segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Luz vermelha

     O governo do Estado do Rio de Janeiro vem veiculando na mídia uma propaganda institucional tentando passar para a opinião pública um clima de bonança e bem-estar no seio da população fluminense. Para azar do governador e desgraça do povo o momento é completamente inoportuno, considerando os últimos acontecimentos.
     Se já estava difícil engolir as incongruências de uma política de segurança extremamente ineficaz, agora que o próprio poder público se torna vítima do mesmo mal que aflige o cidadão comum a necessidade e a pressa por uma solução imediata já estrapolaram o seu tempo de espera.
     Está todo mundo estarrecido com o que se considera uma afronta ao estado de direito esse atentado à juíza de São Gonçalo Patrícia Acioli. Antes que se esclareça as circunstâncias e os autores de mais um crime brutal é bom que se lembre que desta vez a ordem instituicional e o poder constituído é que fizeram as vezes do cidadão no velho expediente de vítima contumaz da violência vinda de todos os calibres e matizes no estado do Rio de Janeiro.
     O governador Sérgio Cabral, o secretário de segurança pública José Mariano Beltrame ou outra autoridade certamente se apressarão em argumentar que a atual política de segurança vem incomodando porque está atingindo o seu objetivo. Ora, mesmo que o trabalho de combate ao crime organizado não seja constante e firme, haverá sempre a reação sem hora marcada de quem se sente ameaçado. O que não pode é o poder paralelo fincar terreno no território do estado do Rio pela timidez que as medidas do governo demonstram nas ações de proteção à população.
     Independente do desfecho do caso da juíza e dos desdobramentos nas investigações do crime é importante lembrar que a sociedade já sofre há muito tempo toda sorte de violência, tanto vinda de delinquentes à solta nas ruas, quanto de tropeços de agentes públicos em ações desastradas.
     A morte de Patrícia Acioli apenas acendeu a luz vermelha para a velha questão da segurança pública. Se alguma nova medida for implementada em função do ataque à magistrada esta deve atender a todos os cidadãos, incluindo as autoridades no exercício de sua funções. É hora de os órgãos e entidades que congregam toda a magistratura do estado cobrar do governo ações mais enérgicas, como forma de proteger a população como um  todo.
     Não dá para ficar fazendo propaganda de imagem arranhada.

domingo, 7 de agosto de 2011

A bem da disciplina

      Não há dúvidas de que a Polícia Militar, dentro de suas prerrogativas de instituição séria e comprometida com a população fluminense, não se abstenha de cumprir rigorosamente as funções que lhe cabe no que diz respeito ao seu regimento disciplinar, quando algum membro de suas fileiras infrinja as regras da corporação.
      Também já faz tempo que muitos policiais acabam envergonhando toda a tropa, praticando atos que destoam do conjunto. E antes que a sociedade faça o seu julgamento, a cúpula da Polícia Militar tira de atividade quem não merece envergar o uniforme da instituição.
      Na verdade, para cada episódio de má conduta de um ou mais policiais há um desdobramento diferente, de acordo com o crime praticado, como se vê nas variantes de punição que se verifica nesses últimos tempos de vacilações da Polícia Militar.
      Como a sociedade vem sistematicamente sofrendo com as ações de bandidos e policiais em sua sofrida rotina de vida, é natural que a população faça seu julgamento, sempre pendendo para a execução sumária, no caso de prisão máxima para o fora-da-lei, e  exclusão do serviço ativo do agente público.   
    Não se pode negar que a população vai dormir sossegada quando um meliante vestido ou não de azul vai para a cadeia ou é excluído da corporação pelo dano causado à sociedade. No caso específico de expulsão do policial, num primeiro olhar parece que a população está se livrando de um mal, que seus anseios estão sendo finalmente atendidos. Para a própria instituição, um alívio em seu ambiente interno, além da resposta à sociedade pelo desdobramento satisfatório.
    Mas para a sociedade como um todo a expulsão do agente público do serviço ativo pode não ser a medida adequada e eficaz no combate à violência. A retirada do policial dos quadros da corporação só ocorre a bem da disciplina da instituição, apenas. Para a população, não há garantias de que esse desfecho trará a segurança que se espera dos órgãos imbuídos de tal tarefa. O que fará um policial militar depois de excluído do serviço público? A qualificação que ele adquiriu na PM vai servir para sua nova vida no meio civil? Se ele não tiver outra formação, acadêmica ou técnica, como ele vai fazer para se inserir no mercado de trabalho? 
     Quando vemos a proliferação de grupos paramilitares se insurgindo em comunidades carentes, dá para se ter uma ideia do destino de muitos ex-agentes públicos, considerando o perfil dos membros do nefasto grupo. Ao mesmo tempo em que o governo do estado vem fazendo essa limpeza nos quadros da PM também executa ações de combate às milícias no território fluminense, o que pode parecer um mero expediente de enxugar gelo, já que o mesmo elemento que arranhava a imagem da corporação agora perturba a paz e o sono do cidadão comum. E como esse mau elemento continua atentando contra a segurança da população, o governo do estado é obrigado a repetir a ação contra o mesmo indivíduo.
      A sociedade em todos os seus estratos sociais apenas trata de se defender do perigo que vem de todos os lados e esquecem que um policial também é um chefe de família, cujos membros dependem do seu provedor sob o ponto de vista econômico, social e moral. Portanto, que destino terá uma família, cujo provedor perdeu a garantia de sustento de sua prole? E o filho do policial meliante, em quem ele vai se espelhar até tomar forma de cidadão correto em toda sua plenitude? Dependendo do novo caminho que o ex-policial tomar a formação social e moral de sua família pode estar comprometida pela falta de orientação por parte de alguém lúcido em seu meio social ou do Estado, que de uma certa maneira é tutor do cidadão.
     Não vejo a expulsão de policiais civis ou militares de suas fileiras como medida eficaz para endireitar problemas de desvio de conduta de algum integrante dessa instituição respeitada que é a Polícia Militar. O caminho é a punição exemplar e mais rigorosa, como forma de inibir reincidências na tropa. Assim como acontece no Código Penal, o Regimento Disciplinar da Polícia Militar também oferece atalhos que redundam em penas brandas para agentes que são julgados, por exemplo, por prevaricação, ou seja, deixar de cumprir as obrigações de ofício, prometidas no ato de juramento, no período de formação. 
       E isso vale para policiais em ações desastradas, como no episódio no menino Juan; ou quando se omitem, no caso do ataque sofrido pelo coordenador do AfroReggae Evandro João da Silva. 
    Toda vez que as autoridades resolvem tentar mais uma vez encontrar um meio de resolver a questão da segurança tudo é ventilado nas mesas de debates: tecnologia empregada, parceria com outras esferas de governo e eventuais montantes de recursos destinados aos órgãos competentes.
     Nada disso tem resolvido o problema ao longo desses tropeços aos quais temos assistidos ultimamente. 
       No dia em que um agente público for punido exemplarmente, com pena rígida e longa, o meliante não terá tempo de se aventurar em ações paralelas; e a esposa ou outro dependente do militar recluso vai continuar usando o seu soldo para manter os custos da família, incluindo a educação dos filhos que não poderão seguir exemplo tão nefasto. 
     

domingo, 10 de julho de 2011

Itamar Franco

     Coitado do Itamar, gente! O que ele recebeu de críticas por causa daquela história  do Fusca não está no gibi. De bizarro à ideia de jerico, não teve quem não classificasse como algo sinistro aquele projeto muito pouco grandioso. 
     Para quem acabara de entrar no Planalto pela janela e logo virou objeto de desejo dos cartunistas, que exploraram à exaustão o seu vistoso topete, inventar aquela estripulia de relançar um carro velho implicava o fim meteórico de um político emergente na cena nacional.
     Mas ninguém sai das Alterosas para sucumbir no Cerrado assim de graça, não. Que o diga o Pé-de-Valsa, que descambou de Diamantina para fincar terreno naquelas cercanias do Centro-Oeste.
     Tubo bem, não se pode desmerecer os avanços do Plano de Metas, industrializando o Brasil e cortando o país com estradas de cabo à rabo, mas o Plano Real, muitos anos depois, veio justamente botar nos eixos, nossa maltrapilha economia.
     É claro que o Fusca não voltaria a transitar nas esburacadas estradas que o JK inaugurou. O que o Itamar Franco queria mostrar é que nós brasileiros também tínhamos capacidade para fortalecer nossa economia com um parque industrial próspero, tipo assim, "Yes, we can". Para quem pensava nas coisas do Brasil, abrir as portas do país para a entrada daqueles carrões importados, mesmo substituindo as carroças que abominavam aquele cara que tinha aquilo roxo, de uma certa maneira incomodava a visão nacionalista de Itamar Franco.
     Está aí a grande marca de um grande homem à frente de seu povo. Hoje, quando percebemos que Itamar passou incólume pela vida política; que soube como ninguém se desviar dos descaminhos que cercam os homens públicos, daqui para frente qualquer um que queira se enveredar para o cenário político pode se  espelhar naquele sujeito simples, de fala mansa, como um bom mineiro, mas que teve o topete de mostrar para o Brasil que nós também podemos.
       
    
    

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Quem é que vai pagar por isso?

     Se a indagação acima não traz a resposta que todos desejam, pelo menos indica que a sociedade reitera a necessidade de pôr um fim nesse quadro de barbaridade em que vive a população do Estado do Rio de Janeiro, quando sob a guarda da Polícia Militar.
     Não é de hoje que a vida do cidadão comum fica por um fio nas situações extremas que envolvem os agentes públicos e os foras-da-lei em confrontos. Se formos contabilizar os episódios de vacilações da Polícia Militar em incursões desastradas nos últimos tempos não sobra espaço para externar a insatisfação da sociedade com mais um caso dessa série que parece não ter fim.
     Já foram apresentados vários projetos de segurança pública, com o objetivo de erradicar do meio social a violência que vem cada vez mais ceifando vidas humanas. Em nenhum dos ensaios para pacificar a segurança no território fluminense houve alguma tentativa de reavaliar a conduta dos policiais militares, desde a preparação e treinamento até a execução com a excelência que a população prefere.
     Nas vezes em que houve alguma preocupação com as atuações da corporação, para que ela fosse de fato excelente em suas prerrogativas de guardiã da sociedade muito pouco foi feito, se é que alguém considera que comprar patrulhinhas zero quilômetro seja suficiente para garantir a segurança da população.
     Nem a majoração dos vencimentos da instituição teve a atenção devida do Executivo do estado, considerando que uma boa remuneração também serve como incentivo a uma conduta adequada a quem vive de proteger a população. Recentemente, quando os Bombeiros se rebelaram por melhores salários, o governador Sérgio Cabral aproveitou e adiantou alguns adicionais aos vencimentos dos policiais militares que estavam em pauta, por conta do alinhamento destes com a causa dos agentes do fogo.
     Muito se discutiu sobre o parco valor do soldo da corporação como a principal causa dos excessos que a Polícia Militar comete em serviço. Independente  de qualquer tropeço dos policiais, não se pode incutir a culpa por tamanha agressão à população à propria instituição militar. A justiça também deve carregar o ônus dos prejuízos causados aos cidadãos fluminenses, pela flexibilização das leis vigentes, que acabam estimulando mais e mais práticas contrárias aos anseios do povo.
     Sérgio Cabral, que recebeu a incubência de governar o nosso estado, deveria se aproximar da massa que o elegeu e botar em prática aquele projeto de segurança pública tão alardeado durante a campanha eleitoral, cuja eficácia, mesmo duvidosa, foi levada à cabo pelos eleitores, cansados de tantas traulitadas na cabeça.
     No intervalo entre uma tragédia e outra essas barbaridades costumam cair no esquecimento, razão pela qual os debates em torno do assunto começam sempre do zero.
     A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República declarou que o governo brasileiro não tolera esse tipo de crime. Tolera, sim. Não é à toa que nenhum resultado melhorou os números de violência em todo o país, tendo em vista que fracassaram todas as tentativas de criação de um modelo de segurança pública em nível nacional. Isso sem contar as promessas de reforma do Código Penal que não saíram do papel.
     Estamos juntos com os pais do Juan, esperando uma resposta.  

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Panela vazia

     O governo brasileiro está comemorando a eleição do petista José Graziano da Silva como novo diretor-geral das Organizações das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), pela indicação do ex-presidente Lula e o apoio da Presidente Dilma Rousself, que ela considera como uma vitória diplomática do novo governo.
     Sem querer desmerecer as credenciais de Graziano para ocupar o cargo é bom que se saiba que ele já fazia parte dos quadros do órgão como subdiretor-geral e representante da América Latina no organismo.
     Não é de hoje que os principais líderes mundiais acenam com projetos de erradicação da fome no mundo. São programas que, se saíram do papel, não trouxeram mudanças nos principais centros, onde se verificam há anos o retrato de degradação humana causado pela miséria.
     Falar que José Graziano tem um grande desafio pela frente não é nenhuma novidade, considerando as atribuições de tão importante órgão das Nações Unidas. A sua gestão à frente do Programa Fome Zero, no primeiro governo Lula, apesar de ter alterado positivamente os indicadores sociais no território brasileiro, ainda que de forma tímida, não é garantia de que o futuro dirigente brasileiro da FAO vá lograr êxito nessa nova missão, agora em âmbito mundial.
     Também não será surpresa se ao fim do mandato naquele órgão não se vislumbrar uma mínima mudança nesse longevo projeto de distribuição de alimentos em escala global, haja vista que desde 1945, quando a FAO foi criada, não tivemos um resultado impactante que revelasse efetivamente um primeiro passo para se eliminar a fome no mundo.
     Quando a FAO surgiu o objetivo era discutir e debater políticas e acordos visando o combate à fome, com ênfase na modernização da produção agrícola, de forma a contemplar um número cada vez maior de necessitados. Ao longo desses anos todas as tentativas de reuniões em torno do assunto definharam em função de interesses, assim como aconteceu em encontros para resolver questões ambientais, e em fóruns econômicos dos países ricos, tentando destrinchar suas complicadas engenharias financeiras.
     Pela perspectiva de bancarrota em que vive algumas nações do planeta, dificilmente os países que vão sobrevivendo conseguirão conciliar sua política econômica interna com ajuda humanitária, sem comprometer seu orçamento doméstico.
     O continente africano é o maior exemplo da inoperância dessas políticas fajutas que já vieram à tona, por várias décadas. Depois da independência do esquecido continente, berço de nossa história, tudo que as principais nações locais precisavam era de um choque de gestão, com a interferência de seus ex-colonizadores, com um amplo pacote de medidas que revelassem a África como um bloco emergente, pelo menos no seu aspecto de contingente consumidor.
     Durante muitos anos o que se viu foi as guerras civis do continente sendo fomentadas pela indústria bélica mundial, sem nenhuma contrapartida social, num momento em que a própria FAO e a OIT poderiam implementar um amplo programa de inclusão social na região, com projetos de trabalho e renda, em conjunto com as grandes nações, através de financiamento público e privado.
     Há indícios de que essa chamada crise global seja consequência da má distribuição de recursos em todo o planeta, pois uma parte considerável da população mundial não tem acesso às riquezas mundias, incluindo os alimentos que são produzidos em proporções que podem atender à todos, mas que se desperdiçam antes de chegar a quem precisa.
     Agora, o órgão espera matar a fome de cerca de 9 bilhões de pessoas até 2050. Pode ser que até lá muita gente continue de barriga e panela vazias.
     Mãos à obra e boa sorte, Graziano!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dignidade

    A gente fica andando pelas ruas e acaba encontrando um monte de coisas ruins, como o avesso do que pretendemos para o mundo que habitamos e que, ao mesmo tempo, nos cerca.
   Antes da primeira curva nos deparamos com primeiro sinal de desgosto, de desânimo, quase desmanchando o naco de esperança que ainda resta para o resto da caminhada, quando de repente a natureza humana revolve seu lado obscuro pelas incertezas e descortina o que pode ser a mais bela das riquezas do homem.
    Quem vê aquele sujeito , diariamente, no sinal da Praça do Pacificador, em Duque de Caxias, vendendo guloseimas, não pode imaginar que por trás daquele indivíduo desafortunado esconde a nobreza do homem simples, cujo sorriso e bom-humor ao amanhecer serve como cartão de visita ou boas-vindas a quem pretende ou necessita de uma alvorada voraz, tão cantada em prosa e verso.
    Na natureza sublime daquela pseudo-miséria muita gente passa despercebido da altivez em grau máximo numa mesma pessoa, toda vez que o sinal fecha. Para quem pensa que o Daniel precisa de alguma ajuda mais complexa, a sua ocupação parece ser uma mera terapia, um expediente de prosseguimento da vida que segue.
   Confesso que já tive vontade de perguntar quais são suas aspirações, dentro das limitações de um cadeirante que reforça seu orçamento, vendendo balas e drops. Mas, sua dignidade é muito maior que a minha curiosidade e benevolência.
    Deixei para lá. Quando a luz vermelha sumiu, também fui. Ainda deu tempo de ver pelo retrovisor um grande homem sem as incertezas de um ser comum.
   

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Alforria

     É importante comemorar e destacar a proposta do Executivo Federal de estender às empregadas domésticas os mesmos benefícios incorporados aos vencimentos dos demais trabalhadores do país.
      Não é de hoje que essa valorosa categoria profissional trava uma batalha árdua para ter os mesmos direitos de quem também dá muito duro.
     Antes de se esmiuçar o longo conflito entre o patronato e os representantes dos trabalhadores domésticos é bom lembrar que a própria Constituição garante direitos iguais à todos perante a lei, o que, teoricamente, rechaçaria qualquer discrepância entre grupos sociais e profissionais, cada um dentro de suas particularidades, no que diz respeito aos benefícios sociais e conquistas trabalhistas alcançadas ao longo desses tempos pelas entidades e partidos políticos ligados à causa do trabalho.
      Mas o clientelismo e o corporativismo, como elementos marcantes da história da legislação brasileira contribuíram para manter esse distanciamento entre determinadas classes sociais, em que cada um puxava brasa para a sua sardinha.
     Na verdade, a conquista de 13° salário e férias só foram instituídos para, com o interesse do capitalismo, impulsionar e estimular o consumo, com reflexos na cadeia produtiva, mesmo que o assalariado compre uma geladeira para pagar em 24 meses.
      Pelas circunstâncias atuais, fica muito mais fácil empregar alguém com um custo bem menor de encargos, principalmente pelo caráter facultativo, por exemplo, do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, fora outros adicionais. Além de revelar o desprezo pela categoria, essa aberração permite que os patrões fujam da responsabilidade de arcar com parte do ônus que a integração social impõe à todos, com o objetivo de tornar o país mais justo, enquanto evolui.
     Agora, o governo federal vai enviar ao Congresso Nacional sua proposta para equiparar os direitos de domésticos aos outros trabalhadores. Se forem incluídos nos vencimentos dos empregados domésticos o FGTS, abono salarial, seguro-desemprego e horas extras estará se resgatando uma grande dívida social, além de eliminar um longo processo de exploração que se verifica até os dias de hoje.
     Para o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, seria uma espécie de abolição da escravatura.
     À conferir.     

sábado, 18 de junho de 2011

Animais à solta

     Quando saiu no jornal, essa semana, que o Edmundo voltaria para a prisão, em virtude da responsabilidade pelo acidente automobilístico ocorrido em 1995, o que mais se ouviu nas ruas foi a certeza de que o Animal não voltaria para a jaula, pelo simples fato de que pessoas famosas não costumam frequentar ou habitar sistema carcerário. Ou seja, essa gente não vai presa nunca.
      Na época do sinistro, Edmundo estava no auge da carreira, mas isso não teve interferência na decisão dos julgadores do processo.
      É bom que se saiba que o ex-jogador só ficou esse tempo todo com o boi na sombra por força da própria lei vigente no país, que permite a prorrogação da pena de um condenado até que se esgote a possibilidade de recurso, até a última instância.
      Foi um crime típico desses que a sociedade vem combatendo com campanhas de conscientização, como a Lei-Seca, que tem, ao longo desses tempos, diminuído os índices de acidentes de trânsito, em virtude do combate ao consumo de bebidas alcoólicas.
      Desde o tempo em que foi imputada a prisão ao Edmundo, até os dias de hoje, nenhuma lei foi alterada, em consonância com o comportamento dos motoristas irresponsáveis, ou seja, não houve a adequação aos tempos atuais, mesmo com o marketing agressivo de bebidas alcoólicas na mídia.
      Hoje, mesmo que a Lei-Seca ponha na berlinda alguns famosos ou anônimos na contramão da história, estes sempre encontrarão as brechas da lei a livrá-los de qualquer punição exemplar.
      Muitos dos que apostaram na liberdade de Edmundo não conhecem os meandros que a nossa velha lei arcaica oferece a quem pode se beneficiar dela. Aquele caminho que Edmundo percorreu no eixo Rio-São Paulo, rumo ao que poderia ser o seu inferno, não passou de um embuste à nossa crença por dias melhores; um desafio à nossa capacidade de mudar esse estado de coisa.
      Portanto, se fôssemos acompanhar a evolução do nosso próprio tempo, com uma ampla reforma do Código Penal, Edmundo não deveria mesmo ir preso, agora. Ele já deveria tê-la cumprido há muito tempo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fogo brando

     Já faz mais de duas semanas que os bombeiros do Rio estão em movimento, reivindicando melhores condições salariais, e ainda antes de 439 deles serem presos por invasão do Quartel Central da corporação uma infinidade de fitinhas vermelhas já tremulavam nas antenas e retrovisores dos automóveis nas ruas da cidade, numa clara adesão à causa dos agentes do fogo.
     Mesmo com o relaxamento da prisão dos indiciados pelo motim o movimento tomou proporções que indicam a insatisfação da população com mais uma questão a ser resolvida, como se não bastassem as políticas de segurança e de educação  como os problemas mais mal resolvidos no estado do Rio de Janeiro, tanto que os Policiais Militares e os professores do estado abraçaram a causa dos bombeiros fluminenses.
     Independentemente do desdobramento do caso, o Ministério Público ofereceu denúncia à Justiça Militar e os militares revoltosos poderão ser punidos por infringirem o Regulamento Disciplinar da corporação, apesar da pressão por parte, até mesmo, dos deputados federais pela anistia, como ocorreu em outras unidades da federação.
     O chefe do executivo estadual certamente estará atento à decisão da justiça, com receio de um grave precedente, considerando o envolvimento da outra unidade de força auxiliar do estado, na fila de reivindicação.
     Como a causa dos bombeiros se estendeu à Câmara Estadual, tudo indica que isso vai virar uma novela de vários capítulos, já que o governador, através do líder do governo na Casa, já adiantou que o aumento que os bombeiros querem vai inchar o orçamento do estado em 4 bilhões de reais, e não há fonte de recursos para suprir a majoração proposta.
     A rejeição ao pedido de urgência na votação do projeto pela anistia feita pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Marcos Maia, é outro sinal de que esse assunto vai se arrastar um pouco mais.
     De qualquer forma, é muito importante ver o engajamneto de outras categorias profissionais a um segmento fundamental de serviço público, cuja valorização deve ser imediatamente discutida pela sociedade fluminense, sob pena de colapso operacional, em virtude de descontentamento no setor.
     Agora, tudo bem que a dívida social do governo estadual é herança de outras gestões. Mas, está na hora de alguém começar a descruzar os braços, porque irresponsabilidade é fogo. 

sábado, 11 de junho de 2011

Fenomenal

      O Vasco da Gama obteve uma conquista importante, quarta-feira passada, vencendo a Copa do Brasil de forma incontestável, depois de 11 anos de jejum, numa semana que teve também a despedida de Petkovic dos gramados. Mas nada teve mais destaque que a homenagem ao Ronaldo Fenômeno no amistoso da seleção diante da Romênia, terça-feira.
     Foi uma festa diferente das que costumamos ver quando algum boleiro resolve pendurar as chuteiras, mas em se tratando de Fenômeno, cabe uma consideração, pela sua rica trajetória.
    Toda hora desaparece alguém importante; de vez em quando uma celebridade some do mapa. Não demora muito e toda sua trajetória fica nos anais da história, quando se esvai como fumaça um ente querido e famoso.
    Ídolo é diferente. Se sua história serve de exemplo e pode ser reproduzida pela lembrança dos mortais que torcem, berram, esbravejam e choram, a eternidade será sempre o conforto para quem nunca verá alguém que joga como ninguém, toda vez que ele botava a bola nos pés.
    Tudo bem que da várzea de onde ele brotou e cresceu nascerá mais boleiros. Mas pode ser também botinudos e cabeças-de-bagre, porque o futebol é igual ao sol: nasceu para todos.
    Longe de mim, de ti, de nós, brasileiros e brasileirinhos esquecermos da alegria que Ronaldo proporcionou nos momentos mais importantes.
     Para quem acompanhou de perto ou de longe a trajetória desse ídolo do Planeta Bola fica mais fácil descobrir porque um ídolo não morre jamais. O que ficará marcado para sempre na memória nacional e do mundo é a sua capacidade de recuperação ou superação, com queiram.
     Se em algum momento da vida nacional o povo brasileiro necessitava de um impulso para proseguir, Ronaldo deu o exemplo que muitos precisavam, nessa via-crusis chamada Brasil, onde se mata um leão por dia, e ainda sobra tesão para o dia seguinte, no trem lotado, no rush urbano, como meio de campo em busca do gol.
     Convenhamos, essa capacidade que o brasileiro tem de reverter placar adverso é um fenômeno.
   
           

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A pipa está no ar

     Vejam bem. A Prefeitura do Rio resolveu que os menores recolhidos nas ruas da cidade só poderão sair da tutela do município com a autorização dos responsáveis e depois de terminarem o tratamento a que estarão submetidos.
     Louva-se a iniciativa da prefeitura, embora seja esta uma de suas reais atribuições, mas lamenta-se que ações como estas não tenham sido executadas com afinco em gestões passadas.
     Pela quantidade de crianças que vislumbramos pela janela do carro, pela janela do ônibus, dá para se ter uma ideia do déficit social que o poder público precisa reverter nas comunidades do Rio de Janeiro.
     Não se pode, porém, colocar o ônus dessa dívida nas costas e nas contas da prefeitura. As outras esferas de governo também têm papel fundamental para a solução do problema.
     De qualquer forma, independente de o governo estadual não ter ainda erradicado o tráfico de drogas no território fluminense, e o governo federal não fazer a sua parte em nível nacional, a prefeitura poderia ter implementado um plano efetivo de instalação de creches nas comunidades que foram surgindo, desde a época do grande êxodo rural, em décadas passadas.
     Se ao longo desses anos muitos jovens não tiveram a oportunidade de ascensão social, credita-se às incursões oportunistas da municipalidade em obras de maquiagem e, assim mesmo, em período eleitoral.
     Mas a prefeitura do Rio não está só nessa responsabilidade social, pois a sociedade deixou de discutir mais essa mazela, e se fôssemos dimensionar a culpabilidade pelos menores carentes até o Juscelino Kubitschek teve culpa no cartório, por não ter incluído no seu Plano de Metas investimentos maciços em educação, numa época em que começava o inchaço das grandes cidades.
     E como os prefeitos do Rio não acompanharam esse crescimento, não temos a certeza de que essa nova investida de Eduardo Paes vai trazer o resultado que se espera.
     O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, que foi concebido para blindar nossos jovens de eventuais agressões e inépcia de administradores públicos, não é a garantia de que teremos uma geração com futuro brilhante.
     Apesar da incerteza, é bom saber que Eduardo Paes conseguiu colocar a sua pipa no alto, mesmo nessa paisagem arranhada.