segunda-feira, 31 de outubro de 2022

ESSA TAL DEMOCRACIA


    Foi bem tensa essa campanha eleitoral em todos os aspectos, desde os primeiros momentos até o resultado final da disputa, mas nada que pudesse desconstruir as bases da democracia, aquilo que a gente tem de melhor para decidir nossos rumos.
     Não é porque todo o processo foi nervoso que se vai fazer qualquer análise apenas dentro do cenário negativo que ilustrou a disputa.
    A dimensão do nosso país, a diversidade das regiões, cada uma com suas características e problemas e, principalmente, a diversidade de nossa gente, não implica somente a pluralidade cultural do povo brasileiro, mas também a pluralismo de ideias para decidir, definir e acertar a forma como queremos conduzir nossas vidas através das pessoas que se propõem e são escolhidas para representar todos os segmentos da sociedade.
     E foi justamente isso que todo mundo pode ver agora nesse desfecho eletrizante e conturbado ao mesmo tempo, mas maravilhoso, se a gente relembrar a oportunidade e a liberdade que cada brasileiro teve para fazer sua escolha, o que acabou se refletindo na composição dos legislativos e executivos federal e estaduais.
    Ainda que haja controvérsias quanto a um novo cenário para a vida política no Brasil, a verdade é que há um pouco de cada aspecto da realidade brasileira se insurgindo no horizonte da política através das representações, é isso que a gente pode ver.
    As mulheres tomando cada vez mais espaço nos governos, nos parlamentos, numa força política há muito tempo reivindicada pela sociedade. Pessoas dos mais diferentes perfis se fazendo representar em uma composição que vai retratando o Brasil na sua forma mais fiel e plural. 
     É assim que deve ser, um Brasil de todas classes, raças, credos, direitos e oportunidades.
    É lamentável que haja conflitos ao longo do processo. Apesar de alguns focos de tensão e insatisfação de alguma parcela que ainda queira atentar contra a normalidade das coisas, é gratificante saber que o resultado dessa eleição é fruto de respeito e observância às regras impostas para que tudo funcione dentro da ordem.
      Felizmente deu tudo certo, como bem sugere e permite a democracia com o respaldo da constituição. É preciso alguns ajustes para que o nosso maior patrimônio, a democracia, não fique tão à prova assim como esteve. É inadmissível que a democracia, o único sistema que pode conduzir as nações de forma justa se fragmente.
     Especialmente o Brasil, o país com a maior diversidade cultural, étnica e socioeconômica, que precisa de uma democracia cada vez mais fortalecida para que todos os segmentos da nossa sociedade sejam fielmente representados e também correspondidos em seus anseios e necessidades.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A FORÇA DE TRABALHO DO RIO



   Ampliando as discussões sobre os esforços do governo para fazer mudanças no cenário do estado do Rio de Janeiro visando o bem-estar da população, é necessário incluir na pauta a questão do emprego e o efeito prático na vida das pessoas.
     Quando se fala do esgotamento da cidade do Rio de Janeiro isso está ligado diretamente à relação com as cidades adjacentes que compõem a região metropolitana.
    Imagine o indivíduo que sai todo dia de sua casa na Baixada Fluminense para vir trabalhar no Rio. A gente fala justamente daquele universo que diariamente lota os trens, ônibus, naquele inferno que todo mundo já conhece.
     Pois é, agora imagine se grande parte desse contingente tivesse mais oportunidade de trabalho em seu local de origem. Quem conhece e anda em cidades como Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Queimados, Niterói, São Gonçalo e Alcântara vê de perto o potencial econômico dessas cidades.
      São redes de supermercados e shoppings-centers que geralmente movimentam essas localidades com a geração de emprego em níveis consideráveis, tudo bem, mas, rodando por esses locais não é difícil ver a quantidade de terrenos ociosos às margens das rodovias.
     São propriedades privadas, imóveis da União, principalmente das Forças Armadas ao longo da Via Dutra, Washington Luís, Rio Magé, BR 101 e demais vias da região metropolitana, que compõe uma paisagem completamente vazia, um contraste com a  efervescência do estado do Rio. Um mínimo de vontade política e parcerias entre as esferas federal, estadual e municipais poderiam perfeitamente remexer alguns indicadores através de políticas públicas de criação de emprego e renda.
    Com isso, uma massa considerável deixaria de descer a Dutra, a 040, a Ponte todos os dias, assentando um monte de gente em seu local de origem. Olha o reflexo que isso teria na mobilidade urbana de toda a região, só para começar.
    A gente tem visto nos últimos tempos uma debandada geral de empresas de grande porte do estado do Rio de Janeiro, fábricas, indústrias, montadoras de carros, num tempo em que esses grupos estariam fortalecendo e ampliando a capacidade de o nosso estado de crescer e fazer jus à sua importância para a população fluminense, para a região sudeste e, claro, para o Brasil.
     Nesses tempos de eleição, os candidatos, o próprio governador e os outros proponentes têm feito discursos de recuperação do estado, mas é tudo muito vago, sem garantia alguma de que a agenda deles vai ter realmente um conjunto capaz de fazer as verdadeiras transformações para o nosso rico e maltratado Rio de Janeiro, que já tem estrutura suficiente para absorver essas mudanças, basta querer.
     Muito se fala sobre a recuperação do estado. É possível por em prática qualquer ação proposta, desde que tenha essa amplitude em todos os sentidos.
     Senão, não rola.
    

terça-feira, 20 de setembro de 2022

POR UM ESTADO MAIS FUNCIONAL

    


  Há aspectos importantes para se destacar a respeito da campanha para o governo do estado do Rio de Janeiro. A gente sempre imagina que o governador conhece as necessidades de cada região do estado, mais precisamente de cada cidade. Ao todo são 92 cidades.
      Se por acaso passa despercebido do governador uma determinada localidade, o mandatário tem sempre seu secretariado que municia o chefe com informações e dados para eventuais projetos a serem implementados.
   No caso da região metropolitana, há uma complexidade maior pelo conjunto de fatores que compõem essa área enorme em torno da capital do estado.
      Sem tirar a importância das outras regiões do estado, cada uma com suas características e peculiaridades, a região metropolitana do Rio de Janeiro, que reúne a capital, a Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo é a parte do estado do Rio que mais tem demandas serem atendidas pelo poder público.
    Por concentrar o maior contingente populacional de todo o estado, a região metropolitana é a área que movimenta a maior parte da economia do estado e também onde os principais serviços prestados à população estão aquém da realidade de uma metrópole desse porte.
     Se houve num tempo passado algum estudo que pudesse adequar as ações do estado às necessidades da massa dessa grande região os números já estão completamente defasados.
    No dia a dia é possível ver a discrepância do que a população precisa para viabilizar sua vida e o conjunto do que tem sido oferecido pela administração pública. Eu destaco três áreas em que há assimetria de toda ordem na atual realidade do estado do Rio: transporte, segurança e saúde.
     Todos os sistemas de transporte público que fazem a ligação intermunicipal não suportam a carga diária de deslocamento das pessoas. Não há conexão entre os modais, todo dia tem uma pane, uma interrupção. Um sofrimento do tamanho do caos e pouco atenção para a mobilidade urbana.
    A segurança é outro setor que opera de forma precária, apesar de um esforço relativo, mas tímido que o governo do estado faz. Algumas localidades têm mais atenção que outras, ou seja, uma parte da população é mais privilegiada, outras, mais desguarnecidas, desprotegidas. Não existe uma política de segurança que abranja todo o estado.
    A rede de saúde é mais uma que traz agonia e apreensão para a população fluminense. A Baixada Fluminense é precária em unidade hospitalar. Muitas pessoas vêm buscar atendimento no Rio, onde já está saturada a rede, por falta de planejamento, investimento e vontade política. Enfim, não há saúde decente para todos.
     Considerando a conexão entre as diversas localidades do estado do Rio de Janeiro, em função da própria funcionalidade da região, o governo estadual precisa trabalhar em conjunto com as prefeituras locais nessas demandas que envolvam toda a região.
    Isso é uma obrigação, uma responsabilidade que deve estar acima de qualquer questão política ou ideológica que costumam cercar as relações entre as esferas de governo.
     O desenvolvimento de todo o estado e o bem-estar da população dependem dessa visão de quem se propor a governar o Rio de Janeiro daqui para frente.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

SEM PALAVRAS AO VENTO

  

       A campanha das eleições já está a pleno vapor, e essa já tem um complicador a mais por abranger os outros cargos dos legislativos federal e estaduais.
     É claro que a disputa para a presidência da república e os governos estaduais será sempre a que disperta mais interesse e atenção dos eleitores, ainda mais agora com toda essa polarização em nível máximo de turbulência.
    Mas a briga para as cadeiras nas Câmaras e no Senado também tem suas bizarrices típicas do ambiente, vai vendo.
    Pode até ser que essa disputa fique marcada, justamente por isso, pelo alto grau de intolerância entre todas as partes envolvidas.
     Se tanto eleitores quanto candidatos não reverem seus conceitos, essa baixaria, esse ódio e intolerância, tudo junto e misturado acabarão sendo a principal marca da política como já faz parte do traço de personalidade de milhões e milhões de brasileiros por esse país afora.
     E pior disso tudo é que essa nova agenda acaba ocupando espaço e tempo do que seria realmente necessário discutir. É como se a gente continuasse protelando a discussão de nossos próprios problemas e a política vai deixando para depois dar aquele salto de qualidade que certamente iria interferir na vida brasileira.
     E vamos também combinar, gente, que no meio de toda essa confusão passa despercebido de muita gente, menos de mim, um monte daquelas figurinhas de sempre que só vivem de soltar palavras ao vento, prometendo coisas que não tem nada a ver com as atribuições do cargo que pretendem ocupar. Aquela velha tática de apostar na ignorância do eleitor. Na maioria das vezes é a própria figura o ignorante em questão.
     Está incluído nessa lista também os filhos da política. É uma turma que segue os passos de seus genitores, alguns ainda tentando, outros já com espaço conquistado, dando continuidade aos trabalhos pra manter o nome da família, essas coisas, você sabe.
     Mas tem também filhinho e filhinha escondendo o sobrenome do papai que deu mole e está em maus lençóis, com o nome sujo, uma herança que ninguém quer. Faz de conta que é carreira solo. Há quem ainda acredite nessa gente, fazer o quê?
     Seguindo esse rumo conhecido do calendário eleitoral, a tendência é que não haja mudança alguma, mas eu acredito muito na maturidade do eleitor. É ele que pode operar essa mudança, trocando as peças sempre que puder e entender a necessidade da mudança.
     Em todo pleito tem uma galera cheia de energia, querendo se incluir na política com ideais de interesses coletivos, mas com certa dificuldade pelo pouco espaço de tempo na mídia, além de pouca grana. Pelas redes sociais ficou bem mais fácil identificá-los.
     Um novo ambiente que pode contribuir muito para essa renovação.


                                                Arte: Senado Federal 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

UM GRITO A MAIS

   

   O povo brasileiro vai sempre comemorar a independência do Brasil por uma questão de honra e soberania. Qualquer nação que como o Brasil tenha passado pelo jugo das Grandes Navegações até ficar livre das amarras do colonizador e atingir a maioridade com hino, bandeira e moeda próprios vai ter motivos para festejar com o peito estufado de tanto orgulho por termos nossa própria vida e realidade.
    Agora, é bom deixar claro que essa independência que a gente conquistou apenas colocou o Brasil no cenário geopolítico. Somos uma nação que tem o seu espaço no mapa do mundo com fronteiras respeitadas e reconhecidas por todos os países, olha que bacana!
      Se hoje o Brasil desfruta desse prestígio de sermos bem relacionados no mundo, é gratificante para qualquer brasileiro saber desse status de uma grande nação. Que bom que a gente preenche todos os requisitos para que geral venha pra cá vender mercadorias, investir capital, curtir nossas praias e nossas festas de arromba!
    Na sequência da mais importante conquista do Brasil, criamos condições para as organizações políticas, econômicas, sociais e culturais aos moldes do que a sociedade brasileira precisava para prosseguir construindo sua história, sem que ninguém de fora pudesse ou quisesse interferir nesse processo. Ou seja, a gente aprendeu a andar com nossas próprias pernas.
     Bom...aqui dentro de nosso quintal, nesse cenário e realidade que só nós conhecemos a história é outra. É claro que em toda essa obra de construção do país foi preciso criar leis, regulamentos que nos permitissem viver em ordem, porque, senão já viu, né. Se mesmo com regras o brasileiro já mata, rouba, estupra, suja praia e derruba árvore, imagine se a gente não tivesse uma constituição pra chamar de nossa!
     Pois é, o Brasil cresceu tanto que nossas próprias leis não acompanharam a tendência de crescimento do país. Criamos instituições de toda ordem para gerir nosso patrimônio que compreende tanto o resultado de nosso trabalho quanto dos nossos recursos naturais.
    Mas pela dinâmica com que o Brasil vem evoluindo ao longo desses 200 anos, teríamos de renovar a todo instante os códigos que dizem respeito às riquezas, às formas de vida, aspectos culturais, meio-ambiente, inovações tecnológicas e desvios de conduta no plano individual e coletivo.
    Há transformações constantes em todos os campos de atuação de nossa gente, e todas leis vigentes não acompanham essas mudanças. Há sempre uma lacuna a ser preenchida; há sempre um vácuo entre a realidade e a desordem; há uma discrepância enorme entre o tempo das leis e o tempo do cidadão.
    As tais reformas que a gente está sempre ensaiando executar implicam justamente diminuir esse espaço que é quase um abismo, quase um precipício.
    De qualquer forma, comemoremos, sim, a nossa independência. Ela foi um sopro para o nosso projeto de nação soberana. E pode também ser um estímulo ao nosso desejo de sociedade moderna.
     Um grito a mais para a evolução do Brasil.
     

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

NO RITMO DAS TRIBOS



     A gente já estava começando a falar de política porque foi dada a largada para a corrida eleitoral quando começa também o Rock in Rio, tudo junto e misturado no mesmo calendário, e pareado até no barulho que cada evento vai fazer, claro, cada um no seu tempo e ambiente.
     Mas tá valendo mudar o foco por alguns dias pra falar basicamente de um acontecimento que já faz parte da agenda do Rio de Janeiro de tempo em tempo, principalmente porque contagia e traz um pouco de alegria e descontração num momento de grande expectativa e aflição nesses tempos de pandemia e cenário político bastante conturbado.
     E falando exclusivamente do Rock in Rio não se está fugindo ou desviando da política. Esse festival que o carioca, o Brasil e o mundo já conhecem é uma reprodução clara do que se reivindica na política e que já se ensaia numa frequência cada vez maior a cada chamamento de um sufrágio universal.
    O Rock in Rio que lá na sua gênese tinha a prevalência do metal em suas mais variadas vertentes, hoje consagra a diversidade de ritmos como uma tendência universal da própria música, da arte e da cultura em geral, como instinto e espírito da globalização, porque hoje, dificilmente uma batida qualquer fica retida em seu ponto de origem. Se alguém bate uma lata nos confins do universo seus acordes ecoam em toda a galáxia.
     Talvez devesse mesmo o Rock in Rio abraçar e fazer esse congraçamento de tribos e ritmos, porque a música sempre foi assim, essa mistura de barulhos diferentes, o erudito e o popular, o urbano e o tribal em constante transformação.
     E a política dentro de seu espaço e tempo vai construindo esse cenário, não com o mesmo ritmo e compasso do Rock in Rio, evidentemente, mas há uma proposta com esse objetivo. Há elementos e personagens que ensaiam e reivindicam um outro palco ou palanque como queiram. Na verdade, um palanque como esse do Rock in Rio, para uma diversidade tão abrangente e global como já se confirmou o Rock in Rio.
     Pois bem, é isso que a política precisa ser, consagrada e diversificada como o Rock in Rio em sua configuração, em sua organização, esse monte de gente diferente saindo de todos os cantos, cada um com seu barulho peculiar. Assim deve ser a política em falas e representações, assim ela deve ser, fluindo como música, é melhor que seja assim. É melhor que fosse assim, melhor dizendo.
     Que a política tenha outros ritmos, faça mais barulho e congregue mais e mais tribos e gentes diferentes. Do mesmo jeito que funciona o Rock in Rio.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

QUE VENHA A MODERNIDADE

  

    Essa nova banda 5G que em muitos lugares do mundo já está em funcionamento tem tudo para causar mais impacto que as suas versões anteriores, que já vinham aprimorando faz tempo as relações sociais de todas as ordens do mundo.
     Parece que essa de agora, além de mais veloz que seu modelo anterior interfere também nas situações do cotidiano, a internet das coisas como já está sendo classificada. Vai ser uma loucura essa parada, uma dinâmica diferente.
     Na verdade, não é a primeira vez que o advento de novas tecnologias cria essa interferência entre as coisas ao nosso redor. Se essa tentativa de agora vai ser bem mais funcional, como promete os criadores e demais entendedores do assunto, tudo bem, porque o pessoal da antiga sabe bem o sufoco que era no passado.
     Eu bem sou dessa época em que tudo era bem precário. Pela propaganda que se fazia a gente acreditava que os caras até tinham boas intenções, mas faltava, sim, algo mais, já que lá fora, onde também tinha essa novidades não havia registros de ninguém reclamando. Pelo menos a gente não via notícias a respeito no jornal ou na televisão.
     Ops! Era justamente a televisão o núcleo de todas as incertezas e angústias. Tal qual a internet que hoje conecta as pessoas em larga escala, a televisão também tinha essa função, pois unia a galera, família, vizinhos, para ver os “Irmãos Coragem”, quem lembra sabe.
      Bom, dependendo do lugar não era essas maravilhas, não. A novidade parece que já vinha com defeito, mas o brasileiro, essa gente bronzeada que tem seu valor, tem também o seu jeitinho, já que naquela época ninguém ficava de bobeira também não.
     A geração de hoje não sabe de uma das mil utilidades do Bombril como rezava a velha propaganda, ou das vezes em que se subia na laje, no telhado pra ajeitar a antena porque a cara do Tarcísio Meira estava meio torta, o que desconstruía completamente a imagem do galã da época. E vira a antena de um lado para o outro, e volta mais uma vez. Sinistro o negócio, cara. “Agora tá bom”, gritava alguém lá de dentro.
     Era cansativo aquele processo, e qualquer medida para solucionar o problema não durava muito tempo. Alegria de pobre você sabe, né. Pois é, a televisão tá lá, imagem limpinha, aí o vizinho resolve ligar o liquidificador, lascou tudo de novo.
      Hoje, a gente convive com essa conexão de dispositivos diferentes atrelados uns aos outros, Bluetooth, inteligência artificial e tudo mais com a menor interferência possível, mas num passado já bem distante era muito cruel. A gente passou muito sufoco até usufruir das modernidades do mundo.
     A modernidade que é cada vez mais funcional, mas incerta e complicada também, tanto que fica logo obsoleta, vai vendo.
     Eu que já tive aquele famoso carro com 147 problemas, hoje eu comemoro essas boas novas, ainda que com algumas reservas, pois a gente nunca sabe o que vem pela frente, visto que toda tecnologia tem sempre uma implicação qualquer, uma versão mais moderna da famosa dor de cabeça.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

O TRIUNFO DA MORAL

  

     Não tinha como ser de outro jeito o destino de Gabriel Monteiro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, se a gente pensar no fortalecimento das instituições de um modo geral.
    Independente das relações que o agora ex-vereador tinha com outros integrantes daquela Casa, uma situação que pudesse livrá-lo de uma punição qualquer, com ou sem cassação, há uma tendência e um esforço dentro de qualquer órgão em defender a instituição primeiramente.
     Não seria diferente na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, uma instituição que sempre teve na figura de cada parlamentar ali assentado a responsabilidade de representar fielmente e moralmente o cidadão carioca.
    Certamente a massa votante que o elegeu apostava em suas propostas de denúncia de eventuais irregularidades, descasos e desmandos em serviços públicos, mas o seu comportamento fora da agenda parlamentar acabou por definir o destino de quem poderia estar desenvolvendo altos projetos para a cidade, mas não chegou a representar o cidadão do Rio de Janeiro em suas necessidades e urgências.
    Isso serve de alerta para todas as vezes em que a população for convocada a escolher seus representantes avaliar bem, pois o político traz para a vida política seus princípios, sua personalidade, caráter e valores que certamente vão influenciar sua trajetória de agente público.
     Quando se fala em renovação política, a parte dos eleitores é justamente observar esses detalhes para que não haja prejuízos para a sociedade, porque o indivíduo quando ganha essa credibilidade ele acaba representando um universo muito maior que o grupo que o elegeu, e qualquer desvio de conduta vai comprometer o interesse coletivo.
      No caso do Gabriel Monteiro, isso certamente pesou nos trabalhos da Câmara Municipal do Rio para retirar o vereador dos quadros da casa, como aconteceu recentemente com o Dr. Jairinho, todos sabem.
     Parece que não, mas há uma geração de políticos íntegros em todas as correntes políticas, tanto da velha quanto da nova geração, inclusive na Câmara Municipal do Rio, que têm essa premissa básica, esse compromisso de representar de fato a população em todos os seus anseios. É um grupo que tem a moralidade e a transparência como pano de fundo de seus projetos. E essa gente falando por nós se incomoda com um mínimo vestígio de má conduta que possa manchar a imagem da casa e desviar o rumo do que realmente interessa naquele ambiente.
     Se o declínio de Gabriel Monteiro frustrou sua gente, uma parcela muito maior comemorou a vitória da moral. É isso que a população espera de seus reais representantes em qualquer ambiente, em qualquer esfera política, o triunfo da moralidade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

VIVA O GORDO!

 

   A gente pode falar com muita segurança e propriedade que poucos artistas vão provocar o nível de comoção nacional como agora, com a perda de Jô Soares.
    Dificilmente um brasileiro não vai amargar essa grande tristeza, talvez pouquíssimos. Dificilmente alguém não se sentiu representado ao longo da carreira do gordo mais famoso da televisão, porque foram vários personagens dos mais variados tipos, que se não representaram a figura de um brasileiro, desde a sua forma mais ilustre ou singela, trouxe à luz da cultura e do entretenimento um problema, um caso, uma história, enfim, uma passagem da vida de um brasileiro.
     Mesmo num tempo em que já havia registros de cancelamento, exclusão, preconceito e discriminação, Jô Soares conseguiu dar voz à personagens que falavam justamente a voz dessa gente. Tinha sempre um pobre, um gay, um negro, um retirante ou outro, fielmente reproduzido e representado com voz de denúncia e crítica, porque Jô Soares era assim, consciente e empenhado, através de sua arte e talento, trazer à tona, ao conhecimento público, qualquer questão pertinente ao povo brasileiro.
    Além das inúmeras facetas de nossa gente, Jô Soares também abordou temas relevantes da realidade brasileira, revelando todos os aspectos e condições humanas do povo brasileiro em geral, transcorridos em vários períodos da história do Brasil, com o mesmo tom de crítica, sabedoria, conhecimento e inteligência.
    Através da arte de Jô Soares, o Brasil conheceu um pouco de várias personalidades do mundo artístico, político, esportivo fora de sua área de atuação, mas, destaca-se a oportunidade que o gordo também dava em seu programa de entrevista ao brasileiro comum, aquele cidadão simples que tem uma história curiosa, importante para contar ou um grande feito que vinha à público e ganhava notoriedade.
    E assim era a arte de Jô Soares, abrangente em todos os sentidos, simples assim para quem tinha talento de sobra para atuar na televisão, no teatro, no cinema e na literatura, tudo isso com o humor como pano de fundo e o roteiro de uma trajetória maravilhosa.
    Vai ficar na história da cultura brasileira o talento de quem melhor representou a alma do povo brasileiro com humor e alegria. Vai ficar na saudade a arte de fazer rir em todos os momentos, porque é bem assim o povo brasileiro. Porque era bem assim o Jô Soares.
     Viva o gordo!

domingo, 24 de julho de 2022

SEGUINDO O FLUXO

    

   A Linha Vermelha é aquele caminho que é um verdadeiro martírio na vida da gente nesse velho trajeto com destino ao trampo nosso de cada dia. Não tem muita escolha pra fugir do sufoco de manhã cedo. Se ficar por ali o bicho pega; se for pela Avenida Brasil o bicho come. Então, deixa quieto e segue o fluxo.
      Naquele horário nobre da manhã, no mesmo local, a mesma confusão de sempre, todo mundo no encontro marcado de todos os dias. É um teste de paciência a que geral é submetido. Eu acredito até que muita gente se supera, se resolve de outros traumas e crises à medida em que vai resistindo ao inferno de um trânsito caótico de vez em sempre.
      Dá tempo até de pensar na vida enquanto o trânsito não anda. Em meio à profusão de carros tipo que estacionados em plena via expressa, uma galera na maior correria disputa a vez de vender aquele cafezinho amigo, que sempre cai bem numa hora dessa, fora o pão de queijo pra ninguém dirigir em jejum.
     Pois é, a Valéria aí da foto faz parte dessa tropa de gente que aposta naquela confusão matinal de carros, ônibus e motos para fazer renda e pagar conta. Você fica ali com a mão no câmbio, esperando andar e vê aquela tribo de colete verde balançando o pegador de pão e gritando seu slogan.
     Uma faixa do trânsito para completamente enquanto a mulher serve o café, mas em todos esses tempos eu ainda não vi ninguém, o motorista atrás reclamando, com pressa, buzinando, enfim. Essa é a melhor parte de toda aquela confusão. Uma confusão organizada e saudável para quem tem uma visão humana sobre as contradições da vida e do mundo. A tolerância que a gente tanto reivindica em outros cenários conturbados funciona ali, que bom.
     Que maravilha a poesia do olhar sobre o outro, quando num momento de agonia, o cara boladão, tudo parado, mas, o reconhecimento que neguim tá correndo atrás, daí a paciência que se traduz até pelo orgulho de ver a moça faturando, porque, está todo mundo na mesma pista, na mesma conexão, ainda que em circunstâncias distintas, mas valendo sempre pela ausência de conflito, o que dá esperança de um outro horizonte nas próximas gerações, se mais pessoas passarem a ideia de que isso é necessário.
     Quando não tem engarrafamento, quer dizer, uma vez na vida e outra na morte, fica até meio estranho o trânsito assim, todo mundo chegando cedo no trabalho, beleza, mas, e aquela galera, a tropa de colete verde? Um dia sem retenção na Linha Vermelha, como mostra o repórter aéreo pela manhã, é um dia sem o pão para aquela gente. Tem sempre alguém que como a Valéria desce pra pista pra passar no mercado depois, pagar a luz, o gás, o leite das crianças, essas coisas.
      E assim segue o fluxo dos carros, das coisas, das pessoas, da vida como uma lei do mundo, como um ensinamento.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

DIPLOMA DE MARGINAL

  

 É compreensível que a imprensa use de formalidade para se referir às pessoas pela função que elas ocupam na sociedade, porque todo mundo tem uma ocupação na vida. Todo mundo tem uma missão para cumprir aqui nesse plano. Um desafio que vem junto com o destino de cada um.
    No caso desse sujeito que se aproveitou da anestesia da paciente para molestá-la, não me parece adequado destacar nas falas da mídia, no falatório das esquinas e nas redes sociais essa segunda função, a de médico, que o infeliz usava para mascarar sua outra profissão, a de marginal.
    Na verdade, ele nem cabe no ofício de médico, que é bem próprio de quem restaura a vida das pessoas, resgatando junto com a saúde a dignidade de quem por um momento está por um fio da desgraça, de uma moléstia. O anestesista mesmo é aquele sujeito indicado, habilitado, estudado para amenizar uma dor passageira, tipo aquela que um paciente sente quando precisa ir ao inferno e voltar.
     No entanto, não parece que esse infeliz estivesse empenhado nessa tarefa, muito pelo contrário, era um monstro, ali, um crápula em ação, um marginal de plantão. Só um bandido mesmo poderia se valer da fragilidade alheia para operar o seu verdadeiro ofício, o de marginal.
    A justiça, tão cheia de melindres, disparando sempre o princípio da misericórdia, a presunção da inocência, do coitadinho, do réu primário, da carteirinha de maluco, essas coisas que também dão sobrevida aos marginais, essa mesma justiça também pode dar vez a gravidade do problema diante de uma nova tendência que se verifica, a petulância do marginal, agora em larga escala.
    É inadmissível que o corporativismo da classe médica tolere e revalide as credenciais desse marginal em seus quadros. É preocupante que ainda se encontre brechas na lei para que esse marginal se livre do cancelamento total ou do que pode ser o mais rigoroso, se é que é possível, como uma resposta rápida à sociedade, porque, o que não faltam são marginais, estupradores com uniforme de todos os tipos batendo ponto por aí.
     Com a divulgação daquelas imagens, a gente logo imagina quantas mulheres foram e são abusadas, agredidas, humilhadas, esculachadas e ninguém descobriu, ninguém ficou sabendo, quando não havia nem tecnologia nem tantas vozes se levantando para denunciar essa corja que se infiltra no meio social com diploma de marginal.