sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A FITA DO PELÉ

   

   Eu já vi muitas vezes em bancas de jornais aquelas fitas em VHS com vídeos de vários jogadores do passado, que certamente serviram de inspiração para muitos meninos que acalentavam o velho sonho de jogar futebol.
   Não precisa nem fazer muito esforço de consciência, pois a própria lógica já revela qual era a fita mais solicitada.
    Agora rola nas redes sociais um vídeo que mostra vários craques do presente executando jogadas de gols e dribles, em edição com a sobreposição da mesma jogada executada por Pelé.
    O material revela momentos de jogadores já consagrados no futebol, numa mostra de que muita gente conseguiu aprimorar a arte de jogar bola, a ponto de se consagrar cada um no seu tempo e oportunidades, jogar nos principais clubes do Brasil e da Europa, ganhar dinheiro, fama e ficar rico, sem, no entanto, atingir as maiores marcas do Pelé.
    Pode ser que lá na frente alguém consiga suplantar os feitos de Pelé. As novas filosofias e tecnologias que o futebol utiliza atualmente pode permitir de uma hora para outra o surgimento de personagens com um currículo cada vez mais próximo do que Pelé construiu em sua majestosa trajetória.
    Só que com o futebol ganhando cada vez mais protagonistas, o triunfo de Pelé vai se tornando também um desafio maior a ser superado.
    De qualquer forma, ninguém tira de Pelé o pioneirismo de transformar o futebol em arte. Isso mesmo. Num tempo em que o velho esporte bretão ainda era feio de se ver, os caras maltratando a bola em gramados mundo afora, Pelé incorporou beleza no trato com a bola.
    O rótulo de astro do futebol que tantos boleiros mereceram ostentar foi Pelé quem inaugurou, pela forma como envergava as camisas que vestia, pela manha com que iludia seu oponente, pela inteligência com que concluía a jogada, pelo talento com que operava o gol, pela maestria com que transformava uma partida de futebol num espetáculo maior.
    A partir de agora, qualquer forma de preservar a memória de Pelé e eternizar seus feitos é tão somente uma forma de agradecimento por tudo que Pelé realizou, porque o futebol certamente seria outra coisa, outro esporte, não fosse Pelé fazer do futebol a arte de jogar bola.
     De todos esses craques que dão brilho ao futebol e contribuíram para toda essa projeção que o futebol ganhou no mundo, pode acreditar, muitos deles certamente compraram a fita do Pelé, entende.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

UM NOVO TEMPO

 

   Não é de hoje que eu vejo as pessoas muito metódicas nesse período de Natal, fim de ano, enfim. Todo ano há uma métrica certa pra ajeitar tudo, mesmo pra quem deixa tudo para última hora.
   A arrumação da casa, aquela correria toda no supermercado, no shopping, fora os projetos de desapego total prometidos para próximo ano, já no primeiro dia útil. Nada de fumar, beber, só agenda fitness, vida nova. Tem gente que só limpa as gavetas e troca a cortina nessa época. É uma agenda tão certa quanto à Missa do Galo.
     Mas, quando alguma coisa sai errado cada um escolhe seu culpado preferido, aquele em quem certamente vão atribuir a culpa pelo contraste à estética das coisas que sempre funciona direitinho, mas que esse ano deu ruim. Quer dizer, ainda é estranho para muita gente quando algo foge do padrão.
   Pra mim, a culpa disso tudo é do Galileu Galilei. Antigamente, era tudo aleatório, aí vem o cara com mania de perfeição e começa a medir as coisas, fazer com que tudo fosse certinho, todas as ordens de grandeza, inclusive o tempo, fazendo com que as pessoas escolhessem um momento ideal pra fazer algo, quando na verdade o fortuito e o inesperado também podem trazer soluções e mais felicidade. Rabanada, por exemplo, é coisa pra se fazer quando se tem vontade, em qualquer época do ano. A mesma coisa bacalhau, panetone, fazer regime e malhar.
    Definitivamente, essa simetria do mundo, de tudo certinho sempre, atrapalha a evolução das coisas e das pessoas. Já notaram que muitas coisas só dão certo dentro da margem de erro, pra mais ou pra menos? O acaso está aí para reforçar isso. As preliminares podem ser melhores que o coito em si, por que não? Quantas peladas são decididas já nos acréscimos?
    Pois é, e nesse cenário muitas coisas boas estão no lugar e num tempo diferente do costume. Eu sempre digo que chutar o pau da barraca faz bem pra humanidade, desde que não traga más consequências para o mundo, apenas o torne mais agradável ou dentro dos padrões de cada um. Às vezes dar sete pulinhos só não adianta, porque o fardo do cara é tão grande que precisa de mais ondinhas, vai vendo.
     Portanto, abaixo o modelo padrão do mundo! É preciso rever todos os manuais de instruções através de emendas também, e elaborar novas formas de vida. Repaginar também as velhas teorias. Até Freud voltaria para reformular o princípio do prazer, só que agora com a rabanada como objeto de estudo, olha que delícia.

sábado, 24 de dezembro de 2022

FELIZ NATAL



   Praticamente em todo o mundo é celebrado o Natal nessa época do ano, até mesmo em lugares onde há a prevalência de outras denominações, outro calendário, enfim, onde há uma cultura bem diversa do que parece ser o Natal para determinado povo, segundo as tradições de cada um.
     É preciso destacar, porém, que dentro da esfera espiritual que cerca uma crença religiosa, há toda uma questão humana, no momento em que as falas, as pregações que procuram difundir um valor, um ensinamento, acabam por impregnar nas mentes o que pode ser o mais adequado para as relações humanas.
     E nesse expediente Jesus Cristo seguiu firme em seu propósito, tanto que Ele é considerado até mesmo nas práticas anteriores, milenares, que veem Jesus Cristo como uma grande referência de como deve ser o olhar para as pessoas. Inclusive, há literatura religiosa de matrizes diferentes que fazem essa consideração da importância de seu legado para o mundo.
     Eu sou muito leigo para falar sobre religião. Sei apenas da importância da fé na vida das pessoas como forma de cada um seguir adiante com seus anseios, suas aspirações, seus projetos de vida. Foi assim que me livrei de alguns vícios. É assim que eu procuro me moldar, sem pretensão alguma de ser perfeito, essas coisas.
    Mas sei também que de dentro para fora eu preciso estar preparado para oferecer o que eu sei que tenho de melhor, porque foi isso que Jesus Cristo empreendeu ao longo daquelas andanças com seu cajado. A cada obstáculo à sua frente, o terror, a ira, ou qualquer tentativa de impedimento de seu propósito, ele ia se fortalecendo.
     Se a gente hoje luta contra tudo que afeta nossa dignidade e vai resistindo bravamente, é porque se entendeu o grande projeto de Jesus Cristo de cada um com sua cruz, seu fardo, diminuindo ou aumentando seu peso ao longo do caminho de acordo com as ações de cada um no trato com as pessoas nesse mundo velho sem fronteira.
   A gente usa esse período do ano para reflexão, mas esse cuidado, esse zelo, essa concentração, esse respeito, esse amor são práticas cotidianas que não dependem de calendário nem de festa. Se na consciência humana é fundamental esse estilo de vida, então a gente incorpora de vez em nossa agenda social tudo que nos faça evoluir como pessoa humana, tanto os sonhos que cada um procura realizar quanto a capacidade de conviver com as diferenças entre as pessoas em todos os aspectos de vida em comum.
    É importante não desistir, não esmorecer nunca, porque nossas ações também servem de referência no seio familiar, no ambiente de trabalho, social. Tem sempre alguma coisa em nós que é importante para muita gente. É isso que fica, o tal legado que a gente deixa, que as pessoas seguem e compartilham.
     Que possamos sempre dar essa contribuição para o mundo, para as pessoas que nos rodeiam. Que a Luz do Senhor possa iluminar nossos caminhos e clarear nossas mentes. Que a nossa rabanada seja cada vez mais suculenta e o nosso amor cada vez maior.
    Feliz Natal!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

PRORROGANDO A RABANADA



   Não tem jeito, todo ano é assim. No começo até a metade do período tudo flui dentro dos conformes. Na outra metade parece que toda aquela arrumação vai ficando fora de ordem.
    Na folhinha do calendário é fácil reparar que nos primeiros meses do ano as anotações estão bem grafadas, as letras bem certinhas. Tem até aquelas setinhas apontando um assunto importante para o tal dia especial.
    Do meio do ano em diante os lembretes já começam a surgir em forma de garrancho, rabiscado de qualquer jeito e até tapando uma daquelas fases da lua. O aniversário de muita gente que você lembrava todo ano foi esquecido; não tem mais a marcação do dia em que comprou o gás; o dia das bodas passou em branco. Cadê aquele coração ao lado de um número referente a alguém? As flores que sugerem afeto. A lâmpada de uma grande ideia.
     Na verdade, não tem tristeza alguma nisso que parece um vazio. Pense no quanto de tempo as pessoas levaram cuidando e investindo nos outros, sem que o seu próprio dia do mês lá no papel não tenha uma menção qualquer a respeito de si mesmo.
    A representação da ordem e disciplina das coisas e fatos da vida que o calendário revela a todo instante vai esvaziando, sim, à medida em que seus anseios e aspirações vão se tornando prioritários, e agora você já reserva mais tempo e espaço para si. Isso, sim, já pode ficar marcado na folhinha como um dia grandioso, uma conquista, marca lá.
    Uma coisa é ter a capacidade de acumular funções, de conciliar as tarefas, os projetos. Assobiar e chupar cana como as pessoas se gabavam de realizar com facilidade. Tem ações em todo esse pacote que são metas dos outros que lhe impõem. São favores que te suplicam por graça ou exploração. E objetivos sem garantia de sucesso, sem planejamento.
     Outra coisa é a velha lista de prioridades, onde o que fica para depois não quer dizer que é menos importante, apenas mais complexo, o que vai te exigir mais espírito, mais concentração, mais conhecimento, mais equilíbrio, enfim. Daí a necessidade de você ser o primeiro da fila, só isso.
  Antes que pensem que sou narcisista, individualista, egoísta, em detrimento do que posso oferecer de melhor, devo dizer que precisamos estar preparados em todos os aspectos até para massagear o ego de alguém, senão o serviço não fica perfeito. Imagina, o ano passou e eu acabei adiando meu ensaio de aprender a fazer rabanada, justamente pensando nos felizardos que vão degustá-la depois.
     Talvez seja meu projeto para o ano que vem. Só não sei se será o primeiro da fila.

domingo, 18 de dezembro de 2022

O HOMEM DE UMA CAMISA SÓ



  Quando começa uma Copa do Mundo aparecem também várias seleções, vários jogadores cotados para serem campeões, aqueles em quem as pessoas comuns, a crítica especializada e demais palpiteiros apostam suas fichas num desfecho de vitória.
    Mas, na verdade, só uma figura no meio de toda uma constelação de boleiros vindos de todos os cantos do planeta como tamanho desafio estaria predestinado a terminar com o maior triunfo.
    Ao mesmo tempo em que o mundo se rende à consagração da Argentina na Copa do Qatar, o protagonismo de Lionel Messi em toda a campanha é uma vitória à parte do maior atleta desses últimos tempos, por tudo que o astro maior da Argentina conquistou antes de chegar agora ao ápice da carreira.
    Lembrando que Lionel Messi se consagrou jogando fora de sua pátria, na Espanha, onde cresceu, fez fama, carreira e família, mas nunca se desgarrou de sua pátria de berço, a Argentina, que hoje chega ao topo do mundo. Eu mesmo cheguei a imaginar o Messi virando um cidadão espanhol, por sua ligação forte com o Barcelona, jogando por quem o recebeu desde criança, como acontece com vários atletas que se aventuram em outros países e acabaram trocando a camisa, o amor e a torcida a seu favor.
    É muito comum numa Copa do Mundo algumas seleções cheias de atletas vindo de outras praças, com nova trajetória, um novo desafio, uma nova vida, enfim, um novo caminho a percorrer no mundo da bola.
    Mas Lionel Messi é um astro diferenciado até nisso e soube com muita sabedoria, amor e talento driblar o que parecia ser uma realidade em sua vida também, como já foi para outros boleiros. E Lionel Messi é assim, o homem de duas pátrias, mas com um só camisa. Todo o tempo em que o argentino construiu sua vida fora de casa não foi suficiente para que Lionel Messi vestisse outra camisa, senão a da Argentina, sua pátria de fato, de raiz, de amor e agora de glória também.
    Agora que Lionel Messi entra na última curva de sua grandiosa trajetória, não poderia faltar em sua bagagem esse troféu maravilhoso de campeão do mundo pela seleção argentina. Seria uma injustiça muito grande não ficar marcado na história de Lionel Messi essa consagração maior.
   Se a Argentina hoje está em júbilo pela vitoriosa campanha no Qatar, Lionel Messi entra definitivamente na galeria dos grandes astros do futebol, porque o mundo todo agora o consagra, o cidadão de duas pátrias, mas com um só sentimento, de amor pela Argentina, campeã mundial.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O JOGO É JOGADO


   A Copa do Mundo do Qatar chegando ao fim, a final da disputa já confirmada entre Argentina e França e a expectativa de mais um jogo eletrizante pra terminar o torneio em alto nível. Serão 64 jogos completados que ao todo oscilaram entre muitos jogaços e outras tantas peladas brabas também.
    Mas foi bacana. Eu acho até que foi a Copa mais esquisita que já rolou. Primeiro porque foi no fim do ano, diferente das outras edições. E num país sem tradição no futebol, mas que foi escolhida dentro da esfera política da Fifa.
     Isso mesmo, o órgão máximo do futebol tem politicagem também, tá pensando o quê? A Fifa tem um mapa diferente desse que todo mundo conhece. A entidade, inclusive, tem mais países congregados que a ONU. A geopolítica do futebol é outra coisa. Algumas seleções jogam com atletas de outras nacionalidades com técnicos que às vezes também falam outro idioma, mas no final todo mundo se entende, porque o futebol é assim mesmo, mágico e universal.
    E agora, se o Qatar tem uma posição e uma importância diferentes na globalização, no ambiente político tradicional, no cenário do futebol está num patamar bem considerável, em que dirigentes locais, assim como em praticamente toda a comunidade árabe, já investem pesadamente em futebol.
    Essa gente não se limita apenas em criar infraestrutura moderna e atraente para a prática do futebol dentro de seus domínios. Os caras adquirem, compram clubes europeus, formando grandes equipes pra fazerem frente nas disputas do continente e em nível nacional.
    Aliás, vamos combinar que é do Qatar o empresário dono do Paris Saint-Germain, clube francês por onde atuam os dois astros que vão se enfrentar na final, o Mbappé pela França, e o Lionel Messi pela Argentina.
     É uma coincidência que se não causar muita perplexidade no universo dos boleiros, vai certamente garantir um espetáculo maravilhoso de um futebol de alto nível, pois, deixando um pouco a politicagem de escanteio, os dois finalistas dessa Copa do Mundo no Qatar foram realmente os melhores, aqueles que menos maltrataram a bola, e tanto o craque francês quanto o argentino, como se dizia antigamente, são os caras que chamam a bola de você, seja em qual for o território onde rola o jogo.
    Todo mundo que se ocupa do futebol hoje, quem joga, quem administra, quem comenta, quem dá palpite fala da evolução do futebol de uma forma espetaculosa, midiática, quando na verdade os próprios fundamentos do futebol, que são a base da modalidade, é que precisam ser constantemente aprimorados.
    Tem jogador que parece treinar passe, chute a gol e dribles em vídeo games depois que acaba o treino em campo. Com o joystick na mão o cara bate escanteio e corre pra cabecear. Só que o futebol ainda não é virtual, o jogo é jogado mesmo. E é isso que a gente espera ver em mais uma final de Copa do Mundo.
    Eu aposto que sim, quer valer?


domingo, 11 de dezembro de 2022

FIGURINHA REPETIDA

    

   Pelas resenhas que foram apresentadas tão logo esgotaram as chances de a seleção brasileira prosseguir na disputa pela Copa do Mundo, a velha narrativa de como se comportou a equipe no Catar já dá o tom do tempo que ainda vai durar a filosofia do velho esporte bretão no Brasil.
     Os caras ficam discutindo por que o Neymar não iniciou a cobrança de pênalti; por que o Tite escalou neguim machucado, meia bomba; de quem é a culpa e por aí vai, e blá blá blá... Eu mesmo pergunto por que o Tite também foi escalado para essa Copa novamente.
     Bom, se ao longo das últimas três ou quatro edições de Copa do Mundo a seleção brasileira jogou com algumas figurinhas repetidas, inclusive o próprio Tite, é porque não houve desejo algum de fazer as mudanças que colocasse a seleção brasileira no mesmo patamar de seus concorrentes.
      Como deu para observar, equipes sem tradição no futebol, apenas figurando nas competições lá atrás, agora começam a bater de frente, pois já investem com tecnologia, formação e conhecimento, incorporando o que há de melhor.
   E a nossa seleção? A seleção brasileira há muito tempo está aquém do que já representou um dia. Nem essa molecada que vai surgindo e se destacando aqui no Brasil é suficiente para mudar esse cenário de vexame.
    Agora, olha só. Quando eles vão jogar no exterior em grandes clubes eles evoluem na carreira, arrebentam, porque lá os treinadores sabem explorar o potencial de uma promessa que surge. Os caras têm uma visão diferenciada, evoluída sobre como formar um grupo forte, competitivo.
    Nessas mesmas Copas em que o Brasil definhou já eram nítidas as mudanças nas outras praças do futebol. Há hoje todo um procedimento diferente.
    Agora mesmo no Catar, foi possível ver cada vez mais equipes adotando táticas diferentes na forma como ocupam os espaços do campo, preparação física em alto nível; disciplina tática, conexão entre os setores do campo. Claro, é uma agenda conhecida no futebol, mas com um desenho mais moderno e evoluído dentro das quatro linhas.
     Eu não queria falar sobre a escalação da seleção para o Catar, porque há discussões mais importante a serem feitas, mas qualquer treinador como um mínimo de profissionalismo e bom senso olharia com bons olhos os times que mais se destacaram aqui dentro da nossa casa. Em outros tempos o Flamengo e o Palmeiras seriam facilmente a base da seleção por tudo que essas equipes apresentaram nos últimos anos.
    Isso é uma outra questão que precisa ser resolvida. O campeonato brasileiro bombando, revelando promessas, confirmando talentos já conhecidos e o técnico da seleção brasileira, com o aval da CBF, adota outros critérios cheios de interesses, suspeição, para formar uma seleção minimamente competente.
     Eu acho que a sociedade, a parcela que curte futebol, tem de começar a cornetar essa gente em prol de mudanças profundas, tipo essas hashtag da vida ai, e renovar as cabeças pensantes do futebol brasileiro.
     Chega de figurinhas repetidas.

                                                                  Foto: O Globo 

domingo, 4 de dezembro de 2022

A COR DA BOLA


    Em época de Copa do Mundo sempre rolam aquelas enquetes pra saber qual a primeira Copa que alguém viu pela primeira vez.
    Eu lembro da Copa de 70 porque eu andava com minha mãe pelas ruas e via um alvoroço danado das pessoas, fogos, gritaria, mas pela idade, criança ainda, não tinha como me envolver com futebol.
    A campanha de 74 também passou batido. Nessa época, a galera ouvia rádio, novela, noticiários e os campeonatos de futebol daqui do Brasil, enfim. A televisão ainda tinha baixa adesão, era cara demais, e além do mais era uma mídia que ainda não dispensava espaço para o futebol.
    Era o rádio que levava a alegria do futebol para o público, onde ele estivesse, pois havia os radinhos de pilha portáteis, através do qual o torcedor assistia de fato aos jogos. A fala do narrador descrevia com precisão todo o cenário da partida. A tal magia do rádio que construía a imagem sem que a gente visse alguma coisa.
    A televisão surgiu justamente para materializar os elementos que o rádio utilizava com sucesso. A gente passou a ver a cor da bola, da grama e da camisa dos caras. Bom...na Copa de 78 isso foi possível, porque já estava tudo colorido mesmo. E a propaganda já estava bem agressiva e estimulante pra neguim comprar televisão nova para acompanhar a Copa.
     O pouco que eu entendo de futebol, não para tecer teoria, claro, mas para fazer comentários, torcer e dar palpites, eu assimilei lendo sobre o assunto e acompanhando nos noticiários, mas a televisão confirmou a expectativa que o público tinha sobre o que representava o futebol na cultura popular.
    E assim a minha geração vem seguindo os eventos de Copa do Mundo pela televisão e mídias digitais que surgiram depois de várias outras mudanças na vida dos brasileiros, como por exemplo, a Coca-Cola gigante de mais de três litros, na minha época era um litro pra família toda, além, claro, das próprias televisões, algumas já do tamanho da parede da casa.
    Hoje, ninguém vai tirar o pioneirismo do rádio na difusão do futebol. Até porque o rádio também acompanhou as transformações tecnológicas e ocupa seu grande espaço de sempre, mas a televisão tem um público maior, cresceu na mesma proporção da população.
      É nesse sentido que a Copa do Mundo ganhou toda essa projeção espetacular ao longo de cada edição, pelo caráter imagético que o maior evento esportivo formou em larga escala. A FIFA que tem mais países congregados que a ONU vem promovendo mudanças na organização das disputas de quatro em quatro anos pautadas na dimensão do público que a televisão abrange.
    Já há, inclusive, a iminência de mais países disputando a Copa em futuras edições, talvez a próxima já, porque está todo mundo aprendendo a jogar bola, e o país anfitrião tem sempre outros interesses quando se candidata para sediar a Copa. 
    O futebol, o mercado, o poder, tudo junto e misturado numa grande rede, fazendo praticamente todo o planeta parar o que está fazendo para ver a bola rolar.

sábado, 26 de novembro de 2022

A VIDA POR UM FIO



   Um grupo está reunido em protesto bloqueando o fluxo de uma estrada em Mato Grosso. Alguém chega e pede passagem alegando que precisa passar para levar seu filho a uma cirurgia de emergência no olho. O favor foi negado e rechaçado em função do comprometimento do grupo com a causa reivindicada ou reclamada, melhor dizendo. “Que fique cego, não vai passar!”.
    Qualquer um no argumento mais plausível vai interferir na contenda alegando que a liberdade ou direito de um termina quando a do outro começa.
    Termina aí o que poderia ser resolvido da forma mais sustentável, mais racional, ou dentro de um elemento que eu considero o mais importante nas relações humanas em qualquer circunstância: o fator humano.
     Por mais que a causa fosse justa e amparada no que é permitido manifestar, há sempre uma brecha, um atalho, uma exceção à regra, quando a vida é que está por um fio, mas parece que o mais elementar foi ignorado. Isso não tem nada a ver com processo político
    O que fica parecendo é que o Brasil está inaugurando uma era de grandes conflitos, como se nunca tivéssemos tido uma grande causa para resolver com distúrbios, cancelamento e mortes. É como se a gente não tivesse experiência de reverter situações de crise, incertezas, por isso que a vida alheia fica por um fio.
    Nunca fomos arrasados por uma guerra, mas temos nossas enchentes, alagamentos, queda de barranco, bala perdida, fome, desemprego, cenários que sempre despertam a solidariedade, porque a vida das pessoas está em primeiro lugar.
    De tantas vezes que o brasileiro foi conclamado a resolver pendengas sem garantia de sucesso, o futuro do Brasil é incerto até hoje. Um novo processo começando não é um progresso em si, é um recomeço apenas. Porque nós brasileiros estamos sempre começando do zero e contabilizando momentos importantes, apesar de difíceis, mas históricos para fins de registros.
    Essa balbúrdia que a gente tem presenciado em algumas vias pelo Brasil não pode ser considerado um fato importante para entrar nos anais da história. Para a sociedade lembrar lá na frente de um movimento político e tal, que trouxe mudanças para a vida brasileira. Só que não.
     Só serão lembrados como protagonistas da cultura do ódio, arruaceiros, impondo ação sem qualquer embasamento legal que justifique esse delírio, essa estupidez, essa falta de humanidade.

                                                        Foto: UOL Noticias

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

VIVA O BRASIL

 

   Não tinha como ser diferente a reação popular com uma vitória maravilhosa da seleção brasileira na estreia no Qatar. A expectativa e preocupação que são sempre normais antes da partida deram lugar à empolgação da torcida em todo o Brasil depois que o jogo terminou.
     Eu fui para a rua depois do jogo e vi uma alegria que há muito tempo não se via. Eu até pensei que não houvesse muita animação por ser apenas o primeiro jogo, ainda mais depois de um tempo conturbado que envolveu e dividiu os brasileiros por todo o país no cenário político.
    Mas, felizmente, a alegria tomou conta das pessoas em todos os cantos da cidade, e em todos os lugares onde havia concentração da torcida para assistir ao jogo a comemoração por cada gol era única, num só barulho, num só grito que estava guardado no peito de cada brasileiro, que no momento certo iria extravasar aquilo que o brasileiro está acostumado a fazer, que é comemorar.
      O Brasil estava precisando muito dessa alegria de norte à sul do país. Veio em boa hora essa vitória brasileira na Copa, para que a população pudesse novamente sorrir e vibrar, porque o futebol tem, sim, essa força, essa magia de resgatar a felicidade do povo brasileiro que sabe de sua responsabilidade e consciência no que diz respeito ao destino do país.
     A alegria que a galera extravasa nesse momento festivo que o futebol sempre proporciona certamente não vai tirar o foco do brasileiro sobre o destino do pais nesse processo que interessa a todos.
     A mesma liberdade que a gente tem de fazer escolhas nos permite também gritar juntos, porque a felicidade é de todos quando houver motivos para comemorar e saborear o gosto da vitória, assim como aflige a todos num período tenso e incerto para o país.
    O Brasil já passou por momentos mais críticos que esse e em nenhum momento o brasileiro deixou de comemorar quando havia festa e júbilo, nem esqueceu do respeito que cada cidadão deve demonstrar um para o outro em momento de transformação, mudança e transição.
     O futebol nem é mais o ópio do povo, como se dizia antes. O brasileiro está mais maduro e consciente sobre o que pode verdadeiramente mover a sua paixão e qualquer outro sentimento no momento adequado. O Brasil nem é mais a pátria de chuteira, pois a sociedade vai buscando um outro espaço para a nação brasileira ocupar no cenário mundial.
    Aos poucos a gente vai fazendo o mundo todo olhar para nós de um jeito bem além do orgulho que o Brasil tem de saber jogar bola.
     Continuamos buscando com determinação, amor e alegria tudo aquilo que a nossa liberdade nos permite buscar, sem que isso possa desconstruir o que o brasileiro tem de melhor, que é a sua alegria de viver.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

POR TRÁS DOS ARRANHA-CÉUS

  

  Bom, se todo mundo achava que essa Copa no Qatar seria diferente, porque no mundo islâmico não pode isso, não pode aquilo, não foi diferente das outras edições os cenários que geral já está acostumado a ver em paralelo as ações dentro das quatro linhas.
    Hoje, mais do que nunca um evento que reúne pessoas do mundo inteiro vai ter um caráter político numa dimensão cada vez maior, porque isso já é uma tendência no mundo, independente de como se dão as regras do país anfitrião e os interesses da Fifa em todo esse cenário.
    Pra começar aquela cerimônia de abertura politicamente correta, de igualdade, liberdade, essas coisas, o Morgan Freeman gastando a fala, beleza, sob a vista do dirigente do país, o Emir Tamim que governa o país com mão de ferro e não escondeu o constrangimento de aplaudir a peça que reivindicava justamente o que o seu regime veta e condena.
    Lógico que não se pode julgar a soberania de um país independente como o Qatar, que tem suas leis, sua cultura, religião, enfim, mas a gente foca nas contradições de quem almeja se inserir numa nova ordem mundial com as mesmas mazelas e incongruências de outras nações poderosas, e não consta que o Qatar seja um eldorado naquele espaço do Golfo Pérsico. Não parece que o Qatar seja só de arranha-céus.
     A Copa do Mundo é um evento esportivo, mas o anfitrião da vez sempre aproveita para mostrar ao mundo o que ele pretende no cenário global com a capacidade que ele tem de se desenvolver, se modernizar por intermédio de seus recursos e ainda ampliar as relações com quem quer que seja pelo mundo afora.
    No Qatar, todo o barulho que se ouve fora das quatros linhas é uma síntese do que já rola em vários cantos do planeta. As manifestações, protestos e reivindicações num ambiente de Copa do Mundo são um grito a mais no meio da torcida ou dos jogadores em campo, um pequeno universo que concentra e representa segmentos da sociedade cancelados, açoitados, marginalizados e desfavorecidos em seus redutos.
     Para a opinião pública, é importante que o movimento das mulheres no mundo todo, o combate ao racismo dentro e fora do ambiente futebolístico e demais reivindicações estejam também sob os holofotes de todo o mundo apontados para o Qatar.
    Também é fundamental que um regime autoritário e excludente sinta a atmosfera desse movimento dentro de seus próprios domínios, pois não se perderia jamais a oportunidade de ampliá-lo numa ocasião como essa, numa praça como essa em que há registros de impedimento de várias naturezas.
    Enfim, depois do apito final, não se sabe que frutos o Emir vai colher por receber o mundo em sua casa e quais os benefícios disso tudo para a população local.
     Em meio a tantas incertezas por trás dos arranha-céus, o melhor legado é a liberdade.