quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O RÓTULO DA CIÊNCIA



   A maioria das discussões, brigas, fim de amizades, xingamentos, stress e demais contratempos em torno da pandemia surgiram, quer dizer...ainda surgem do material divulgado pela imprensa como um todo.
     Mas nas redes sociais, onde rola a maior parte de toda essa contenda o assunto ganha outra dimensão, no momento em que se desvia do campo onde poderia ser mais saudável discutir qualquer coisa.
    É compreensível que a ciência também divida opinião, assim como é natural que haja interesse em torno dela, pois a ciência sempre foi um grande filão, mesmo no tempo em que ela demorava pra encontrar grandes soluções e resultados práticos. Não poderia ser mesmo diferente agora que ela também usa tecnologia de ponta para acelerar sua linha de produção. Ou alguém achava que as vacinas que estão saindo do forno agora durariam mais ou menos 40 anos para ficarem prontas?
    Melhor ainda que se reforce o entendimento de que a ciência também é patrocinada, estimulada e induzida, tanto a atender demanda como a interesse de quem colabora com ela. É a parte em que a ciência está ligada à indústria farmacêutica, por exemplo.
     Eu fico observando essas pessoas questionando os interesses dos fabricantes de vacinas em paralelo às campanhas de vacinação como se isso fosse diferente da velha tese de que a ciência cria uma ideia e uma grande corporação compra pra revender. A grande descoberta de Alexander Fleming, em 1928, ilustra bem essa relação. Vender antibiótico deixou os caras podres de ricos até hoje, assim como esse monte de imunizantes comercializado em larga desde o século passado.
     No caso da Covid-19, a mesma coisa, o mesmo processo, independente dessa especulação sobre a origem da bactéria, a culpa imputada ao chinês, a forma com o vírus se espalhou, enfim, tem uma doença afligindo o mundo e o remédio é a vacina, não tem jeito.
    Então, é besteira falar de ganância ou outras coisas do gênero com relação às farmacêuticas. Não é o lucro o princípio básico do capitalismo? Pois é, eu nunca ouvir falar que a indústria farmacêutica trabalhasse em regime de filantropia desde a sua origem.
    Poderia ser uma fármaco brasileira que estivesse por aí vendendo imunizante pra geral. Imagine o quão importante seria para a nossa autoestima, nossa soberania e, principalmente, para a nossa economia tirar essa onda em nível global.
    Ainda que não tenhamos uma empresa brasileira inserida nesse globalismo da qual a ciência faz parte, o mais importante e urgente agora é imunizar as pessoas, seja qual for o rótulo e a embalagem da vacina.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

RIO DE FILME ANTIGO



    Quando a gente lembra do Rio de Janeiro lá no passado, quando havia a expectativa de a nossa cidade maravilhosa se transformar verdadeiramente numa grande metrópole, não demorou muito para toda a população se frustrar com uma série de projetos que cada gestão ia apresentando como forma de colocar o Rio de Janeiro em alto nível em todos os seus aspectos.
    De todos as tentativas para operar as mudanças necessárias, o mais importante era justamente tornar a cidade atraente para as pessoas que aqui vivem, aqueles que convivem no seu cotidiano com os serviços precários e, claro, com as promessas de sempre.
   O máximo que conseguiram ao longo desses tempos foi maquiar a cidade, encher os olhos dos visitantes, uma espécie de retoque no nosso cartão-postal, porque sempre foi economicamente interessante receber os forasteiros pra assistir queima de fogos no réveillon, brincar o Carnaval, Rock in Rio, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e outras resenhas.
     Em todos esses eventos aqui no Rio, sempre dão um jeito de o Metrô, trens, ônibus, barcas funcionarem legal, um monte de policiais nas ruas, até os garis aparecem com os uniformes engomados, ninguém reclama de nada, somos aquela cidade acolhedora de sempre.
    No campo político esse cenário acabou virando um mote de campanha, no momento em que funcionou para os nativos a mesma narrativa que antes era dirigida apenas aos visitantes, ou seja, fazer parecer que a cidade se tornaria funcional de fato pra nós que respiramos o ar do Rio todos os dias.
     A gente fica enumerando esses fatos de tempo em tempo sabendo que é uma velha ladainha, muita gente vai falar isso, mas é preciso mostrar que não há novidade alguma toda vez que ensaiam uma mudança qualquer.
    Agora, vem mais uma vez o governo do estado, desta vez na figura do governador Cláudio Castro, apresentar uma política de segurança de ocupação de comunidades na cidade do Rio, começando pelo Jacarezinho, com o objetivo de levar demais serviços pra essas localidades.
    Ainda que não fosse em ano de eleição, a suspeição do projeto já seria evidente, pois não houve nada que pudesse ser aproveitado nas Unidades de Polícia Pacificadora que ganhasse uma nova roupagem, agora batizado de “Cidade Integrada” e a garantia de segurança que o projeto sugere.
    Se o governador promete que a reboque das ocupações por tropas de segurança nas comunidades vem a extensão de uma ampla política pública com demais benefícios, é bom que se esclareça os outros itens do pacote, porque aquele velho expediente de a Polícia Militar encher o ônibus da corporação com a molecada da favela e levar para o parque, sítio e cinema não remexe em número algum das estatísticas sociais da região.
    A presença do aparelho militar é essencial, claro, mas no caráter de braço armado do estado, para garantir a segurança dos moradores e dos serviços implementados nas localidades, como creches, postos de saúde, escolas e demais ambientes nas áreas de cultura, esporte e lazer.
  As forças de segurança vão efetivamente respaldar o funcionamento desses outros segmentos, porque não rola mais a escola deixar de funcionar porque tem tiroteio na favela, ou pior, um aluno ser atingido no pátio da unidade em meio ao fogo cruzado.
   E nos serviços que não são da competência do estado, que haja uma conexão e um entendimento saudável entre as outras esferas de governo, municipal e federal, para que o pacote como um todos traga os resultados esperados.
   Já é esperado que esse novo(?) projeto suba o palanque do governador na campanha que vai começar. O mais importante agora é que ele tenha continuidade e seja funcional, pra não parecer aquele velho filme antigo que o Rio de Janeiro já está cansado de reprisar.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

BAJULANDO A CIÊNCIA

 
   Diferentemente de uma grande parcela que foi por livre vontade, eu corri pra fazer o teste da covid por necessidade. Eu já vinha pensando nessa possibilidade, mas um forte resfriado junto com um terrível mal estar acabou precipitando o expediente.
    Passado um tempo de recolhimento, o mais desagradável foi mesmo o cotonete gigante introduzido na marra, que só não deve ter atordoado o vírus, mas, sinistro aquele procedimento adotado assim de forma compulsória. Dá pra quase perder os sentidos.
    Uma agonia que se confunde com a própria expectativa de estar contaminado. Menos mal que as vacinas já tomadas tenham impedido a evolução do vírus, mas o que virá pela frente nesse tempo de quarentena? Como reagirá o organismo com essa mudança na agenda, alterar alimentação e hábitos enquanto o vírus ainda tenta sobreviver? Como estará o emocional com todo esse cenário de incerteza?
    Certamente vai haver um desdobramento diferente para cada um que teve esse destino, porque a máquina que cada um temos funciona num compasso diferente, uma engrenagem com status específico de funcionamento.
     A ciência trabalha com essa realidade também. Ainda que cumpra com excelência todos as etapas que cercam o processo de investigação científica, há uma margem de erro, sim, como sempre existe margem de erro em nossas ações e comportamento.
     A gente fica confinado lembrando dessas coisas e se aprofunda em altos questionamentos e investigação particular com efeito de toda reflexão que a ocasião sugere, e acaba bajulando a ciência que ela merece.
     Parece que os rumos da humanidade estão cada vez mais ligados ao tratamento que vai sendo dispensado à ciência. Não falo só de novas tecnologias que ditam moda, soluções práticas e revelam poderes pelo mundo inteiro, mas da ciência voltada exclusivamente para as demandas da humanidade em suas necessidades básicas, principalmente produção de vacinas.
     Até hoje ainda existe uma grande lacuna, quando lembramos que várias doenças continuam atingindo as pessoas ainda lá na sua origem, e que só ganharam uma dimensão global porque as pessoas se movimentam, e se a Organização Mundial de Saúde não fez o esforço que deveria, suas ações certamente pararam nos interesses de nações que tinham outras prioridades, mas isso é outro assunto.
    Aqui no Brasil, doenças do passado, como tuberculose e malária ainda matam, claro, num índice muito menor, resultado de campanhas anteriores, mas a imunização continua, senão seria pior. Esse cenário dá com muita clareza a dimensão de como a ciência vai precisar de mais atenção do que nunca, considerando mais e mais enfermidades que chegam pra ficar, aumentando, automaticamente, os esforços nesse sentido.
    Não acho que essa politização da questão da saúde vai durar muito tempo, é uma tempestade passageira. Prefiro acreditar que o maior obstáculo será a velha questão do orçamento, cujos recursos sempre foram bem aquém das demandas no setor. É um tanto de negação também esse pouco caso com a ciência.
    Agora que a gente já consegue produzir o princípio ativo dessa vacina contra a covid, que isso sirva de impulso para novas ações e claro, uma pressão maior de toda a comunidade científica sobre governantes de todas as esferas e parlamentares alinhados à causa da ciência.
    Tão importante quanto à questão social é a soberania do Brasil que se firma quando a nossa ciência anda com suas próprias pernas. Quando a gente passa a bajular mais a ciência, em vez de negá-la.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA


  Toda vez que a natureza se manifesta a gente fica sempre esperando que haja novos ares também na forma como as pessoas veem tudo que se move ao seu redor.
    Seria a melhor expectativa para um novo cenário que envolva a terra, a água e o ar, porque a forma como ficam constantemente investigando os desastres naturais e seus efeitos na vida das pessoas já beira a estupidez de tanto que repetem esse expediente.
    Já passou da hora de a sociedade brasileira aprender de fato a conviver com os recursos naturais que compõem o nosso ambiente. O tal planejamento que todo mundo apregoa fica cada vez mais difícil de se por em prática por questões das mais variadas, porque há sempre um interesse por trás de algo que pode ou não ser mudado.
 Além da legislação ambiental que é sistematicamente desrespeitada por força de corrupção, má-gestão e má vontade, ainda tem a questão do conhecimento que fica restrito a um grupo limitado. As pessoas em geral não tem noção de como se dão os fenômenos naturais.
  Os especialistas em geral, cientistas e pesquisadores, além dos alertas de sempre para o poder público, com dados, soluções, projetos, estudos, ainda reivindicam a educação ambiental nas grades escolares.
     A geologia parece um ser estranho para a maioria das pessoas, enquanto que em outras praças é uma ciência fundamental para a formação do indivíduo. No Brasil se estuda geologia em ambiente acadêmico. Em países desenvolvidos essa especialidade é estudada logo após a educação básica. As crianças já começam desde cedo a conhecer todos os movimentos naturais do planeta.
    Aquela trágica imagem do paredão de pedra caindo em cima dos barcos expõe exatamente essa lacuna. Não havia nenhuma informação sobre os riscos daquele turismo ecológico, coisa que é levado a sério em outras paisagens. E aquelas pessoas que morreram foram vítimas do poder público em todos os sentidos: a falta de planejamento na gestão dos recursos naturais; e a ausência de políticas públicas que englobam justamente a difusão do conhecimento. Seria um mecanismo eficaz para evitar essas tragédias em nosso calendário.
    Tá certo que há uma legislação em vigor que define competências, responsabilidades, prerrogativas e eventuais punições em casos de descumprimento, mas como sempre acontece no Brasil, ninguém será punido naquele episódio, que não foi o primeiro nem será o ultimo.
     De qualquer forma, por mais geologia nos bancos escolares e na vida das pessoas.


domingo, 9 de janeiro de 2022

A VACINA É NOSSA

 

  Começar o ano com a expectativa de um grande período em nossas vidas é um propósito que deve ter habitado a mente de todos os brasileiros em mais um ano que se inicia.
     Se houver um projeto que possa efetivamente contemplar o maior número de pessoas é mais um motivo de comemoração e, claro, um impulso para prosseguir em mais e mais projetos de interesse público.
     Com a aprovação pela Anvisa do uso do insumo farmacêutico ativo fabricado pela Fundação Oswaldo Cruz a sociedade brasileira já pode comemorar o que sempre foi uma constatação: a capacidade da ciência brasileira de fazer o Brasil autossuficiente na fabricação de vacinas através de matéria-prima essencialmente nacional.
    É uma notícia tão importante para o Brasil que deveria estar estampada em destaque nas principais manchetes de jornais, telejornais, rádios, sites de notícias e redes sociais. É um fato tão marcante para os brasileiros que certamente quebraria toda essa polarização em assuntos de vários matizes hoje em dia, porque é a vitória da ciência do Brasil em prol de toda a sociedade.
    Com todo o suporte científico que o Brasil construiu através de seus principais órgãos de pesquisas, o próprio Programa Nacional de Vacinação no Brasil atingiu um nível de excelência que sugeria num tempo qualquer, ainda que tardiamente, a independência em seu produto final, a hegemonia depois de todo o esforço que ao longo de décadas e séculos a comunidade científica brasileira empreendeu, mesmo com parcos investimentos, sem a atenção adequada à urgência e demanda da pesquisa científica no Brasil com ênfase na saúde pública.
    Mesmo antes de a pandemia de covid-19 acelerar esse processo de independência na área de saúde, o Brasil já merecia atingir esse patamar por tudo que cientistas e pesquisadores sempre fizeram com esse objetivo.
    Em várias áreas do setor produtivo no Brasil, estamos sempre na expectativa da nossa independência porque temos essa competência, temos estrutura suficiente para não depender de ninguém, como já foi comprovado nas oportunidades que tivemos de sermos autossuficientes, por exemplo, em combustível, o PróAlcool, que colocaria o Brasil em outra posição nesta área; e no setor de tecnologia, em que aquele acidente na Base de Alcântara, em 2003, frustrou nossos planos de independência também.
     Se num passado recente perdemos a chance de confirmar nossa hegemonia, agora o Brasil se coloca em posição de destaque justamente numa área em que há mais necessidade ultimamente. Por toda a estrutura que o Brasil criou ao longo dos tempos com a agenda de vacinação e a experiência adquirida no combate às principais enfermidades, o povo brasileiro pode hoje comemorar essa grande conquista.
     Além dos efeitos positivos que esse grande feito da Fiocruz vai trazer para os futuros projetos e expedientes no programa de vacinação como um todo, o Brasil ainda se apresenta para o mundo como uma nação capaz de contribuir para a imunização em países onde os índices de vacinação ainda estão baixos, como bem frisou a presidente da instituição, Nísia Trindade.
     Enfim, um feito que confirma a Fundação Oswaldo Cruz como um grande patrimônio do Brasil. Uma vitória que enche de orgulho todos nós brasileiros.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

VAMOS COMEMORAR, SIM!


  Já no meio do ano tinha gente, inclusive eu, fazendo um balanço negativo de 2021, baseado na agitação do que foi esse ano com efeito a agonia da população em meio à continuação da pandemia, paralelo às outras crises, política e econômica balançando o coreto de norte à sul do país.
     Não faltou gente falando que não havia nada pra comemorar ao final de mais um período turbulento. Eu mesmo assinei embaixo quando começaram a ventilar os preparativos para o fim do ano e a tradicional queima de fogos. Depois de tudo que a gente passou, que sentido teria extravasar nossa euforia?
    Tanto no ano que termina quanto nesse que vai chegar, 2022, que elemento, que motivação teríamos para explodir de alegria junto com aquele espetáculo de luzes anunciando a virada do ano?
    Mas, faltava mesmo chegar bem perto do final do ano pra fazer outras considerações do que foi 2021 na vida de cada um que vai romper a fronteira de um outro ano. Se no plano coletivo há um conjunto de incertezas e vários projetos voltados para o Brasil todo que ficaram pra depois, individualmente ficou um orgulho pela resistência, pela capacidade que cada um demonstrou de suportar o peso que a gente carregou este ano.
    Junto e misturado ao fardo que todo mundo teve de carregar em família, trabalho e vida social, foi embrulhado também a tristeza por alguém que ficou no meio do caminho, o emprego que não veio, a escassez em casa, a saúde debilitada de alguém próximo, a penúria de outros também chegados, enfim, não teve quem não tivesse de contabilizar um revés qualquer nas redondezas.
    Portanto, eu mudei de ideia que a gente não poderia comemorar nada. Eu e muita gente reconsideramos o pessimismo de não querer saber de festejar; voltamos atrás no desejo de cada um ficar no seu canto lamentando um tempo de incerteza que ainda vai estar na folhinha do ano que vem. Repensamos esse negócio de coroar um grande esforço que fizemos com tristeza só porque muitas coisas não saíram do jeito que a gente queria.
    Por um instante qualquer a gente esquece os dramas, as angústias e lembra das sementes que a gente plantou também, pensando positivamente sem parar em tudo que iria acontecer lá na frente, e o tempo que cada um empregou para projetar coisas boas; o quanto nos concentramos para lançar energia positiva pras pessoas e para nossos propósitos.
     Isso certamente causa um efeito positivo ali adiante, que é justamente o ano que vai chegar, 2022, que pode até ser tão ou mais inquietante que este agora, mas todo mundo que sobreviveu vai estar calejado e claro, agradecendo, louvando a graça de ter chegado até aqui, porque todo mundo foi recompensado pela agonia, pela aflição, pela lágrima que cada um verteu.
    Não há estímulo maior que ter a oportunidade de prosseguir adiante e sempre nessa caminhada. Vamos que vamos.
    Feliz Ano Novo!

sábado, 6 de novembro de 2021

A MARCA DE MARÍLIA MENDONÇA


   Já dá pra fazer uma análise diferenciada do que representou a Marília Mendonça para a música que ela se propôs a cantar. Em outros tempos lamentava-se apenas a morte precoce de uma artista que ainda tinha muita lenha pra queimar.
    Acontece que Marília Mendonça resolveu fazer de sua arte um engajamento. Pois é... num gênero que era estritamente masculino, a moça, mais do que conquistar o seu espaço levantou também a sua bandeira, ou melhor, a bandeira da causa feminina, que já é empunhada em outros movimentos fora da música. Pela profusão de mulheres no meio sertanejo nos últimos tempos, ainda que outras tenham ensaiado a revolução no gênero, foi Marília Mendonça quem fez ecoar mais forte a voz que faltava.  
     Independente do estilo e gênero musical, a gente quer ver a música assim, engajada, politizadora, socializante, além de romântica também que ninguém é de ferro. E a música sertaneja com esse universo de seguidores, com toda essa demanda, todo esse capital que a Marília Mendonça ajudou a multiplicar acabou inaugurando uma nova era.
    É justamente esse formato que o vasto repertório de Marília Mendonça estava formando, arrastando multidões por onde se apresentava, mas que uma conjunção de fatores qualquer tratou de interromper precocemente. É triste demais pra ser verdade que um grito da magnitude de Marília Mendonça tenha se calado repentinamente, justo agora que a mensagem estava surtindo efeito, que o discurso no palco estava se espalhando nas mentes e almas e atingindo o âmago daquela gente, logo agora.
    Agora, é claro que todo o universo sertanejo vai ficar aqui torcendo para que as mulheres, ou os homens também, por que não, que já estão na estrada continuem empunhando essa bandeira, porque a grande massa que Marília Mendonça costumava arrastar é grandiosa demais pra não querer se sentir representada daqui pra frente, porque, certamente vai haver quem continue esse movimento, com aquela linguagem bem direta, coloquial, como era a marca de Marília Mendonça, tipo papo reto, falando na lata.
    Pelo pouco tempo que Marília Mendonça viveu, dificilmente ela passou por todo aquele turbilhão explanado em suas canções, mas certamente vivenciou os dramas e traumas inerentes ao universo feminino; certamente ela só reproduziu em suas composições essa realidade porque a viveu de perto, o suficiente para sair em defesa de seu público.
     Mais que aquele mulherão no palco, aquele vozeirão, Marília Mendonça virou um símbolo, uma referência de como uma causa tão grandiosa vai sempre precisar do ímpeto de alguém assim como a Marília Mendonça, que deixou por aqui, além da saudade e a dor habituais, deixou também um grande legado.

   

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

POR UM TÉCNICO ESTRANGEIRO NA SELEÇÃO BRASILEIRA

 
Foto: Gazeta Esportiva

     
Tem muito tempo que eu não falo sobre a seleção brasileira de futebol, mas ao longo desse período surgiram vários elementos que eu até precisava mesmo para endossar essa breve crítica.
    Independente do desempenho do time numa disputa, qualquer resultado que a seleção vem tendo mostra a inércia que o futebol brasileiro vem também mostrando para o mundo, porque é a seleção a referência, é a seleção que reúne, pelo menos em tese, os melhores, aqueles que se destacam e tal; é para a seleção brasileira que os olhos do mundo estão apontados.
    Há muito se fala sobre a evolução do futebol brasileiro em paralelo ao sucesso de vários jogadores que atravessam a fronteira do Brasil para brilhar em outras praças. O fato de o Brasil ser um celeiro de craques foi alimentando durante todo esse tempo o status do nosso futebol, a ponto de alimentar também o ego dos brasileiros, essa coisa de pátria de chuteira que fez a gente ficar no topo do ranking até geral aprender a jogar bola em todos os cantos do planeta.
     A primeira grande mudança no cenário do futebol mundial foi quando começaram a discutir e debater o futebol enquanto se difundia seus fundamentos em larga escala. É claro que vários personagens, autoridades, teóricos e demais formadores de opiniões aqui do Brasil acompanharam de perto as tendências que surgiam.
    Fica até chato suspeitar que houve algum erro de cálculo, falta de vontade ou uma interferência qualquer que tenha impedido o Brasil de acompanhar as transformações que rolaram, mas é certo que as cabeças pensantes do futebol brasileiro ficaram para trás na forma de conduzir, administrar e aprimorar nossas peladas.
    Não é culpa de nenhum jogador, pois a gente continua exportando o que temos de melhor. Mas o fato de sermos um celeiro de craques apenas fortalece o projeto alheio. Hoje, quando a gente vê o Tite comandando a seleção dá uma tristeza danada vê um desempenho tão pífio, mesmo quando ganha, até porque os adversários têm sido medíocres também. E pela performance dos outros treinadores brasileiros o Tite não está só nesse triste cenário que estamos prestes a mostrar na próxima Copa do Mundo.
    Eu não vejo um treinador brasileiro com uma revolução na cabeça, com uma inteligência a toda prova para fazer frente ao que já se pratica lá fora, tanto que nem contratam técnicos brasileiros no exterior. Os melhores times da Europa têm jogadores brasileiros em seu plantel, mas nenhum são treinados por brasileiros.  Aqui no Brasil mesmo treinadores estrangeiros já ocupam lugar em comissões técnicas. Se antes torciam o nariz para treinadores de fora, pelo menos na visão dos clubes isso mudou.
    Portanto, tá na hora de a CBF rever esse pragmatismo, essa visão tacanha e contratar o que há de melhor na praça, o que não é muito difícil, pois qualquer técnico desses aí top de linha largaria tudo para treinar nossos boleiros. Já andaram fazendo pesquisa um tempo atrás e a própria galera ventilou nomes, aprovando a ideia, eu apoio.
     Nesse ambiente que a gente habita, nessa atmosfera que a gente respira do futebol o Brasil está fadado a fazer figuração nas próximas disputas, digo isso com segurança, mas, claro, acreditando que pode haver uma reviravolta, mas com resultados a longo prazo, com planejamento que inclua, principalmente, mudança na filosofia de jogo, na gestão, na visão, que, com todo esse conservadorismo que ainda impera no futebol, mais precisamente na cabeça desses dirigentes de mente atrasada, vai empurrando o futebol brasileiro para o meio da tabela.
    Então é isso, eu sei que isso vai contrariar muita gente, isso é certo, e causar bastante polêmica, por remexer em nossa cultura futebolística, mas, a CBF tem prestígio e dinheiro para ter um técnico de ponta à frente da seleção brasileira.
     

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

NOVOS RUMOS AO AFEGANISTÃO

     

  É natural que a situação no Afeganistão cause todo esse rebuliço fora das fronteiras daquele país. Sob o ponto de vista humanitário esse assunto vai se estender bastante, e certamente todo mundo vai se envolver, no momento em que vidas humanas estão no centro da questão, em que o Talibã retoma o poder local e reacende o medo da população com a iminência de futura repressão pelo rigor com que a Sharia é defendida e posta em prática pelo grupo fundamentalista que agora comanda o Afeganistão.
    Se antes a presença das tropas americanas por lá é que determinava os rumos do país, a verdade é que independente de toda movimentação e posicionamento da comunidade internacional, agora, qualquer mudança que possa ocorrer dentro do território do Afeganistão vai partir única e exclusivamente de sua própria sociedade, em meio, infelizmente, à tensão que já se iniciou.
    Será necessário, sim, ajuda dos principais países, principalmente aos refugiados, mas o contingente que está lá, a população como um todo, terá de encarar talvez o mais árduo desafio de suas vidas, erguer o país, voltar à normalidade, sem qualquer interferência externa, que ao longo dessas duas décadas fez parte da realidade do Afeganistão com a presença dos EUA em seus domínios.
   Agora, é a soberania do Afeganistão que está em jogo, e ninguém vai poder fazer nada. É claro que a ONU e demais países vão se manifestar, principalmente pela defesa de direitos fundamentais que o código jurídico implantado pelo Talibã, o Sharia, restringe ao pé da letra. 
   Vale lembrar que durante esse período em que os EUA permaneceram em solo afegão, deu tempo de o governo de ocasião criar mecanismos e fortalecer instituições de modo a evitar eventual ruptura como parece ocorrer agora. A própria fuga do presidente Ashraf Ghani revela a fragilidade do governo para lidar com a situação.
    Ao governo americano  não cabia o interesse e o esforço de modernizar o estado de direito do Afeganistão. A política externa dos EUA sempre teve outro viés, todo mundo sabe, o que parece ter mudado completamente agora. Inclusive, foi o Donald Trump que fechou acordo para retirada das tropas. Joe Biden, também defensor da proposta, apenas cumpriu o trato, o que certamente vai modificar a política externa americana daqui para frente.
    Vai ter sempre uma nação se metendo na vida dos outros, mas sem tropas envolvidas. Há modos e tecnologias diferentes hoje em dia.
     De qualquer forma, é  triste saber que as pessoas no Afeganistão  poderão voltar  a ser reprimidas em seu cotidiano, a liberdade cerceada, sobretudo as mulheres, no momento em que há em todo o mundo uma bandeira em prol da causa feminina combatendo toda a sorte de violência e repressão. Mas, infelizmente, é uma questão a ser resolvida internamente, lá entre eles. Eventuais pressões por parte de organismos e nações serão importantes para ajudar a flexibilizar as leis islâmicas por parte do Talibã, quem sabe, ou não.
    Tirando o nosso Brasil como exemplo, a gente vem ao longo  desses anos e décadas fazendo alterações, adequando a legislação de acordo com a nossa realidade de país soberano. Aqui também as mulheres não votavam. Até hoje há discrepâncias de direitos e oportunidades, mas houve avanços, muita coisa mudou. Apesar de algumas dificuldades, nós temos nossas causas, nossas reivindicações, nossas demandas, nossas instituições, num cenário que nos permite modernizar nossas vidas sem interferência externa, estamos trabalhando para isso.
    Não será diferente o rumo que o Afeganistão deverá tomar para buscar segurança e liberdade para o seu povo.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

POR MAIS MENTES SAUDÁVEIS

    
    Finalmente começaram a discutir um assunto que há muito tempo já faz parte da vida das pessoas em todas as suas áreas de atuação. Sim, em outras áreas também porque não é só no ambiente esportivo que a saúde mental está diretamente ligada ao desempenho em práticas de qualquer natureza.
     Na seara do esporte essa questão fica mais evidente e mencionada por causa da própria repercussão do evento em nível global, como é o caso das Olimpíadas, mas é necessário que esse assunto seja discutido em todos os aspectos e ambientes, pois, eu não lembro de alguma coisa que o  ser humano faz em que corpo e mente não estejam ligados. 
    Então, é melhor que se aprofunde essa discussão levando em consideração todas as atividades humanas. Não é difícil perceber, hoje em dia, a pressão que as pessoas sofrem em seu cotidiano por resultados imediatos. 
    Trabalho,  escola, família são ambientes em que há uma expectativa qualquer  que sempre ultrapassa os limites tolerados das coisas, seja em compromisso, em metas de estudos e resultados, enfim, as pessoas  estão constantemente correndo contra o tempo, nadando contra a maré, buscando resultados e performances, na maioria das vezes, sem qualquer perspectiva de resultados promissores.
   A decisão da Simone Biles de abandonar as disputas em Tóquio certamente vai reabrir debates a respeito, mas é bom que se dê uma dimensão maior, para que a questão  da saúde mental não fique restrita apenas a área do esporte, porque os próprios especialistas, quando chamados para fazer diagnósticos, propor medidas e soluções, ficam concentrados ali, naquele problema, às vezes numa narrativa que só funciona para aquele assunto, somente, quando se poderia ampliar o debate com base em toda agenda social da sociedade. 
   Seria o começo de uma discussão que iria atingir várias pessoas em seu cotidiano. Da mesma forma que a atleta americana chegou ao seu limite, um universo considerável de gente de todos os estratos sociais estão vivendo, trabalhando, respirando além de suas capacidades normais e não têm a mesma oportunidade que Simone Biles teve para se recolher e ensaiar um recomeço. 
   Independente da sorte e dificuldades que cada um terá para encontrar a melhor solução para seus próprios  males,  a verdade é que as pessoas estão doentes, infelizes, transitando entre a ilusão e a loucura desses tempos em que quase tudo tem de ser imediato, urgente, sem tempo para reflexão sobre a viabilidade de seus projetos, que acabam adiados ou até interrompidos.
     Na cultura do corpo, é a prevalência dos influenciadores na vida das pessoas, sempre foi assim, não é de hoje. As pessoas se deixam levar por metas que não são suas, por projetos dos outros, por sonhos alheios. É impressão minha ou o advento de novas tecnologias vão aprisionando cada vez mais as pessoas?
    De qualquer forma, há uma crise em curso no mundo que impede uma massa enorme de viver confortavelmente dentro de seu ideal de vida, mesmo um sujeito rico que não sabe usar sua grana, e mais ainda o indivíduo com fome, desempregado, sem perspectiva de vida.
    De repente os governos precisariam investir mais em psicólogos na rede pública, para ampliar o acesso, além, é claro, de inclusão na área de educação para que futuras gerações saibam conciliar suas atividades, de modo a viver plenamente, sem amarras, sem apego.

terça-feira, 27 de julho de 2021

UM VENCEDOR DE FATO


  A essa altura do campeonato geral já sabe e conhece um pouco mais da trajetória de Ítalo Ferreira, o cara da vez, o brasileiro que no momento  honra o nome do Brasil lá fora e representa todo esse universo de gente que começou do zero seus mais edificantes projetos de vida. Porque, ante a explosão de alegria do nosso surfista campeão olímpico, o que não falta é gente relembrando as agruras de um cenário adverso, de um tempo cruel, em que tudo era desfavorável a qualquer sonho.
    Na cabeça de brasileiros de norte a sul do país, a lembrança do cara que começou a surfar com a tampa da caixa de isopor trouxe à memória de quem hoje goza de prestígio e sucesso aqueles momentos de penúria. 
    Da mesma forma que o Ítalo Ferreira engatinhou nas marolas de Baía Formosa, em condições completamente adversas, quanta gente também não teve uma tampa de isopor pra chamar de sua, só que em forma de um sapato velho, de uma roupa velha, de um trem lotado, de uma vida escassa do mínimo necessário, de uma doença, uma perda ou qualquer outro obstáculo que interrompesse um velho sonho.
    Pra quem vê e se espanta como tudo começou há, sim, o reconhecimento de quem lutou pra chegar aonde chegou. Só que passou despercebido de muita gente o triunfo maior de quem chega ao topo; a glória maior de quem fez jus ao sucesso por ter encarado o mais sinistro desafio que é uma onda daquela que quebra a prancha e ainda assim o cara não desiste; enfim, uma dádiva a quem sempre acredita.
    Pois bem, ficou marcada em especial na imagem do Ítalo, ainda às voltas com o mar revolto, o agradecimento pela vitória, porque nada pode ser comemorado antes de direcionar o pensamento a quem de fato proporcionou toda aquela festa. E o Ítalo  fez isso logo de cara, ali, ainda aos frangalhos, mas de forma sublime, humilde e soberana ao mesmo tempo, como bem marca os verdadeiros campeões.
    A gente costuma dar moral aos esportistas com base apenas em suas técnicas e tal, mas é bacana quando o cara amplia esse campo, quando seus valores, de família,  de suas origens e, principalmente, de sua fé maior se somam às suas habilidades. E o Ítalo Ferreira já é um grande vencedor  nesse quesito. 
   É isso que vai servir de referência pra quem de repente pensa em desistir porque não tem um tênis, uma prancha, uma bola, uma coragem, uma fé.
   É isso que me fez fã do Ítalo Ferreira pelo conjunto da obra.