sábado, 1 de fevereiro de 2014

Lembranças que não se apagam



  Parece que foi ontem aquele aceno antes de sumir na curva que eu espreitava pela fresta da janela todos os dias como um ritual de renovação constante para mais um dia de batente da Zélia.
  Antes daquele dia 1° de fevereiro de 1978, eu jamais poderia imaginar que a miséria daquelas redondezas lá de Paciência fosse mais saudável que a saudade que eu inaugurei naquele instante em que um passarinho trouxe a notícia do trem malvado.
 Nos tempos em que fui me acostumando a conviver com uma grande perda os mecanismos de se compartilhar a angústia ficava restrito ao recolhimento, às ilusões, ao choro contido que se confundia com a crise de identidade muito comum a um fedelho perdido aos quatro ventos.
  Hoje, minha sombra não é tão nebulosa que eu não possa seguir adiante e sempre. Mas meus fantasmas estão sempre me conduzindo de forma trôpega, para que eu não cicatrize jamais essa ferida aberta.
  Na verdade, são meus anjos reatando a todo instante o cordão umbilical. Deve ser por isso que eu até hoje ainda acordo sempre com um grande beijo. Deve ser por isso que eu continuei tirando notas boas senão te meto o chinelo.
  Consegui ser o que muita gente nunca será por causa da bagagem que carrego nessa viagem sem volta. Para minha sorte, consegui também transformar minha dor na arte de prosseguir. Descobri um jeito de modificar a velha angústia em combustível. Suor e lágrima agora têm o mesmo gosto, a mesma fragrância, a mesma essência.
  A saudade que me entorpece nunca me matará, mas se um dia eu morrer hoje eu vou aí te acordar do jeito que eram minhas manhãs.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O enigma da culpa

   A derrubada de uma passarela não é o primeiro nem será o último indício de que em tragédias de grandes proporções a corda sempre arrebenta no lado mais frágil.
   Pelos desdobramentos de uma infinidade de processos que apuram responsabilidades por acidentes de grandes repercussões a questão central nas investigações em curso fica sempre concentrada na falta de fiscalização como causa maior dos sinistros.
   E se existe um órgão encarregado de vigilância constante para prevenção de acidentes não seria difícil encontrar o verdadeiro culpado quando há comprovação do elemento causador da tragédia, e em razão disso, do item que foi sonegado ou abrandado nas normas de segurança.
   Na Boate Kiss, em Santa Maria, o músico foi infeliz em disparar aquele artefato, mas quem autorizou o funcionamento daquele estabelecimento sem saída de emergência adequada a um grande público? Se é o Corpo de Bombeiros quem avalia a observância desse item de segurança e a prefeitura é quem concede a licença para funcionar fica fácil encontrar os verdadeiros culpados.
  Assim como no Edifício Liberdade, no Centro do Rio, há um ano, alguém com alto grau de responsabilidade permitiu aquela malfadada obra no prédio.
   Desde quando o Bateau Mouche naufragou em 1988, até hoje ninguém comprovadamente culpado por aquela tragédia foi punido. Nem o dono do barco, nem o sujeito que organizou o passeio, nem o Capitão dos Portos, ninguém.
   São prédios que caem, trem que descarrila, barcas que enguiçam na Baía de Guanabara, obras atrasadas sem cronograma e uma série de outros contratempos que causam transtornos e danos à população em geral, sem nenhuma perspectiva de reparação de prejuízos e o que é pior, nenhuma forma de penalização a quem efetivamente causa estragos na vida das pessoas.
   Não é de hoje que a hierarquia da pirâmide social vai revelando essas distorções ao compasso de exclusões e benesses. Com isso, fica cada vez mais difícil ver figuras que ocupam posição de destaque em todas as áreas de atuação humana sofrerem os rigores da lei, no momento em que não se pode botar a culpa no mordomo, no motorista, no cara que serve o cafezinho, no porteiro, na empregada, no faxineiro,  na secretária, embora haja sempre um ensaio para se imputar a culpa no subalterno, na serventia, na ralé, mesmo com o simples propósito de desviar o foco aos verdadeiros culpados.
   No caso do caminhão que derrubou a passarela, o mecânico que fez a manutenção recente no veículo já foi arrolado para depor porque o reparo que ele realizou pode ter contribuído para o acionamento aleatório do movimento da caçamba, abrindo uma remota, mas nítida possibilidade de responsabilização do profissional pelo acidente.
  É por esses desvios de rota e aberrações constantes que não vemos médicos, advogados, engenheiros, prefeitos, governadores e outros agentes públicos de vários escalões condenados em processos de responsabilidade civil e de outra ordem. 
   E assim, a imputação da culpa ainda se configura como um grande enigma.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A SuperVia-crúcis continua

   Pelos frequentes registros de incidentes envolvendo os trens da SuperVia é inútil ficar discutindo e acirrando debates acerca de eventuais melhorias no serviço que a concessionária presta à população do Rio de Janeiro.
   Toda vez que um trem descarrila, como aconteceu agora, ou outra pane acontece, o mesmo discurso das mesmas bocas falantes de sempre, e ninguém capaz de acender a luz de emergência para reformas profundas na operação de trens urbanos, cujos gestores e autoridades envolvidas diretamente ao setor são mais que reincidentes em causar verdadeiro caos para o cidadão em seu deslocamento diário.
   O sr. Carlos José Cunha não pode passar para a sociedade a ideia de que apenas o advento de novos trens vai resolver o problema desse importante modal do sistema de transporte coletivo, quando, na verdade, é nítido que a precariedade do serviço abrange toda a rede que necessita de manutenção constante, investimentos concretos em toda a infraestrutura e fiscalização permanente da agência reguladora.
  Na verdade, a sociedade como um todo, incluindo o Ministério Público, a OAB e a comissão de transporte público do legislativo, que acreditamos ser a voz da população, deveriam rever, dentro da esfera jurídica, com base em proposta de interesse público, o contrato de concessão do poder público à SuperVia, estendido recentemente por mais 40 anos.
   A eficiência do serviço, reparações de eventuais prejuízos à população, prazos de adequação do sistema e investimentos que proporcionem a excelência do serviço prestado certamente são normas que não estão sendo cumpridas dentro de acordo firmado, o que permite um reexame dessa relação, pouco saudável ao cidadão, do poder público com a iniciativa privada, como já acontece com outros sistemas, precisamente ônibus e metrô.
   Nem mesmo as análises técnicas que o CREA-RJ e o Clube de Engenharia fazem paralelamente são levadas em conta, o que demonstra a pouca seriedade em lidar com o problema, no momento em que a imprensa mostra a relação político amistosa entre o presidente da SuperVia, o sr. Carlos José Cunha, o representante da AGETRANSP, Arthur Vieira Bastos e o secretário estadual de transporte Júlio Lopes.
   Já passou da hora de tirar essa gente de circulação, para que a população também pare de andar nos trilhos e o sistema de trens urbanos entre finalmente nos eixos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Valeu, Seedorf!

   A torcida do Botafogo não poderia esperar que Seedorf se alongasse no time alvinegro por muito tempo. Mesmo antes de mostrar todo seu talento nos campos brasileiros, já havia a expectativa de que o holandês rumasse para outra seara do futebol, como parte da evolução na trajetória de grandes boleiros, o que não seria diferente em se tratando de Clarence Seedorf.
   Em outras praças é comum a prática dos principais clubes, principalmente da Europa, de integrar em seus quadros alguns jogadores que tendo brilhado dentro das quatro linhas criaram cacife suficiente para prosseguir com sucesso no meio futebolístico em cargo de comando.
  E Seedorf certamente já figura na galeria desses grandes ídolos, que para o bem do futebol, terão a oportunidade de colocar em prática todo o conhecimento adquirido ao longo da carreira. Isso não quer dizer que qualquer um que se aventure nessa nova empreitada vai lograr êxito comandando uma equipe.
  Mas, considerando as marcas que Seedorf deixou nas equipes em que atuou, inclusive na seleção de seu país, não há dúvidas de que ele  vai contribuir enormemente para um novo cenário do futebol mundial, pelo seu talento, responsabilidade e seriedade com que conduziu sua brilhante carreira como jogador.
  E o Milan, por onde Seedorf jogou por mais de dez anos, não se furtaria a seguir essa nova tendência, ao repatriar o grande ídolo, agora técnico do time italiano, cujos dirigentes não fariam uma proposta dessa envergadura para o holandês, se não tivessem a certeza das qualidades de Seedorf, dentro do projeto de um grande clube em se adequar aos novos ventos que sopram no futebol.
   E se a bagagem de Seedorf o credencia a se firmar nessa nova função, sua passagem pelo Botafogo enriquece ainda mais o seu vasto currículo. Todo o período de adaptação, a estrutura do futebol brasileiro em seus aspectos culturais, disciplinares e profissionais foram obstáculos que Seedorf superou sem que isso abalasse a dignidade que sempre demonstrou em seu breve período no Brasil.
   Para o Botafogo e sua imensa torcida, agradecida e orgulhosa, a satisfação de ter contribuído para esse rito de passagem de Seedorf. Para o público brasileiro, a alegria de ter vivenciado o espetáculo que Seedorf sempre procurou proporcionar nas vezes em que esteve em campo.
  Pelas incertezas que ainda rodam o futebol, esse novo projeto de Seedorf ainda é uma incógnita, quanto aos resultados que virão. Mas, pelo profissionalismo do holandês, um grande desafio pela frente, que Seedorf vai saber encarar com a mesma competência de sempre.
   Valeu, Seedorf!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A riqueza do Maranhão é outra

     A classe política não se cansa de inventar discurso em cima do lance para postergar o poder inócuo que passa de mão em mão, ou de uma geração para a outra, no caso dos clãs já consagrados pelo extremismo de suas nulidades ou ineficiência.
   A última fala da governadora do Maranhão Roseana Sarney em sua explanação sobre a crise no sistema prisional daquele estado, além de confirmar a falência do executivo local em questão crucial para a segurança da população maranhense, ainda deixa transparecer para a sociedade brasileira o limite a que chegam determinados grupos políticos no velho expediente de tentar perpetuar a incompetência que grassa em todas as esferas de governo e em outros recantos desse país.
   Os indicadores sociais do estado do Maranhão não permitem que a governadora faça qualquer juízo de valor a respeito da situação socioeconômica de sua população em função de qualquer mudança positiva que porventura tenha contemplado uma pequena parcela do contingente daquele estado, sem que isso represente de fato algo saudável para a maioria.
  Não bastassem os demais problemas que não estão restritos ao sistema carcerário, Roseana Sarney ainda tem a infelicidade de estabelecer uma relação de causa e efeito completamente sem nexo, no momento em que deveria dar uma mínima satisfação à população sobre os reais motivos desse descontrole do governo do Maranhão na situação prisional sob sua responsabilidade.
   Se a situação em Pedrinhas chegou a esse ponto, significa que a governadora não deu a devida importância à questão fundamental da área de segurança pública de seu estado. 
   Agora que há iminência de interferência do governo federal no Maranhão, Roseana Sarney não poderá se furtar a adotar medidas que impeçam a continuação de velhos erros do passado, principalmente quando uma crise de tal magnitude ponha em risco a integridade física da população, e em casos extremos, perda de vidas humanas.
  Portanto, a única riqueza que consta na trajetória do Maranhão é o histórico de luta do povo, dos tempos de dominação externa aos dias de hoje, de vacilações de seus governantes.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Deu a louca no clima

   Está muito em voga agora a tal sensação térmica que é percebida nos dois extremos. Tanto na era glacial do hemisfério norte quanto no maçarico dos trópicos.
   Esse novo conceito de se sentir algo fora do normal pode ser o primeiro indício de descontrole do próprio homem sobre as coisas terrenas, além da entropia que já parece acometer aqueles termômetros digitais das ruas, estabelecendo uma margem de erro absurdamente inaceitável, quando, na verdade, as tecnologias que indicam as catástrofes e as bonanças do nosso dia-a-dia estão tão obsoletas quanto a capacidade do homem de se prevenir.
   O senso-comum não me permite profetizar sobre as hecatombes ou as maravilhas de um futuro incerto. Isso vai depender da bestialidade em larga escala ou dos lampejos de genialidade das próximas gerações de homo-sapiens.
   Mas eu posso perfeitamente especular sobre um regime de extremos que pode configurar o clima do planeta num futuro próximo.
   Pelos níveis de degradação que se tem verificado, pode ser que essa nova tendência de sobressaltos climáticos represente um saudável processo de auto-regulação térmica do organismo chamado planeta terra, em função do intemperismo de seus habitantes.
   Nesse sentido, eu acredito até que tenhamos num futuro não muito distante apenas os extremos de temperatura do globo terrestre. Em alguns lugares, muito frio; em outros, muito quente, com alternância. As estações do ano perderão completamente seus sentidos e suas ocorrências se darão de forma imprevisível, tal qual o regime de chuva, o movimento dos mares, os níveis de precipitações, o tempo de recomposição natural de áreas degradadas, e como não poderia deixar de ser, o comportamento voraz da raça humana no manejo da terra, na ocupação do solo e em projetos de intervenções urbanas.
   O próprio aquecimento global, como obra e graça da influência humana, aumentará também a margem de erro de previsões meteorológicas, obrigando toda a comunidade científica a se debruçar sobre projetos de ferramentas mais eficazes em prevenções de acidentes naturais.
  A sensação que eu tenho é que isso pode não acabar bem. E qualquer coisa que poderá ser feita será no sentido apenas de amenizar outros sofrimentos que virão.
  

    

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Rio de beleza oculta


  A queima de fogos no réveillon de Copacabana é apenas o ponto alto da festa de fim de ano que a prefeitura promove todos os anos. O evento como um todo não traz em cada edição uma característica marcante que revele a renovação do espetáculo que encanta tanto os nativos quanto os forasteiros.
   A própria intensidade e o tempo de duração dos fogos deste ano não tiveram nada de excepcional se comparado aos de outras cidades que também promovem esse evento.
  Além do mais, um espetáculo como esse deveria ser estendido a outros pontos da cidade como forma de valorizar os vários cartões-postais do Rio de Janeiro que ao longo de décadas servem de chamariz para quem se propõe a visitar a nossa cidade.
  Mesmo que a queima de fogos fique concentrada apenas na orla marítima, outros recantos que são a própria identidade da cidade maravilhosa também poderiam receber um tratamento estético como forma de dimensionar a festa de fim de ano no Rio.
  Já que a prefeitura não mede esforços para tornar a festa cada vez mais grandiosa e instigante para o próximo ano, outras maravilhas da cidade poderiam se inserir num outro contexto de preparação da cidade para que ela fique mais atraente.
  Certamente outras cidades não perderiam a oportunidade de valorizar toda a beleza local se tivesse esses fatores como motivos.
  É triste transitar pelo Aterro do Flamengo e ver aquele parque totalmente às escuras em plena época de fim de ano, quando em anos anteriores todos aqueles postes gigantescos ganhavam iluminação especial.
   O Pão de Açúcar também poderia ganhar uma iluminação diferente nessa ocasião, o que deixaria à mostra o brilho que a Enseada de Botafogo sempre teve.
   Outro fator de destaque da beleza do Rio é o seu conjunto arquitetônico. No centro do Rio, os edifícios mais altos ficam completamente apagados, e não há nenhum incentivo para que isso seja destacado.
   A Avenida Presidente Vargas, por exemplo, principal via do centro, poderia ganhar uma nova roupagem com uma iluminação ao longo de seu percurso. E olhe que não faltam naquela região elementos para embelezar ainda mais o seu trajeto. A torre da Central do Brasil com o seu imponente relógio jamais poderia ficar relegada ao ostracismo. Dificilmente os londrinos se esqueceriam de enfeitar o Big Bem, assim como os parisienses, a Torre Eiffel.
  O Palácio Duque de Caxias, o Campo de Santana, o Balança-mas-não-cai, o prédio dos Correios, a própria sede da prefeitura e a Igreja da Candelária incrementariam mais ainda o charme da avenida mais famosa da região.
   A Ponte Rio-Niterói é outro marco importante da cidade que ficou esquecido, considerando sua importância como porta de entrada da cidade do Rio.
   A cidade maravilhosa tem mais de mil motivos para que ela fique sempre em evidência. O que falta é gente com essa visão.
 


  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013 não vai terminar agora

   Há sempre um balanço a se fazer ao final do ano, tendo sido o período conturbado ou não. Mas, o esgotamento das folhinhas do calendário não coincide com o resultado de todas as ações de 2013. Porque é sempre assim: fica sempre alguma coisa para o ano seguinte. Já faz parte da nossa cultura deixar um restinho para terminar depois.
   Desde o sujeito que vai empurrando seus sonhos, aos governantes que vão sempre reeditando suas agendas de acordo com suas conveniências, numa manobra que desconstrói completamente os cálculos gregorianos.
  O interessante é que muita coisa sem muita importância foi realizada com mais afinco, ao passo que o que era realmente necessário ficou em segundo plano. E como não é novidade vermos subverterem a ordem das coisas todo ano, fica difícil traduzir em bons números todo o esforço empregado ao longo de 2013.
  De qualquer forma, não há nada que tenha sido tão emblemático e significante que as manifestações de junho, em meio às incertezas que provocaram essa inquietude em toda aquela massa que saiu às ruas.
   Nada se compara ao clamor da população depois de um período de inércia e passividade, no momento em que se avolumavam cada vez mais os malfeitos, a embromação, o desprezo e a falta de zelo com a coisa pública.
   Se ficaram tantas coisas para o ano que vem, nada poderá mais ser realizado à revelia do povo.
   Eu costumo dizer que falta às ações do agente público a lucidez que sobra nos atos mais simples das figuras anônimas, sempre entregues às suas lutas diárias, sem, contudo perder as esperanças.
   Mas as maiores aspirações sociais dificilmente tomarão corpo pelas mãos de um ato isolado, ainda que tivéssemos um grande herói, um grande líder, cujo espírito de decisão dependeria única e exclusivamente do envolvimento geral nos principais projetos voltados ao interesse coletivo.
   É nesse sentido que o grito das ruas marcou esse ano de 2013, num momento de congraçamento pelas causas mais urgentes, reivindicadas por mais e mais vozes que em tempos anteriores só eram comuns em ambientes de entretenimento e lazer.
   Se estamos longe de inaugurar uma nova era para o cenário do Brasil, pelo menos se ensaia a revolução que vai culminar com o esgotamento dos malfeitos, há séculos impregnados no tecido social da nação brasileira.
   Em 2014 teremos dois eventos com focos diferenciados na agenda do país. Em meio à Copa do Mundo e eleições, grande parte da população certamente saberá separar o joio do trigo, o que poderá revelar outros desdobramentos no cenário político, assim como a total observância às regras práticas e socialmente viáveis na execução dos principais projetos para o Brasil, por parte do poder público.
   Considerando a timidez com que os principais agentes políticos reagiram ao chamamento popular em 2013, não há dúvidas de que a opinião pública vai acenar com novas manifestações, até que as três esferas de governo correspondam, sem vacilações, aos anseios da sociedade.
   Existe uma dívida muito grande que será cobrada com fôlego e vigor renovados para 2014, à medida que as representações políticas continuarem hesitando em reverter esse quadro caótico da atual realidade brasileira.
   Feliz Ano Novo a todos os brasileiros, e muita luz para encarar os desafios que virão.
              
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Obrigado a todas as pessoas que prestigiaram esse breve espaço ao longo de 2013!
  

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Os sinos que não dobram

   Nada poderia ser mais angustiante para a Irene agora que as luzes vão se acendendo em todos os pontos de seu trajeto cotidiano, nas fachadas, nos postes, nas árvores, nas vitrines, no mesmo ritmo do corre-corre frenético ao final de mais um ano de celebrações pelas conquistas do período, ou de juntar os caquinhos pelos revezes de um ano conturbado como foi o da Irene em 2013.
   Vão passar muitos calendários e primaveras até que a senhora da bolsa marrom desmanche a tristeza estampada como maquiagem e conserve apenas a saudade dos tempos em que tudo tinha outras cores, outras formas, outras luzes.
  As bodas de ouro, o passeio matinal, o comprometimento ao longo desses anos, a árvore frondosa dessa união, tudo são marcas de uma história que tomou outro rumo com a ausência de seu mais fiel companheiro de todas as horas.
  Se não podemos resistir ao nosso próprio fim, pelos menos temos o desafio de sobreviver ao passamento de todos daqueles que nos rodeiam, sem, no entanto, conviver com aquelas dores profundas. E as angústias da Irene certamente ela não carrega em sua velha bolsa marrom. Simplesmente estão estampadas em meio às rugas.
  Fica até mais fácil para quem chora até hoje uma grande perda compreender esse enredo trágico da Irene.
  Apenas coincidiu de ser no Natal, mas seria tão doloroso quanto em outros momentos o infortúnio de quem perdeu seu amado. E a Irene vai passar por muitos Natais com esse vazio, assim como o sujeito que dorme sob a marquise; a família desalojada pelas enchentes; o desempregado que não teve o que comer; o pai em frangalhos, que enterrou sua filha por causa de uma bala perdida e todos os outros farrapos humanos.
   Para essas pessoas, as luzes de Natal não têm o brilho intenso. Elas sobrevivem da dor alheia, porque eu e mais de um milhão de outros seres mortais também compartilhamos a miséria e a desgraça como sendo nossas também.
  Para essas pessoas, os sinos não dobram.


domingo, 22 de dezembro de 2013

A questão dos ônibus continua

   A prefeitura do Rio anunciou novo aumento do preço das passagens de ônibus, como parte dos procedimentos com os quais estamos acostumados a conviver no apagar das luzes do final de ano.
   Independente do reflexo que isso pode ter nas ruas, como aconteceu recentemente, o Sr. Eduardo Paes tem contas a acertar com a população. Quando houve toda aquela pressão para a Câmara dos Vereadores investigar transparentemente o serviço que as empresas de ônibus prestavam para a cidade, em nenhum momento o prefeito se dispôs a contribuir com as informações que o legislativo municipal precisava para conduzir os trabalhos daquela Casa.
   No auge da composição da CPI dos Ônibus, ele apenas se limitou a creditar aos vereadores da Comissão a responsabilidade pelos trabalhos que a população exigia, no momento em que os integrantes da CPI não representavam o grupo ideal para a conclusão dos trabalhos, pela ligação direta que os nobres condutores tinham com o executivo municipal.
  Com o esfriamento das manifestações, a CPI dos Ônibus acabou não prosseguindo, e tanto a prefeitura, como a Câmara dos Vereadores ficaram devendo à sociedade as respostas que poderiam esclarecer as causas da ineficiência do principal sistema de transporte terrestre da cidade do Rio de Janeiro.
  Agora, o Tribunal de Contas do Município vem alertando a prefeitura sobre a majoração dos preços das passagens dos ônibus, cujo sistema passa por uma análise do plenário do TCM, que não consegue concluir a auditoria dos serviços desse modal por falta de dados que a municipalidade e as empresas de ônibus ainda não encaminharam ao Tribunal, como relata o presidente do órgão, Thiers Montebello, que acrescenta ainda que nessa apuração que o TCM realiza inclui-se também a qualidade do serviço, além das contas do setor.
   E o próprio conselheiro do órgão, Ivan Moreira, declarou que além da dissonância com a prefeitura, há também dificuldades em se captar informações junto às empresas, o que levou o conselheiro à conclusão bem pessimista sobre a questão. Em reportagem para o jornal O Globo, dia 21, Moreira não se furtou a descrever o cenário que ilustra a área de atuação dos ônibus na cidade. Segundo ele, “Não parece possível negar que há irregularidades e obscurantismo nessa modalidade de serviço público”.  
  Se a CPI dos Ônibus não se libertou do corporativismo que costuma imperar nas casas legislativas, pelo menos o Tribunal de Contas do Município faz valer sua independência em prol da população do Rio de Janeiro, tramitando com a lisura que a opinião pública sugere na prestação de contas à sociedade.
  


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O STJD não sabe julgar

    Não podia ser diferente que no dia seguinte ao julgamento do STJD que redesenhou a tabela do Campeonato Brasileiro, com o rebaixamento da Portuguesa, houvesse essa enxurrada de críticas por parte da opinião pública.
   Tudo bem que há toda uma paixão clubística como cenário da execração pública que o Fluminense sofreu com essa decisão judicial remexendo o resultado do Brasileirão disputado em campo.
   Mas pela indignação que eu presenciei nos bares, em volta das manchetes dos jornais e no trem, não me parece que esse barulho todo tenha como alvo principal a figura do tricolor das Laranjeiras, especificamente e sim, a moralidade como um todo, que falta também em outros cenários da vida brasileira.
  A diversidade de opiniões que grassou nas ruas só se difere pelo teor das considerações, mas tem em comum a lucidez que, segundo a grita geral, faltou no veredicto do judiciário desportivo.
  E já que todo mundo deu sua opinião, algumas até descabidas, eu fiquei também inclinado a me posicionar sobre um desfecho mais adequado ao comportamento, tanto do Fluminense quanto da Lusa, durante o tempo em que tudo isso se passava dentro das quatro linhas.
   Apesar de o STJD ser bem claro quanto às sanções aos clubes que põe em campo jogadores em situação irregular, é preciso observar se as penalidades impostas estão de acordo com a imprudência do time punido.
  Para começo de conversa, os eventuais prejuízos e benefícios que ambos os clubes, Fluminense e Portuguesa, obtiveram no final da disputa não se deram em função de um confronto direto entre os dois.
  O jogador Héverton não foi escalado imprudentemente num jogo contra o time carioca. A única situação em que poderia haver uma punição mais severa ao clube paulista, com perda de pontos, era se o atleta em questão tivesse influenciado o resultado de um confronto entre ambos. Se o Héverton entrasse em campo e revertesse um placar adverso a sua equipe, o Fluminense poderia, sim, reivindicar a reparação de um eventual prejuízo em função da escalação infeliz do jogador.
  No mais, a Lusa só ganhou um ponto no jogo em que o jogador foi escalado.
  Nesse sentido, os 4 pontos que a Portuguesa perdeu só culminou com o seu rebaixamento porque a diferença de pontos na parte de baixo da tabela era pequena.
  Seguindo essa linha de raciocínio, o STJD foi rigoroso demais, considerando que o clube paulista conquistou em campo os pontos que o livraria do descenso, enquanto que o Fluminense, em função de atropelos de sua administração ao longo do campeonato, não evoluiu o suficiente para evitar a sua queda.
  A responsabilidade da entidade de justiça desportiva do futebol brasileiro está em estabelecer parâmetros e critérios confiáveis na execução de penas previstas, de modo que a principal modalidade esportiva do Brasil mantenha intacta a credibilidade que falta a seus gestores.