodstock. E o pente só não foi mais fino porque os caras eram muito imbecis, e muita coisa passava despercebido. Às vezes dava até para avisar que a banda e o samba iam passar.
     O cala-boca que se instaurou nos deixou inútil por uns tempos. O Delfim pegava dinheiro e não conseguia pagar; a indústria do vestibular resolveu escolher o que iríamos escolher para entrar na faculdade. A, B, C, D, E!!! Paulo Freire deve estar dando cambalhota em  sua sepultura até agora.
      Havia um pessoal que via o sol nascer quadrado; outros que viam as horas no Big Ben, como se fosse o relógio da Central. Tinha gente que passeava pelo Arco do Triunfo, imaginado os Arcos da Lapa. Quando finalmente essa galera cumpriu alguns jogos de suspensão, eis que já estava todo mundo dominado. A cultura que imperava era justamente aquela que não incomodava.
     A democracia foi finalmente inaugurada. Há espaço pára todo. Exatamente nessa ordem, cada um  governa um pouquinho, como nos tempos do café com leite. Coitado daquele baixinho lá de São Borja! Querendo fazer um ménage-a-trois numa sociedade monogâmica.
     Hoje, os maiores paladinos do progresso do país viraram casada. O sono profundo do gigante adormecido parece letárgico, tal qual a incapacidade que se vislumbra de usar o controle remoto e a urna eletrônica. A palavra de ordem agora é o slogan do conformismo. Deixe a vida me levar!
     Para a Copa de 2014, só faltava mesmo reconstruir o Maracanã.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Salve o Bayern

    Se aquela partida entre o Bayern de Munique e o Barcelona fosse disputada no Rio, certamente os adeptos de São Jorge iriam creditar a força do time alemão aos fluídos do santo guerreiro, dado o predomínio do vermelho na Arena de Munique, tal qual o périplo encarnado nas ruas do Rio, num ritual pelas graças alcançadas e o triunfo conquistado.
     Dia de fé no Rio; dias de glória na Alemanha.    
    Uma aula de futebol. Não dá para definir de outra forma as duas goleadas dos times alemães, Bayern de Munique e Borússia Dortmund, sobre seus rivais da Espanha, Barcelona e real Madrid. Foi bonito ver os alemães imprimindo um ritmo veloz, mesmo com o placar favorável, apertando mais a marcação, sem perder o poder ofensivo, tanto que ampliaram o marcador, como prêmio pela aplicação e disciplina tática.
   O futebol vai trilhando caminhos que, paradoxalmente, remontam de tempos passados, quando a premissa básica desse velho esporte bretão era utilizada com mais ênfase: o aspecto coletivo.
   Ficou claro a força do conjunto. Se em cada gol desses dois embates houve a marca do talento individual, na execução da jogada, tudo foi engendrado lá na intermediária, com o passe de primeira, a aniquilação do adversário, pela marcação implacável, e a bola correndo de pé em pé, sem ofuscar os olhos de quem aprecia até uma pelada bem disputada, seja em gramados oficiais ou campos de várzea.
     Além da tecnologia que permite uma melhor preparação do atleta, vislumbra-se um novo conceito de utilização do espaço físico do campo, uma nova evolução tática dentro das quatro linhas, desmistificando as funções do defensor, do armador e do atacante. A zona do agrião não é mais aquele pedaço do campo que o saudoso João Saldanha identificava como a área de combate, ali, onde ninguém podia dar mole, senão...
     Em qualquer setor do campo pode nascer uma grande jogada para o gol, independente da maestria daquele jogador fora de série, que dentro dessa nova tendência corre, luta, morde, soma, cospe e chama a bola de você, antes de partir para o abraço.
    Se as duas equipes alemães vão adotar essa mesma postura no próximo jogo de volta, não se sabe, mas a verdade é que os guerreiros de Munique e Dortmund suplantaram o estrelismo desenfreado, mesmo num time competente como são o Barcelona e o Real Madrid.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Menores em cena

     Ao contrário do que pensam a maioria que se dispõe a ventilar alguma coisa a respeito de uma possível redução da maioria penal é bom lembrar que dentro da seara da violência urbana e da intrincada questão da segurança pública este é um problema dos mais complexos, não especificamente por envolver menores apenas, mas pelos fatores que cercam o assunto, dentro da responsabilidade do poder público, pelo resgate de uma dívida antiga; e a leniência da sociedade que só se manifesta quando lhe dói na pele, o tal oportunismo de sempre.
     No calor das discussões, principalmente em conversas informais nos bares, no trem lotado, ou em bate-boca sem sentido em frente às manchetes nas bancas, pela manhã, é possível notar o sentimento de ódio que move as pessoas a externarem opiniões sob a luz do revanchismo, sem um naco qualquer de racionalidade. E parece que todos vão aderindo a essa causa de forma precipitada. É como se a sociedade quisesse fazer justiça com as próprias mãos.
     O governador de São Paulo Geraldo Alckmim levou ao Congresso Nacional proposta de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente, tornando mais rigorosa a punição para menores infratores, numa clara demonstração de que o recente crime de assassinato, na capital paulista, cujo autor é um menor, serviu de mote para sua empreitada. Não estou nem levando em conta que o PSDB, legenda do governador, esteja fazendo média com a população, visando as eleições presidenciais que se aproximam, além do perigo que isso representa quando importante questão parte de agremiação política, pelo interesse e corporativismo que podem influenciar o seu desfecho.
     Como bem disse o ilustre professor Dráuzio Gonzaga, tem gente achando que basta trancafiar esses menores que o problema estará resolvido. O mestre acrescenta ainda que lá na frente, mais tarde, vão estar discutindo nova redução da maioridade porque certamente essa medida não trará os resultados esperados. E toda vez que houver um evento de grande repercussão, envolvendo menores como protagonista ou vilão, a parcela vitimada vai sair às ruas, vestida de branco, com cartazes e palavras de ordem, ensaiando mais um paliativo, sem que se desperte efetivamente um amplo debate, antes que se possa renovar as letras da lei.
     O mais importante é que apesar da urgência não há como vislumbrar resultados em curto prazo. É preciso ter essa noção, antes que o cidadão comum ou especialistas que lidam com o tema julgue o poder público inerte, sem considerar que em gestões anteriores também não houve qualquer tentativa de adequar um problema de todos à atual realidade, em que crianças, jovens e adolescentes não só praticam, como também são vítimas de violência, no campo, na cidade, no esporte e no âmbito doméstico, o que sugere uma amplitude maior na equação do problema, bem além da questão da segurança pública. 
   Nos tempos em que o próprio Estado começou a se enxugar, seguindo os mandamentos do neoliberalismo, a ocasião seria propícia para a implementação de um grande projeto social com ênfase na educação, trabalho e renda, para que não se perdesse tantas gerações enquanto o país se modernizava e desenvolvia. 
     As Unidades de Polícia Pacificadora, aqui no Rio, pode ser uma grande ferramenta para mudar os números sociais dessa mazela, desde que a presença do estado nas comunidades carentes não se restrinja ao braço armado. 
     Porque hoje há órfãos, tanto na favela, quanto no asfalto.
     

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ela não vai deixar saudade

     Dificilmente Margaret Thatcher virará um mito. Apenas vai figurar para sempre na galeria dos grandes líderes, mais por ter governado por um longo tempo uma grande nação, do que por ter sido uma grande mulher. Sua política de enxugamento do Estado, seguida automaticamente por vários países, não deixa de ser uma marca da Dama de Ferro, considerando as transformações no mapa geopolítico do mundo, depois que todo mundo se convenceu de que era preciso dividir com a iniciativa privada o ônus do desenvolvimento do planeta e de seus habitantes.
     A grande crise que afeta as principais nações do mundo é o primeiro indício de que ninguém soube aproveitar a oportunidade de se investir nas áreas mais importantes com o lastro de recursos que os países mais ricos passaram a ostentar depois que deixaram de oferecer os outros serviços que o capital privado poderia disponibilizar com  mais qualidade. 
     No entanto, nem uma coisa, nem outra. O Estado continua com a responsabilidade de investir nos setores em que os grandes grupos econômicos agem, seguindo os princípios do capitalismo em toda sua plenitude. Aqui no Brasil, a política de privatizações implementada na década de noventa não trouxe os resultados que se esperavam, pelas promessas que a propaganda desse novo modelo fazia para a população, indicando os benefícios de uma nova era, e o governo federal continua com a tarefa de gastar um montante considerável de recursos nas áreas de infraestrutura, transportes e telecomunicações, principalmente, o que indica que o Estado não se enxugou como sugeria os arautos do neoliberalismo.
     Para piorar a situação, o poder público não transforma esses investimentos em benesses para a sociedade, porque quando o governo resolve comprar trens novos lá fora para melhorar a qualidade da malha ferroviária e do metrô, deixa-se de fortalecer o nosso parque industrial e a criação de emprego e renda, se essas composições fossem fabricadas aqui.
     E isso é apenas um item da lista de distorções que esse sistema produziu ao longo de décadas. Se em outros países não houve esse contratempo uma aberração qualquer surgiu como revés para a população local, pertinente à conjuntura política e econômica de cada nação.
     Se hoje as grandes nações se esmeram para bolar um plano infalível para salvá-los dessa instabilidade global é porque deixaram de seguir as diretrizes do que poderia ser altamente vantajoso para todos, incluindo a participação efetiva dos países em desenvolvimento, principalmente aqueles que foram colonizados por esses que agora estão quase à bancarrota.
     De qualquer forma, Margaret Thatcher não pode levar, sozinha, para seu túmulo a fama de ter deixado esse grande legado para o mundo. Seguramente outras cabeças pensantes já tinha lido a cartilha que pregava um novo conceito de economia mundial, desde John Locke e Adam Smith. A dama inglesa apenas teve a coragem de difundir com mão de ferro um modelo que tinha tudo para dar errado.
     Eu não vou sentir saudade.
     

domingo, 7 de abril de 2013

Tempos de fúria

     Semana passada, três eventos de violência mexeram com a cabeça da população e ganhou tanto espaço na mídia que quase passou despercebido outras questões do cotidiano urbano, como o aumento da tarifa do metrô, e até as conquistas das empregadas domésticas que dificilmente foram comentadas nos bares e nas esquinas.
     Mesmo acostumada com o destempero que ora ressurge nas veias, nas têmporas, da incontinência da ira, da intolerância e do desamor, a cidade nunca deixará de se horrorizar com a efervescência dessa urbe que se renova sangrenta e selvagem cada vez que ensaiamos humanizar as grandes mazelas que já fazem parte do calendário do Rio, de janeiro à janeiro.
     Será que um dia haverá sossego em algum recanto dessa cidade que respira maravilhosa, ainda que tenhamos que nos espremer na via-crusis da rotina entre o lar, o trabalho e o inferno?
    Essa é uma violência sazonal, já que em outros tempos acontecem outras barbáries, despistando de tempo em tempo qualquer tentativa de se erradicá-la, permitindo que se perpetue junto com outras pragas, o inferno das drogas, aumentando assustadoramente o preço de se viver numa cidade quase sem futuro, com projeto apenas de maquiagem, cuja superficialidade ajuda a mascarar o muito que precisa ser feito, enquanto banaliza-se essas aberrações. 
     Fica parecendo para os habitantes e forasteiros que a preocupação maior do cotidiano da cidade é a perspectiva de confronto com um facínora qualquer disfarçado de gente de bem, correndo atrás do prejuízo.
     Todos os modelos de violência urbana aumentam os dados de estatística, independente da modalidade praticada, o assalto, o estupro, o crime passional, tráfico de drogas, violência doméstica e no trânsito, cujos números os especialistas se debruçam para traçar planos pouco eficazes.
     Mas há algo diferente quando o destempero em questão ocorre por motivo fútil, sem a premeditação dos crimes bárbaros, sem luta de classes sociais aparente, sem a impunidade como pano de fundo. É lógico que um estupro numa van é motivo de preocupação geral, não só por arranhar a imagem da cidade lá fora ou aqui dentro. E a morte do menino em Barra do Piraí, por vingança, seria considerado crime hediondo em qualquer outra praça, mas isso é outro assunto que envolve uma grande reforma no Código Penal, que aliás, já deveria ter sido executada há muito tempo.
     A verdade é que os números da violência urbana andam no mesmo ritmo da expansão das grandes cidades, e os dados mostram que há uma política muito pouco eficaz na questão da segurança pública, que nesses últimos tempos tem sido focada na implantação das UPPs, como se a origem das transgressões da ordem e da paz pública nascessem nas comunidades carentes.
     No caso específico do evento ocorrido com o ônibus que caiu do viaduto há uma violência diferenciada, de ordem institucional, claro, mas com uma amplitude muito maior, bem além da área de atuação das autoridades de segurança.
      Há quem diga, principalmente os estudiosos do comportamento humano, que o sujeito violento, tanto o motorista que batia na mulher ainda grávida, segundo relatos de sua ex-companheira, quanto o agressor acusado, que já teve passagens pela polícia, por supostos casos de agressão, já nasce com predisposição de ser assim intempestivo, mas é certo que a rotina conturbada dos grandes centros urbanos contribui enormemente para aflorar esse comportamento de pavio curto das pessoas.
     É o sistema de transporte público deficiente; é o profissional explorado e mal preparado para exercer sua função, como o motorista do acidente que fazia as vezes de cobrador também; é a falta de oportunidades e desigualdade que geram esse salve-se-quem-puder; o individualismo exacerbado; a falta de solidariedade o que acaba resvalando na questão dos valores humanos. Pode ver que ninguém foi capaz apartar a briga, pois tá todo mundo concentrado em sua luta diária, no seu destino, às vezes incerto, pelas incongruências  de se viver coletivamente.
    
     
     
     

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A cultura da meia-sola

     Pelo nível de modernidade que se alardeia e a urgência dos grandes projetos para o Brasil, não há mais espaço para a mesquinharia que compromete o nível de excelência dos empreendimentos que sugerem metrópoles mais viáveis econômica e socialmente falando.
     Foi-se o tempo em que as promessas de grandes feitos ficavam no papel, engavetados, para depois, sim, se embrenhar na morosidade da burocracia quase perpétua, revelando os descaminhos da política nas mãos de agentes públicos nefastos ou inconsequentes, esses protagonistas da administração pública que transitam em todas esferas do poder, desconstruindo completamente o conceito de responsabilidade social, como fator de evolução, tanto dos grandes centros urbanos, quanto do país como um todo.
     Em meio a toda essa trapalhada governamental, seria apenas mais um caso de hesitação do poder público, se o desperdício do dinheiro público não ilustrasse esse cenário de desordem.
     Infelizmente, não há sinais de que esse processo degradante esmoreça, porque, paralelo à ineficiência do governo em realizar grandes feitos está a incapacidade da sociedade civil, sempre tímida, de se rebelar contra o que podemos chamar de verdadeiro atentado à vida e dignidade humana.
     Não precisa nem enumerar os desmandos passados do poder público para se ter uma ideia da dimensão dos estragos que a população vem sofrendo ao longo desses anos por conta de vacilações oficiais em larga escala. Basta olhar o velho projeto de redistribuição das águas do Rio São Francisco, quase parado, interrompido, por forças de interesses, enquanto vida de gente e de gado são ceifadas no semiárido e adjacências.
     No Morro do Bumba, em Niteroi, as residências construídas para abrigar famílias vivendo em áreas de risco, depois daquela tragédia, são impróprias para habitação e terão de ser demolidas porque foram mal feitas, ou seja, dinheiro jogado fora e a dignidade daquele povo nas mãos de quem os representa.
     A prefeitura do Rio de Janeiro construiu o bem intencionado BRT na zona oeste, mas toda hora é preciso interromper algum trecho da pista de rolamento, cuja qualidade da obra realizada dispensa comentários.
     Mesmo não tendo o costume de esbravejar contra o poder público, porque alguns membros da sociedade civil já o faz, mesmo que timidamente, a população faz a sua parte, pagando os impostos devidos, seja comprando um pacote de feijão, adquirindo um automóvel, ou descontando em  folha. A população ativa do país colabora, e muito, para que o governo converta o sacrifício do cidadão em bem-estar.
     Mas o eleitor brasileiro não vota em conselheiros de Tribunais de Contas, não elege procuradores, nem membros do Ministério Público e do judiciário, o que pode retardar um pouco mais o fim dessa cultura da meia-sola.
      
     
      

sábado, 12 de janeiro de 2013

A omissão em grande escala

     A chuva não para de cair e tudo continua como antes, apesar da solidadriedade que aplaca um pouco do que ainda pode piorar, mas o certo é que o nível de responsabilidadde pela omissão dos órgãos públicos na questão das grandes tragédias ocasionadas pelas chuvas fortes, sempre nas mesmas épocas e regiões, envolve no mesmo patamar todas as esferas de governo.
     As prefeituras pelo mau uso do dinheiro público em questões de alta relevância e prioritárias; o governo do estado pela timidez com que conduz as políticas públicas para o setor, apesar do empenho da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros na emergência às vítimas; e o governo federal que não toma partido do destino correto dos recursos enviados de órgãos sob sua administração.
     Com a intensidade dos problemas que se acumulam a cada ano já não bastam apenas a implementação de projetos que minimizem os efeitos das chuvas, mesmo porque eles nunca saem do papel. É necessário a criação de mecanismos que fiscalizem a aplicação do dinheiro público, com a participação efetiva dos Tribunais de Contas, Procuradorias, e Ministérios Públicos para eventuais denuncias contra administradores de má-fé e negligentes com a coisa pública.
     O judiciário brasileiro tem um papel muito importante na penalização de agentes públicos nefastos, principalmente quando a vida humana estiver em jogo, como em edições passadas de questões mal resolvidas nas tragédias na Região Serrana, e agora, em Duque de Caxias, onde  o velho problema do lixo urbano, de responsabilidade da prefeitura, já desenhava a catástrofe que se verifica hoje.
     Recentemente, a bancada fluminense no Senado e nas Câmaras federal e estadual se reuniu em defesa dos royalties do petróleo para o estado. Curiosamente não se vê o mesmo empenho por parte dos parlamentares nesse problema crucial e emergencial, considerando a prerrogativa de agente fiscalizador que o cargo representativo sugere, o que em caso de ingerência na administração pública, redundaria em processo contra prefeitos que põem a vida da população em risco, embora esses malfeitores sempre utilizem os recursos que a lei lhes dispõe para se livrarem de punição exemplar, como ocorre atualmente no processo do mensalão.
     A omissão e a corrupção se diferem pelas circunstâncias de suas ocorrências, mas se parelham pela interrupção de grandes projetos concebidos para viabilizar a vida da população. Lamentavelmente, em todo esse cenário de tragédia há sempre suspeita de irregularidades com os recursos destinados às obras de reconstrução, mas que infelizmente não desperta nenhuma investigação profunda para punir quem quer que seja.
     O mesmo acontece com outros projetos de grande magnitude e nenhuma solução quanto à execução das obras, assim como qualquer satisfação à sociedade sobre as lentidões e interrupções dos expedientes.
     Aqui no estado do Rio de Janeiro, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara se arrasta há duas décadas, pelo menos, mesmo com altas cifras destinadas para tal fim, incluindo recursos do Fecam e dos royalties do petróleo, fora os recursos captados de bancos internacionais.
     No nordeste do país, um contingente considerável de gente que sofre com a estiagem naquela região ainda espera as obras de transposição das águas do Rio São Francisco, que finalmente teve início, mas sem o esforço e a seriedade, dos quais um grande empreedimento necessita.
     O que não falta é exemplo de como a omissão do poder público atravanca o desenvolvimento das cidades, estados e do país como um todo.
     Não custa lembrar que pouco ou nada foi feito para seguir os ítens que foram discutidos durante a Rio+20, ano passado.
     De qualquer forma, se não for para reciclar esse lixo que infesta a vida das pessoas, que pelo menos prenda ou interdite essa gente que torna a vida das pessoas um lixo