quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Nilton Santos nunca morrerá

    Quando Nilton Santos ousou ultrapassar a metade do campo para investir lá na frente, partir para cima do adversário, fazer as vezes de um atacante impetuoso e bater de frente com seu oponente, outros defensores com a mesma visão progressista para aquela época certamente tiveram a petulância de avançar além dos domínios de um mero lateral que apenas defendia a retaguarda.
   A diferença é que Nilton Santos promoveu sua sorte e ousadia com maestria e elegância, sabedoria e malícia, elementos essenciais para se enquadrar um grande boleiro na galeria dos maiores astros do velho esporte bretão.
  Tanto na seleção brasileira quanto no Botafogo, poucos envergaram com a energia do grande mestre a velha camisa 6 por ele imortalizada. 
   Toda vez que aventarem a ideia de escalar o scratch de todos os tempos, Nilton Santos figurará sempre lá na lateral esquerda, porque a Enciclopédia é atemporal, seja com bola de meia ou a contemporânea, com efeito visual; seja em campo de várzea ou da verdejante zona do agrião.
   Se existe um divisor de águas no mundo do futebol, Nilton Santos é que representa essa nova era, da dinâmica dos destacados estrategistas à desenvoltura de quem poderá um dia se tornar um ícone dentro das quatro linhas, tão ou menos brilhante que Nilton Santos.
   Eu desconfio até que muito da filosofia pregada em preleções, pranchetas e outras geringonças ainda não está à altura do que Nilton Santos inaugurou para a glória do futebol moderno.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Deixou chegar, o Flamengo é campeão

   Não poderia haver outro resultado que não fosse o triunfo do Flamengo no Maracanã. Uma festa que reproduziu fielmente os velhos tempos do maior do mundo, sem as imposições do tal padrão FIFA.
   A festa que se viu nessa nova conquista do Flamengo, além de reeditar os maiores feitos, consagra também a glória do grande estádio do povo e a identidade de quem nunca perdeu sua majestade, mesmo com outra roupagem.
   E a paixão de uma grande torcida se confunde com a história de um grande palco, de um grande templo.
   Em nenhum momento o adversário de agora, o Atlético Paranaense, demonstrou o ímpeto de quem almeja desbancar o Flamengo diante de sua grande nação, que apesar do fôlego inflacionário do novo sistema, pagou mais do que podia para representar o que sempre foi alma do futebol carioca: o envolvimento total e irrestrito da torcida do Flamengo ao projeto do rubro-negro de conquistar essa Copa do Brasil, num ano que começou cheio de incertezas quanto o futuro do time nesta temporada.
   Se no Campeonato Brasileiro o Flamengo amargou sucessivos revezes, sem perspectiva de se manter no topo da tabela, na Copa do Brasil, o Flamengo em nenhum momento demonstrou a apatia da outra disputa.
   E se a torcida rubro-negra fez a sua parte em momentos vacilantes da equipe, não seria diferente nessa Copa do Brasil, cada vez que o time do Flamengo suplantava um adversário e prosseguia na competição. Cabia então ao time corresponder em campo a toda confiança da grande nação rubro-negra.
   Então, imperou aquilo que já virou um eterno clichê: deixou chegar.
    Pois, é. Uma vitória para coroar uma grande conquista e blindar sua imensa torcida, que apesar de todo esforço financeiro para se adequar ao novo Maracanã, tem agora o mérito de gritar bem alto.
   É campeão!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

No rastro do mensalão

   A corrupção no Brasil não é coisa que vai se extinguir com uma simples canetada, ordens de prisão, uma nova interpretação das letras da lei, dos regimentos e das artimanhas.
   Nos tempos em que era preciso dar uma satisfação para a comunidade internacional de que o Brasil inaugurava de fato uma nova era, a democracia reinstalada por aqui era vendida lá fora sem os vícios dos sistemas e regimes anteriores.
   Quaisquer aberrações e distorções no curso da nação brasileira ficavam completamente ilesas de execuções sumárias ou pouco convincentes para os padrões do que a sociedade como um todo considerava hostil e maléfica.
   Nesse espaço de tempo em que a corrupção dura no país, já impregnada no tecido social, os instrumentos jurídicos de que dispomos, mesmo não traduzindo impecavelmente as punições devidas, à altura de grandes danos causados, é o mínimo de resposta que o Supremo Tribunal Federal poderia dar à opinião pública, agora que a insatisfação popular ganhou as ruas.
   Os desdobramentos de um processo longo e extenuante como foi o caso do mensalão, apesar dos meandros que uma legislação arcaica oferece aos malfeitores da coisa pública, num primeiro olhar, pelo menos reverte a impunidade, alvo de indignação tanto quanto dos malfeitos em si.
   No entanto, a mesma inclinação e fôlego que o Supremo Tribunal Federal demonstrou para repaginar os mecanismos jurídicos, agora sob o olhar mais atento da população, terá sido em vão se os outros poderes não seguirem esse mesmo ritmo. Até porque, estão nos ambientes do Legislativo e do Executivo a gênese de todas as maquinações políticas que afrontam e deturpam a administração pública.
   Vale lembrar que esse processo nefasto engendrado pelos mensaleiros teve similares em gestões anteriores, que chegaram a derrubar presidente, e em outros momentos, simplesmente caíram no esquecimento por força do corporativismo que por vezes tinha voz ativa no círculo jurídico.
   Se o desfecho da Ação Penal 470 vai ter efeitos nebulosos nas hostes do Partido dos Trabalhadores, só a cúpula da legenda poderá apagar essa mancha na história de quem mais levantou a bandeira da moralidade pública.
   Na verdade, a engenharia dos mensaleiros e de outros grupos políticos de outrora não é exclusividade do âmbito federal. Como ocorreu em São Paulo, na esfera estadual e municipal, vindo à tona agora, outras siglas de destaque no cenário político também podem ter implicações nas administrações de outras unidades da federação, o que faz do combate à corrupção um projeto de ordem nacional, com ênfase em grandes reformas política, eleitoral e penal, sobretudo.
   Para que no rastro do processo do mensalão não fique apenas o ensaio de um novo horizonte.

    

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Filipinas em ruínas

   Quando um país como as Filipinas é assolado por uma grande tragédia não é novidade que várias nações se apressam para enviar provisões de toda ordem, com o intuito de, pelo menos, amenizar a dor de vítimas de desastres naturais de grandes proporções.
   Muito tem se discutido sobre programas de prevenção de acidentes naturais, principalmente nos países onde há uma incidência maior desses sinistros.
  Em 2004, quando a Indonésia foi varrida por um tsunami, especialistas do mundo inteiro ventilaram a possibilidade de dotar aquele país de tecnologia capaz de prever outros acidentes, evitando grandes tragédias e, consequentemente, perdas humanas.
   Com muitas dificuldades as Filipinas certamente vão reconstruir, mesmo que num tempo longo, toda a área agora destruída por mais uma catástrofe. Mesmo que a economia local permita ensaiar algum projeto para evitar outros prejuízos para a infraestrutura do país, o governo filipino precisará de aporte tecnológico vindo de outras nações para solucionar um problema que faz parte do cotidiano do país asiático, pela sua localização geográfica em área de constantes turbulências.
  Para os países que conseguiram erradicar esse problema dentro de seus domínios, como o Japão, de grande potencial econômico, fica a contribuição na forma de conhecimento adquirido em pesquisas que demandam altos recursos, precisamente bem distantes da realidade financeira das Filipinas.
   Inaugurando a Semana Internacional da Ciência e da Paz, o Secretário-Geral da ONU, Ban ki-moon alertou que grande parte do mundo está excluída de avanços científicos. Dentro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que a ONU promove se encaixa perfeitamente essa questão do conhecimento que o órgão pretende disseminar.
  Ao acrescentar que a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger toda a humanidade contra os usos destrutivos da capacidade científica, é bom lembrar que o poder científico também pode trazer tantos benefícios quanto a educação e agricultura moderna, por exemplo.
  Os efeitos de desastres naturais na infraestrutura dos países vitimados e, principalmente, em vidas humanas, já obriga a inclusão de futuros projetos de prevenção de acidentes na questão da sustentabilidade, tão propalada em encontros anteriores.
   A iminência de aumento do aquecimento global sugere uma corrida urgente de todas as nações, sob pena de essas tragédias terem conseqüências mais drásticas num futuro próximo.
   Porque as nações que sistematicamente poluem o planeta têm muita culpa nessa recente tragédia nas Filipinas, agora em ruínas.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Por que a Perimetral?

   Já não era surpresa para ninguém que a interrupção e posterior derrubada da Perimetral fosse trazer transtornos ao trânsito da região portuária.
   Não se esperava, no entanto, que a prefeitura se abstivesse de um planejamento mais profundo, antes de demolir o Elevado, por onde passa cerca de 60 mil veículos por dia.
   As duas vias binárias dificilmente vão comportar a mesma carga de veículos com o mesmo fluxo, já que estas funcionarão com paradas frequentes, devido aos semáforos em suas extensões, o que certamente vão comprometer o tráfego local na hora do rush.
   Dentro do projeto arquitetônico e urbanístico que a prefeitura pretende implementar para a região estão incluídos empreendimentos de cunho comercial e residencial, provocando uma massa adicional de pessoas se deslocando para aquele local a todo instante, de modo que o modelo de mobilidade urbana concebido para aquela área talvez não absorva o futuro contingente esperado.
   Numa cidade como o Rio de Janeiro, imersa em problemas estruturais a serem solucionados, nenhum projeto de intervenção urbana terá alguma funcionalidade se ficar restrito apenas ao caráter estético.
   Enquanto os arautos do paisagismo e da superficialidade vêem a Perimetral como um monstrengo a manchar o cartão-postal da cidade, os mais racionais e imbuídos numa causa mais ampla e sustentável enxergam outros obstáculos para o mesmo projeto de modernização da zona portuária.
   Se a questão da mobilidade urbana é parte fundamental do projeto Porto Maravilha, há que se compensar a ausência da Perimetral, considerando a sua importância ao longo desses anos como uma das vias de ligação entre pontos de grande demanda da cidade.
   Mais do que o Elevado, agora em vias de extinção, a Rodoviária Novo Rio é o grande fator de estrangulamento, principalmente em horários de pico, e ninguém até hoje conseguiu colocar em prática um antigo projeto de remoção daquele terminal, que pode efetivamente equacionar, em patamares significativos, os frequentes engarrafamentos na região.
   As soluções de que a população precisa vão muito mais além das preocupações com o panorama e o relevo da cidade maravilhosa.

   

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A Cedae como sempre

   Como é dura a vida nessa selva de pedra! Dificilmente o cotidiano do Rio de Janeiro corre no seu curso normal, sem atropelos.
   Parece que o infortúnio na vida do carioca já faz parte até do calendário da cidade. A cada dia um evento novo, diferente.
   Não demora muito vão começar a confeccionar aquelas folhinhas de fim de ano, já com os percalços marcados em vermelho, junto com os feriados e as fases da lua para o próximo ano.
  Enchentes, alagamentos, engarrafamentos constantes, trens lotados, assaltos, tudo contribui enormemente para a efervescência do Rio de Janeiro em toda sua plenitude.
   Os dissabores pelos quais passam habitantes e forasteiros se confundem com a perspectiva de se vislumbrar novos contornos para a cidade maravilhosa, em cujas obras e projetos espalhados por todos os cantos a população espera brotar uma nova urbe.
   A arquitetura dos sonhos não é a que remexe a paisagem e o relevo. É a que funciona no dia a dia da população.
   A Cedae, que nunca foi um primor na prestação de serviços, se tornou, nesses últimos tempos, a grande vilã no Rio de Janeiro, pelos recorrentes registros de contratempos para os moradores.
   A cidade fica praticamente paralisada, toda vez que há alguma mudança, intervenção urbana ou serviço de reparo de toda ordem.
   A essa altura do campeonato, é difícil saber qual o maior absurdo nessa história toda: a falta de perspectiva quanto ao restabelecimento do fornecimento de água ou pagar R$ 4 mil por um caminhão-pipa?   

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dilma acertou em Libra

   Tão logo encerrou o leilão de Libra, começou a enxurrada de críticas a respeito da composição dos consórcios que irão explorar as águas profundas daquele campo nos próximos 35 anos. Apesar do novo formato que o governo federal já tinha sinalizado especificamente para o campo de pré-sal, grande parte dos especialistas não se deu por satisfeito pelo desfecho de todo o processo, acrescentando que a Petrobras poderia, sim, ter tirado mais vantagens do que parece indicar esse novo modelo.
   Mesmo com toda a projeção que havia em torno do potencial petrolífero do território brasileiro, seria quase impossível que a Petrobras se tornasse totalmente independente nos trabalhos de prospecção numa área de dimensões continentais.
   Ainda que a empresa detenha tecnologia de ponta para executar com excelência todas as etapas de produção de petróleo, o montante de recursos necessário para alavancar o projeto em águas profundas não se encaixaria no orçamento da empresa, numa época em que a Petrobras ainda tinha que exportar um volume muito maior do produto para o abastecimento interno, e ainda promover uma sistemática engenharia financeira para que a gasolina, por exemplo, fosse menos dispendiosa para o consumidor.
   O próprio fracasso do Pró-Álcool, na década de 70, contribuiu para que a Petrobras gastasse um montante considerável de recursos, que poderia, já naquela época, está sendo utilizado em projetos futuros de energia alternativa, em cujas matrizes o Brasil demorou a investir, considerando a diversidade de recursos naturais disponíveis em nosso território.
  As gestões passadas, principalmente durante o Regime Militar, não conseguiram implementar esses projetos com os quais as outras nações já acenavam, pela urgência de novas formas de energia, principalmente pela preocupação com o meio-ambiente e a questão da sustentabilidade.
   Mesmo com todo o discurso ufanista do passado, ninguém foi capaz de proteger a nossa riqueza dos predadores de outrora. Qualquer projeto que dependia de capital externo não trazia os resultados que a sociedade brasileira esperava, deixando sempre a economia do Brasil em frangalhos, vulnerável, em função das dívidas que o país acumulava com essas transações cheias de dúvidas e incertezas.
   Agora, a presidenta Dilma Rousseff inaugura um novo modelo de partilha no leilão de Libra, em que a Petrobras fica mais protegida, com a fatia maior na distribuição dos lucros e o petróleo brasileiro finalmente possibilitando investimentos maciços em saúde e educação, e ainda assim uma gama de teóricos de plantão não vê o horizonte que esse novo processo pode descortinar para a população brasileira, com a iminência de geração de empregos, principalmente, tão logo o projeto de Libra comece a movimentar outros setores da economia brasileira.
   O governo federal foi muito feliz em sua decisão e a Dilma muito feliz em seu discurso. Não se esperava outra coisa da presidenta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Os riscos de Libra

   As implicações que cercam o leilão de Libra vão muito mais além dos serviços de prospecção e produção de petróleo oferecidos pelo governo brasileiro a consórcios de capital estrangeiro.
   Não há dúvidas de que esse novo regime de partilha criado pelo governo federal pode trazer mais vantagens para a população nos contratos que serão assinados agora com as empresas que vão explorar o petróleo brasileiro nas próximas décadas, bem diferente do modelo antigo, de concessão, em que o governo recebia apenas os impostos devidos.
   As garantias de que essa nova descoberta do pré-sal vai trazer benefícios reais à sociedade brasileira vai depender unicamente da competência e transparência com que os órgãos envolvidos no repasse dos royalties irão empregar vultosos recursos, especialmente na área de saúde e educação, como ficou decidido por lei no Congresso Nacional, através de proposta da presidenta Dilma Rousseff recentemente.
   O objeto maior de preocupação fica por conta da segurança de toda a tecnologia adquirida através de pesquisa e inovação das principais ferramentas para o trabalho de perfuração já utilizada nos outros campos de grande porte.
   Se a Petrobras hoje é a empresa mais moderna do mundo no expediente em águas profundas, foi também, ao longo desses anos, muito vigiada e monitorada em momentos importantes do processo de desenvolvimento de sua tecnologia de ponta, como ficou comprovado em recentes descobertas de casos de espionagem, da qual a Petrobras foi vítima também.
   Agora, cabe ao governo federal se precaver dos perigos que rondam as áreas estratégicas, principalmente na área de petróleo, até hoje objeto de disputa de grandes nações dependentes dessa riqueza para alavancar suas economias, por meio do fortalecimento do parque industrial.
   Em cinco anos, prazo previsto para o começo da produção em Libra, é possível encontrar meios de blindar todo o projeto desenvolvido até agora, que permitiu que a Petrobras chegasse a esse patamar de uma grande empresa, assim como minimizar os impactos de eventuais acidentes ecológicos provenientes dos trabalhos que serão realizados futuramente naquela área.  

   

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ao mestre com justiça

   A Tia Vanda era uma professora muita enérgica, autoritária, a ponto de bater fortemente com o apagador na carteira para silenciar o burburinho, o falatório, a balbúrdia que se instalava em sala de aula. Ela chegava a morder a língua com a onomatopeia de um cão raivoso como ameaça maior a tão impertinentes pirralhos que éramos.
   Sua reprimenda à frente dos colegas era como um açoite em praça pública a quem se atrevesse com desobediência.
   Para sorte de outras gerações que passaram pelo crivo da Tia Vanda, não era possível que coubesse nas vestes daquela bruxa apenas a substância dos grandes tiranos. Era inaceitável que não houvesse naquela índole maquiavélica um naco qualquer da essência de uma fada.
   E tinha. Se o conforto dos rebentos é o afago de suas amas-secas, para nós, pupilos da Tia Vanda, a ternura reservada vinha dos traços de giz, rabiscando para os mais frágeis seres de cara para a lousa envelhecida a sapiência em linhas tortas, de garranchos, no papo reto cuspindo o futuro em forma de sopa de letrinhas, soprando o conhecimento para quem estiver sentado, prestando a atenção, senão te puxo as orelhas.
   Não sei por onde anda a Tia Vanda. Talvez ela nem esteja mais envolvida com birra, teimosia, ditado, conselho de classe e reunião de pais.
   Pode ser que nem esteja mais nesse plano. Se estiver, certamente estará imaginado os engenheiros, advogados, jornalistas, garis, professores e tantos outros que ensaiaram seus projetos, construíram seus próprios sucessos e fracassos, e que sobreviveram para relembrar os sonhos, as utopias, as fantasias e os desejos que a Tia Vanda ajudou a realizar.
   Nas lembranças que eu tenho da Tia Vanda não tem as agruras do magistério, as impertinências do poder público com as outras tias de todos os recantos.
   A justiça para a Tia Vanda é o afeto dos nossos governantes para a classe mais importante desse país.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Expansão urbana e insustentável

   O Jornal Destak, distribuído nas ruas do Rio, publicou uma reportagem sobre dados do IBGE, dando conta de que o tempo médio gasto na ida ao trabalho na região metropolitana é de 47,3 minutos.
   Não é difícil chegar a esse número, mesmo com toda a diversidade de trajetos percorridos, oriundos de várias partes do Grande Rio com destino ao Centro da cidade e Zona sul, regiões que concentram a maior parte da população ativa da região metropolitana em seu local de trabalho.
   Ainda que a pesquisa focalize o inferno diário do trânsito do Rio, com ênfase nos usuários de carro e ônibus, há que se levar em conta os outros modais, trem e metrô, principalmente, que contribuem enormemente para o martírio diário da população fluminense.
   Se a prefeitura do Rio está fazendo algum esforço para melhorar a qualidade do sistema de ônibus na cidade, com promessa de aumento da oferta de coletivos à população, é pouco para equacionar o problema de transporte urbano do Rio de Janeiro.
   A própria pesquisa mostra o tempo de deslocamento na região metropolitana, que inclui as pessoas vindas da Baixada Fluminense, Niterói, Alcântara e São Gonçalo, que de uma forma ou de outra, utilizam os serviços da SuperVia, MetrôRio e Barca S/A.
   No futuro, por mais excelente que seja o sistema viário nessas regiões onde a prefeitura está investindo, com a Transcarioca e a Transoeste, ainda assim a mesma gama de pessoas continuará se deslocando para o Centro, Zona Sul e Barra da Tijuca, pela Avenida Brasil, Ponte Rio-Niterói, Linha Vermelha e Linha Amarela, além da outra parcela que desembarca também todos os dias na Central do Brasil, cujos trens trazem uma massa considerável da Baixada e Zona oeste.
   Portanto, não é difícil perceber que esse problema de mobilidade urbana ultrapassa os limites do que Eduardo Paes pode e deve fazer.
   Nesse momento em que as três esferas de governo estão irmanadas em projetos para o Rio de Janeiro, perde-se a oportunidade de implantar na região do Grande Rio um modelo que abranja efetivamente toda a população fluminense, nesse velho trajeto casa-trabalho-casa.
   Algumas intervenções que a prefeitura do Rio vem desenvolvendo para a cidade têm em sua agenda apronto para os Jogos Olímpicos de 2016, mas sem as garantias do tal legado à população, lembrando que o ex-prefeito César Maia também tinha essa premissa básica quando da preparação para o então Pan2007 e não houve nenhum resultado que configurasse algum legado para a cidade.
   Agora, especialistas sugerem outros projetos de adensamento urbano para os subúrbios do Rio, com vistas a empreendimentos imobiliários nessas localidades esquecidas pelo poder público, mas que desperta a cobiça de grandes construtoras pela especulação em áreas agora mais valorizadas.
  Na verdade, é preciso, sim, adensar essas regiões fora do eixo Centro-Zona Sul, mas com políticas de trabalho e renda também, de forma a fixar uma parte da população ativa do Grande Rio em seus locais de origem, pulverizando, assim, um grande contingente populacional que se desloca rumo ao Centro da cidade do Rio de Janeiro todos os dias.
   Seria uma forma de desafogar o trânsito do Rio e melhorar a qualidade de vida das camadas menos favorecidas, com investimentos e parcerias que atraíssem grandes empresas para essas regiões distantes do Centro.
   Mesmo que os resultados venham em longo prazo, basta vontade política das três esferas de poder.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A vez de Marina Silva

   Pode ser que até a eleição presidencial qualquer pesquisa de opinião não consiga traduzir efetivamente o comportamento do eleitorado, tanto para rejeição como para alinhamento a um determinado candidato.
  Se a cada pleito surge um fenômeno de voto a desbancar a situação, Marina Silva difere pela forma inusitada com que se enveredou para a próxima disputa presidencial.
   Para os principais protagonistas do atual jogo político é inegável o estardalhaço que a ex-senadora já deve estar causando ao se juntar à legenda que mais pode incomodar e desconstruir um longo processo de alternância de poder, que em toda eleição que se preza há sempre um candidato emergente ou do segundo escalão querendo interromper. Uma marca da Velha República, aliás, o alvo para o qual Marina Silva disparou em sua primeira explanação como filiada ao PSB de Eduardo Campos.
   Se Marina Silva vai sofrer rejeição ou apoio pela inusitada aliança, é cedo para mensurar essa nova corrente. O mais importante é que surge em um momento crucial do cenário político uma nova força capaz de desmanchar a polarização entre o PT e o PSDB nos últimos 20 anos.
   O PT com a máquina administrativa à mão, e o PSDB pela força nacional, certamente não medirão esforços para neutralizar essa corrente política emergente quando os palanques forem armados, na tentativa de desqualificar, tanto o PSB em seus polos regionais, quanto o Rede, ainda no ventre de Marina.
   No entanto, nenhum discurso com ataques diretos à Marina Silva e Eduardo Campos não poderá ignorar os protestos desse ano pré-eleitoral. Como ficou evidente nas manifestações pelo país afora, há uma grande repulsa aos partidos políticos, o que pode beneficiar uma eventual chapa formada pelo governador de Pernambuco e a ex-senadora, considerando o histórico e a trajetória política de ambos, pelo menos até aqui, imaculados aos olhos da opinião pública.
   O único elemento que pode remexer os números da massa pró-Marina/Campos é o estigma que cada um carrega no currículo: Eduardo Campos pouco conhecido em outros colégios eleitorais; e Marina por suas posições em relação à questões controversas, cujas discussões ainda dividem o eleitorado, que por força de aspectos culturais ainda é conservador na hora de direcionar o seu voto.
   Com isso, muita gente ainda torce o nariz para o baixo clero político, toda vez que alguma figura emergente desponta na cena política propondo discussões e debates sobre temas complexos como drogas, aborto, armas, meio-ambiente, religião e outras reformas de que o Brasil precisa.
   Assim como já ocorreu com outros proponentes aos cargos públicos mais importantes do país, não há dúvidas de que Marina Silva será açoitada por grande parte da população teleguiada pela elite política, mídia, Igreja e grandes corporações com discursos bem formatados para excluir o negro, o gay, o nordestino, o evangélico, o babalorixá e outros expoentes do círculo do poder.
   Definitivamente, Marina Silva não é a personificação da pureza. Ainda bem. Pois o Brasil não precisa de gente pura, e sim, de pessoas íntegras. E isso a Marina é, até que provem o contrário.