sábado, 6 de novembro de 2021

A MARCA DE MARÍLIA MENDONÇA


   Já dá pra fazer uma análise diferenciada do que representou a Marília Mendonça para a música que ela se propôs a cantar. Em outros tempos lamentava-se apenas a morte precoce de uma artista que ainda tinha muita lenha pra queimar.
    Acontece que Marília Mendonça resolveu fazer de sua arte um engajamento. Pois é... num gênero que era estritamente masculino, a moça, mais do que conquistar o seu espaço levantou também a sua bandeira, ou melhor, a bandeira da causa feminina, que já é empunhada em outros movimentos fora da música. Pela profusão de mulheres no meio sertanejo nos últimos tempos, ainda que outras tenham ensaiado a revolução no gênero, foi Marília Mendonça quem fez ecoar mais forte a voz que faltava.  
     Independente do estilo e gênero musical, a gente quer ver a música assim, engajada, politizadora, socializante, além de romântica também que ninguém é de ferro. E a música sertaneja com esse universo de seguidores, com toda essa demanda, todo esse capital que a Marília Mendonça ajudou a multiplicar acabou inaugurando uma nova era.
    É justamente esse formato que o vasto repertório de Marília Mendonça estava formando, arrastando multidões por onde se apresentava, mas que uma conjunção de fatores qualquer tratou de interromper precocemente. É triste demais pra ser verdade que um grito da magnitude de Marília Mendonça tenha se calado repentinamente, justo agora que a mensagem estava surtindo efeito, que o discurso no palco estava se espalhando nas mentes e almas e atingindo o âmago daquela gente, logo agora.
    Agora, é claro que todo o universo sertanejo vai ficar aqui torcendo para que as mulheres, ou os homens também, por que não, que já estão na estrada continuem empunhando essa bandeira, porque a grande massa que Marília Mendonça costumava arrastar é grandiosa demais pra não querer se sentir representada daqui pra frente, porque, certamente vai haver quem continue esse movimento, com aquela linguagem bem direta, coloquial, como era a marca de Marília Mendonça, tipo papo reto, falando na lata.
    Pelo pouco tempo que Marília Mendonça viveu, dificilmente ela passou por todo aquele turbilhão explanado em suas canções, mas certamente vivenciou os dramas e traumas inerentes ao universo feminino; certamente ela só reproduziu em suas composições essa realidade porque a viveu de perto, o suficiente para sair em defesa de seu público.
     Mais que aquele mulherão no palco, aquele vozeirão, Marília Mendonça virou um símbolo, uma referência de como uma causa tão grandiosa vai sempre precisar do ímpeto de alguém assim como a Marília Mendonça, que deixou por aqui, além da saudade e a dor habituais, deixou também um grande legado.

   

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

POR UM TÉCNICO ESTRANGEIRO NA SELEÇÃO BRASILEIRA

 
Foto: Gazeta Esportiva

     
Tem muito tempo que eu não falo sobre a seleção brasileira de futebol, mas ao longo desse período surgiram vários elementos que eu até precisava mesmo para endossar essa breve crítica.
    Independente do desempenho do time numa disputa, qualquer resultado que a seleção vem tendo mostra a inércia que o futebol brasileiro vem também mostrando para o mundo, porque é a seleção a referência, é a seleção que reúne, pelo menos em tese, os melhores, aqueles que se destacam e tal; é para a seleção brasileira que os olhos do mundo estão apontados.
    Há muito se fala sobre a evolução do futebol brasileiro em paralelo ao sucesso de vários jogadores que atravessam a fronteira do Brasil para brilhar em outras praças. O fato de o Brasil ser um celeiro de craques foi alimentando durante todo esse tempo o status do nosso futebol, a ponto de alimentar também o ego dos brasileiros, essa coisa de pátria de chuteira que fez a gente ficar no topo do ranking até geral aprender a jogar bola em todos os cantos do planeta.
     A primeira grande mudança no cenário do futebol mundial foi quando começaram a discutir e debater o futebol enquanto se difundia seus fundamentos em larga escala. É claro que vários personagens, autoridades, teóricos e demais formadores de opiniões aqui do Brasil acompanharam de perto as tendências que surgiam.
    Fica até chato suspeitar que houve algum erro de cálculo, falta de vontade ou uma interferência qualquer que tenha impedido o Brasil de acompanhar as transformações que rolaram, mas é certo que as cabeças pensantes do futebol brasileiro ficaram para trás na forma de conduzir, administrar e aprimorar nossas peladas.
    Não é culpa de nenhum jogador, pois a gente continua exportando o que temos de melhor. Mas o fato de sermos um celeiro de craques apenas fortalece o projeto alheio. Hoje, quando a gente vê o Tite comandando a seleção dá uma tristeza danada vê um desempenho tão pífio, mesmo quando ganha, até porque os adversários têm sido medíocres também. E pela performance dos outros treinadores brasileiros o Tite não está só nesse triste cenário que estamos prestes a mostrar na próxima Copa do Mundo.
    Eu não vejo um treinador brasileiro com uma revolução na cabeça, com uma inteligência a toda prova para fazer frente ao que já se pratica lá fora, tanto que nem contratam técnicos brasileiros no exterior. Os melhores times da Europa têm jogadores brasileiros em seu plantel, mas nenhum são treinados por brasileiros.  Aqui no Brasil mesmo treinadores estrangeiros já ocupam lugar em comissões técnicas. Se antes torciam o nariz para treinadores de fora, pelo menos na visão dos clubes isso mudou.
    Portanto, tá na hora de a CBF rever esse pragmatismo, essa visão tacanha e contratar o que há de melhor na praça, o que não é muito difícil, pois qualquer técnico desses aí top de linha largaria tudo para treinar nossos boleiros. Já andaram fazendo pesquisa um tempo atrás e a própria galera ventilou nomes, aprovando a ideia, eu apoio.
     Nesse ambiente que a gente habita, nessa atmosfera que a gente respira do futebol o Brasil está fadado a fazer figuração nas próximas disputas, digo isso com segurança, mas, claro, acreditando que pode haver uma reviravolta, mas com resultados a longo prazo, com planejamento que inclua, principalmente, mudança na filosofia de jogo, na gestão, na visão, que, com todo esse conservadorismo que ainda impera no futebol, mais precisamente na cabeça desses dirigentes de mente atrasada, vai empurrando o futebol brasileiro para o meio da tabela.
    Então é isso, eu sei que isso vai contrariar muita gente, isso é certo, e causar bastante polêmica, por remexer em nossa cultura futebolística, mas, a CBF tem prestígio e dinheiro para ter um técnico de ponta à frente da seleção brasileira.
     

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

NOVOS RUMOS AO AFEGANISTÃO

     

  É natural que a situação no Afeganistão cause todo esse rebuliço fora das fronteiras daquele país. Sob o ponto de vista humanitário esse assunto vai se estender bastante, e certamente todo mundo vai se envolver, no momento em que vidas humanas estão no centro da questão, em que o Talibã retoma o poder local e reacende o medo da população com a iminência de futura repressão pelo rigor com que a Sharia é defendida e posta em prática pelo grupo fundamentalista que agora comanda o Afeganistão.
    Se antes a presença das tropas americanas por lá é que determinava os rumos do país, a verdade é que independente de toda movimentação e posicionamento da comunidade internacional, agora, qualquer mudança que possa ocorrer dentro do território do Afeganistão vai partir única e exclusivamente de sua própria sociedade, em meio, infelizmente, à tensão que já se iniciou.
    Será necessário, sim, ajuda dos principais países, principalmente aos refugiados, mas o contingente que está lá, a população como um todo, terá de encarar talvez o mais árduo desafio de suas vidas, erguer o país, voltar à normalidade, sem qualquer interferência externa, que ao longo dessas duas décadas fez parte da realidade do Afeganistão com a presença dos EUA em seus domínios.
   Agora, é a soberania do Afeganistão que está em jogo, e ninguém vai poder fazer nada. É claro que a ONU e demais países vão se manifestar, principalmente pela defesa de direitos fundamentais que o código jurídico implantado pelo Talibã, o Sharia, restringe ao pé da letra. 
   Vale lembrar que durante esse período em que os EUA permaneceram em solo afegão, deu tempo de o governo de ocasião criar mecanismos e fortalecer instituições de modo a evitar eventual ruptura como parece ocorrer agora. A própria fuga do presidente Ashraf Ghani revela a fragilidade do governo para lidar com a situação.
    Ao governo americano  não cabia o interesse e o esforço de modernizar o estado de direito do Afeganistão. A política externa dos EUA sempre teve outro viés, todo mundo sabe, o que parece ter mudado completamente agora. Inclusive, foi o Donald Trump que fechou acordo para retirada das tropas. Joe Biden, também defensor da proposta, apenas cumpriu o trato, o que certamente vai modificar a política externa americana daqui para frente.
    Vai ter sempre uma nação se metendo na vida dos outros, mas sem tropas envolvidas. Há modos e tecnologias diferentes hoje em dia.
     De qualquer forma, é  triste saber que as pessoas no Afeganistão  poderão voltar  a ser reprimidas em seu cotidiano, a liberdade cerceada, sobretudo as mulheres, no momento em que há em todo o mundo uma bandeira em prol da causa feminina combatendo toda a sorte de violência e repressão. Mas, infelizmente, é uma questão a ser resolvida internamente, lá entre eles. Eventuais pressões por parte de organismos e nações serão importantes para ajudar a flexibilizar as leis islâmicas por parte do Talibã, quem sabe, ou não.
    Tirando o nosso Brasil como exemplo, a gente vem ao longo  desses anos e décadas fazendo alterações, adequando a legislação de acordo com a nossa realidade de país soberano. Aqui também as mulheres não votavam. Até hoje há discrepâncias de direitos e oportunidades, mas houve avanços, muita coisa mudou. Apesar de algumas dificuldades, nós temos nossas causas, nossas reivindicações, nossas demandas, nossas instituições, num cenário que nos permite modernizar nossas vidas sem interferência externa, estamos trabalhando para isso.
    Não será diferente o rumo que o Afeganistão deverá tomar para buscar segurança e liberdade para o seu povo.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

POR MAIS MENTES SAUDÁVEIS

    
    Finalmente começaram a discutir um assunto que há muito tempo já faz parte da vida das pessoas em todas as suas áreas de atuação. Sim, em outras áreas também porque não é só no ambiente esportivo que a saúde mental está diretamente ligada ao desempenho em práticas de qualquer natureza.
     Na seara do esporte essa questão fica mais evidente e mencionada por causa da própria repercussão do evento em nível global, como é o caso das Olimpíadas, mas é necessário que esse assunto seja discutido em todos os aspectos e ambientes, pois, eu não lembro de alguma coisa que o  ser humano faz em que corpo e mente não estejam ligados. 
    Então, é melhor que se aprofunde essa discussão levando em consideração todas as atividades humanas. Não é difícil perceber, hoje em dia, a pressão que as pessoas sofrem em seu cotidiano por resultados imediatos. 
    Trabalho,  escola, família são ambientes em que há uma expectativa qualquer  que sempre ultrapassa os limites tolerados das coisas, seja em compromisso, em metas de estudos e resultados, enfim, as pessoas  estão constantemente correndo contra o tempo, nadando contra a maré, buscando resultados e performances, na maioria das vezes, sem qualquer perspectiva de resultados promissores.
   A decisão da Simone Biles de abandonar as disputas em Tóquio certamente vai reabrir debates a respeito, mas é bom que se dê uma dimensão maior, para que a questão  da saúde mental não fique restrita apenas a área do esporte, porque os próprios especialistas, quando chamados para fazer diagnósticos, propor medidas e soluções, ficam concentrados ali, naquele problema, às vezes numa narrativa que só funciona para aquele assunto, somente, quando se poderia ampliar o debate com base em toda agenda social da sociedade. 
   Seria o começo de uma discussão que iria atingir várias pessoas em seu cotidiano. Da mesma forma que a atleta americana chegou ao seu limite, um universo considerável de gente de todos os estratos sociais estão vivendo, trabalhando, respirando além de suas capacidades normais e não têm a mesma oportunidade que Simone Biles teve para se recolher e ensaiar um recomeço. 
   Independente da sorte e dificuldades que cada um terá para encontrar a melhor solução para seus próprios  males,  a verdade é que as pessoas estão doentes, infelizes, transitando entre a ilusão e a loucura desses tempos em que quase tudo tem de ser imediato, urgente, sem tempo para reflexão sobre a viabilidade de seus projetos, que acabam adiados ou até interrompidos.
     Na cultura do corpo, é a prevalência dos influenciadores na vida das pessoas, sempre foi assim, não é de hoje. As pessoas se deixam levar por metas que não são suas, por projetos dos outros, por sonhos alheios. É impressão minha ou o advento de novas tecnologias vão aprisionando cada vez mais as pessoas?
    De qualquer forma, há uma crise em curso no mundo que impede uma massa enorme de viver confortavelmente dentro de seu ideal de vida, mesmo um sujeito rico que não sabe usar sua grana, e mais ainda o indivíduo com fome, desempregado, sem perspectiva de vida.
    De repente os governos precisariam investir mais em psicólogos na rede pública, para ampliar o acesso, além, é claro, de inclusão na área de educação para que futuras gerações saibam conciliar suas atividades, de modo a viver plenamente, sem amarras, sem apego.

terça-feira, 27 de julho de 2021

UM VENCEDOR DE FATO


  A essa altura do campeonato geral já sabe e conhece um pouco mais da trajetória de Ítalo Ferreira, o cara da vez, o brasileiro que no momento  honra o nome do Brasil lá fora e representa todo esse universo de gente que começou do zero seus mais edificantes projetos de vida. Porque, ante a explosão de alegria do nosso surfista campeão olímpico, o que não falta é gente relembrando as agruras de um cenário adverso, de um tempo cruel, em que tudo era desfavorável a qualquer sonho.
    Na cabeça de brasileiros de norte a sul do país, a lembrança do cara que começou a surfar com a tampa da caixa de isopor trouxe à memória de quem hoje goza de prestígio e sucesso aqueles momentos de penúria. 
    Da mesma forma que o Ítalo Ferreira engatinhou nas marolas de Baía Formosa, em condições completamente adversas, quanta gente também não teve uma tampa de isopor pra chamar de sua, só que em forma de um sapato velho, de uma roupa velha, de um trem lotado, de uma vida escassa do mínimo necessário, de uma doença, uma perda ou qualquer outro obstáculo que interrompesse um velho sonho.
    Pra quem vê e se espanta como tudo começou há, sim, o reconhecimento de quem lutou pra chegar aonde chegou. Só que passou despercebido de muita gente o triunfo maior de quem chega ao topo; a glória maior de quem fez jus ao sucesso por ter encarado o mais sinistro desafio que é uma onda daquela que quebra a prancha e ainda assim o cara não desiste; enfim, uma dádiva a quem sempre acredita.
    Pois bem, ficou marcada em especial na imagem do Ítalo, ainda às voltas com o mar revolto, o agradecimento pela vitória, porque nada pode ser comemorado antes de direcionar o pensamento a quem de fato proporcionou toda aquela festa. E o Ítalo  fez isso logo de cara, ali, ainda aos frangalhos, mas de forma sublime, humilde e soberana ao mesmo tempo, como bem marca os verdadeiros campeões.
    A gente costuma dar moral aos esportistas com base apenas em suas técnicas e tal, mas é bacana quando o cara amplia esse campo, quando seus valores, de família,  de suas origens e, principalmente, de sua fé maior se somam às suas habilidades. E o Ítalo Ferreira já é um grande vencedor  nesse quesito. 
   É isso que vai servir de referência pra quem de repente pensa em desistir porque não tem um tênis, uma prancha, uma bola, uma coragem, uma fé.
   É isso que me fez fã do Ítalo Ferreira pelo conjunto da obra.
    

quarta-feira, 21 de julho de 2021

AMIGOS


     É fácil falar dos amigos quando a gente usa nosso valioso tempo para ilustrar com palavras todo o reconhecimento por tudo dispensado para nós por essas pessoas mais que ilustres em nossas vidas. 
   A própria Língua Portuguesa é rica o bastante para disponibilizar os mais diversos adjetivos, as mais belas construções gramaticais, de sintaxe, com formalidades ou de forma coloquial, enfim, o melhor mosaico de letras e palavras que possam fazer as melhores considerações às melhores criaturas de nosso convívio.
   Apenas um pouco de cautela para que cada adjetivo proposto, até uma vírgula no lugar exato reproduza o melhor sentido daquilo que realmente representa e significa um amigo de fato, porque, escrevendo para eles dá para construir um tratado sobre sua existência e a importância que dá gosto nesses dias de hoje exaltar.
    A gente fala de amigos, mas não tem nada a ver com curtidas, compartilhamentos, alinhamento ideológico, resenhas e coisas do gênero. É melhor que se esclareça que os amigos são aquela meia dúzia de gatos pingados que já se tornaram os protagonistas de nossa agenda por um motivo dos mais singelos, os mais sublimes.
    O amigo que a gente hoje dá moral pode ter, sim, uma ligação de sangue, porque o pai, a mãe, um irmão, tio ou primo também desempenham  essa função com selo de qualidade estampado no peito, o que faz de alguns mais amigos que parentes. 
   Mas nada tira a raça e o glamour daquela pessoinha que conhece até a cadência da sua respiração; aquele que  vai logo te ligando porque estranhou que seu bom dia no Whatsapp não teve ponto de exclamação hoje, o que houve? Esse amigo, de tão conectado, lá na frente vai aparecer na sua árvore genealógica, vai vendo.
    Definitivamente, a sensibilidade é o grande diferencial do verdadeiro amigo, porque poucos percebem que hoje você não tá legal; são poucos os que notam que você até cumpre sua rotina normalmente, mas carrega uma saudade, uma angústia, ou até uma raiva que a velha amiga de sempre, sempre ela, trata logo de dissipar com um sopro, tipo aquela caneca de chopp espumando pra relaxar; ou bater perna por aí, rindo das pessoas, já fiz muito isso; ou qualquer outra resenha que possa quebrar o protocolo de uma agenda rotineiramente exaustiva.
    E essa percepção de penúria do outro está restrita apenas aos amigos verdadeiros. É uma química independente do tempo de existência da amizade. É por isso que alguém que apareceu recentemente no seu círculo de amigos pode ser tão ou mais importante que aquele parceiro de longa data.
    E assim a gente vai criando vínculos importantes em nossa trajetória, paralelo ao ambiente de família, do trabalho. Eu mesmo tenho feito amizades nas redes sociais com pessoas que eu já percebi e aposto serem talentosas, além de seu próprio ofício, na arte de massagear o ego das pessoas em momentos cruciais. 
   Essas vão certamente ocupar o espaço das outras que se foram, tragadas pelas tragédias da vida; das outras que a gente sabe apenas que existem, mas que não mandam mais aquele sinal de fumaça. 
    É uma renovação natural que vai rolando. São outras pessoas que surgem pra também diminuírem o peso do nosso fardo, sem que ninguém saiba, melhor assim. 
   Se for pra alguém saber de alguma coisa, a gente procura demonstrar, apenas pra eles, o quanto eles, apenas eles, são importantes pra nós.
   

segunda-feira, 12 de julho de 2021

DE REPENTE, O MAR

      


    Hoje eu vi o mar pela primeira vez na vida, quem diria. E olha que eu já fui marinheiro, singrei alguns mares e já fiquei também várias vezes vislumbrando o horizonte nessas praias da vida, que a gente sempre frequenta em momentos de lazer.
   Mas, como é que pode um negócio desse a essa altura do campeonato de uma longa trajetória? Como se explica esse contrassenso? 
   É fácil compreender o espanto que essa constatação acima causa, mas o próprio movimento das águas em seus vários fluxos, de intervalos diferentes em cada ocorrência, parem pra reparar, é um fato novo, inédito, pelo simples fato de que há um efeito diferente toda vez que o movimento se repete e continua mais e mais vezes sem parar. 
   Se os fatores geológicos daquele fenômeno, movimento de marés, em conexão aos outros elementos da natureza, os ventos, o sol, ajudam  a atestar uma certa simetria, em que tudo parece certinho, perfeito e maravilhoso, pense na energia que toda essa movimentação gera em paralelo ao espetáculo deslumbrante produzido a todo instante.
   Não é coisa que se descobre ou sente olhando o mar de uma varanda, de uma janela, de uma foto ou binóculo. Esse panorama é muito superficial, limitado apenas  à estética das coisas, como várias outras maravilhas ao nosso redor que apenas ofuscam os olhos e pronto.
   É preciso um contato direto, tipo pele à pele com o mar, desde a mão alisando a água naqueles passeios luxuosos de barco, em que se permite esse prazer, que delícia, para quem pode, obviamente; ou os pés fincados na areia esperando a hora certa de entrar num curto  espaço daquela imensidão à frente.
   É quando começa a influência daquele fenômeno da natureza na vida de quem se projeta ali, uma troca incessante de matéria se instaura ali, num fluxo constante. Você pensa em todas aquelas coisas que você reivindica para si, e outras, das quais você quer se livrar. Olha ai a velha convergência de corpo e mente. Sim, a mente fixa e constrói o cenário de tudo que se pretende para sua vida chegando ao sabor da maré, que maravilha, e levando pra bem longe, bem além do horizonte, tudo aquilo que não presta mais.
    É claro que tem toda uma questão espiritual envolvida, porque, além da ligação com a natureza, há uma conexão com Deus, mas, sempre lembrando que a denominação religiosa fica à mercê de cada um. Se a natureza tem seu processo seletivo, as pessoas têm seu bom e velho livre arbítrio.
   E aí, gente, você fecha os olhos, eleva os pensamentos  e vê nitidamente no retorno das águas os trastes, bagulhadas  e quinquilharias que você  costumava conservar como bibelôs, agora tudo se afastando lentamente ao sabor do vento, a onda levando, vai com Deus. 
   Eu acredito que a própria natureza se renova quando cumpre esse papel de nos renovar também. É uma troca. Tanto que ela também se rebela quando a gente a maltrata, degrada e destrói.
   Portanto, é nesse sentido  de que há um fato novo a todo momento, tudo se transformando em tempos e situações diferentes, que o mar é diferente cada vez que o vemos e sentimos. Uma síntese de nossa vida, enfim, em que tudo pode ser renovador e revigorante, assim mesmo, de forma fortuita e inesperada.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

UMA MANCHA NA DIPLOMACIA

 

   Mesmo antes da CPI da Covid o diplomata Esnesto Araújo já tinha dado mostra de sua desastrosa atuação como titular da pasta das Relações Exteriores, num comportamento que passa bem longe do que sugere as funções do cargo.
   Vale lembrar que ele só conduziu essas negociações para compra de vacinas e insumos de outros países por sua qualificação na área financeira dentro de seu currículo de diplomata.
   Inclusive, Ernesto Araújo serviu na embaixada brasileira em Berlim no começo da carreira, tratando de assuntos econômicos. No período em ficou por lá, certamente adquiriu experiência para o futuro da carreira.
   Talvez tenha ficado tão focado na lida, que nem percebeu, em sua estada na Alemanha, que o Nazismo não é de esquerda, como andou explanando por aqui, rachando o bico da opinião pública internacional e passando vergonha do Brasil além de nossas fronteiras. Mas isso é outra história, deixa pra lá.
   Mas, ainda que seu depoimento na CPI não mude ao rumos da investigação ou traga alguma novidade para os trabalhos da comissão, sobre culpas e responsabilidades pelo atraso na vacinação da população, Ernesto Araújo vai ficar marcado como o sujeito que quebrou o protocolo da diplomacia brasileira, mudando completamente as prerrogativas do cargo.
   Dificilmente, analistas, palpiteiros e outros suspeitos e mentirosos  vão  esquecer do diplomata que em vez de mediar conflitos, simplesmente os criou. É a primeira vez que um diplomata bota mais lenha na fogueira, em vez de apagar o fogo.
   De repente, nem nas Guerras a representação diplomática dos países conflitantes adotou procedimentos tão beligerantes quanto esses ataques velados à China, que se ainda  não é o número um da globalização, já é o maior parceiro comercial do Brasil, um cenário que nem a sanha ideológica do Ernesto Araújo vai mudar, ainda mais que o Donald Trump, sua referência maior, em quem o brasileiro sustentou toda a sua tese e discurso, saiu completamente de cena.
    É lamentável que a diplomacia brasileira  carregue essa mancha na sua trajetória de relações internacionais, através de um personagem como foi o Ernesto Araújo, que não foi escolhido pelos critérios comumente usados para preencher cargos, tanto no Ministério das Relações Exteriores como nas representações diplomáticas, em que se exige o mínimo de habilidade, bom senso e inteligência para lidar com conflito.
   O Brasil sempre se destacou quando sua diplomacia foi acionada para mediar conflitos de toda ordem em que nosso país esteve envolvido. Há uma lista extensa de personalidades que representaram dignamente o Brasil, sem que nossa imagem ficasse arranhada.
   Para o Brasil, que teve o Barão do Rio Branco, por exemplo, como referência maior da diplomacia do país, é triste para a sociedade brasileira saber que já fomos também mal representados um dia.

                          Foto: Wikipédia  

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O AVESSO DA VIDA

 

   Não deixa de ser interessante quando a mente cria percepções da realidade humana através de eventos aparentemente simples e corriqueiros.
   Dias desses  eu fiquei prestando atenção na centrífuga da máquina de lavar, imaginando as voltas que o mundo dá e  todos nós dentro, naquela viagem giratória constante. Era fácil perceber que a cada volta completada as roupas mudavam de posição, de formato, cada uma delas, entrelaçadas ali, modificando a todo instante a configuração de todo o conjunto.
   Numa dimensão bem distante de nossos olhos dá pra transportar esse movimento para a própria rotação da Terra e tudo que se passa em seu interior, bem aos moldes de como formulou James Lovelock em sua Teoria de Gaia, segundo a qual nosso planeta é um organismo só.
   Guardadas as devidas proporções é possível reproduzir e encenar na rotação da máquina o meio em que vivemos, tão importante nesses dias atuais, em que o individualismo parece prevalecer sobre o coletivo, e uma parcela significativa perdendo completamente a noção dessa premissa básica à vida de cada um e do conjunto.
   Certamente o entendimento que se faz sobre a função e a responsabilidade de todos vem dessa visão bem amplificada de tudo que se passa ao nosso redor e os efeitos de todas as práticas nesse  processo.
   Agora, tão importante quanto essa visão global de uma engrenagem única é a parte que cabe a cada um nesse mecanismo que não para, apenas se modifica.
   É quando a máquina, a de lavar, claro, interrompe a centrifugação e revela o estado de cada peça depois de várias voltas que o mundo deu, e eis que algumas roupas saem ao avesso, num cenário que é a própria matriz de nossas vidas.
  Pois é, nessas voltas que o mundo dá estamos sempre nos deparando com pessoas ao avesso também, além de nós mesmos, flagrados nessas condições, constantemente, por vício, delírio ou necessidade, dependendo de como cada um se quer para si ou para o mundo.
   Há aquelas que vivem ao avesso por pura miséria espiritual, sem nenhuma possibilidade de contribuir para sua própria evolução, para o mundo, então, nem pensar.
      Algumas outras são postas ao avesso por influência externa, hesitando entre o amor próprio e o mundo que as cerca, colocando seus próprios  valores em segundo plano, porque normalmente há um delírio em suas convicções pela falta de fidelidade a seus princípios, e isso pode ser nocivo para o seu crescimento.
  Outras, simplesmente, se põem ao avesso pra se auto avaliarem, reverem seus conceitos como forma de se moldarem por dentro, por acharem que o que tem de melhor pra oferecer ao mundo também precisa ser renovado com frequência.
   Enfim, nessas voltas que o mundo dá, estamos todos sacolejando a todo instante com vistas a grandes transformações que possam efetivamente repercutir, tanto no particular quanto no geral, cada um em seu tempo adequado de afirmação, tal qual as roupas, cada uma com um tempo certo pra secar.
 
          

sábado, 8 de maio de 2021

O VELHO PALIATIVO

 


  Não adianta, não tem jeito, qualquer assunto que deveria ganhar a dimensão de um grande debate acaba se politizando e, para ser mais específico, se polarizando dentro de um ambiente onde dificilmente brotam as soluções para o problema em questão.
   Não seria diferente nessa operação policial na Favela do Jacarezinho, que num primeiro olhar só ganhou toda essa repercussão por conta do número de mortos no confronto naquela comunidade.
   Agora, restringir a discussão apenas pela classificação que cada lado rotulou o caso só empobrece o debate com essas contendas de redes sociais, onde uma parte chamou de chacina, outra, de faxina, como se o desfecho da operação, dentro de resultados práticos dependesse apenas da forma como o assunto é tachado.
   É compreensível que haja essa divisão de cunho ideológico, mas há outros fatores, outros elementos que devem ser incluídos na discussão, permitindo um outro posicionamento a respeito do problema, de forma que o verdadeiro debate transcorra fora desse ambiente de polarização.
   No caso da velha questão da segurança pública, todo mundo já está careca de saber de vários eventos anteriores que sem um planejamento adequado, levando em conta os outros tais fatores e elementos dificilmente se terá resultados promissores, isso é certo, inclusive, o próprio governador Cláudio Castro, recentemente confirmado no cargo, não anunciou nenhuma medida para o setor, como costumam fazer os mandatários ao assumirem o poder.
   Mas, de qualquer forma, a população sempre vai comemorar a eliminação de indivíduos que atentem contra a paz da população, contra agentes de segurança, enfim, que tragam instabilidade para a sociedade, mas tudo dentro de medidas que tragam as respostas que a população quer.
   Na verdade, essas incursões policiais de forma esporádica em comunidades estão longe de trazer a paz para a população do Rio de Janeiro. Veja bem, foram mortas cerca de 28 pessoas supostamente ligadas a ações criminosas, mas, e aí? Acabou o problema lá no Jacarezinho? O tráfico de drogas local foi interrompido de vez? A polícia desbaratou de vez a quadrilha, desmontando seu esquema financeiro? A paz finalmente voltou à comunidade? A cúpula de segurança pública do estado tem planos para ocupar o Jacarezinho e inibir a retomada da bandidagem local?
   Bom...na atual conjuntura não tem como responder positivamente a esses questionamentos, está estampado para todos verem aí, dando mais uma vez a impressão de um fato isolado, bem distante de uma proposta que amenize os efeitos da violência que há tantos e tantos anos vem trazendo agonia e apreensão ao povo do Rio de Janeiro, já calejado de tantos esforços que já foram feitos para estabelecer a tranquilidade que todos nós merecemos.
   A última vez que aventaram a possibilidade de eliminar toda a sorte de delinquentes de nosso convívio, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), todo mundo sabe que fim deu, foi apenas um ensaio de coisa séria.
   Portanto, é melhor que a questão da segurança pública e tantos outros problemas que o Rio de Janeiro tem seja discutido e conduzido fora do espectro ideológico, e sim, de acordo com nossas próprias necessidades, que tanto no morro quanto no asfalto são as mesmas, uma realidade que nem esse mimimi todo consegue esconder.

                          Foto: Revista Exame 
 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

CRECHE AMORA EM AÇÃO


 
  Nesses tempos de pandemia, em meio à toda a agonia pelos efeitos da Covid-19 e à expectativa pela imunização de toda a população, sobra espaço, tempo e vontade para ações que visem o bem-estar das pessoas, com ênfase no futuro da sociedade.
   E nada melhor que implementar através das crianças esse projeto de inserção dos valores que possam interferir positivamente na formação de cidadãos conscientes do papel de cada um na sociedade.
   Foi com esse cenário e perspectiva que a Creche Amora do Flamengo organizou nesta sexta-feira(30)  a “Mostra Saúde Para Todos” com trabalhos produzidos pelos próprios alunos da escola.
    A exposição reuniu  fotos, cartazes, pinturas e colagens, todos com uma mensagem inserida, revelando num primeiro olhar a consciência e a importância de hábitos saudáveis no cotidiano das crianças.
   Através das brincadeiras em sala de aula, que deram origem a todo o material da exposição, as crianças tiveram noção de cidadania, educação,  higiene e, principalmente, solidariedade, que pela interação demonstrada nas fotos expostas, já desperta uma nova mentalidade nos pequenos, como uma marca para as próximas gerações.
   A Assessora de Comunicação da instituição, Nina Amorim, ressalta a importância da exposição para o crescimento e evolução dos alunos da Amora. Para ela, é importante que as crianças tenham responsabilidade social e um olhar mais humano para as questões sociais.
   Nina destaca ainda a função social da Amora e o trabalho que ela já desenvolve ao longo de sua trajetória. “ Nós já  trabalhamos há muito tempo esse conceito de cidadania nas crianças aqui na Amora”, disse a assessora.
   E seguindo os alertas sobre a pandemia a exposição mostrou os cuidados repassados às crianças com a higienização e os protocolos para o combate à doença, além de cartazes e fotos em defesa da vacinação em massa, apoio à Ciência e ao Sistema Único de Saúde, numa demonstração de alinhamento total da Creche Amora aos procedimentos de imunização contra a Covid- 19.
   A Mostra ainda aproveitou a ocasião e arrecadou alimentos para doação, numa ação bem alinhada à proposta da escola para a formação de seus alunos. Para Nina Amorim, a Creche Amora vai sempre pensar a criança para o futuro, para que ela tenha noção de cidadania e um olhar para o próximo.