quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Homens à deriva

     Não há registro de que algum comandante tenha abandonado o barco na época das grandes navegações, o que seria considerado um atentado à própria honra, antes que alguém à bordo ventilasse essas coisa de desvio ético-moral. Mesmo porque o objetivo a ser alcançado em terra firme era mais importante, e a parca tecnologia empregada naqueles tempos era suficiente para afastar qualquer perigo em alto-mar.
    Só que depois que o processo de colonização começou a se desfazer, os chefe de estados também abandonaram suas colônias, deixando-as à deriva, ou que dizer, à míngua, o que pode ser considerado o primeiro expediente de salve-se-quem-puder depois do advento da bússola, já que o famoso "Terra à vista" despertava uma expectativa muito maior.
   Hoje, quando vemos as nações da América Latina e, principalmente as da África, ainda em processo de desenvolvimento, significa dizer que seus colonizadores abandonaram o barco, com um monte de gente tentando se salvar até hoje.
    Não é de hoje que nos deparamos com pantominas de figuras que estão no poder, ou por cima da carne seca, como queiram, que acabam pulando do barco quando o bicho está pegando.
    Agora que todo mundo já sabe que o tal de Francesco Schettino é o maior bundão, é preciso separar o ineditismo do desvio de conduta do comandante do navio italiano do expediente de vacilações que cerca o comportamento contemporâneo da vida política, social e econômica da humanidade. Há muito que convivemos com esses reveses aqui na vida comum, seja representados, ou remando nosso barco, como fazemos no nosso dia-a-dia.
     No caso específico de Schettino, foi uma surpresa saber que quem seria o último foi o primeiro a meter o pé, fugir de sua responsabilidade, abdicar-se de seu papel social, da função que lhe foi confiada, pela competência que a princípio parece que ele tinha.
    Eu nem vou me reportar à crise que cada vez mais se avoluma na Europa e em outras nações fora do velho continente, porque está na cara que falta clareza de ideia, como bem frisou Dilma Rousseff, no discurso de abertura da Assembleia da ONU, ano passado.
     Aqui, em terra brasilis, tem muito mais gente pulando do barco, sem largar o osso, acumulando as funções de não fazer nada efetivamente e de abandonar a coisa pública. É claro que quem está no poder acaba cumprindo seu mandato numa boa, até se reelege, ficando mais tempo segurando o timão, mas sem seguir o rumo certo, é verdade.
   Porque quando o agente público não consegue atender os anseios de toda a população, não cumpre a responsabilidade pelos investimentos nos principais serviços públicos, não obedece as regras do orçamento prevista para o exercício, significa que há um desvio de rota, mesmo com alguém no comando.
    Para seguir um exemplo bem próximo, vejamos as prefeituras da Região Serrana do Estado do Rio, que não conseguem minimizar os efeitos dos temporais naquela região, deixando vários cidadãos naufragados até hoje. Num caso mais remoto, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que com mais de cem anos, ainda não fez valer sua importante função.
   Não é de hoje que há vários homens públicos à deriva e outros tantos homens comuns à míngua, num processo cujos resultados se alteram de acordo com a maré, ou com os interesses, depende.
    Boias ao mar!
      

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A placa e a pinguela

      Na velha praça aquela placa caprichosamente confeccionada para prometer a construção da nova ponte, em substituição à pinguela que vai suportando o vai-vem, a dor e a luta de quem já está acostumado a driblar a correnteza e as precipitações.
      Nesses tempos em que os barrancos se desprendem da terra, um outro cenário desnuda a realidade dos mortais, expondo muito mais que o desespero do cidadão entregue à própria sorte. De tanto vermos a dor e a luta alheia, quase passa despercebido o princípio que rege o conceito de vida em sociedade que historicamente deveria abranger todos os patamares da pirâmide social.
      Da praça só se remonta mesmo o cenário dos tempos da ágora, dos sofistas, das aclamações que decidiam a sorte de todos. Na dispersão das pessoas comuns, a representatividade estabelecida e a certeza da realização de seus mais nobres anseios.
     A democracia inaugurada na Grécia já priorizava os que tinham a capacidade de persuasão, por acreditar que tivessem também a competência da realização, de representar, enfim. Aos poucos, essa prerrogativa de eficiência teórica e prática concomitante foi perdendo seu efeito. O próprio Platão já classificava o homem como um animal político. E essa profecia logo se confirmou em tempos ainda remotos, quando vários movimentos políticos e sociais que projetavam a prevalência da coletividade acabaram esmorecendo, por força de objetivos que destoavam do interesse público. Estava, assim,  inaugurado, o corporativismo.
     Agora que navegamos por águas turvas, a democracia dos novos tempos vai desenhando um cenário cada vez mais bizarro e bisonho, em que a placa e a pinguela representam a confrontação de forças entre o bem e o mal, o particular e o geral. A pinguela é o jeitinho brasileiro, o salve-se-quem-puder, o Deus-nos-acuda. A placa do governador é o simulacro, o me-engana-que-eu-gosto, que o eldorado está lá no fim do túnel, ou no fim da chuvarada, como queiram.
      Cada vez que o tempo passa, em mais de um ano fica mais distante a dignidade e a hipocrisia, sempre no mesmo vetor, porque respiramos o mesmo ar de quem exala aquele odor fétido dos fazedores de placa, enquanto a pinguela vai resistindo, evitando que a tragédia seja tão colossal quanto a incompetência que grassa dos gabinetes.
     É bem provável que o mito da pinguela sobreviva pelos tempos vindouros, assim como a sistemática da placa. O próprio sistema se renova, criando mecanismos que se adequam aos novos tempos. Desde a época do Pão e Circo até esse assistencialismo que se pratica hoje, está para existir algo ou alguém que consiga remexer o establishiment.
     Ainda bem que somos uma sociedade livre, com poder de escolha, o que pode fazer a diferença, suficiente para mudar esse quadro de embromação. Não precisamos do Ficha-Limpa, mesmo porque estão empurrando até não sei quando.
       A gente restaura nossa casa para se adequar aos novos tempos, e vai trocando as peças, até que as mobílias vão se encaixando em nosso ideal. O mesmo se aplica à questão social, política e econômica. Basta renovar, como um amor novo, um emprego novo, um representante novo, capaz de fazer jus ao seu papel social.
   
   

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Águas turvas

     Toda vez que se retoma esse assunto sobre as chuvas nas cidades da região serrana parece até que a gente reproduz as matérias passadas a respeito daquelas tragédias que ano após ano vêm vitimando mais e mais moradores das áreas atingidas.
     Agora que se constatou que os recursos destinados às obras de reconstrução eram mal empregados ou, até mesmo desviados, fica bem mais fácil entender por que nunca se revertia esse quadro de calamidade.
      Com tantas vidas em risco e em segundo plano é bem provável que essas mazelas se perpetuem; pois, nenhum agente público envolvido ou que poderia interferir nessa questão arregaçou as mangas, mesmo ciente do uso de suas atribuições. O governo federal envia verba e não toma partido de sua destinação; as câmaras de deputados federal e estadual não dão voz à sua representatividade para a população desvalida; até o Ministério Público, fiscal da lei e da coisa pública, não ameaça nem denuncia, preferindo engrossar a inércia dos outros poderes constituídos; e o governo estadual só se apressa em instalar placas, prometendo e embromando também.
      Ao longo de todos esses anos de enxurradas levando a esperança e ceifando vidas humanas, não faltou debates e discussões para o problema das chuvas nessa época do ano. As entidades de classe, como o Clube de Engenharia e o CREA-RJ, através de técnicos e especialistas da UFRJ, UERJ e UFRRJ, promoveram diversos encontros, apontando soluções, como mapeamento das áreas de risco, estudo técnico sobre o uso do solo, as complexidades de cada região dentro de sua realidade geomorfológica.
     Nas últimas tragédias causadas pelos temporais, em Angra dos Reis, Ilha Grande, Morro do Bumba, Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo e algumas comunidades do Rio de Janeiro, toda a comunidade científica envolvida nas discussões apresentou propostas para se erradicar essas tragédias do calendário do território fluminense.
     Pela reincidência desses eventos de catástrofes afligindo a população do estado do Rio de Janeiro, já não basta ter apenas a certeza de que o poder público vai, enfim, colocar esses projetos em prática. Há que se discutir esse modelo de administração pública que privilegia o corporativismo, o uso político do dinheiro público, em detrimento do interesse coletivo, da responsabilidade social.
      E agora que a parcela mais sofrida e prejudicada começa a reclamar e questionar a competência dos agentes incubidos de sanar esse mal, pode ser que esse processo tenha desdobramentos no cenário político, num futuro bem próximo, caso a população resolva operar essas mudanças já nos próximos pleitos.
     

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz Ano Velho

     É sempre assim nesta época do ano: uma parcela fica fazendo projeções para o ano seguinte e a outra, um balanço antes do apagar das luzes. Seja qual for a perspectiva de um ou de outro, o cenário nacional teve mais destaque do que qualquer acontecimento regional ao longo do país.
     Ficamos sabendo agora que o Brasil cresceu algumas posições, ultrapassando, inclusive, nações há muito tempo com economia estável, como a Inglaterra, veja só. Só que isso não é motivo para comemoração, considerando, não só os efeitos desse distúrbio global na economia brasileira, como também a grande dívida social dentro da nossa realidade de país, ainda em desenvolvimento.
     Num ano em que eclodiu crises em vários países, principalmente na Europa, é muito difícil falar em crescimento, num momento como esse, de dúvidas e incertezas. As nações que não sofreram os efeitos da crise, apenas sobreviveram porque as políticas locais incentivaram o consumo interno, o que de uma certa  forma movimentou alguns setores do parque industrial, gerando emprego e renda, como aconteceu aqui no Brasil, ajudado pelas políticas sociais, como o Bolsa-Família, sempre injetando um montante considerável de dinheiro na praça.
      O tal crescimento, tão alardeado aos quatro cantos, continua sendo a boa e velha engenharia financeira que as equipes econômicas acabam adotando em momentos críticos para amortizar e mascarar algumas políticas, que de repente pode até está respirando por aparelho, mas que se esvai por meio de arrocho e sacrifício à população.
      Tudo bem que felizmente não vivenciamos isso aqui no Brasil. Aos olhos de muita gente, parece até que essa crise mundial não vai trazer sérias consequências, que estamos, enfim, imunes a isso. Mas, para um país como o nosso, ainda construindo um futuro melhor para o seu povo, ter um bom conceito no cenário internacional, por estar suportando essas intempéries, ainda  não traz a satisfação e o bem-estar que a sociedade almeja.
     Seria interessante considerar que o crescimento de um país fosse o resultado de suas relações além fronteira e o compromisso com as coisas públicas, leia-se as necessidades básicas de saúde e educação, principalmente. Mas, quando vislumbramos nossos números sociais e as mazelas como consequência, chegamos a conclusão de que muita coisa precisa ser feita para que sejamos uma nação em crescimento efetivamente.
      Não adianta a essa hora do campeonato ficar enumerando nossos problemas, as tarefas e a lista de prioridade. Mas certos problemas saltam aos olhos, pela dimensão e urgência com que o poder público e a sociedade vão se debruçar, se queremos de fato construir uma sociedade mais justa.
      Esta semana o Conselho Nacional de Educação anunciou que há um déficit de 300 mil professores na rede pública de ensino em todo o país. Não custa lembrar que há décadas e gestões passadas a questão da educação não vem tendo a atenção devida, fazendo com que a crise do ensino no Brasil tome dimensão continental.
      Foi-se o tempo em que vários projetos de interesses públicos não andavam por falta de recursos. Hoje, apesar de alguns ajustes, nossa economia está bem fortalecida, suficiente para viabilizar o que for mais urgente para o Brasil. Não há dúvidas de que no próximo ano a presidenta Dilma Rousseff vai dar prosseguimento à sua proposta de governar o país, com vistas ao desenvolvimento. E a questão da educação não poderá ficar de fora desse grande projeto, sob pena de eternizarmos cada vez mais nossas próprias mazelas.
     Acredito firmemente que o passado de luta da nossa presidenta vai impulsioná-la a fazer o Brasil viver esses novos tempos.
      A começar, já, em 2012.

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       Um Feliz Ano Novo a todos aqueles que prestigiaram esse breve espaço ao longo do ano!!!!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Barcelona e os rumos do mundo

      Tem um monte de gente do mundo futebolístico, técnicos, jogadores, torcedores, matutando um modelo que se equipare a esse esquadrão que passou por cima do Santos. Certamente serão noite sem dormir e muitos debates de como se faz para chegar a um nível como esse do time do Barcelona. 
      Só que a dimensão que pode se dar do triunfo da equipe campeã do mundo é muito maior do que o exemplo a ser seguido nesse velho esporte bretão, dentro das quatro linhas.
      Até dirigentes que acham que entendem de futebol e que também não manjam de administração devem estar batendo a cabeça para encontrar um meio de conciliar esse sucesso todo com a mediocridade da cartolagem que assola o primeiro, o segundo e demais divisões do futebol brasileiro.
      Nunca pensei que o triunfo de um time de futebol fosse provocar tanta discussão acerca dos rumos que o futebol pode tomar daqui para frente, não pelas conquistas que o Barcelona teve ao longo dessas últimas disputas, na Espanha, no continente europeu, e agora, em âmbito mundial, em que se confirmou o que já se esperava de um time campeão dentro e fora das quatro linhas.
     Mais do que revolucionar as administrações de primeira, segunda e demais divisões do futebol por aí afora, a apoteose do Barcelona é uma síntese do que pode acontecer quando o coletivo se sobrepõe ao individual, porque o mundo não terá o destino sustentável e politicamente correto enquanto o individual, do cada-um-por-si, continuar sendo a tônica desse sistema global, de desregramento dos grupos sociais, das instituições, num ambiente em que, paradoxalmente, as redes sociais vão integrando mais e mais indivíduos.
      Está todo mundo discutindo novas táticas para se chegar à cara do gol, acreditando que um lampejo daquele craque pode decidir tudo. Nesse último campeonato brasileiro, os dois primeiros colocados, o Corinthians e o Vasco da Gama tiveram como características a força do seu conjunto, enquanto as outras equipes dependiam de um ou outro jogador do plantel.
      Infelizmente, o futebol não é o único ambiente em que se constata esse contrassenso de gol-contra, bola na trave, antes que o apito final interrompa um tempo de glória. Essa crise econômica que abala os dois extremos de um mesmo vetor nunca se resolverá, enquanto as cabeças pensantes não mirarem o aspecto coletivo. Não adianta as grandes nações se reunirem para uma grande causa e na hora H cada um defender seus interesses. Por isso que os encontros em Davos, Copenhagen, Kioto, Rio e outros fóruns não deram certo.
     É o pobre mundo do futebol de várzea e suas pátrias sem chuteiras.
   
     
     
      

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Paternalismo de resultado

     Antes dessa crise que vem rondando os quatro cantos do planeta já havia a preocupação de se proteger de eventuais contratempos que pudessem comprometer as políticas em andamento, mesmo que esse processo não abarcasse todos os estratos sociais. 
     Até os governos pelo mundo afora já adotavam aquela prática de farinha-pouca-meu-pirão-primeiro. Com a responsabilidade de seguir as metas propostas pelo orçamento disponível, o estado resolveu se encolher, já que alguns serviços poderiam ser dispensados pela iniciativa privada, mesmo que à meia-sola, como se verifica hoje.
     Quando a Dama de Ferro inaugurou a era de privatizações, a maioria dos governos descobriram um  grande filão para enxugarem as suas contas, sem interromper outros grandes projetos e mantendo o status quo oficial.
     Infelizmente, aqui no Brasil o conceito de Estado mínimo tem um outro significado, e o velho paternalismo que remonta os tempos do descobrimento ainda continua vivaz, fazendo os deuses do Liberalismo darem cambalhota  em suas sepulturas, pelas diabruras que os agentes públicos contemporâneos insistem em perpetuar.
      Se antes havia a preocupação em entregar à iniciativa privada parte dos serviços públicos, como transportes, energia e telecomunicações, hoje a decepção pela qualidade do que se oferece à população aumenta, à medida que o cidadão vai desembolsando muito mais por um serviço que ainda não atingiu o grau de excelência que o povo espera.
      Além da competência com que essas empresas atuam na gestão dos serviços públicos, a sociedade já questiona a participação do poder público na questão dos investimentos que vêm onerando os cofres públicos, sobremaneira, fazendo com que o cidadão comum pague duas vezes pelo mesmo serviço, como pode ser comprovado, por exemplo, quando o motorista é obrigado a pagar o IPVA e o pedágio, e ainda assim ele não recebe um serviço de qualidade, porque quando um ônibus pega fogo dentro de um túnel, numa via expressa, nem a concessionária que administra a via, nem a prefeitura tem um plano de emergência que evite o desconforto do motorista consumidor-contribuinte.
     Nas barcas da Praça XV, apesar de constantes eventos de avaria nas embarcações, a Agência Reguladora do setor autorizou aumento na tarifa, e pasmem, o governo ainda vai custear uma parte do acréscimo. Nos trens urbanos, a mesma aberração, com o governo do estado incumbido de comprar as composições.
      Eu não queria acreditar na incompetência da administração pública nos serviços dispensados à população. Prefiro considerar uma tendência que já se verificava, no século passado, de encolhimento do Estado, mas que permitiria investimentos mais consistentes em outras áreas estratégicas e prioritárias, como saúde, educação, segurança e emprego.
      Se pelo menos na nossa realidade, a onda de privatizações não trouxe os resultados que se esperava, há que se rever esse esdrúxulo modelo de administração dos serviços públicos, principalmente na área de transporte, em que o usuário é o mais prejudicado. Em qualquer área de atuação do governo, a parceria público-privado só será saudável quando o maior beneficiário for a população.
      O que não pode é esse paternalismo se alongar por todo esse tempo, sem atender às necessidades do cidadão que vota, paga imposto e ainda tolera as incongruências dos agentes públicos.
 
      
     
     

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Centro Brasileiro de Arqueologia

   Já está mais do que provado que não se pode evoluir sustentavelmente sem compreender os aspectos do passado, cujos elementos vão permitir que se prossiga adiante e sempre.
      Hoje, é fácil verificar o esforço que a comunidade científica vem fazendo para trazer à tona registros históricos, no espaço físico e documental, para o conhecimento público, de forma a viabilizar os empreendimentos, como construção de rodovias ou edificações, que porventura vierem a ocupar os espaços em que se encontrem os vestígios de outrora.
      Nesse transcurso de 50 anos do Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA), o que essa entidade sempre buscou foi justamente os resultados que se verificam atualmente: trazer à luz da modernidade os conhecimentos necessários para o andamento sustentável dos projetos, em áreas urbanas ou rurais, onde estão depositados os materiais, sem desconsiderar a sua conservação.
      Esta semana, em comemoração a tão importante data, o CBA promoveu o II Encontro Latino Americano de Arqueologia ( II ELAA) com o objetivo de mostrar o quanto os arqueólogos vêm trabalhando para fazer chegar aos olhos da sociedade a riqueza arqueológica que pode resgatar toda a trajetória de nossos antepassados até os dias de hoje e elucidar todo o processo evolutivo das populações que habitaram nosso território, assim como as heranças deixadas para o período contemporâneo, em que as técnicas empregadas vêm sendo aprimoradas ao longo de dezenas de séculos. 
      Não foi difícil perceber que todo o trabalho do CBA ao longo desses anos vem trazendo os resultados no seio da comunidade científica, especificamente os especialistas em arqueologia, bacharéis, mestrandos e doutorandos, cujos trabalhos apresentados revelaram novos conceitos na forma de conservação dos materiais e manuseio do solo, tanto para permitir melhor aproveitamento nos trabalhos de campo, como também para adequá-lo às necessidades atuais, com ênfase na questão ambiental, e consequentemente, no espectro da sustentabilidade.
      A História Universal mostra que a sequência de fatos históricos da trajetória humana é uma adequação conforme seu meio e suas relações, o que pode ser comprovado pelas teorias postuladas em tempos remotos, diga-se Darwin, Karl Marx e outros que formularam ideias a partir de pré-conceitos.
     O CBA, dentro de suas prerrogativas de entidade científica, vai continuar seguindo o mesmo viés de tornar sempre coeso o passado e futuro, para que o homem consiga investigar sua trajetória, sem desconstruir a origem das coisas.
   
      
         

domingo, 20 de novembro de 2011

Consciência Negra

     Eu quero acreditar que houve mudanças no movimento negro no Brasil, que possam dar ao nosso país o rumo que deve ser tomado para que sejamos uma sociedade cada vez mais justa.
      Muito antes de o Almirante Negro se rebelar contra as chibatadas e Zumbi resistir bravamente em Palmares, os escravos já difundiam sua cultura nos canaviais, dançando a lida no campo para ludibriar o senhor, mas professando sua crença. No chiado do vento que balançava a cana caiana, a harmonia dos cantos que embalavam a labuta, enquanto a foice ceifava o vento e os pés descalços marcavam o massapê.
      Já vai muito o tempo em que começou essa trajetória de luta até os dias de hoje, quando muito pouco mudou. Depois que a Princesa Isabel deu aquela canetada, demorou um pouco mais para se discutir essa lacuna num país miscigenado.
      Hoje, infelizmente, ainda convivemos com o racismo impregnado nas relações sociais, nas picuinhas dos guetos, onde brancos e pretos se misturam na mesma miséria, mas batem de frente quando há um conflito em seu cotidiano; e na repartição, onde a hierarquia incolor ainda incomoda muita gente.
      Podemos comemorar alguns avanços que trazem alento a quem vê a sociedade com outros olhos, mas não o suficiente para diminuir as diferenças que se verificam nos números sociais, no que diz respeito às oportunidades dispensadas a cada estrato social.
      Como combate ao racismo demos um passo importante com a instituição da Lei Afonso Arinos, que busca reparações e punições para essa segregação que ainda insiste em se impregnar no tecido social. Ontem foi assinada a Declaração de Salvador, em que países de população negra, na África e América Latina se comprometeram a criar um fundo com o objetivo de construir mecanismos, não só para combater o racismo, com punições e reparações, como também programas de inclusão social como forma de trazer mais oportunidades na área de emprego, educação, cujos resultados podem remexer nos indicativos sociais, completamente desfavorável à comunidade afrodescendente.
      É muito bacana ver apresentadores de TV, artistas, esportistas e pessoas comuns, todos negros, ascendendo socialmente, mas é triste, por exemplo, ver a dilapidação de templos de Umbanda e Candomblé, no momento em que se discute a liberdade de expressão religiosa que os órgãos de imprensa não cansam de veicular.
      A própria instituição desse dia de hoje, para reflexão sobre a consciência de todos, mostra o quanto queremos erradicar de vez esse apartheid no nosso cotidiano.
       Axé!
        

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Rocinha

    Em meio a toda essa expectativa de retomada da Rocinha pelas forças de segurança apenas a tranquilidade estampada no semblante daquela gente pode ser comemorada. Pela dimensão daquela cidade com status de favela o desafio que o poder público vai encontrar é muito maior que a empreitada utilizada para prender o malfeitor daquela comunidade.
     Se formos considerar o histórico da Rocinha desde a sua gênese até os dias de hoje, esse projeto de implantação de Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades carentes deveria ter começado lá, onde a expansão local se confunde, não só com a geografia, como também com a expansão da cidade maravilhosa. 
      É claro que todas as comunidades representam o descaso de todas as esferas de governo com as classes menos favorecidas, e se hoje o governo está mobilizando forças e recursos para tirar aquela sofrida população das mãos do poder paralelo é porque desde um passado muito distante aquela região ficou esquecida, sem a atenção devida dos governantes que maquiaram a cidade ao longo desses anos, sem considerar que a integração entre as classes não poderia ser desdenhada pelo poder dominante.
    Mas a Rocinha é o que a gente pode considerar como a convergência entre o êxodo rural e a expansão urbana, numa época em que o Brasil estava deixando de ser rural, mas dependia da mão-de-obra vinda do semi-árido e cercanias para mostrar a cara para o mundo em seu novo conceito de país em desenvolvimento.
     O tal dever de casa não foi feito e a distância social e econômica que existe hoje apenas serve para dimensionar a miséria das vielas e a incompetência que vai mudando de mão, desde a época das urnas analógicas.
      No longo período de expansão urbana e especulação imobiliária foram os retirantes, fugidos da seca da Região Norte e Nordeste que fincaram terreno por aqui, em ocupações irregulares, contribuindo para dar forma de metrópole a uma cidade cheia de contrastes e contrassenso. E se do topo dos morros se vislumbra a imensidão da nossa selva de pedra, a Rocinha contribuiu para essa explosão demográfica, por ter se tornado o principal polo acolhedor da massa migrante para o Rio de Janeiro.
     Talvez seja essa a grande diferença entre a Rocinha e as outras comunidades espalhadas pela cidade. Porque os problemas sociais que se acentuaram ao longo de décadas são marca registrada de qualquer favela do Brasil, até.
     Com a retomada da paz nessas localidades pelas forças de segurança, o poder público finalmente dá os primeiros passos para fazer de nossa cidade maravilhosa em todos os sentidos e classes sociais.
     Mas é bom que se diga que o braço armado do estado não vai resolver sozinho aquele emaranhado de problemas espalhados por todos os cantos e becos. A tal parceria, tão alardeada pelo governador Sérgio Cabral, deve se materializar agora, com ações concretas que conduzam efetivamente a vida das pessoas, não só na questão da violência, mas também em outros indicativos, como saúde, educação, moradia, cultura e lazer.
    Só assim será possível fazer a integração social, abrangendo todos os estratos, com oportunidades para todos, de forma que os serviços públicos disponíveis se estendam à rincões e guetos. O momento é esse, de arregaçar as mangas e refletir sobre os rumos de uma cidade que se pretenda moderna e justa.
     Está mais do que na hora de a sociedade se conscientizar de que esses problemas do submundo são de todos, independente da posição em que ocupam na pirâmide social. Se deixam de recolher o lixo nas comunidades a cidade toda fica exposta à enfermidades; quando não se investe em educação nessas paisagens íngremes e assimétricas, a violência escorre pelas vielas e se espalha pelo asfalto.
     Não há oportunidade melhor para se corrigir os erros e vícios do passado. Então, aproveita que está todo mundo com a mão na massa e vamos reverter esse quadro. 
      
      

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Estado de alerta

     O que pode ser mais grave nesse cenário de calamidade no Rio de Janeiro? A sequência de eventos de barbaridade e medo à vista da população, ou a inércia do governador Sérgio Cabral em se pronunciar sobre os últimos acontecimentos, que se não ferem diretamente o cidadão comum, vítima contumaz da violência no Rio, atinge-o de qualquer forma, porque atenta sobre os seus mais fiéis representantes.
      Tanto no atentado à juíza Patrícia Acioli, amordaçada para sempre; ou no caso do deputado Marcelo Freixo, "convidado" a deixar o país; e agora com o episódio do cinegrafista Gelson Domingos, atingido numa incursão policial, os sonhos e aspirações da sociedade viram pesadelo, no momento em que os poderes constituídos e a imprensa não conseguem trazer à luz a verdade escancarada dos fatos.
     Tudo bem que os assassinos da magistrada já estão presos e serão julgados pela pressão da classe, assim como os algozes do repórter certamente não ficarão impunes, mas e a população, como fica? Que perspectiva o povo do Rio pode ter quando quem é encarregado de mostrar as nossas mazelas já não consegue levar a cabo o seu velho expediente de estampar dia após dia a realidade nua e crua das vacilações dos agentes públicos?
     Diante dessas incertezas, é muito difícil acreditar que quem vier a substituir a juíza e o deputado vão dar prosseguimento e trazer os resultados que a magistrada e o parlamentar pretendiam.
      Ainda que o governador venha à público tranquilizar a população e prometer mais empenho da cúpula de segurança, ainda assim haverá dúvidas e preocupações rondando a cabeça do cidadão, que se depara, a cada amanhecer, com um fato novo a aumentar sua desesperança.
      Essas evidências de presos em Nova Friburgo pagando propina para ter visita íntima; de escolas tendo que fechar por causa de disputa entre traficantes, em Senador Camará; e o bandido da Rocinha impondo toque de recolher naquela comunidade, além de policiais presos, protegendo aquele delinquente, revelam que ainda falta muito para o aparelho de segurança do estado chegar a um nível considerado padrão para a atual realidade da cidade do Rio de Janeiro.
      E quanto mais o governador se esquiva de uma satisfação pública fica mais evidente que não existe ideias claras para extirpar esses tumores já incrustados no tecido social.
      Tudo bem que Sérgio Cabral está envolvido na questão dos royalties do petróleo, conclamando a população a gritar contra essa usurpação aos cofres do estado, mas o chefe do executivo deve estar atento aos principais problemas da população, sem perder o foco. Afinal de contas, ele foi eleito para isso, e até quem não lhe deu voto de confiança nas eleições passadas, a essa altura do campeonato está na expectativa  que o governador logre êxito em sua empreitada, não só de trazer os benefícios para o nosso estado, como também o bem-estar que o povo almeja.
       De qualquer forma, estamos aqui no Rio, de janeiro a janeiro, numa luta constante, e apesar dos reveses, a imprensa jamais se omitirá e estará sempre presente nas trincheiras dessa guerra urbana.
       

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Arqueologia em foco

     A humanidade não se cansa de buscar respostas para sua longa e imprevisível caminhada. Mas em toda essa trajetória um paradoxo marca o desprendimento do homem quando ele remexe o ar que respira e a terra em que pisa. Na velha lida de revolver a terra, visando o progresso, eis que o indivíduo acaba desconstruindo parte de sua própria história.
     O Centro Brasileiro de Arqueologia(CBA), pelo envolvimento nas discussões a respeito da arqueologia, e a participação efetiva nos principais eventos ligados à pesquisa científica, se notabilizou por sua longa e incansável luta para trazer para a sociedade o reconhecimento da arqueologia como ciência imprescindível para os principais projetos do país.
   Nesse sentido, a arqueologia está mais visível aos olhos da sociedade que pode, perfeitamente, refletir sobre a importância do arqueólogo, cuja atribuição está intrinsecamente ligada aos elementos do passado e do futuro que nos espera, considerando a tão alardeada questão da sustentabilidade que deve nortear quaisquer discussões acerca do meio-ambiente e demais empreendimentos em prol do bem-estar da sociedade.
     O CBA completa agora cinquenta anos, neste dia 21 de novembro, numa trajetória de muita luta e várias frentes, acompanhando os principais projetos de infraestrutura e meio-ambiente, com soluções de preservação do patrimônio público e garantia de sustentabilidade em eventuais ações empreendedora que ponham em risco as heranças culturais e históricas, sejam eles, os sambaquis, alvo constante da expansão imobiliária no litoral do estado do Rio de Janeiro; os conjuntos arquitetônicos, frequentemente solapados pelas reformas urbanas nas grandes cidades; e outros patrimônios ambientais, sistematicamente degradados pelas ocupações irregulares do solo urbano.  
      Mas, toda a expectativa de celebração de tão sublime momento não fica restrita ao caráter festivo da data.  Na verdade, dentro desse cenário de comemoração, a comunidade científica vem a público externar sua preocupação quanto ao futuro da arqueologia no Brasil.
      No momento em que o CBA completa meio século de existência, todo o universo de pesquisadores, incluindo bacharéis em arqueologia e profissionais que tenham especialização, mestrado e doutorado nessa área, leva consigo e para a pesquisa de campo a esperança pelo reconhecimento do arqueólogo em nível nacional. Depois de instituir o Dia nacional de Arqueólogo, comemorado em 26 de julho, a entidade agora parte para a sua principal bandeira: a regulamentação da profissão de arqueólogo no país, onde a proposta vem sendo discutida desde 1974.
      Não é difícil imaginar o quanto essa indefinição toda vem causando prejuízos ao patrimônio histórico do Brasil. Em 2005, a deputada federal Laura Carneiro apresentou o Projeto de Lei nº 6145 para regulamentar a profissão de arqueólogo. Ainda hoje seu discurso continua atual, demonstrando que não só o passado, como também o futuro ficam comprometidos frente ao que, naquela época,  ela já classificava como descaso com o patrimônio arqueológico do Brasil. “O crescente desenvolvimento brasileiro, ocasionando a ocupação desordenada de áreas, gera o confronto entre a importância de serem abertas novas frentes ao progresso e a necessidade de preservação e resgate das manifestações culturais passadas”, acrescentou a deputada.
    Há quem acredite que esse momento difícil para a arqueologia no Brasil se dá devido ao pouco interesse e a desunião dos arqueólogos, divididos em entidades de pensamentos antagônicos. Ao longo desse anos, várias entidades foram criadas, como associações e sindicatos, para assegurar a integridade moral e profissional, mas que ficou no zero, devido à interferência de grupos feudais e corporativistas no território brasileiro. E esse desencontro entre entidades que não falam a mesma língua causa uma batalha ideológica que acaba emperrando o processo de reconhecimento do arqueólogo,  por conta de interesses corporativistas.
     Enquanto se arrasta o projeto de regulamentação da profissão do arqueólogo, a qualidade, eficácia e métodos empregados em projetos pelo país ficam comprometidos, em meio ao crescimento cada vez maior de profissionais com pouco conhecimento em arqueologia, envolvidos em projetos de engenharia, que passam por cima de questões éticas, por exemplo, para atingir uma meta empreendedora e ao mesmo tempo degradante e sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade.
      Apesar desse cenário que se verifica hoje, a comunidade científica espera que a arqueologia chegue a um nível de amadurecimento em termos de legislação e procedimento.
    Pelo tempo e incerteza de tão intrincada questão fica parecendo que esse imbróglio ocorre por falta de representatividade dessa honrosa categoria. Mas o CBA vai prosseguir com a sua bandeira, reiterando o seu compromisso de esclarecer à sociedade a importância da arqueologia na realidade brasileira.