terça-feira, 13 de outubro de 2020

FALTA AMOR AO RIO

    Quando chega a época de eleições parece que o amor floreia no coração dessa gente que fala ou faz qualquer coisa pra sentar na cadeira do prefeito. Eu fico imaginando o coração do cara pulsando em ritmo acelerado com a expectativa de governar a cidade, resolver essa penca de problemas que o Rio tem, descascar o abacaxi de cada lugar da cidade com o coração pulsando de emoção, nessa relação de amor e paixão por essa metrópole com maravilhas, mazelas, perigo, beleza, calor humano, tudo misturado, e o prefeito tirando tudo isso de letra, porque tudo é divino e maravilhoso quando é feito com amor.
   Deve ser realmente encantador cumprir uma agenda de governo sempre com o sorriso estampado no rosto, sem perder a ternura, mesmo que seus auxiliares venham à sua mesa toda semana com balanços e relatórios de tudo que precisa ser feito para o Rio de Janeiro ser  aquela cidade apaixonante pra se viver.
   Se tem alguém ou muita gente que pensa diferente, beleza, mas é esse cenário que eu imagino quando vejo um candidato à prefeito da cidade maravilhosa dizendo em todas essas inserções de  propaganda eleitoral que ama a cidade.
   É fácil compreender como é esse amor de alguém que tem raízes fincadas aqui. Não é surpresa alguma declarar esse amor pelo lugar onde tudo começou no caso dos nativos, assim como daqueles que escolheram o Rio como morada.
   Mas uma coisa é falar o que pensa, o que sente, até porque, quem tem boca fala o que quer, como dizem por aí. Agora, outra coisa é mostrar esse amor com ações práticas no dia a dia.
   Pra quem respira a nossa cidade em sua rotina e percorre todos cantos de um lado para o outro, à pé, de ônibus, trem, metrô ou bicicleta tem uma ideia dos cuidados com o Rio de Janeiro. 
   Se de um lado tem o sujeito que joga uma latinha de refrigerante no meio da rua, sem a menor cerimônia, do outro tem o poder público que oferece os principais serviços à população de forma precária. 
   Diante de todo esse cenário, não tem como disfarçar nossas mazelas, insistindo em divulgar a beleza da cidade nos velhos cartões-postais. Nesses tempos de redes sociais, é  muito fácil um forasteiro chegar aqui no Carnaval, no réveillon  e viralizar uma situação bizarra do Rio de Janeiro.
   Não adianta ficar zoando o paulista, o mineiro ou o amigo que mora na Baixada Fluminense e quando vai à praia deixa todo o lixo na areia quando vai embora. É triste ver o cara roubando fio da rede elétrica em plena luz do dia, o outro mijando no pé da árvore ou dando calote no BRT. Para o cidadão que  espera e exige o melhor de quem governa a cidade, o ideal é que ele faça a sua parte também.
   Pois é justamente essa postura que a gente espera do prefeito e legisladores da cidade do Rio de Janeiro. Muito mais do que amar o Rio é fazer da nossa cidade aconchegante e funcional para nós que vivemos aqui. É muito comum ver as ruas policiadas, mais limpas, metrô funcionando, trem e ônibus sem caô em dias de Carnaval, Réveillon ou eventos esportivos, e depois tudo volta a desandar quando os visitantes vão embora.
   Não adianta que amar o Rio seja um mote de campanha ou plataforma de governo. É preciso diferenciar a gestão das outras anteriores que sempre maquiaram a cidade pra fingir que tudo funciona, quando na verdade é tudo precário, à meia-sola.  Já não rola mais o Rio ter perfis diferentes em cada localidade, o Rio do rico e o Rio do pobre. É necessário seguir os protocolos ambientais nos principais projetos de desenvolvimento para o Rio de Janeiro para que sejamos uma cidade moderna de fato.
   A saúde, a educação, a segurança das pessoas têm de ser levadas à sério, sem essas parcerias público-privadas cheias de suspeição que só trazem prejuízos à população. 
   Por fim, dá pra fazer essa triagem na hora de votar. É só observar as condições da cidade, como ela já estava antes e como ela continua até hoje. Tá na hora de dar uma verdadeira prova de amor ao Rio.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A LADAINHA VOLTOU

    Gente, começou aquela velha ladainha de sempre. Sim, porque não tem como definir de outro jeito a propaganda eleitoral que rola na TV e no Rádio. Em uma semana de programa já dá para ter uma ideia de como será o resto da campanha.
   Claro que há aquela expectativa de algo diferente depois de um tempo ruim, mas nas primeiras falas a gente volta à mesmice de sempre: os caras atacando um ao outro em meio a um monte de coisas que precisam ser feita e nenhuma solução, nenhum fato novo saindo da boca dessa gente.
   É justamente em temas espinhosos que poderia sair novas ideias, outros rumos para a política. Com tanta coisa acontecendo no cenário político que poderia servir de gancho para outros modelos de administração.
   Em vez disso, a turma foge de conversa séria, preferindo ataques pessoais sem nada que se possa aproveitar. A corrupção aí, comendo solto, e ninguém acena com um papo decente. Na verdade, fica até difícil tocar no assunto, porque os principais candidatos que estão nas cabeças, segundo essas pesquisas malucas ai, todos têm ligação ou já esteve ligado com alguma coisa ou gente suspeita.
   Mas se não dá pra falar disso agora, tem a questão da pandemia que poderia clarear a mente dessa gente sobre a questão da saúde. Afinal de contas, depois que a Covid-19 der uma trégua, a rede pública vai ficar de um jeito que só uma gestão séria, muito transparente, inclusive, pra botar tudo nos eixos de novo. Numa campanha de alto nível de inteligência dos candidatos surgiria aquele diferencial pudesse efetivamente solucionar o problema ou pelo menos ensaiar outra diretriz pra uma questão que pede pressa.
   Outro assunto de grande interesse pra geral é a questão ambiental nesses tempos de queimada destruindo a Floresta e o Pantanal. Se tem um tema que pode ser crucial nessa discussão toda, qualquer mudança, qualquer expediente, qualquer intervenção que projetem para a cidade tem de ter a causa ambiental atrelada, e se ninguém acenar com alguma proposta dessa natureza, seguir essa linha de administração moderna e renovadora a cidade vai continuar do jeito que sempre foi. 
   As redes sociais também poderiam ampliar mais o debate pela dimensão e abrangência social, mas o que se vê são discussões inúteis, informações vazias, fake news e outros elementos apenas espetacularizando o ambiente. É a parte em que todo mundo, candidatos e eleitores contribuem para piorar ainda mais o negócio.
   Vamos esperar o debate pra ver como é que fica.
   

sábado, 10 de outubro de 2020

A COMIDA É A VACINA DO POBRE

    Não poderia ter uma premiação mais satisfatória e gratificante para a humanidade o Prêmio Nobel da Paz de 2020 concedido ao Programa Mundial de Alimentos da ONU. 
   No caso da fome como a mazela mais gritante do mundo, é importante que um conjunto de ações promovido por nações ricas se intensifique e melhor, que sirva de exemplo para demais projetos que atendam às necessidades de povos e nações em condições sub-humanas.
   Em lugares pelo mundo, onde há constantes conflitos, como a África, por exemplo, além da violência e destruição que provocam a escassez de alimentos pela infraestrutura precária em regiões conflagradas, nesses tempos de pandemia a falta de alimentos aumenta ainda mais.
   Chama a atenção, no entanto, a fala da presidente do Comitê do Nobel, a sueca Berit Reiss-Andersen à escolha do Programa Mundial de Alimentos ao prêmio da entidade. Quando ela afirma que a comida é a melhor vacina contra o caos, dá para fazer  reflexões  sobre as mazelas de populações desassistidas pelo mundo. O caos a que se refere vai mais além dos cenários de guerra que interrompem ou atrapalharam a ajuda humanitária. Serve de alerta aos países que adotam políticas públicas pouco eficazes no combate à miséria dentro de seus quadrantes.
   O próprio Brasil, que tem uma área cultivável de grandes proporções, tem capacidade para atender as populações famintas ainda concentradas em vários bolsões pelo país, mas ainda hesita em conjugar o agronegócio com qualquer modelo assistencial que reverta o quadro de fome que assola populações em todas as regiões brasileiras, além,  é claro, de uma política econômica totalmente desfavorável à aquisição de itens básicos para a alimentação. Agora mesmo, durante a pandemia, foram justamente os alimentos que mais sofreram aumento de preços, influenciando a alta da inflação no momento atual.
   Tudo isso, somado ao desperdício e a timidez de gestões públicas nas três esferas de governo são fatores que impedem o Brasil de equacionar esse problema dentro e fora de suas fronteiras, no momento em que a pandemia de Covid-19 traz consequências negativas para as classes menos favorecidas em todo o mundo.
   Com relação à ONU, ainda há controvérsia em outras áreas em que órgão pode interferir de forma mais intensa, nos conflitos que fustigam nações fragilizadas por lutas de caráter político, étnico e religioso, na África em especial, assim como no mapa geográfico das doenças que brotaram naquelas terras e a Organização Mundial de Saúde que pouco fez para erradicar o mal em sua origem, permitindo a disseminação fora do continente décadas depois, mas isso é outra história.
   Nada que tire a importância do Programa Mundial de Alimentos, premiada com louvor, por proporcionar a comida como a principal vacina para os pobres.

domingo, 4 de outubro de 2020

O BÁSICO DAS PALAVRAS E AÇÕES

    Ainda existe aquele mito de que é difícil falar de economia. Para muita gente fica complicado acompanhar ou interpretar a fala dos especialistas, aquelas pessoas que têm o notório saber. Eu acho até que mesmo quando eles falam de forma simples e se esforçam para que todos entendam, ainda assim sai um monte de palavras difíceis, termos rebuscados, principalmente quando há a verdadeira intenção de explicar algo que não traz solução alguma.
   É um expediente comum a outras áreas de atuação humana, não só no ambiente de economia, finanças, essas coisas, porque como muita gente já percebeu, toda vez que se pretende camuflar, disfarçar, desviar ou mesmo sonegar informações,  fatos e realidade das coisas, é justamente o jogo de palavras a ferramenta utilizada.
   Só que esse recurso se estende também para as ações homem, o outro estágio depois das falas inúteis. 
   Todo mundo tem acompanhado o esforço do governo para criar esse benefício, o Renda Cidadã, para as classes menos favorecidas, dentro da política assistencial que todo governo adota como meio de sobrevivência, não necessariamente do povo, mas do próprio governo.
   Porque é isso mesmo que a gente vê nessa agenda econômica que o presidente Bolsonaro e sua equipe tentam emplacar nesses tempos de pandemia. É evidente que  o presidente quer fazer graça com os mais necessitados sem que outros setores sejam sacrificados. O governo quer criar recursos para o benefício, sem furar o tal teto de gastos, quando seria  melhor conter gastos, o que implicaria cortar despesas de outros setores. Dá para fazer isso, o problema é que ninguém quer dar sua cota de sacrifício. 
   Seria até bizarro acreditar que o presidente ainda insiste em instituir o Renda Cidadã com recursos do Fundeb, o fundo das crianças da educação básica, mas a equipe vai além e cogita empregar o dinheiro de dívidas que a União tem de pagar por força de decisão judicial. Imagine um aposentado que ganhou uma causa do governo por correção de proventos; um cidadão que finalmente vai receber uma indenização para compensar uma perda; ou a compra de computadores para uma escola que vai ficar para depois. 
   Pois é, são esses que seriam sacrificados, não os detentores de grandes fortunas, que em outros países estariam tranquilamente subsidiando essa ajuda do governo. Seria uma maneira de distribuir renda e viabilizar a economia do país de forma mais saudável. Do jeito que Bolsonaro quer fazer apenas aumenta temporariamente o poder de compra dos mais pobres em itens básicos, sem que isso aumente de fato o poder aquisitivo dessa parcela. 
   Ainda há muito receio de fazer o dinheiro circular saudavelmente. Essas crises que rolam no mundo, que de vez em quando abalam as estruturas é fruto justamente disso, o dinheiro mal distribuído no mundo. A maior parte do dinheiro só circula no mesmo lugar de sempre, nas mãos das mesmas pessoas. 
   Aqui no Brasil é a mesma coisa, ninguém quer contribuir em subir o nível das pessoas de baixo. Muito pelo contrário, se aproveitam e aumentam o preço dos alimentos em plena pandemia. Bancos cobram juros de quem atrasou pagamento por causa da crise do coronavírus. São dois grupos econômicos que poderiam contribuir para melhorar a vida das pessoas, mas, não.
   Pois bem, é assim. Dá para falar de forma simples como dá para agir de maneira menos complicada também. 

sábado, 3 de outubro de 2020

DEPOIS QUE VESTE A TOGA

    
   Eu tenho ouvido algumas pessoas indignadas com a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal feita pelo presidente Jair Bolsonaro. 
   Tanto em meio ao público comum que apoia o presidente quanto entre seus aliados, havia a expectativa de alguém diretamente ligado à ala conservadora, ainda mais depois que Bolsonaro já havia declarado que iria indicar alguém próximo da Igreja ou de toda a ala conservadora.
   Na verdade, a grita diz respeito à origem de Kassio Nunes e sua fidelidade com relação à questões pertinentes e favoráveis ao governo, como se isso fosse praxe, uma tendência nesse expediente de indicação e preenchimento de vaga de ministro do STF.
    Primeiro que pela atual conjuntura em que o presidente anda de mãos dadas com o Centrão, isso certamente implicaria uma mudança de rumo ou do nome a ser indicado para a Corte, adiando a promessa feita de indicar aquele terrivelmente evangélico, que Bolsonaro vai poder cumprir ano que vem com a aposentadoria de outro ministro, o Marco Aurélio Mello, isso se não houver uma mudança de rumo até lá, porque, agora mesmo, com todo esse esforço do presidente em conquistar a Região Nordeste, o nome de Kassio Nunes caiu bem nas pretensões de Jair Bolsonaro.
   Agora, o caráter político que sempre cercou as escolhas para ministros do STF só dura até o indicado ser aprovado na sabatina do Senado. Depois que o cara veste a toga e passa a integrar as fileiras do órgão, a cultura e o regimento da Casa o impede de ser outra coisa que não seja ministro do Supremo tribunal Federal. E se cobram do novo ministro uma postura fiel e condizente com os interesses de quem fez a indicação, poder tirar o cavalo da chuva que a própria história até recente do STF mostra justamente o contrário. 
   Praticamente todos o ministros do STF já deram sentenças contrárias aos interesses do presidente que o indicou,  por razões técnicas e éticas.  O máximo que Kassio Nunes pode fazer é se posicionar em questões polêmicas, independente de serem sensíveis ou não ao governo. Já, obediência e fidelidade dificilmente vão rolar. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

DESORGANIZAÇÕES SOCIAIS

    Já passou da hora de tirar de cenas essas Organizações Sociais na gestão de unidades de saúde nos estados. Se antes foi concebido para simplificar, agilizar e tornar mais excelente o atendimento à população, hoje, esse modelo se revela completamente prejudicial à população, em todos os aspectos. Não atende com eficiência toda a demanda e ainda traz prejuízos aos cofres públicos, já que funcionam sob regime fraudulento, em meio à teia de corrupção envolvendo seus gestores e agentes públicos.
    Quando começou esse sistema de parceria com a iniciativa privada, vários setores da administração pública aderiram ao modelo de concessão de serviços públicos à empresas privadas como forma de modernizar o atendimento à população. 
   Houve questionamentos sobre as garantias de eficiência na prestação do serviço, já que a administração pública poderia perfeitamente gerir as unidades de saúde de forma direta, adequando os efetivos de cada unidade de acordo com as peculiaridades de cada uma nas regiões em que funcionam.
   Se havia contestação pelo aumento de despesas com pessoal através de concurso público, onerando ainda mais a folha de pagamento, hoje, o montante que o estado gasta com superfaturamento e desvios de toda ordem não compensou o esforço em apostar num modelo que poderia ser excelente para a saúde da população e das finanças do estado.
   Para piorar a situação, não se criou nenhum mecanismo que pudesse resguardar os recursos empregados na empreitada, caso houvesse algum contratempo, alguma mudança de rumo nos contratos feitos com essas organizações, ou seja, não consta nos acordos firmados a má-fé de todos os envolvidos nessa transação pra lá de ilícita. 
   Agora, as organizações interrompem o serviço por força das investigações e prisões efetuadas e a  população fica aí na pista, mais carente do que já estava, ainda mais nesses tempos de pandemia.
    Um estado rico como sempre foi o Rio de Janeiro não deveria passar por isso. Tirando esse tempo em que falta dinheiro para despesas legais e investimentos, com o governo ainda costurando sua política de recuperação fiscal, o estado do Rio de Janeiro pode perfeitamente retomar uma política de saúde pública dentro de todo o orçamento destinado ao setor, sem roubalheira, com transparência, e gerir de forma eficiente as unidades de saúde de sua esfera. O estado do Rio tem potencial, tanto de receita quanto de atração de investidores, capaz de prestar os principais serviços com excelência e lisura.
   Para isso, é necessário que o próximo gestor adote uma política que interrompa de vez essa prática dentro da área de saúde, uma vez que já foi repassada da gestão anterior para essa atual os mesmos desmandos. Porque as prisões efetuadas e todas as investigações e conduções da justiça no caso não terão efeito algum se o próximo governante continuar com essa farra com o dinheiro público.
    
   

terça-feira, 29 de setembro de 2020

FECHANDO A PORTEIRA

    Para quem achava que a boiada passaria em meio à distração da sociedade, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai botando em prática sua sugestão feita naquela famosa reunião ministerial de abril, às claras mesmo.
   Não bastassem as queimadas que já ardem no Pantanal e na Floresta Amazônica, agora as restingas e manguezais que ficam também na iminência de destruição com a decisão de Salles de revogar normas que protegem essas áreas importantes para o ecossistema. 
   Com isso, abre-se espaço para construções irregulares pelo uso inadequado do solo naquela região, sem qualquer estudo de impacto ambiental, tudo sob a bandeira do turismo ecológico, mas com claros objetivos comerciais para atender a interesses de empreendedores imobiliários.
   A possibilidade de a sociedade ver essas áreas completamente degradadas passa a ser maior, no momento em que o próprio governo mexe na estrutura do Conama, o órgão criado para discutir de forma racional as questões ambientais, diminuindo o poder de voto da sociedade civil de decidir sobre deliberações do órgão.
   Agora, além das cinzas nas matas brasileiras, as restingas e manguezais também poderão sofrer alterações em suas paisagens, já que as eventuais construções nessas áreas vão produzir toda sorte de detritos, lixo e esgoto, que sem tratamento adequado tornará mais difícil o processo de recuperação, mesmo que a própria natureza se recomponha aos poucos.
    É mais um capítulo na velha saga de desequilíbrio ambiental que vem marcando a gestão de Ricardo Salles à frente do ministério do Meio Ambiente, o que já remete a sociedade brasileira a especular sobre os desdobramentos da atual política ambiental do governo federal, completamente oposta às diretrizes, acordos e protocolos de encontros e fóruns já realizados para discutir o assunto em todo o mundo.
    E ao contrário de como sugere o próprio ministro, não passa despercebido de ninguém um assunto de grande repercussão. Além de parlamentares que poderão impedir as mudanças no Conama promovidas por Ricardo Salles, como já  adiantou o deputado federal Alessandro Molon em um Projeto de Decreto Legislativo, o Ministério Público Federal foi mais além e solicitou à Justiça Federal do Distrito Federal o afastamento de Ricardo Salles da pasta do Meio Ambiente.
   Tanto a vigilância do Parlamento quanto a defesa da justiça seria a resposta ideal para frear o expediente e o ímpeto do ministro Salles, que vem trazendo consequências trágicas ao patrimônio natural do Brasil. 
   Que a sociedade possa cada vez mais ficar vigilante aos desmandos de quem cause danos ao meio ambiente, especialmente de quem se espera uma gestão pública que possa conjugar o meio produtivo e demais intervenções e empreendimentos com a preservação das riquezas naturais brasileiras. 
    
   

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

A BRASA NA SARDINHA

       Aos poucos vai tudo voltando ao normal na cidade. Aquela efervescência da qual rolava uma saudade danada vai retomando o seu formato original. Novamente a velha confusão de carros e pessoas em todos os quadrantes da cidade maravilhosa. 
   Eu cheguei a transitar pelas ruas completamente vazias no auge da pandemia e ficava imaginando que numa época distante o Rio de janeiro já foi assim, sem essa atmosfera, sem essa vibe de hoje. Se um dia o Rio ficasse assim novamente, teria que muita gente meter o pé daqui e voltar só nos feriados ou em outras ocasiões pra visitar quem ficou por aqui tomando conta das coisas, das praias, das praças, dos morros e das matas.
   A gente fica até especulando se a cidade do Rio não fosse uma metrópole global ela poderia estar funcionando melhor, sei lá, porque, tem tanta cidadezinha por ai funcionando a todo vapor sem tirar o charme e o bem estar de sua gente.
   Mas a verdade é que a gente já se acostumou com essa bagunça que tem aqui, esse calor das pessoas, a fumaça dos carros e todo mundo fazendo barulho ao mesmo tempo.
   Pois bem, seria maravilhoso ver tudo em seu lugar novamente depois de um período turbulento de recolhimento e o velho Rio de Janeiro voltando a respirar. Seria interessante saber que fizemos a nossa parte com rigor e disciplina, por isso que a gente merece essa volta triunfal. A gente ficaria mais aliviado se tivéssemos de fato livre de qualquer perigo que ainda ronda o mundo, mas, infelizmente não dá pra ter aquela sensação de dever cumprido que deixaria todos com mais ânimo para voltar às atividades.
   Vendo toda essa movimentação a primeira impressão é que cada um vai tentando sutilmente suprir sua própria necessidade, como diziam antigamente, cada um se safando e se resolvendo de acordo com suas conveniências. 
   Como já há um recuo em outras praças onde os casos de Covid ainda persistem ou voltaram, lugares onde houve, inclusive, um confinamento mais rigoroso, fica difícil imaginar que estaremos seguros com certeza, mesmo com pouco tempo de isolamento que a cidade do Rio viveu. 
   A preocupação aumenta ainda mais quando a pressão pela volta das atividades se dá por interesse do mercado, sem qualquer informação das autoridades científicas dando garantias para essa retomada. 
   A gente nota uma pressa enorme dos dirigentes de escolas, museus, cinemas e estádios de futebol sem saber se eles têm um planejamento para a reabertura de suas casas, se existe uma preocupação social maior que os lucros que almejam. Afinal de contas, são esses ambientes os que justamente acumulam pessoas pra consumir os serviços e produtos oferecidos, mas que graça vai ter um bar lotado, um shopping bombando, uma arquibancada em festa, com a iminência de outro contágio? E o esforço daqueles que seguiram à risca todos os protocolos?
    A gente até dispara essas críticas sobre todos os envolvidos nas atividades, os clientes, os funcionários e o chefe, mas o poder público, como gestor da cidade e das crises é o único que não pode se deixar levar pelas pressões que sempre rolam em bastidores. Estão na esfera de governo os órgãos e especialistas que lidam com a questão da Covid com racionalidade, os que têm o retrato real da doença, dados que definem como deve ser agenda da cidade nesse cenário. A voz maior numa hora dessa é da comunidade científica, e a sociedade precisa ter essa noção, em vez de agir com interesses, puxando cada um brasa pra sua sardinha.
   Que a cidade do Rio de Janeiro possa retomar sua rotina com segurança. Pra isso, é preciso mais engajamento das pessoas. Só assim teremos de volta aquela cidade frenética, o couro comendo, o bagulho doido, enfim, essas loucuras que fazem o Rio andar de um lado para o outro sem parar.
   

terça-feira, 22 de setembro de 2020

O MESMO PAPO TORTO

    A questão ambiental é tão importante para a vida do planeta que fica difícil encontrar soluções em meio a todo esse falatório inútil em nível global. 
   Não há novidade alguma quando um dirigente brasileiro discursa para o mundo fazendo defesa da política ambiental do governo do Brasil. Na fala do presidente Bolsonaro na Assembleia da ONU a velha ladainha de tentar passar para a opinião pública internacional a ideia de que a gente aqui segue à risca a cartilha de tudo que foi sugerido e acordado em encontros anteriores para debater o assunto. 
   É repetitivo esse discurso de que há interesses de organismos internacionais pelas coisas do Brasil, todos já falaram isso e não tomaram medidas pelos fim dessas ações. Bolsonaro não foi o primeiro a jogar conversa fora e talvez nem seja o último. Se antes já havia as falas completamente sem sentido e fora da realidade que todos já conhecemos,  hoje, chega a ser ridículo o presidente culpar os índios por parte das queimadas na floresta, num cenário em que, por exemplo, há  garimpo ilegal em terras indígenas, desmatamento em outras áreas demarcadas, e agora também as queimadas no Pantanal, enfim, uma série de ações degradantes que destoam completamente dos  discursos feitos até agora.
   Se antes, quando eram recentes os encontros para discussões sobre o meio ambiente os protocolos não foram seguidos, imagine o atual governo, cuja indiferença à causa ambiental é notável.
   Portanto, mais uma vez o governo brasileiro perdeu a oportunidade de mostrar alinhamento à questão ecológica como um todo, no momento em que, hoje, quaisquer intervenções que visem o desenvolvimento e a modernidade das nações tem o fator ambiental atrelado. 
   As soluções para o problema estão dentro dos nossos próprios domínios, sem a necessidade de interferência externa. O mundo só precisa saber que fazemos a nossa parte porque a questão ambiental é um assunto de todo o planeta, e a Floresta Amazônica é o maior bioma do mundo, importante para todo o planeta. 
   Ao mesmo tempo em que há interesses externos  pelas riquezas do Brasil, há organismos aqui dentro também mal intencionados, paralela à ausência de política governamental alinhada à agenda de tudo que já foi discutido e acertado.
   Portanto, o Brasil está longe de seguir novos protocolos, e a fala de Bolsonaro só reforça o mesmo papo torto de sempre.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

FOGO NO MATO

    Fica até difícil priorizar o assunto sobre as queimadas que vêm assolando a Floresta Amazônica e o Pantanal nesse novo filão do pessoal do agronegócio de derrubar árvores e plantar boi no lugar.
   Se a crítica em si aborrece alguém do setor, os registros já apontam a ação do homem em mais um evento de agressão à natureza nesses tempos em que a mais antiga das atividades do homem, ao contrário do que já se verifica em outros quadrantes, aqui a agricultura também desvia da renovação que o setor já desfruta com ênfase na sustentabilidade. 
   É claro que não se pode generalizar a prática criminosa desse fogaréu todo, mas dá pra afirmar que grande parte das queimadas é delituosa, pois mesmo antes,  quando se atribuía ao aquecimento global as chamas no mato, as ocorrências eram bem menos frequentes que agora.
   O Brasil deve ser o único país que não consegue ou não se dispõe a conciliar a atividade agrícola com o meio ambiente e os recursos minerais distribuídos em sua vasta geografia. Não faltam órgãos de pesquisa e tecnologia que possam auxiliar o setor agrícola a conjugar a lida no campo com a natureza, mas parece que questão mercantilista fala mais alto, o velho princípio do lucro imediato, sem preocupação alguma com as próximas gerações que poderão desfrutar das riquezas do país. 
   Quanto ao governo federal, o mínimo que se pode fazer ele já faz, disponibilizando recursos e infraestrutura aos governos locais, tanto na floresta quanto no pantanal, em socorro aos estados envolvidos nos desmatamentos e queimadas, mas muito pouco para quem deveria adotar uma política ambiental adequada à realidade ecológica do Brasil e em consonância com a tendência mundial de proteção e conservação do planeta.
    Há que se destacar as ações descabidas do ministro Ricardo Salles, do Meio-Ambiente, os casos de agressões à fiscais do Ibama, o descaso com a população indígena, o garimpo ilegal, enfim, uma sucessão de erros que já ocorreram em gestões passadas, mas que se acentuam agora com essa agenda muito pouco alinhada à causa ambiental e ecológica.
   É lamentável que o agronegócio brasileiro não esteja totalmente alinhado à políticas que fortaleçam cada vez mais o setor, com uma visão mais global, com as tecnologias de ponta de que dispõe, mas sem, no entanto,  degradar o meio-ambiente.
   Se tem alguém que tire proveito dessas práticas nocivas, para sociedade como um todo, é necessário e importante apagar esse fogo no mato.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O VÃO DO METRÔ

       O Metrô Rio divulgou uma nota dando conta de uma redução em sua receita da ordem de R$ 409 milhões por conta da pandemia do coronavírus, que reduziu em cerca de 60% o transporte de passageiros. Por isso reivindica o aporte de mais recursos para continuar operando o serviço.
    Só que segundo reportagem do jornal O Dia, há uma batalha jurídica entre a empresa e o estado do Rio por uma parte dos lucros da concessionária, cerca de R$ 198 milhões, obtidos entre 2007 e 2012, que deveriam voltar para os cofres do governo.
    A reportagem destaca ainda a negativa do Metrô Rio quanto à referida quantia em seu caixa, além do imbróglio envolvendo a continuação das obras da Linha 4 e demais investimentos em melhorias do serviço, ou seja, uma briga que vai se arrastar até entenderem o que consta no contrato de concessão e tal pra definir a responsabilidade de cada parte nessa história.
   Agora, nunca é demais lembrar que a população é a única que não pode ser prejudicada nessa briga, principalmente se a concessionária resolver interromper o serviço, como já manifestou, caso não obtenha recursos para prosseguir operando o serviço.
   Ora, já é ruim para a sociedade esse modelo de parceria em que cabe ao estado, por exemplo, a aquisição de novos trens, quando há necessidade de renovação da frota. Ou seja, o dinheiro público ainda empregado em um serviço que o estado não opera. O usuário paga a passagem e ainda compra os trens, e por um tempo bem longo, pois essa parceria do Metrô Rio com o governo do estado vai até 2038, tudo dentro das regras de concessão, sem que  ninguém possa reclamar de eventuais prejuízos. 
   De qualquer forma, essa batalha que está rolando agora só veio em função da pandemia que reduziu o fluxo de passageiros e a consequente projeção de receita e as vantagens para ambas as partes. 
   Mas vale uma reflexão por parte da sociedade e dos próximos gestores do estado esse modelo de concessão de serviços públicos pouco atraente para a população, que além do vão entre o trem e a plataforma, sente no bolso o peso de serviços, ainda por cima, precários.