quarta-feira, 19 de maio de 2021

UMA MANCHA NA DIPLOMACIA

 

   Mesmo antes da CPI da Covid o diplomata Esnesto Araújo já tinha dado mostra de sua desastrosa atuação como titular da pasta das Relações Exteriores, num comportamento que passa bem longe do que sugere as funções do cargo.
   Vale lembrar que ele só conduziu essas negociações para compra de vacinas e insumos de outros países por sua qualificação na área financeira dentro de seu currículo de diplomata.
   Inclusive, Ernesto Araújo serviu na embaixada brasileira em Berlim no começo da carreira, tratando de assuntos econômicos. No período em ficou por lá, certamente adquiriu experiência para o futuro da carreira.
   Talvez tenha ficado tão focado na lida, que nem percebeu, em sua estada na Alemanha, que o Nazismo não é de esquerda, como andou explanando por aqui, rachando o bico da opinião pública internacional e passando vergonha do Brasil além de nossas fronteiras. Mas isso é outra história, deixa pra lá.
   Mas, ainda que seu depoimento na CPI não mude ao rumos da investigação ou traga alguma novidade para os trabalhos da comissão, sobre culpas e responsabilidades pelo atraso na vacinação da população, Ernesto Araújo vai ficar marcado como o sujeito que quebrou o protocolo da diplomacia brasileira, mudando completamente as prerrogativas do cargo.
   Dificilmente, analistas, palpiteiros e outros suspeitos e mentirosos  vão  esquecer do diplomata que em vez de mediar conflitos, simplesmente os criou. É a primeira vez que um diplomata bota mais lenha na fogueira, em vez de apagar o fogo.
   De repente, nem nas Guerras a representação diplomática dos países conflitantes adotou procedimentos tão beligerantes quanto esses ataques velados à China, que se ainda  não é o número um da globalização, já é o maior parceiro comercial do Brasil, um cenário que nem a sanha ideológica do Ernesto Araújo vai mudar, ainda mais que o Donald Trump, sua referência maior, em quem o brasileiro sustentou toda a sua tese e discurso, saiu completamente de cena.
    É lamentável que a diplomacia brasileira  carregue essa mancha na sua trajetória de relações internacionais, através de um personagem como foi o Ernesto Araújo, que não foi escolhido pelos critérios comumente usados para preencher cargos, tanto no Ministério das Relações Exteriores como nas representações diplomáticas, em que se exige o mínimo de habilidade, bom senso e inteligência para lidar com conflito.
   O Brasil sempre se destacou quando sua diplomacia foi acionada para mediar conflitos de toda ordem em que nosso país esteve envolvido. Há uma lista extensa de personalidades que representaram dignamente o Brasil, sem que nossa imagem ficasse arranhada.
   Para o Brasil, que teve o Barão do Rio Branco, por exemplo, como referência maior da diplomacia do país, é triste para a sociedade brasileira saber que já fomos também mal representados um dia.

                          Foto: Wikipédia  

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O AVESSO DA VIDA

 

   Não deixa de ser interessante quando a mente cria percepções da realidade humana através de eventos aparentemente simples e corriqueiros.
   Dias desses  eu fiquei prestando atenção na centrífuga da máquina de lavar, imaginando as voltas que o mundo dá e  todos nós dentro, naquela viagem giratória constante. Era fácil perceber que a cada volta completada as roupas mudavam de posição, de formato, cada uma delas, entrelaçadas ali, modificando a todo instante a configuração de todo o conjunto.
   Numa dimensão bem distante de nossos olhos dá pra transportar esse movimento para a própria rotação da Terra e tudo que se passa em seu interior, bem aos moldes de como formulou James Lovelock em sua Teoria de Gaia, segundo a qual nosso planeta é um organismo só.
   Guardadas as devidas proporções é possível reproduzir e encenar na rotação da máquina o meio em que vivemos, tão importante nesses dias atuais, em que o individualismo parece prevalecer sobre o coletivo, e uma parcela significativa perdendo completamente a noção dessa premissa básica à vida de cada um e do conjunto.
   Certamente o entendimento que se faz sobre a função e a responsabilidade de todos vem dessa visão bem amplificada de tudo que se passa ao nosso redor e os efeitos de todas as práticas nesse  processo.
   Agora, tão importante quanto essa visão global de uma engrenagem única é a parte que cabe a cada um nesse mecanismo que não para, apenas se modifica.
   É quando a máquina, a de lavar, claro, interrompe a centrifugação e revela o estado de cada peça depois de várias voltas que o mundo deu, e eis que algumas roupas saem ao avesso, num cenário que é a própria matriz de nossas vidas.
  Pois é, nessas voltas que o mundo dá estamos sempre nos deparando com pessoas ao avesso também, além de nós mesmos, flagrados nessas condições, constantemente, por vício, delírio ou necessidade, dependendo de como cada um se quer para si ou para o mundo.
   Há aquelas que vivem ao avesso por pura miséria espiritual, sem nenhuma possibilidade de contribuir para sua própria evolução, para o mundo, então, nem pensar.
      Algumas outras são postas ao avesso por influência externa, hesitando entre o amor próprio e o mundo que as cerca, colocando seus próprios  valores em segundo plano, porque normalmente há um delírio em suas convicções pela falta de fidelidade a seus princípios, e isso pode ser nocivo para o seu crescimento.
  Outras, simplesmente, se põem ao avesso pra se auto avaliarem, reverem seus conceitos como forma de se moldarem por dentro, por acharem que o que tem de melhor pra oferecer ao mundo também precisa ser renovado com frequência.
   Enfim, nessas voltas que o mundo dá, estamos todos sacolejando a todo instante com vistas a grandes transformações que possam efetivamente repercutir, tanto no particular quanto no geral, cada um em seu tempo adequado de afirmação, tal qual as roupas, cada uma com um tempo certo pra secar.
 
          

sábado, 8 de maio de 2021

O VELHO PALIATIVO

 


  Não adianta, não tem jeito, qualquer assunto que deveria ganhar a dimensão de um grande debate acaba se politizando e, para ser mais específico, se polarizando dentro de um ambiente onde dificilmente brotam as soluções para o problema em questão.
   Não seria diferente nessa operação policial na Favela do Jacarezinho, que num primeiro olhar só ganhou toda essa repercussão por conta do número de mortos no confronto naquela comunidade.
   Agora, restringir a discussão apenas pela classificação que cada lado rotulou o caso só empobrece o debate com essas contendas de redes sociais, onde uma parte chamou de chacina, outra, de faxina, como se o desfecho da operação, dentro de resultados práticos dependesse apenas da forma como o assunto é tachado.
   É compreensível que haja essa divisão de cunho ideológico, mas há outros fatores, outros elementos que devem ser incluídos na discussão, permitindo um outro posicionamento a respeito do problema, de forma que o verdadeiro debate transcorra fora desse ambiente de polarização.
   No caso da velha questão da segurança pública, todo mundo já está careca de saber de vários eventos anteriores que sem um planejamento adequado, levando em conta os outros tais fatores e elementos dificilmente se terá resultados promissores, isso é certo, inclusive, o próprio governador Cláudio Castro, recentemente confirmado no cargo, não anunciou nenhuma medida para o setor, como costumam fazer os mandatários ao assumirem o poder.
   Mas, de qualquer forma, a população sempre vai comemorar a eliminação de indivíduos que atentem contra a paz da população, contra agentes de segurança, enfim, que tragam instabilidade para a sociedade, mas tudo dentro de medidas que tragam as respostas que a população quer.
   Na verdade, essas incursões policiais de forma esporádica em comunidades estão longe de trazer a paz para a população do Rio de Janeiro. Veja bem, foram mortas cerca de 28 pessoas supostamente ligadas a ações criminosas, mas, e aí? Acabou o problema lá no Jacarezinho? O tráfico de drogas local foi interrompido de vez? A polícia desbaratou de vez a quadrilha, desmontando seu esquema financeiro? A paz finalmente voltou à comunidade? A cúpula de segurança pública do estado tem planos para ocupar o Jacarezinho e inibir a retomada da bandidagem local?
   Bom...na atual conjuntura não tem como responder positivamente a esses questionamentos, está estampado para todos verem aí, dando mais uma vez a impressão de um fato isolado, bem distante de uma proposta que amenize os efeitos da violência que há tantos e tantos anos vem trazendo agonia e apreensão ao povo do Rio de Janeiro, já calejado de tantos esforços que já foram feitos para estabelecer a tranquilidade que todos nós merecemos.
   A última vez que aventaram a possibilidade de eliminar toda a sorte de delinquentes de nosso convívio, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), todo mundo sabe que fim deu, foi apenas um ensaio de coisa séria.
   Portanto, é melhor que a questão da segurança pública e tantos outros problemas que o Rio de Janeiro tem seja discutido e conduzido fora do espectro ideológico, e sim, de acordo com nossas próprias necessidades, que tanto no morro quanto no asfalto são as mesmas, uma realidade que nem esse mimimi todo consegue esconder.

                          Foto: Revista Exame 
 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

CRECHE AMORA EM AÇÃO


 
  Nesses tempos de pandemia, em meio à toda a agonia pelos efeitos da Covid-19 e à expectativa pela imunização de toda a população, sobra espaço, tempo e vontade para ações que visem o bem-estar das pessoas, com ênfase no futuro da sociedade.
   E nada melhor que implementar através das crianças esse projeto de inserção dos valores que possam interferir positivamente na formação de cidadãos conscientes do papel de cada um na sociedade.
   Foi com esse cenário e perspectiva que a Creche Amora do Flamengo organizou nesta sexta-feira(30)  a “Mostra Saúde Para Todos” com trabalhos produzidos pelos próprios alunos da escola.
    A exposição reuniu  fotos, cartazes, pinturas e colagens, todos com uma mensagem inserida, revelando num primeiro olhar a consciência e a importância de hábitos saudáveis no cotidiano das crianças.
   Através das brincadeiras em sala de aula, que deram origem a todo o material da exposição, as crianças tiveram noção de cidadania, educação,  higiene e, principalmente, solidariedade, que pela interação demonstrada nas fotos expostas, já desperta uma nova mentalidade nos pequenos, como uma marca para as próximas gerações.
   A Assessora de Comunicação da instituição, Nina Amorim, ressalta a importância da exposição para o crescimento e evolução dos alunos da Amora. Para ela, é importante que as crianças tenham responsabilidade social e um olhar mais humano para as questões sociais.
   Nina destaca ainda a função social da Amora e o trabalho que ela já desenvolve ao longo de sua trajetória. “ Nós já  trabalhamos há muito tempo esse conceito de cidadania nas crianças aqui na Amora”, disse a assessora.
   E seguindo os alertas sobre a pandemia a exposição mostrou os cuidados repassados às crianças com a higienização e os protocolos para o combate à doença, além de cartazes e fotos em defesa da vacinação em massa, apoio à Ciência e ao Sistema Único de Saúde, numa demonstração de alinhamento total da Creche Amora aos procedimentos de imunização contra a Covid- 19.
   A Mostra ainda aproveitou a ocasião e arrecadou alimentos para doação, numa ação bem alinhada à proposta da escola para a formação de seus alunos. Para Nina Amorim, a Creche Amora vai sempre pensar a criança para o futuro, para que ela tenha noção de cidadania e um olhar para o próximo.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

A FÉ NO BARQUINHO

 

  Já escrevi em alguma ocasião que a fé é uma força estranha, uma manifestação íntima de como as pessoas projetam suas vidas, dando-lhes direção. Bom.. estranha não é, pois já se convencionou utilizar os instrumentos de fé para propósitos de qualquer natureza. Pode até ser estranha para muita gente a forma como a fé  se manifesta na mente voltada exclusivamente para as coisas positivas que cada um reivindica para si, em que tudo vai fluindo e de repente aquilo que mais se desejava se materializa à sua frente, como num passo de mágica.
   Deve ser estranha mesmo para muita gente essa conjunção de fatores ao sabor das maiores e melhores energias configurando justamente o cenário que você projetou para a sua vida no futuro, ou como urgência de um desafogo de ocasião. Para muitos deve ser mesmo  muito estranho que haja essa conexão direta e imediata por via espiritual e a construção de tudo que se possa acreditar como possível na vida.
   Só não é estranha para quem já se acostumou a atingir seus objetivos por intermédio da crença que cada um pratica. Só não é estranha para quem sente constantemente na pele e na alma a força que surge quando se eleva o pensamento para o plano espiritual em que tudo se desenrola favoravelmente.
   É nessa parte que a fé é íntima, pois fica restrito ao seu universo particular, ainda que você projete suas esperanças e certezas para o mundo e a humanidade em geral. Você se recolhe à sua própria importância de vida; se desliga do mundo ao seu redor, das pessoas, até da rotação da Terra. O coração só pulsa pela expectativa do melhor que vai acontecer, da grande graça que virá, da grande dádiva que você fez por merecer nesse momento sublime de recolhimento interior.
   Muita gente não vai entender como você resolveu suas crises, seus conflitos internos, suas dívidas e vícios porque não sabem que você se concentrou para isso. Quando todo mundo nem imaginava que seu barquinho saísse do cais, eis que ele já até voltou da tempestade. Foi justamente no momento de maior perrengue, o barco quase à deriva, que você se fortaleceu para esse retorno triunfal.
   Diante de grandiosos acontecimentos em sua vida, é natural que a sua fé cause esse estranhamento nas pessoas que estão completamente alheias à sua satisfação interior. É até melhor que ninguém saiba o que se passou durante a sua angústia; o melhor é que sua fé sirva de exemplo e estimule qualquer um  a receber uma grande graça também.
    E assim o advento de grandes projetos ou dos desejos mais intensos tem na força interior o seu nascedouro. Para uns funciona com a conexão direta com Deus, para quem a gente entrega todos as nossas necessidades, aspirações e sonhos que acalentamos. Para outros se desenha com a interferência de um grande anjo que atende nossos anseios e sopra pra bem longe tudo aquilo que nos aflige, e torna sem efeito todo o mal que lançam em nossa direção, atingindo nosso lar e as pessoas que amamos.
   Fica a cargo de cada um a liberdade de clamar por sua felicidade, sua paz, prosperidade ou outros elementos que preencham a vida, desde que esse processo não cause tragédia aos outros.
   Não acho que exista outro meio de alcançar uma grande graça. Prefiro acreditar que é por meio de um projeto de fé que nascem as maiores conquistas.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

OS ANJOS ESTÃO PARTINDO


  De todas as tragédias que sacodem a humanidade, já está provado que aquela que fustiga as crianças é a mais cruel.
   Não seria menos sofrível se estivéssemos hoje apenas capitulando as vezes em que todos os anjos perderam suas asas para sempre, mas é doloroso demais saber que ainda rola esses eventos em que uma criança se perde ao sabor da estupidez humana.
   Talvez até o velho argumento do destino reservado às pessoas se perca completamente quando quem parte é alguém que pode não ter merecido esse destino; quando quem se esvai nas nuvens poderia fazer a diferença entre nós.
   Agora, os sonhos do indefeso Henry Borel e de tantos outros anjos viraram uma grande lacuna que nunca será preenchida, nem se a lei daqui tivesse o martelo mais pesado do mundo. Se a mão pesada de Deus castigar quem operou essa crueldade ao menino, apenas o próprio anjo receberá o conforto no plano em que ele estiver agora ou para sempre. 
   Para nós que ficamos aqui embaixo, fatalmente veremos a repetição de velhos erros, porque isso já é recorrente na natureza humana, esse negócio de a vida não valer nada. Não há lei que faça reparações à altura do que choramos hoje, aquele pai aos frangalhos tentando juntar os caquinhos, sem a garantia de que ele vai conseguir prosseguir, ainda que sua dignidade e amor estejam intactos.
   Pelo andar da carruagem, estaremos fadados a morrer de angústia ou pelo ódio dos semelhantes, porque dificilmente a ganância, o poder, a inveja vão se desvencilhar do pouco de beleza que ainda nos resta, porque essa gente maldita vai sempre arranjar um jeito de parecer decente usando o velho discurso moralista. Essa gente vai corromper o mundo pra atingir seu objetivo, nem que ele tenha que sujar seu próprio  sangue e sacrificar sua cria pra fingir que é poderoso. 
   Já foi o tempo em que o perigo rondava as ruas, nossas sombras fugindo das bombas, aquele pavor em cada esquina, apenas isso, era só voltar pra casa, tranquilo. Mas eis que vem de berço o infortúnio dos anjos, que por uma conjunção de fatores ou desgraça, como queiram, nasceram do ventre de seu próprio inimigo, porque o poder, o capital estão desfigurando as famílias, quando muitos imaginavam que essa instituição, a mais nobre, por sinal, seria a única fortaleza de pé ao final dos tempos. 
    Quando a gente já sentia um tempo nebuloso pela pandemia e outros males dos novos tempos, eis que o mundo já vinha  definhando pela partida de nossos anjos.
    

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A RESSURREIÇÃO

 

   De todos os simbolismos que cercam as religiões que nasceram no Egito, a paixão de Cristo é o que mais se aproxima da proposta de interação entre povos, nações e as pessoas em seu cotidiano. Tudo bem que houve uma mudança de rumo, em que inaugurou-se o fundamentalismo, esse velho expediente de impor falsas verdades supremas. Nesse quesito, tanto o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo estão no mesmo patamar.
   Se hoje a Bíblia, a Cabala e o Alcorão são decifrados dentro do espectro do poder, não era essa a proposta, mas é visível que com o tempo os cajados de todos eles tomaram formato de cetro até virarem mão de ferro, muito usada nessa  era contemporânea. Basta observar os eventos de guerras, intolerância e falta de ternura com seu semelhante para se confirmar essa leitura diferenciada dos códigos.
   Se eu não estiver enganado, Jesus Cristo criou essa metáfora de que todo mundo teria de carregar sua própria cruz e ao mesmo tempo olhar todos ao seu redor com um único amor, justamente para que fôssemos fortes até um dia, quem sabe, conseguir  evoluir como pessoa humana.
   Se Ele ressuscitou, de repente foi um sinal de que o Cristianismo faria mesmo esse feedback de tempo em tempo para ver se essa gente toma tendência  na vida, porque tá sinistro aqui na Terra essa relação entre os homens de boa e má vontade.
   De qualquer forma Ele vem pra dizer que ninguém entendeu sua mensagem. Vai pagar geral, mas de forma sutil, sem perder a ternura, claro. Pode até  mandar um “Glória a vós, Senhor” pra ficar bonito, mas a última palavra é Jesus Cristo quem dará.
    - Isso é só uma ideia que eu estou vos dando!

quarta-feira, 17 de março de 2021

GRATIDÃO

 

   Tem dia que as árvores nem balançam de tão sinistro que fica o dia. Não tem nem como chamar de calmaria, de sossego, esse estado em que nada se move.
   Na cultura dos pássaros deve ser mesmo  tenebroso uma árvore que não se move que eles nem pousam por ali, ou talvez eles até saibam que um silêncio é necessário por ali, daí irem cantar em outra freguesia.
   Mas o que era estranho, medonho e sem sentido acaba sendo revelador, pois é de um silêncio desse que a gente precisa. Na verdade, nada era tenebroso e triste, tudo era de propósito mesmo, aquela conjunção de fatores conspirando a seu favor.
   Num estado normal de cantoria dos passarinhos, da brisa que abraça as pessoas, esse corre-corre de gente respirando e sobrevivendo, passam mesmo despercebidos as tragédias e um monte de gente partindo pra nunca mais voltar.
   Por um instante a gente até esquece quanto tempo já dura esse negócio e até quando vai continuar esse martírio das pessoas perdendo o fôlego e sumindo do mapa. Por um instante a gente até esquece quantas pessoas nunca mais veremos, porque o cansaço desconfigura a memória. O cansaço de tanto sentir saudade de quem era a extensão de nós. Porque cansa, demanda energia ficar rebobinando a fita e enxergando cada vez mais distante alguém que continua sendo nossa referência e inspiração.
   Agora só há espaço na mente para prosseguir; só há espaço para lutar e insistir; e um cantinho bem apertadinho lá no fundo do hipotálamo  para agradecer a tudo isso. Porque não pode passar em branco a coragem que você ganhou, e o quanto a gente se fortalece mesmo sofrendo revezes a todo instante.
   O cara que perde a mãe, o pai, aquele abraço predileto, sai driblando tempestade e ainda mete um gol, esse cara somos nós que fomos escalados para contar histórias. Esse cara somos nós que vamos oferecer o que temos de melhor. Há um propósito para esses caras que somos nós, que vamos rever as pessoas que nos inspiram e os lugares que nos encantam, não demora muito.
   Daqui pra frente, tudo que envolve esses caras que somos nós é passível de gratidão, desde a grande conquista de continuar a caminhada, passando pelo privilégio de resistir às perdas e a expectativa de um novo horizonte.
   Gratidão sempre.
    
 

sábado, 13 de março de 2021

MISTURA

 

    Parece que houve uma mudança de rumo em nossos planos de se vacinar. Eu falo nossos porque a maioria quer se imunizar, tem até pesquisa comprovando. Dá até pra dizer que passamos de fase, houve uma evolução.
   Se antes mais parecia que ninguém tomaria vacina alguma por causa da implicância do Paulo Guedes em gastar dinheiro, aos poucos o Bolsonaro vai se dando conta de que vai ter de morrer na mão de alguém que venda vacina, não tem jeito. Já teve gente até tentando desenrolar com os chineses pra liberar a mercadoria sem ressentimentos e crise diplomática.
   O Rodrigo Maia não guardou mágoa pelo Baleia Rossi e ligou também pra ajudar; até o Lula, quem diria, também passou um zap pro chinês, lá, dando aquela moral. Afinal de contas, é o Brasil acima de tudo, né, gente.
   Agora a minha dúvida é saber qual delas eu vou tomar, se eu vou poder escolher lá na hora, enfim, ou se eles é que vão decidir qual a que combina com o perfil de cada um, tudo ali, rapidinho pra não atrapalhar a fila.
   O problema maior é a segunda dose que terá de ser a mesma da primeira, já foi tudo acertado, combinado direitinho,  segundo determinação das autoridades sanitárias. Daí que esse negócio de sair comprando tudo pode dar ruim depois. No final das contas vai ter, sim, mais de quatrocentos milhões de dose, mas vai ter de fazer igual ao jogo da velha, os pares certinhos, senão o cara quando voltar lá pra tomar a segunda dose não vai ter a mesma.
   Lembrei agora daquelas resenhas de churrasco, que você leva sua Brahma e no final tem de beber a Itaipava do malandro.  Às vezes, no dia seguinte, você nem lembra que a saideira tinha um gosto diferente.
   Pois é, com as vacinas também não tem como saber o efeito de eventual mistura, se vai alterar o genoma, virar jacaré ou embaçar a vista, sei lá... tá muito cedo e ninguém especulou sobre isso até agora.
   Então, o ideal é não misturar. Até porque, essa nova variante ai, já completamente adaptada ao meio, como bem sugere a seleção natural, já mostrou que veio pra ficar, ficar bagunçando o coreto. Quem é bebedor sabe disso.

quinta-feira, 11 de março de 2021

O STF SOBRA NO BRASIL

 

    Certamente ia dar pano pra manga a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente Lula nos processos referentes à Lava Jato.
   Nem conta como algo que se possa aproveitar as discussões acaloradas nas redes sociais, porque essas resenhas se restringem ao emocional, à paixão, ao fanatismo, elementos que põem mais combustível na velha polarização, sem no entanto acrescentar algo positivo, racional, melhor dizendo. Lembrando que por causa desse comportamento irascível tem gente presa e outras sendo investigadas, justamente por disparar verbos e adjetivos à imagem do STF, numa prática bem corriqueira em Facebook, Instagram e Whatsapp,  nas timelines e storys de gente teleguiada e sem noção.
  Mas isso é completamente irrelevante dentro das considerações  que as pessoas de bom senso fazem para  analisar os fatos da nossa realidade, da nossa história, enfim.
   Agora...falando com toda a seriedade que o assunto sugere, houve quem criticasse a demora do STF em chegar à conclusão sobre as tretas de Moro em conluio com integrantes do ministério público, em toda aquela saga para condenar o ex-presidente.
   Mas, o importante para a sociedade foi a disposição da Suprema Corte, ainda que em caráter monocrático, de interpelar a atuação de um integrante do próprio meio jurídico, no caso do agora ex-juiz Sérgio Moro, que mesmo de instância diferente, não desmantela o corporativismo, que dentro da cultura de qualquer  atividade costuma blindar seus pares de eventuais contratempos em suas funções. Se há registro de algum magistrado que tenha sofrido alguma represália ou punição por sua conduta no ofício, talvez demore um pouco mais até que apareça outro caso com a mesma repercussão das tramoias do Sérgio Moro pra prender o Lula de qualquer maneira, atropelando os trâmites  legais, como bem entendeu Edson Fachin em sua explanação e veredicto.
   Nesses tempos em que a democracia brasileira vive momentos extremos, com ataques de toda ordem, não deixa de ser emblemático que uma decisão dessa natureza, num momento mais que oportuno,  passe a ideia de fortalecimento das instituições, com efeito o próprio STF, que demonstra estar atento a qualquer tentativa de ruptura de qualquer coisa que faça parte da democracia, inclusive o estado de direito.
   O Brasil já viveu tempos sinistros, em que era impensável uma agenda institucional assim tão transparente, digna e comprometida com os ideais que foram firmados com muito esforço no processo de redemocratização do país.
   Ainda que passe despercebido de uma parcela extremamente retrógrada, ignorante e alienada, como se vê no comportamento nas redes sociais, é fundamental que o Supremo Tribunal Federal tenha essa iniciativa, esse compromisso com a democracia, ainda mais por ser o STF o guardião da constituição brasileira.
   A corrupção no Brasil é uma das muitas mazelas que precisamos erradicar, mas dentro do espírito democrático; conforme os mecanismos de segurança e justiça permitem; de acordo com as prerrogativas de cada agente envolvido; sem passar por cima de ninguém nem das leis.
   Se há homens frágeis e imorais para encarar esse grande desafio, temos instituições sérias e fortes como o Supremo Tribunal Federal para implementar esse grande projeto.
 

segunda-feira, 8 de março de 2021

TODO PODER ÀS MULHERES

 

    O único ambiente em que se pode verdadeiramente  discorrer, debater, analisar, implementar e botar em prática quaisquer procedimentos, decisões e atualizações pertinente ao universo das mulheres é o cenário político, não tem jeito.
   As constantes divulgações  de dados e informações dos indicadores sociais referentes às mulheres mostram e sugerem a urgência de políticas públicas que remexam todos esses números atuais  que revelam a discrepância de conquistas, direitos, oportunidades e necessidades das mulheres em todos os seus níveis de atuação na realidade brasileira, que pelo tempo que passou já era para estarem completamente atualizadas, dada a presença cada vez mais forte das mulheres na sociedade.
   A gente transporta tudo para o ambiente político para dimensionar o debate dentro do espectro do poder, que é onde de fato vão se desenhar novos rumos e reverter o quadro atual de danos às mulheres em todos o seus estratos sociais.  É no ambiente político que são traçados todos os projetos que embasarão a importância de todas as mulheres do Brasil.
    É no ambiente do poder que vai se fazer valer a questão da representatividade, o elemento mais importante para se buscar soluções de ordem social, econômica e cultural dentro da agenda feminina. Não tem como resolver questões de qualquer natureza, sem que haja uma representação fiel do universo das mulheres nas casas legislativas, principalmente. Quando se fala de todas essas aberrações que a gente vê  sendo divulgadas constantemente na mídia, a principal delas, a violência contra as mulheres, é no meio político, na seara do legislativo, mais precisamente, que surgirão os mecanismos que vão se adequar à atual realidade brasileira no que se refere à direitos, igualdades e penalizações, toda vez que houver um chamamento para equiparar as oportunidades ou reparar os danos causados às mulheres ao longo de todos esses tempos.
    Para isso, é preciso que mais mulheres componham os parlamentos municipais, estaduais e federal, de forma que se reproduza fielmente o universo das mulheres de todo o Brasil. Apenas com um número cada vez maior de mulheres deputadas, vereadoras, prefeitas, governadoras e presidenta é que será possível fazer alterações nos códigos em vigor, leis penais e trabalhistas, para começar a diminuir o impacto social que agressões às mulheres, por exemplo, geram na sociedade, sem que o atual mecanismo jurídico não puna com o rigor necessário, assim como a discrepância salarial entre gêneros nos quadros trabalhistas das empresas precisa ser equacionada dentro de uma agenda completamente inovadora nesse sentido.
    Todas as mudanças que permitiram uma presença cada vez maior das mulheres na sociedade brasileira seguiram o fluxo normal que também se verifica em outras nações,  inclusive, mas no Brasil sempre houve essa lacuna da representatividade que agora precisa ser preenchida com a urgência e celeridade que a questão sugere. Louve-se a luta de todas as mulheres que ao longo desses anos, dessas décadas, conquistaram seu espaço e deram voz a tantas outras que não tiveram como soltar o seu grito de liberdade e conquista.
   Aos poucos a gente vai vislumbrando esse novo horizonte, em que uma nova composição no cenário político vem trazendo mais reconhecimento e conquistas para as mulheres, apesar da resistência de uma sociedade ainda machista e preconceituosa, que ainda tenta emperrar esse processo.
   Agora, mais do que nunca, todo o poder às mulheres, para que haja de fato uma luz de modernidade na sociedade brasileira como um todo.