quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

UM NOVO TEMPO

    Não tem como se desvencilhar do calendário, embora todos os argumentos reforcem a ideia de um mesmo ciclo, de um mesmo tempo no próximo ano, porque, claro, vai ficar muita coisa por fazer em 2021.
   Independente de não ter dado tempo ou de ter sido adiado de propósito, são coisas que não cabem dentro de uma agenda específica, tipo aquele projeto que dependia de outros fatores, mas que como vários outros, ou a maioria, melhor dizendo, que teve a pandemia como obstáculo maior.
   Como já teve vários anos anteriores que não acabaram seguindo o calendário por forças de fatores que remexeram a coletividade e a vida de cada um separadamente, a pandemia com certeza também deu uma balançada nesse tempo que a gente vive.
  Mesmo com a sensação de que os ponteiros se moveram num compasso diferente, os meses se passaram com os mesmos dias de sempre; os dias com os mesmos minutos e por aí vai, enfim, fomos tirando as folhas do calendário no mesmo prazo estabelecido.
   A diferença é que agora a gente encontrou um tempo valioso que estava oculto dentro daquela agenda que parecia atribulada, daquele outro tempo que a gente obedecia em consonância com o relógio biológico e outras instâncias que determinavam o que fazer, como e quando.
   É mais do que um simples conforto ter realizado tarefa em meio à angústia da doença. É gratificante saber que temos a capacidade de conciliar aquele projeto deixado em segundo plano com a apreensão e sofrimento causados pela perda de alguém próximo e finalmente ter aquela sensação de dever cumprido. É um marco de superação conseguir ser útil em alguma coisa ou para alguém, mesmo com a pior das expectativas sobre o futuro das pessoas, do país, da humanidade. Foi gratificante se manter íntegro, irredutível em seus valores, em sua moral, apesar de uma dor pela perda de alguém ou a falta de perspectiva de futuro. Que maravilhoso se descobrir aos extremos e aprender a usar o tempo de acordo com suas próprias conveniências, aspirações, necessidades e sonhos, com pouca ou nenhuma interferência externa.
   Foi justamente esse cenário que se desenhou nesse ano pandêmico. Todo mundo se ocupando de novas artes e em novas frentes e com isso vários projetos saíram do papel e ganharam forma. Quantas pessoas finalmente publicaram seus livros, pintaram seus quadros, plantaram árvores, aprenderam a cozinhar, falar outro idioma?
   No plano coletivo também novos horizontes se descortinaram na aglomeração necessária, em família, não teve jeito, mas certamente conceitos foram revistos no âmbito coletivo, a importância da família, a relação com os filhos e o papel que cada um vai desempenhando com mais responsabilidade e mais humanidade em outros grupos sociais. A própria tecnologia permitiu essa nova concepção de coletividade ao agrupar pessoas distantes.
   Agora, dificilmente o tempo das coisas e das pessoas será o mesmo, em que havia leniência, indisciplina, desleixo e hesitação. De repente assentou na mente humana a necessidade de sermos mais úteis, mais funcionais com nós mesmos, o que certamente implicará um outro olhar sobre o outro, sobre o próximo.
   Talvez até fosse necessário para bem da coletividade esse aprendizado de cada um em momentos de dor, de angústia. Foi preciso essas novas marcas de feridas estampadas na pele e na alma para que o mundo tomasse outro rumo.
   Pode ser que haja as piores consequências se  cada um daqui pra frente não tornar sua vida mais plena. É bem capaz de cair no ostracismo aquele que não quiser contribuir para o meio em que vive. Certamente vai haver uma compensação para quem, não só resistiu como também acrescentou algo mais em seus projetos de vida.
   A vitória de cada um vai depender dessa vibe nos próximos anos, nos próximos tempos. O mundo vai precisar dessa nova agenda.
  
  

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

TEIMOSIA NÃO ROLA

    Às vezes é bom relembrar aquelas teimosias do passado, quando mamãe ficava o tempo todo me mandando fazer uma coisa que eu teria de fazer para a vida inteira. E ela reiterava justamente essa questão da responsabilidade, o compromisso com nossa própria agenda.
   Com o tempo parece que mamãe já tinha até uma fala pronta, um modelo padrão de como recomendar as coisas num tom normal ou exigir e até impor mesmo com toda a autoridade que o momento às vezes exigia, devido o grau de teimosia muito além dos níveis toleráveis ali naquele momento. Para ela, não rolava ficar toda hora lembrando de coisas que teríamos de fazer para toda vida.
   É claro que hoje a gente sempre teima com alguma coisa ainda, até porque a gente acaba aprendendo a ser ranzinza também de vez em quando, ninguém está livre disso, mas no geral, em condições normais de temperatura e pressão há sempre um grande projeto de vida, um sonho a ser realizado, uma tarefa para cumprir, enfim, não se para de insistir em algo importante. A gente costuma chamar isso de perseverança. Para uns, é só se concentrar que dá certo; para outros, organização e planejamento, enquanto que para outra parte aquela velha fé de sempre pra tudo sair do jeito que imaginamos e desejamos.
   E assim a gente foi crescendo e se ligando nos papéis, nas funções que a vida vai nos impondo num curso normal e de acordo com aquilo que cada um se propôs a fazer pra sempre ou num prazo preestabelecido, numa missão qualquer, sem precisar mandar, obviamente, porque já tá todo crescido e formado.
   Esta semana o Supremo Tribunal Federal, mais precisamente o ministro Ricardo Lewandowski, determinou que o ministro da Saúde especifique  dentro do Plano de Imunização apresentado à corte o calendário de vacinação, o início e o fim dos expedientes da imunização em massa. Isso depois de um ano conturbado com todos aqueles números da pandemia aumentando e assustando os brasileiros do Oiapoque ao Chuí. A tal curva crescendo cada vez mais e o presidente tentando remexer nos quadros da Polícia Federal, passando a mão na cabeça do filhinho corrupto, trocando de ministro da Saúde sem parar e aquele blábláblá cotidiano em seu cercadinho.
   Em meio às falas dos especialistas alertando sobre os perigos das aglomerações e a necessidade do confinamento eles também lembravam que o país já tem um programa de vacinação já implantado, todo mundo lembra das campanhas contra outras doenças. Bastava ao governo encaixar um plano para a Covid-19 nesse Programa e pronto.
   Pois bem, em vez disso, o presidente Jair Bolsonaro resolveu politizar a questão da vacina, fazendo birra e minimizando a doença e seus efeitos, além de abrir guerra contra governadores que não fecham com ele na mesma questão, tudo dentro de um cenário de total desprezo pelas ciências, como ficou provado também nos eventos de queimadas na Amazônia e no Pantanal, em que ficava todo mundo chamando a atenção dessa gente malcriada.
 Tudo bem que a pandemia pegou todo mundo desprevenido, mas o Brasil tem órgãos de pesquisas e especialistas de sobra com talento e conhecimento reconhecidos para lidar com situação de emergência, não precisava a sociedade passar por esse desconforto, quando na verdade era para estar tudo resolvido, só esperando a vacina chegar, embora eu ache até que com toda essa estrutura o Brasil já deveria estar fabricando nossa própria vacina, sem parceria alguma, com total independência. As seringas, então, qualquer fábrica de brinquedo dessas por ai faria, sem precisar encomendar lá de fora. Mas isso é uma outra história de teimosia em que o Brasil ainda fica muito subserviente. Já que é pra bater o pé e fazer pirraça, que seja em prol de nossa própria soberania.
   De qualquer forma ficamos aqui na expectativa de uma imunização em massa, com todos os critérios de prioridades, não de privilégios, por favor, porque aí, de repente, o STF não vai poder interferir. Imagine o Lewandowski tendo que mandar toda hora. Tudo eu tenho que mandar, já explanava mamãe. Mas, calma que o ministro do Supremo com o chinelo na mão na porta do Alvorada já é demais, era só o que faltava.
  
  
  

sábado, 5 de dezembro de 2020

UM BOM CHÁ PRA CURAR ESSA COVID

   Essa expectativa pela vacina que vai chegar, qual delas vai ser aprovada primeiro e o dia em que finalmente a  população será imunizada pra valer já está quase que passando do prazo, porque há uma urgência em nível mundial pelo imunizante.
   É claro que não dá pra atropelar os prazos científicos, as etapas de todo o processo de fabricação, enfim, é compreensível que se deva observar todos os critérios para que a vacina seja realmente eficaz.
   Os números ainda gritantes da doença implicam uma corrida bem acelerada, não essa corrida que tá rolando aí pra ver qual a vacina melhor, eu me refiro a uma corrida lá nos trâmites dos laboratórios, das autoridades, porque não tá dando para pra esperar por muito tempo, as pessoas não conseguem segurar o facho, como se dizia antigamente, as pessoas lidando com uma questão séria de um forma bem natural, simples.
    Seria bom que tudo fosse assim tão simples como se convencionou tratar a pandemia. Seria bem bacana que tudo fosse mais fácil de ser resolvido, uma solução imediata para um grande mal que aflige o mundo nesse momento.
    Eu, particularmente, preferiria um bom chá pra curar essa Covid. Sei lá, deve ter algum mato, a casca de uma fruta, uma semente qualquer, uma raiz enterrada por ai, que fazendo aquelas garrafadas que essa gente do interior costuma fazer, de repente pode trazer a cura para a doença do momento. Antigamente tinha sempre alguém que aparecia com um xarope vindo direto do matagal que era mais eficaz que o expectorante da farmácia. Não  tinha uma coceira, uma fisgada, um desconforto que não pudesse ser resolvido com uma receita caseira. A emergência nesses lugares longe dos centros urbanos, lá nos confins do meio do mato são aquelas velhas que conhecem tudo de cada semente que brota da terra.
   Até hoje muita gente ainda recorre aos famosos chás poderosos e milagrosos como herança do passado que a vó de alguém deixou escrito no caderno, pra justamente ser repassado para as próximas gerações esse fantástico conhecimento, uma espécie de sustentabilidade, vai vendo.
   Um conhecimento que é muito, mas muito pouco difundido por razões óbvias, né. Porque, certamente alguém por ai, mais precisamente no interior, já andou remexendo umas folhas, uns talos de planta e já está até vendo a Covid com os dias contados. Pois é.
    Mas isso não é coisa que sai na mídia tradicional, porque a indústria farmacêutica já veicula seus produtos nesses meios. Eles até admitem a eficácia da fitoterapia, mas não fazem muito alarde. A ideia é vender essa profusão de remédios nas farmácias, muitos não devem nem ter eficácia comprovada, porque eles mesmos orientam pra procurar o médico se persistirem os sintomas. Tomara que não venha essa recomendação na bula e na propaganda das vacinas da Covid- 19.
    De qualquer forma, se alguém souber de alguma fórmula milagrosa vinda do mato, que divulgue ai nas redes sociais, que ficou mais fácil agora espalhar as coisas úteis, vai ter sempre gente compartilhando, claro que à revelia dos grandes laboratórios e já  torcendo pra essas Pfizer da vida não mandarem tirar de circulação algum totem cheio de visualizações. Se os caras se sentirem ameaçados em suas cifras eles vão às últimas instâncias, vai vendo o STF enquadrando o capiau que formulou o chá, mas como não tem certificação da Anvisa, foi indiciado por prática ilegal da profissão ou curandeirismo.
   Que venham logo as vacinas pra dar tempo de todo mundo voltar a ser feliz.
  

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

LADRÃO DE OXIGÊNIO

 

   Eu sempre impliquei com gente que tem nariz grande. Na minha época de infância, quando a gente podia zoar à vontade, sem esse mimimi de agora, de as pessoas ficarem magoadinhas, querendo processar geral, naquele tempo era comum falar que os narigudos roubavam o oxigênio ali das redondezas e tal, o cara chegava e todo mundo já pedia o distanciamento do sujeito, imagine o perigo que todos corriam.
   Lembrei disso agora vendo o desempenho do time do Flamengo nesses últimos jogos sob o comando do Rogério Ceni, que, gente, dispensa apresentação pela silhueta fora dos padrões, digamos assim, coisa que eu nem acredito que passe despercebido de tanta gente assim, porque chama a atenção, sim, esse detalhe.
   Tudo bem que o rubro-negro carioca tem um time eletrizante, fora de série, difícil de ser batido, jogando o fino da bola dentro das quatro linhas, e jogando essa bola redondinha nem precisaria de técnico na beira de campo, pois a rapaziada sabe o que fazer com a bola no pé. A torcida até levanta a plaquinha adiantando o desfecho das diabruras dos caras em campo.
   Mas, infelizmente, pelo menos para o Flamengo, tem de ter aquele cara apontando as jogadas e tal, e é justamente isso que pode tá interferindo no desempenho do time ultimamente, pois, seguindo as tendências que já se verificavam nos tempos de pilha da molecada, será que o Ceni tá roubando o oxigênio da galera? Será a presença dele na beira do gramado o motivo desse desempenho bem diferente de quando Jesus respirava o mesmo ar do time, mas sem tirar o gás da equipe? Já não basta o adversário cafungando no cangote dos caras e o treinador ainda contribuindo pra tirar o fôlego da equipe?
   Pode ser cedo pra tirar conclusões sobre o rendimento do time em campo, mas se continuar assim, o Flamengo repetindo essas pantomimas, vai dar pra fazer tranquilamente a ligação entre uma coisa e outra, ou seja, o Rogério Ceni tá roubando o oxigênio da equipe, trazendo prejuízos ao time e comprometendo o futuro do grupo nos jogos restantes .
   Nesses tempos de distanciamento, isso serve de alerta para quem convive com alguém de venta grande ou pode eventualmente se deparar com algum deles pelas ruas, no trabalho, enfim, quem tá ralando em casa (home office é o caramba!) tá de boa, mas quem tá na pista o cuidado é redobrado.
 De qualquer forma, fiquemos atentos a essa gente que pode tá diminuindo seu oxigênio de forma compulsória em detrimento de uma massa muito maior que um grupo de onze pessoas reunidas jogando uma pelada. Já bastam as queimadas que diminuem a absorção de oxigênio em nível nacional.
   Não é só pelo Flamengo, mas pelo Brasil como um todo, pelo mundo até, se a gente dimensionar essa iminência de tragédia ao nosso redor de forma globalizada, Deus nos livre disso. Agora, se não for o Rogério Ceni, pode ser outro, afinal de contas, é uma turma bem grande e dispersa, toda hora se vê um por ai, na rua, no metrô,  na televisão...ops! Na televisão...gente, lembrei agora do Luciano Huck, tão ventilando a ideia de o cara ser presidente, o perigo é maior do que se imagina. Vai vendo.
  

terça-feira, 24 de novembro de 2020

O VOTO NULO TAMBÉM DIGNIFICA

  É duro fazer um balanço negativo dessas eleições aqui no Rio de Janeiro, mas depois de tudo que aconteceu ao longo da campanha e sobretudo com a composição do segundo turno que vai definir o próximo prefeito da cidade não há como traçar um panorama mais otimista.
   Eu digo com muita segurança e propriedade que Eduardo Paes e Marcelo Crivella são os piores candidatos que concorreram nesse pleito, considerando suas experiências e o próprio material que cada um trouxe para a disputa.
   Nunca é demais lembrar que essa eleição foi a primeira dos últimos tempos que não se destacou uma figura novata ou emergente como costumava rolar nas disputas anteriores. Não por falta de alternativas, muito pelo contrário, mas por conveniências do atual momento político.
   Se em campanhas anteriores havia sempre um personagem novo, independente do viés ideológico, esse ano prevaleceu o conservadorismo, o medo de um estreante, a dúvida sobre quem surgia diferente no horizonte, a desconfiança por algo diferente. Enfim, nem a direita nem a esquerda conseguiu emplacar uma novidade que pudesse gerar uma expectativa animadora para o Rio de Janeiro.
   Agora, fica a população  e a cidade igualmente maravilhosa à mercê de dois velhos conhecidos do povo carioca, duas figuras que em nenhum momento mostraram que podem trazer as transformações que o Rio precisa: Marcelo Crivella que nesse mandato não pôs em prática o que prometia fazer e cuidar das pessoas; e Eduardo Paes, que dispensa apresentação diante do cenário bem diferente do tal legado que ele lembrava pra todos que deixaria para a população.
   São os únicos da disputa que poderiam provar para os cariocas os benefícios e vantagens de suas gestões, ao passo que os outros ainda teriam de convencer o eleitorado de seus projetos para a cidade.
   Mas, esqueçamos de tudo novo que não veio e nos contentamos com a pior expectativa para o futuro da nossa cidade nas gestões de quem que seja e se eleja. Não tem como projetar para a próxima administração que as necessidades e urgências do Rio de Janeiro serão atendidas e resolvidas. Crivella e Paes passaram toda a campanha se digladiando com acusações e mentiras de ambos os lados, sem nenhuma responsabilidade, sem nenhuma noção do que deveriam fazer de fato para o povo.
   A cidade do Rio de Janeiro não merece ficar sem esperança mais uma vez. É muito triste para o povo carioca saber que o próximo prefeito não vai descortinar um novo horizonte para todos nós. Não há garantias de que um ou outro vá inaugurar uma nova era para a cidade maravilhosa, porque eles, Crivella e Paes, não têm capacidade para transformar o Rio de Janeiro numa metrópole de fato. Na oportunidade que tiveram não tornaram o Rio mais funcional, não fizeram o Rio mais aconchegante para quem aqui vive, apenas enganaram a população com promessas, jogo de palavras e sorrisos de malandro.
   É bom que se lembre que Marcelo Crivella e Eduardo Paes respondem a processos, justamente por ingerência e vícios em suas gestões, o que automaticamente afastaria ambos da disputa, mas parte do eleitorado, também preso a velhos conceitos, optaram por fazê-los os guardiões da nossa cidade, ainda que com seus currículos pobres e pífios, deprimentes e depravados com a coisa pública, enganadores e fantasiosos para a realidade carioca.
   Nenhum princípio político e ideológico que prima pelo bom senso se encaixa nessa agenda que nesses últimos tempos vem atentando contra o povo carioca em seu cotidiano de sofrimentos de toda ordem, de dia, de noite, nas praças, nas  ruas, à pé ou de cavalo. Nenhum ideal de renovação e modernidade vai embasar essa fraude intelectual. Nenhum conceito que vise o bem estar de um povo pode se enquadrar nessa realidade que tanto Eduardo Paes quanto Marcelo Crivella tentam a todo custo empurrar para as pessoas. Nada que ambos fizeram até agora esboçou algum conforto para nós que sofremos todos os dias. Nunca houve um novo horizonte nesses projetos que eles ensaiam sistematicamente.
   O voto nulo é uma realidade, é uma alternativa que consta na urna, é uma possibilidade para tirar a moral dessa gente. É uma oportunidade de reivindicação, de protesto, de observar que não é viável essa situação. Há que se ver no voto nulo o privilégio da reflexão por parte por parte de quem engana e de quem é ludibriado. O voto nulo expressa uma condição para a sobrevivência de um povo e de uma cidade, e revela uma outra realidade para a cidade do Rio de Janeiro no próximo chamamento.
   Enfim, o voto nulo também dignifica.
  

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O RACISMO AINDA REPRESENTA

   Eu fico bem à vontade pra falar de preconceito porque transito entre os dois lados da história, vivo cruzando a fronteira que separa esses dois mundos.
   É  até estranho falar que são dois mundos, mas como a sociedade vai criando divisões e fronteiras que não estão no mapa oficial, a gente define assim esse ambiente em que vivemos.
   Por força da minha origem e agora da minha vida social, profissional e dessas andanças por ai, estou sempre ao lado de quem sente o peso da ignorância ou batendo de frente com a outra parte que insiste nesse modo de operar o sistema.
   Eu já vi de tudo nessa vida, já escutei cada coisa que até hoje me impressiono. A minha infância era de gente diversificada, só depois de um tempão é que eu percebi que tinha gente que não gostava de preto, mas a minha convivência e as coisas que mamãe falava me fizeram tolerante com as pessoas.
   Hoje, a divisão continua, mas a impertinência dos abolicionistas de outrora fez escola, e há sempre uma voz ativa, um personagem ou uma política pública e legislações exclusivas que abafam um pouco essa estupidez latente e ainda persistente.
   Mesmo que ainda não tenha surtido o efeito desejado, muitos barulhos que fizeram no passado ecoam nos dias de hoje, e faz de uma certa forma a diferença.
   Eu fico imaginando como seria hoje a África do Sul se não fosse a figura do Nelson Mandela e sua luta que custou sua prisão e muita morte naquele país. Como estaria hoje as relações entre pessoas de tribos diferentes e  a organização política lá, de repente, de exclusão e separatismo até hoje?
   Nos Estados Unidos, a saga de Martin Luther King certamente influenciou a comunidade negra americana a brigar por liberdade, direitos  e cidadania. Se hoje há protestos nas ruas toda vez que a polícia esmaga um negro, a atitude em ambos os lados seria diferente, pra pior, uma repressão ainda maior e uma massa mais amedrontada e sem fôlego para reagir à opressão, mas graças ao discurso do passado, veja como esses protestos antirracistas que estão rolando por lá estão até interferindo nas eleições americanas.
   Aqui no Brasil não é diferente que o poder público é excludente, repressor e omisso no trato com a comunidade negra. Basta observar os indicadores sociais e os dados de ações policiais em que os negros são as maiores vítimas.
   Nos três ambientes mencionados destaca-se a atuação do estado, cada um com sua particularidade dentro de seu sistema e regime, mas claro que o convívio entre as pessoas, o lado social, cultural das relações humanas também ilustram esse cenário em que o racismo e o preconceito operam no dia a dia. E é justamente no tecido social que a gente mede a intensidade do ódio e o intolerância.
   A Lei Afonso Arinos criada na década de 50 foi o início de um longo processo para frear o racismo no Brasil. De lá pra cá, não houve mudança alguma, ninguém foi punido e os registros de discriminação continuaram. Só depois da Constituição de 1988, com a redemocratização do país, surgiram personagem que levantaram a bandeira da intolerância. Finalmente a Lei 7716/89 começou a incomodar a parcela preconceituosa da sociedade por sugerir e determinar punições à eventuais agressões físicas e verbais.
   Atualmente, o senador Randolfe Rodrigues acena com um Projeto de Lei que altera o Código Penal para aumentar a punição em casos de ataques racistas com o objetivo de desestimular esse comportamento e, claro, proteger as vítimas.
   É um alento para a sociedade ver a legislação em consonância com as reivindicações e tendência por um ambiente livre de preconceito e discriminação. A ideia é minar qualquer tentativa de perpetuar o racismo.
   A gente entende que é difícil erradicar esse mal, pois há vários fatores que é preciso considerar, mas não se pode esmorecer, ainda mais agora, quando há todo um discurso de ódio renovado no ar, e muita gente se sente representada novamente. Veja como o Donald Trump renova o seu discurso de intolerância e acaba provocando mais agressões, como têm  ocorrido nos EUA, assim como o presidente Jair Bolsonaro, que durante a campanha eleitoral, lá  atrás, andou soltando umas falas completamente preconceituosas, o que acaba, de certo modo, estimulando mais ódio, e fazendo com que aquelas pessoas que estavam mais contidas se sentissem representadas, no momento em que há cada vez mais vozes ativas e atuantes contra todo esse apartheid que não para de fazer barulho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

IDEIA DE JERICO

    O presidente Jair Bolsonaro fica entrando na pilha do ministro da economia, Paulo Guedes que, sempre que pode, faz uma pressão para tentar emplacar o Estado mínimo no Brasil sem qualquer discussão, sem critério algum que possa sustentar a viabilidade de um projeto com essa complexidade toda.
   Só isso explica esses arroubos do presidente, como agora, em criar esse decreto que autoriza o Ministério da Economia a abrir estudos que possibilitem a parceria público-privada no Sistema Único de Saúde.
   Pra começo de conversa, em tempos de pandemia seria uma afronta à inteligência da opinião pública em momentos de aflição e agonia pela Covid- 19, mas a verdade é que a complexidade do SUS, que engloba as três esferas de administração, implica discussões e estudos com autoridades e especialistas da área de saúde, não é só a área econômica que iria deliberar sobre isso.
   E a outra questão é justamente a que levanta suspeita em todos. Já que o Bolsonaro havia desmentido a privatização do SUS no decreto, a parceria com empresas privadas na gestão das Unidades Básicas de Saúde é uma versão mais ampliada do que já ocorre nos estados e municípios, em modelos de gestão da saúde pública, em algumas praças, com registros de escândalos e precariedade do serviço.
   No Rio de Janeiro, esse modelo de administração através de Organizações Sociais a gente já conhece como funcionava, regada a propina, favorecimento e vantagens que em nenhum momento trazem benefícios para os usuários do sistema. Não é difícil imaginar a complexidade desse modelo em nível nacional. Seria tão ou ainda mais complicado que a atual forma de gestão num país de dimensões continentais como o Brasil.
   Na fala do ministro Paulo Guedes para defender o decreto, ele sugere incentivar a participação da iniciativa privada para melhorar a qualidade do serviço. Ora, ministro, dá pra tornar excelente a saúde pública no país, desde que o governo utilize todo o recurso destinado ao setor; não diminua o orçamento da saúde como fez este ano; crie mecanismos para monitorar a gestão dos hospitais federais, pois, no Hospital Geral de Bonsucesso, por exemplo, a diretora dava festas, mesmo com a própria unidade respirando por aparelho.
   Pois bem, ainda bem que Jair Bolsonaro voltou atrás e  revogou o decreto 10.530 depois da repercussão negativa que a decisão isolada e descabida do presidente provocou.
   Nesse cenário de estado mínimo que o neoliberalismo propõe, cada país tem suas peculiaridades, suas características que levam em conta vários fatores. Se o Paulo Guedes acha que é fácil encolher o Estado sem sacrifícios, só com uma canetada, e ainda mexendo na saúde da população, pode desistir que a sociedade está atenta.
   Se o presidente acredita que pode decidir de forma unilateral sobre questões que envolvem a vida das pessoas, mesmo que não seja pilha do Paulo Guedes, pode revogar essa ideia de jerico.

DE QUEM É A CULPA?

  É muito pouco provável que alguém vá ser responsabilizado pelo incêndio no Hospital Geral de Bonsucesso. É só fazer um balanço da rotina do hospital nesses últimos anos ou décadas, até, para se avaliar o tamanho da tragédia que se abateu em mais uma unidade de saúde pública.
   É justamente essa questão da responsabilidade que vai precisar ser resolvida para impedir que essa agonia de sempre continue, que esse drama se perpetue.
    É claro que vai rolar aquele velho jogo de empurra que vai resvalar em gestões anteriores, porque ninguém vai querer levar culpa sozinho. Por acaso, aconteceu alguma coisa com aquela diretora do hospital que dava festas enquanto os pacientes da emergência  eram atendidos em contêineres? Por que não revisaram os geradores e toda a estrutura do complexo depois que a Defensoria Pública da União produziu um relatório alertando de risco iminente? De quem é a culpa pela falta de equipamentos de segurança constatado e alertado pelo Sindicato do Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência? Como uma unidade daquela dimensão funciona sem um plano de combate à incêndio atualizado?
   São questionamentos que remetem à impunidade das coisas no Brasil, ninguém é culpado de nada, não se pune ninguém por nada, apesar de haver instrumentos jurídicos  para isso. Se houver alguma punição para dar uma satisfação à opinião pública, vai cair sobre alguém que não era responsável, mas que de repente fez uma gambiarra e passou a ser o provável culpado por tudo. Aquela velha história da corda que a gente sabe onde arrebenta.
    Por sorte, a equipe de funcionários do HGB já estão acostumados a trabalhar no limite de sua capacidade e função e a tragédia não foi maior por força da dedicação de todos em mais um momento angustiante para todos.
   Infelizmente a situação só tende a piorar, ainda mais nesses tempos de pandemia em que o volume de atendimento nas unidades de saúde se sobrecarregou, o que vai gerar um inchaço, um esgotamento maior, fazendo com que esse evidente colapso evolua para um quadro pior, porque outras unidades de saúde, estadual e municipal, também apresentam os mesmos problemas estruturais, como bem mostra reportagem do jornal O DIA.
   De qualquer forma, há uma questão de responsabilidade que precisa ser equacionada antes que deem atenção básica de verdade à saúde pública no Brasil. É bom que haja um envolvimento maior por parte de toda a sociedade, os governos, o Congresso,  a esfera jurídica, mas sem essa politização que agora virou moda, principalmente na área de saúde.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

POR UM RIO RENOVADO

  Não faz muito tempo que a prefeitura manteve parceria com os governos estadual e federal num cenário que trouxe muito ânimo para a população pela possibilidade de grandes projetos para o desenvolvimento da cidade serem implementados. Tudo que poderia faltar em outras praças  sobrava aqui. Havia recursos sem aquelas burocracias, sem aqueles entraves, porque as esferas de governo eram fechamento puro.
   Era só botar em prática o que sempre se desenhou para o Rio, uma grande transformação para deixar a cidade no nível de uma grande metrópole de fato, com os principais serviços públicos funcionando plenamente, de modo, claro, a diminuir o sofrimento da população em seu cotidiano e trazer bem-estar para a todos.
   E essa expectativa de um novo horizonte para o Rio parecia certa quando ensaiaram com UPA, UPP, Clínicas de Família, BRT, VLT, e o projeto que nascia como a cereja do bolo de toda essa roupagem que o Rio de Janeiro estava inaugurando: o Porto Maravilha. Nem é preciso muito esforço para ver a precariedade disso tudo agora.
   O que parecia ser a menina dos olhos da prefeitura e motivo de orgulho para os cariocas se transformou num cenário de terra arrasada. Quem anda por ali até vê que houve um ensaio de intervenção urbana, mas o conjunto, aquilo que agrega todos os elementos do projeto, está tudo indefinido, vazio, e o pior, sem garantia de que a área será realmente revitalizada, porque não era só um simples projeto de intervenção urbana, é uma grande obra que englobaria na região emprego, moradia, cultura, lazer e mobilidade urbana.
   Mas como todo projeto de parceria público-privada levanta as suspeitas de sempre, o Porto Maravilha como uma operação urbana de consórcio, operado por empresas envolvidas em corrupção, ficou também a desejar uma nova paisagem para o Rio, além da decepção por parte de quem prometeu renovar e modernizar a nossa cidade maravilhosa.
   Hoje, a prefeitura tenta, por via judicial, fazer a Caixa Econômica Federal retomar a manutenção da região por força de contrato firmado no tempo em que foi concebido o Porto Maravilha, cujo fundo imobiliário a instituição federal é gestora.
   Pelo cronograma do projeto inicial, as obras de revitalização do Porto Maravilha terminaria em 2022, mas como os tais Certificados do Potencial Adicional de Construção encalharam por força da crise que se abateu em 2016, mesmo com toda a liberdade de poder construir edificações acima do gabarito da região, não houve quem se interessasse em investir no local.
   Com a proximidade das eleições, outra expectativa de um personagem diferente na administração municipal que possa refazer essa ponte com a CEF e dentro de um cenário de transparência e credibilidade e fazer do Porto Maravilha a porta de entrada para demais investimentos para o Rio de Janeiro e renovar o orgulho do carioca.
  

sábado, 24 de outubro de 2020

O GOL DE SANTOS DUMONT

   É muito importante destacar o nome do Pelé nesse tempo de sua primavera em que completa oitenta anos,  pela bravura e competência com que representou o Brasil nas vezes em que esteve em campo. Para quem não gosta ou não se liga em futebol os números de Pelé podem até ser irrelevantes, mas há o reconhecimento do quanto ele elevou o nome do Brasil.
   Mas essa data especial no mundo do futebol também coincide com o gol de placa de outro brasileiro ilustre: Santos Dumont. Se a gente voltar lá atrás e ver como era o Brasil e trazer para esses tempos modernos de hoje, com todas essas tecnologias norteando a vida das pessoas, a saga de Santos Dumont é muito representativa para os avanços da aviação no mundo. Em nenhum momento o seu pioneirismo pode ser desprezado, quanto mais se distancia daquele sublime sobrevoo em seu 14bis, em Paris, naquele 23 de outubro de 1906,  até os dias atuais, em que a aviação também vem acompanhando todas essas revoluções tecnológicas.  
   Há, até hoje, aquela velha polêmica em torno da paternidade da aviação entre o nosso Santos Dumont e os irmãos Wright, mas amplamente favorável ao brasileiro que conseguiu levantar o 14bis com autonomia, ou seja, com propulsão do próprio equipamento, ao contrário dos americanos que lançaram mão de outros meios para alçar seu aparelho. Se ficou alguma dúvida na época, os próprios fatos definem Alberto Santos Dumont como o pai da aviação.
   O povo brasileiro não pode, jamais, deixar cair no esquecimento os feitos de Santos Dumont, cuja proeza de inaugurar uma nova era para o mundo é também um golaço para entrar na galeria dos grandes feitos da humanidade.
   

domingo, 18 de outubro de 2020

OS ÍDOLOS TAMBÉM VACILAM

    Quanto mais se avolumam esses escândalos envolvendo figuras públicas mais complexa vai ficando a definição do que é de fato um ídolo. Eu falo isso seguro de que todo mundo tem um pra se chamar de meu, aquele em que você se espelha no talento, no discurso, na beleza, na roupa que veste, na música que canta ou no bolão que ele bate nas quatro linhas.
   Antigamente, era mais difícil saber o que essas pessoas que são referência de alguém, de milhares ou de milhões de seguidores faziam em suas vidas pessoais. Agora, eles mesmos fazem questão de exibir o aconchego de seus lares, a família, o amor pelos animais, as viagens, as resenhas, enfim, tudo que se pode copiar de fato, claro, se sua vida social e financeira permitir.
   Mas apesar de toda essa vida bacana escancarada, ainda assim fica aquela pulga atrás da orelha sobre o caráter, a personalidade dessa gente bronzeada, porque o que não falta hoje é aquela pessoinha pública decepcionar seus adoradores, seus fãs ou seguidores, o que seja, com aquele pequeno desvio de rumo que mancha e  muito a reputação do cara. Quando a figura fica só na ostentação, tudo bem, o problema é quando ele revela a sua personalidade.
   Só pra ficar em fatos recentes, imagine a decepção que figuras como o Robinho, a Flor de Liz e o senador Chico Rodrigues causaram nas pessoas que os tinham como referência. Apesar de essas pessoas que agora caíram em desgraça com a opinião pública continuarem em alta em outro ambiente ou em outro grupo social por um motivo qualquer, vai surgir alguém saindo em defesa dele, “Ah, não importa o que ele fez,  ele tá sempre socorrendo a gente aqui”, de qualquer forma, ficou exposto ali as vísceras de quem parecia ser uma unanimidade.
  Por isso eu acredito que esse conceito de personalidades vai sofrendo alterações.  Agora, com o advento das redes sociais essas celebridades, as que ainda não vacilaram por ai, obviamente, continuam com sua audiência e os milhares de likes, mas terão de ser mais vigilantes com sua imagem, suas atitudes, seus gestos, assim como o comportamento fora dos holofotes, porque, até isso vem à tona também, de repente, assim do nada, e ai, todo aquele prestígio conquistado a duras penas desmorona de vez. 
   A pessoa que sai do ostracismo e passa a ser conhecida tem de ter essa noção do que é ser uma figura pública. Ela passa a ser referência de muita gente, e hoje, com os passos cada vez mais vigiados em grande rede, fica exposta além da estética, da superficialidade, a conduta que acaba tendo um peso maior, pois, nesse critério de construção de imagem a parte de fora e a de dentro são colocados na balança. 
   Portanto, a primeira impressão é a que fica, mas só pra quem ainda não deu mole por aí.