quarta-feira, 17 de março de 2021

GRATIDÃO

 

   Tem dia que as árvores nem balançam de tão sinistro que fica o dia. Não tem nem como chamar de calmaria, de sossego, esse estado em que nada se move.
   Na cultura dos pássaros deve ser mesmo  tenebroso uma árvore que não se move que eles nem pousam por ali, ou talvez eles até saibam que um silêncio é necessário por ali, daí irem cantar em outra freguesia.
   Mas o que era estranho, medonho e sem sentido acaba sendo revelador, pois é de um silêncio desse que a gente precisa. Na verdade, nada era tenebroso e triste, tudo era de propósito mesmo, aquela conjunção de fatores conspirando a seu favor.
   Num estado normal de cantoria dos passarinhos, da brisa que abraça as pessoas, esse corre-corre de gente respirando e sobrevivendo, passam mesmo despercebidos as tragédias e um monte de gente partindo pra nunca mais voltar.
   Por um instante a gente até esquece quanto tempo já dura esse negócio e até quando vai continuar esse martírio das pessoas perdendo o fôlego e sumindo do mapa. Por um instante a gente até esquece quantas pessoas nunca mais veremos, porque o cansaço desconfigura a memória. O cansaço de tanto sentir saudade de quem era a extensão de nós. Porque cansa, demanda energia ficar rebobinando a fita e enxergando cada vez mais distante alguém que continua sendo nossa referência e inspiração.
   Agora só há espaço na mente para prosseguir; só há espaço para lutar e insistir; e um cantinho bem apertadinho lá no fundo do hipotálamo  para agradecer a tudo isso. Porque não pode passar em branco a coragem que você ganhou, e o quanto a gente se fortalece mesmo sofrendo revezes a todo instante.
   O cara que perde a mãe, o pai, aquele abraço predileto, sai driblando tempestade e ainda mete um gol, esse cara somos nós que fomos escalados para contar histórias. Esse cara somos nós que vamos oferecer o que temos de melhor. Há um propósito para esses caras que somos nós, que vamos rever as pessoas que nos inspiram e os lugares que nos encantam, não demora muito.
   Daqui pra frente, tudo que envolve esses caras que somos nós é passível de gratidão, desde a grande conquista de continuar a caminhada, passando pelo privilégio de resistir às perdas e a expectativa de um novo horizonte.
   Gratidão sempre.
    
 

sábado, 13 de março de 2021

MISTURA

 

    Parece que houve uma mudança de rumo em nossos planos de se vacinar. Eu falo nossos porque a maioria quer se imunizar, tem até pesquisa comprovando. Dá até pra dizer que passamos de fase, houve uma evolução.
   Se antes mais parecia que ninguém tomaria vacina alguma por causa da implicância do Paulo Guedes em gastar dinheiro, aos poucos o Bolsonaro vai se dando conta de que vai ter de morrer na mão de alguém que venda vacina, não tem jeito. Já teve gente até tentando desenrolar com os chineses pra liberar a mercadoria sem ressentimentos e crise diplomática.
   O Rodrigo Maia não guardou mágoa pelo Baleia Rossi e ligou também pra ajudar; até o Lula, quem diria, também passou um zap pro chinês, lá, dando aquela moral. Afinal de contas, é o Brasil acima de tudo, né, gente.
   Agora a minha dúvida é saber qual delas eu vou tomar, se eu vou poder escolher lá na hora, enfim, ou se eles é que vão decidir qual a que combina com o perfil de cada um, tudo ali, rapidinho pra não atrapalhar a fila.
   O problema maior é a segunda dose que terá de ser a mesma da primeira, já foi tudo acertado, combinado direitinho,  segundo determinação das autoridades sanitárias. Daí que esse negócio de sair comprando tudo pode dar ruim depois. No final das contas vai ter, sim, mais de quatrocentos milhões de dose, mas vai ter de fazer igual ao jogo da velha, os pares certinhos, senão o cara quando voltar lá pra tomar a segunda dose não vai ter a mesma.
   Lembrei agora daquelas resenhas de churrasco, que você leva sua Brahma e no final tem de beber a Itaipava do malandro.  Às vezes, no dia seguinte, você nem lembra que a saideira tinha um gosto diferente.
   Pois é, com as vacinas também não tem como saber o efeito de eventual mistura, se vai alterar o genoma, virar jacaré ou embaçar a vista, sei lá... tá muito cedo e ninguém especulou sobre isso até agora.
   Então, o ideal é não misturar. Até porque, essa nova variante ai, já completamente adaptada ao meio, como bem sugere a seleção natural, já mostrou que veio pra ficar, ficar bagunçando o coreto. Quem é bebedor sabe disso.

quinta-feira, 11 de março de 2021

O STF SOBRA NO BRASIL

 

    Certamente ia dar pano pra manga a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente Lula nos processos referentes à Lava Jato.
   Nem conta como algo que se possa aproveitar as discussões acaloradas nas redes sociais, porque essas resenhas se restringem ao emocional, à paixão, ao fanatismo, elementos que põem mais combustível na velha polarização, sem no entanto acrescentar algo positivo, racional, melhor dizendo. Lembrando que por causa desse comportamento irascível tem gente presa e outras sendo investigadas, justamente por disparar verbos e adjetivos à imagem do STF, numa prática bem corriqueira em Facebook, Instagram e Whatsapp,  nas timelines e storys de gente teleguiada e sem noção.
  Mas isso é completamente irrelevante dentro das considerações  que as pessoas de bom senso fazem para  analisar os fatos da nossa realidade, da nossa história, enfim.
   Agora...falando com toda a seriedade que o assunto sugere, houve quem criticasse a demora do STF em chegar à conclusão sobre as tretas de Moro em conluio com integrantes do ministério público, em toda aquela saga para condenar o ex-presidente.
   Mas, o importante para a sociedade foi a disposição da Suprema Corte, ainda que em caráter monocrático, de interpelar a atuação de um integrante do próprio meio jurídico, no caso do agora ex-juiz Sérgio Moro, que mesmo de instância diferente, não desmantela o corporativismo, que dentro da cultura de qualquer  atividade costuma blindar seus pares de eventuais contratempos em suas funções. Se há registro de algum magistrado que tenha sofrido alguma represália ou punição por sua conduta no ofício, talvez demore um pouco mais até que apareça outro caso com a mesma repercussão das tramoias do Sérgio Moro pra prender o Lula de qualquer maneira, atropelando os trâmites  legais, como bem entendeu Edson Fachin em sua explanação e veredicto.
   Nesses tempos em que a democracia brasileira vive momentos extremos, com ataques de toda ordem, não deixa de ser emblemático que uma decisão dessa natureza, num momento mais que oportuno,  passe a ideia de fortalecimento das instituições, com efeito o próprio STF, que demonstra estar atento a qualquer tentativa de ruptura de qualquer coisa que faça parte da democracia, inclusive o estado de direito.
   O Brasil já viveu tempos sinistros, em que era impensável uma agenda institucional assim tão transparente, digna e comprometida com os ideais que foram firmados com muito esforço no processo de redemocratização do país.
   Ainda que passe despercebido de uma parcela extremamente retrógrada, ignorante e alienada, como se vê no comportamento nas redes sociais, é fundamental que o Supremo Tribunal Federal tenha essa iniciativa, esse compromisso com a democracia, ainda mais por ser o STF o guardião da constituição brasileira.
   A corrupção no Brasil é uma das muitas mazelas que precisamos erradicar, mas dentro do espírito democrático; conforme os mecanismos de segurança e justiça permitem; de acordo com as prerrogativas de cada agente envolvido; sem passar por cima de ninguém nem das leis.
   Se há homens frágeis e imorais para encarar esse grande desafio, temos instituições sérias e fortes como o Supremo Tribunal Federal para implementar esse grande projeto.
 

segunda-feira, 8 de março de 2021

TODO PODER ÀS MULHERES

 

    O único ambiente em que se pode verdadeiramente  discorrer, debater, analisar, implementar e botar em prática quaisquer procedimentos, decisões e atualizações pertinente ao universo das mulheres é o cenário político, não tem jeito.
   As constantes divulgações  de dados e informações dos indicadores sociais referentes às mulheres mostram e sugerem a urgência de políticas públicas que remexam todos esses números atuais  que revelam a discrepância de conquistas, direitos, oportunidades e necessidades das mulheres em todos os seus níveis de atuação na realidade brasileira, que pelo tempo que passou já era para estarem completamente atualizadas, dada a presença cada vez mais forte das mulheres na sociedade.
   A gente transporta tudo para o ambiente político para dimensionar o debate dentro do espectro do poder, que é onde de fato vão se desenhar novos rumos e reverter o quadro atual de danos às mulheres em todos o seus estratos sociais.  É no ambiente político que são traçados todos os projetos que embasarão a importância de todas as mulheres do Brasil.
    É no ambiente do poder que vai se fazer valer a questão da representatividade, o elemento mais importante para se buscar soluções de ordem social, econômica e cultural dentro da agenda feminina. Não tem como resolver questões de qualquer natureza, sem que haja uma representação fiel do universo das mulheres nas casas legislativas, principalmente. Quando se fala de todas essas aberrações que a gente vê  sendo divulgadas constantemente na mídia, a principal delas, a violência contra as mulheres, é no meio político, na seara do legislativo, mais precisamente, que surgirão os mecanismos que vão se adequar à atual realidade brasileira no que se refere à direitos, igualdades e penalizações, toda vez que houver um chamamento para equiparar as oportunidades ou reparar os danos causados às mulheres ao longo de todos esses tempos.
    Para isso, é preciso que mais mulheres componham os parlamentos municipais, estaduais e federal, de forma que se reproduza fielmente o universo das mulheres de todo o Brasil. Apenas com um número cada vez maior de mulheres deputadas, vereadoras, prefeitas, governadoras e presidenta é que será possível fazer alterações nos códigos em vigor, leis penais e trabalhistas, para começar a diminuir o impacto social que agressões às mulheres, por exemplo, geram na sociedade, sem que o atual mecanismo jurídico não puna com o rigor necessário, assim como a discrepância salarial entre gêneros nos quadros trabalhistas das empresas precisa ser equacionada dentro de uma agenda completamente inovadora nesse sentido.
    Todas as mudanças que permitiram uma presença cada vez maior das mulheres na sociedade brasileira seguiram o fluxo normal que também se verifica em outras nações,  inclusive, mas no Brasil sempre houve essa lacuna da representatividade que agora precisa ser preenchida com a urgência e celeridade que a questão sugere. Louve-se a luta de todas as mulheres que ao longo desses anos, dessas décadas, conquistaram seu espaço e deram voz a tantas outras que não tiveram como soltar o seu grito de liberdade e conquista.
   Aos poucos a gente vai vislumbrando esse novo horizonte, em que uma nova composição no cenário político vem trazendo mais reconhecimento e conquistas para as mulheres, apesar da resistência de uma sociedade ainda machista e preconceituosa, que ainda tenta emperrar esse processo.
   Agora, mais do que nunca, todo o poder às mulheres, para que haja de fato uma luz de modernidade na sociedade brasileira como um todo.
 

quinta-feira, 4 de março de 2021

O INDIVÍDUO COLETIVO

 

   Não há nada na vida que não haja retorno. Não há nada na natureza humana que não tenha uma compensação. Assim como uma sorte tem um momento de tensão, um sofrimento qualquer tem um conforto, um alívio.
    Só que nessa pandemia, pelo menos aqui no Brasil, há um efeito perverso em toda essa expectativa de prevenção, tratamento e cura da população. Isso acontece nesse ambiente em que a política interfere negativamente nesse processo de imunização da população, numa agenda que protesta contra o isolamento, em função da economia das cidades, do país, mas se arrasta no expediente de aquisição das vacinas.
   Ou seja, tirando esses indivíduos que insistem na aglomeração frenética, há um consenso de que a reboque do isolamento e suas consequências na renda dos brasileiros, que venham os benefícios que na verdade nem poderia ter sido interrompidos, e as vacinas que trarão a segurança para cada um tocar sua vida novamente e com efeito as finanças do país com um todo. É um cenário que revela uma das essência da natureza humana: a cota de sacrifício e a recompensa ao final de tudo.
   Mas pra não dizer que não há nada que possa amenizar a angústia de todos, resta a fé das pessoas, realimentando a todo instante a esperança de uma solução imediata; resta aquele abraço revigorante quando há a oportunidade de um encontro; uma mensagem sequer de alguém distante em forma de carinho; resta o aplauso para mais uma vida que renasce.
   São ações isoladas que fazem muita diferença na questão humanitária. Talvez seja a única coisa positiva de caráter individual, no momento em que o coletivo é que deveria nortear o melhor caminho para todos. É cada um fazendo a sua parte dentro de um propósito bem particular de vida, dentro de um projeto pessoal de fazer o bem e pronto.
   É um conforto maravilhoso para os olhos, para a mente, para o coração ver um sujeito qualquer surgindo do nada e oferecendo o que tem de melhor, como a professora, que movida pela saudade se embalou em um plástico gigante e foi de casa em casa abraçar seus pequenos. Ou do cara que parou aqui na esquina da minha rua com seu saxofone e soltou um louvor seguido de pregação, e foi efusivamente aplaudido pelas pessoas nas janelas. Ficou a sensação de que as pessoas precisavam daquele conforto, chegou em boa hora. Eu mesmo renovei naquele instante minha crença num mundo melhor. Se não for pela força do conjunto, a união de todos e tal, haverá sempre alguém munido de um cajado, de boa-fé, com sabedoria, luz e amor a serviço da humanidade.
   Por mais paradoxal que seja afirmar, essas aglomerações revelam a dificuldade de organização do homem em seu papel social, e os males do mundo vão se remediando, mais pela ação isolada do homem, o isolamento em todos os sentidos.
   O conforto do coletivo em caráter individual.

segunda-feira, 1 de março de 2021

A HORA DO RIO

 

   No aniversário da cidade do Rio de Janeiro a gente até faz alguma reverência pra não deixar passar em branco a importância desse lugar maravilhoso para todos aqueles que aqui vivem.
   A gente até faz uma menção qualquer, mas sob outra ótica, não mais com ênfase nessa estética dos cartões-postais, cujos clichê e retórica não condizem mais com a realidade do Rio de Janeiro.
   A minha rotina diária por aqui me permite avistar o relógio da Central do Brasil todos os dias, e já faz muito tempo que eu vejo sempre o mesmo horário marcado lá no alto daquela torre, os ponteiros parados no mesmo ponto todos os dias, como se não fosse mais relevante marcar o tempo na cidade; como se não fosse mais importante para todos saber o tempo das coisas ao nosso redor, o tempo de cada um, o tempo da própria cidade maravilhosa, apesar de toda a efervescência que revela justamente o tempo e as pessoas andando de um lado para o outro.
   Pois o Rio de Janeiro cresceu assim, cheio de contradições misturadas à sua atmosfera,  em que o simbolismo do tempo, mais precisamente o tempo do relógio da Central, é uma síntese da realidade da cidade hoje.
 Além daqueles ponteiros completamente imóveis, estáticos, parece que muita coisa parou no tempo no Rio de Janeiro. É como se nada andasse por aqui há muito tempo, apenas as pessoas, porque alguém tem de trabalhar nessa cidade, e o povo é o único elemento que se pode exaltar, pela luta e resistência a todos os problemas que sempre fizeram parte de nossa agenda.
   Ao longo desses 456 anos, se houve transformações ficaram no plano estético em sua grande maioria, pois o mais importante do conjunto que é o Rio de Janeiro, a vida das pessoas, o bem-estar, o conforto, a segurança e a satisfação de viver por aqui, tudo isso teve muito pouco investimento, muito pouca atenção por parte de quem se aventurou em fazer do Rio de Janeiro aconchegante para os próprios moradores, mas não atingiu o seu objetivo, porque nunca governaram com o mesmo espírito da população, nunca tiveram a raça, a coragem e, principalmente, a responsabilidade que cada carioca tem de cumprir o seu papel.
   Porque, se tem uma coisa que nunca parou de funcionar por aqui é o povo respirando, correndo atrás, suando a camisa e carregando o seu fardo em sua rotina diária, faça sol ou chuva.
  Apesar de toda a angústia, sofrimento e apreensão dos cariocas como um todo em seu dia a dia, há em cada um a expectativa de ver o relógio da Central voltar a funcionar novamente, aqueles ponteiros gigantes mudando de lugar a todo instante, inclusive, iluminados também à noite, revelando o brilho da nossa cidade; marcando o tempo exato da cidade, pra mostrar a todos que o Rio de Janeiro precisa voltar a funcionar de fato, dando moral aos moradores, não ao forasteiro, ao visitante que só vem em época de festa e pega tudo arrumadinho por uns dias.
    Se o melhor do Rio é o carioca, tudo que pode e deve melhorar por aqui será pensando na população, que não vê a hora de voltar a ter orgulho de viver na cidade maravilhosa.
  
    
     

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

POLÍTICO BOM É POLÍTICO DURO

  
   Aos poucos a corrupção no Brasil vai ganhando novos contornos, novos elementos, até, se adequando aos novos tempos, melhor dizendo, com o objetivo, claro, de eternizar essa velha prática.
   Se o modus operandis da atividade continua o mesmo, já que com o tempo foi se chegando a um modelo ideal de se usurpar a coisa pública com menos riscos possíveis, a forma como ela é tratada, conservada e protegida é que vem sofrendo alterações ao longo dos tempos. Com o advento de novas ferramentas, por que também não seguir novas tendências?
   Com a prisão do deputado Daniel Silveira acendeu um sinal de alerta entre os pares com a iminência de riscos à carreira dos parlamentares. Não que a decisão do Supremo Tribunal Federal de prender o sujeito tenha sido descabida, que os ministros da corte tenham excedido os limites que a lei estabelece. Muito pelo contrário, foi tudo legal, dentro dos conformes de como reza a própria constituição.
   E é justamente ai que mora o perigo, essa facilidade que a lei oferece de frear o ímpeto dessa gente sem vergonha; de deter a sanha de vossas excelências em suas práticas corriqueiras e isso de repente virar um grande filão, imagina, a mamata com seus dias contados com novos tempos, agora de perseguição aos corruptos de todo o Brasil.
   Pensando nisso, não foi difícil para os nobres deputados quase vararem a noite e articularem uma emenda à constituição para restringir a atuação do Ministério Público e da justiça contra os parlamentares que vierem eventualmente a mijar fora do penico daqui pra frente.
   A ideia é que o malandro preso fique sob a tutela do próprio Congresso, e os membros da Comissão de Constituição e Justiça da casa encarregados de decidir o destino do sujeito, que de repente poderá  ficar numa salinha reservada e confortável pra despachar, tocar os negócios, visita íntima, olha que bacana, bem aos moldes dos outros circuitos carcerários, mas como já foi destacado, gente, tudo dentro da lei, pra não ter reclamações posteriores e ao mesmo tempo sempre passar a ideia para a opinião pública de que a nossa democracia pode até tá bagunçada em algum aspecto, mas sempre prezando pela legalidade e o estado de direito.
   Portanto, se agora vai ser mais difícil ver os caras presos, resta agora à sociedade mudar também a forma de se indignar com os futuros escândalos. Não adianta mais ficar reivindicando prisão nas passeatas, nas redes sociais  que não vai rolar.
    A própria justiça em todas as suas instâncias, juntamente com os órgãos de investigações vai ter de mudar também todo esse entendimento e interpretações e outros procedimentos que antes visavam exclusivamente o velho e agora completamente obsoleto expediente de ver o sol nascer quadrado.
   O grande lance agora é priorizar o desmonte do poder econômico do cara, como já fazem com os outros bandidos, os das comunidades, naqueles derrames de armas, materiais e dinheiro, que deixam os caras totalmente desarticulados, num expediente que se estendido aos gabinetes pode também ter o mesmo efeito, vai vendo.
   Apesar de toda essa movimentação corporativista da Câmara dos Deputados para proteger seus pares, eles ainda vão precisar de seus advogados. Pois é. É justo o cara ainda usar o próprio dinheiro desviado pra pagar os honorários? Às vezes usam o dinheiro até pra comprar voto, olha só. Já não basta comprar carro, apartamento e fazenda no nome de parente?
   Da mesma forma que os parlamentares se anteciparam nessa blindagem explícita e imoral, dentro do que se permite interpretar, o judiciário também pode perfeitamente adotar novos procedimentos, deixar os caras sem grana, simplesmente. Por mim pode ficar por ai, livre, cumprindo expediente, se não quiser ou puder cassar o sujeito, mas sem usufruir do dinheiro da treta. Quero ver tirar essa onda duro, vagabundo, assim é mole, é como vai explanar muita gente nesse novo cenário e expectativa.
   Pode ser até que lá na frente a Câmara reaja a esta  essa nova investida contra a corrupção, ponderando que a classe política precisa ter dinheiro pra gastar e com isso movimentar  a economia do país, ora bolas. É um montante considerável para um país que precisa recuperar suas finanças, enfim...
   Mas não deixa de ser interessante essa prática como regra, cancelar as finanças, interditar o empoderamento dos bandidos, já que prender vai ficando cada vez mais difícil. De repente político bom é político duro.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

NADA DE FANTASIA

 

    Já dá pra fazer um balanço desse Carnaval com ênfase na pandemia que atravessou todas as avenidas da cidade. Tem sempre uma meia dúzia de gatos pingados que não conseguem sossegar o facho e só param quando tomam uma dura do guarda, não tem jeito, em todo canto sempre rola uma concentração aqui e ali.
   É uma massa que ainda não criou aquela noção necessária que lhe permita contribuir para uma grande causa como sugere um cidadão de fato. É triste ainda ver aglomerações nas comunidades, em condomínios, sítios, numa total falta de consciência e respeito com quem sofre ou teve uma perda em família.
   Mas no geral é até de se estranhar essa calmaria na cidade, todo mundo comportado, curtindo o Carnaval do jeito que o próprio calendário recomenda, com aquela moderação que destoa completamente do que foi aquele ano que passou, mas necessário para que possamos retomar a brincadeira depois com tranquilidade.
   Já rodei pela cidade e percebo as pessoas bem cautelosas, principalmente nos ambientes comerciais, supermercados, shoppings, em grupos reduzidos. As famílias, a rapaziada nos bares, tudo numa atmosfera bem calma, uma síntese de todo um processo de conscientização em momento tão delicado para todas as pessoas.
    É bacana, é gratificante ver o folião recolhido em sua sanha festiva, conformado em abrir mão de pular durante quatro dias sem parar, segurando a onda legal em vez de extravasar a alegria no momento em que milhares de brasileiros penam em hospitais ou esperando tratamento.
    É legal saber que aquele folião que passa o ano inteiro se preparando para a festa, hoje, completamente resignado, engrossa o coro de quem vai esperar pra comemorar, sair no bloco, desfilar na Avenida, quando toda a população estiver segura para incorporar novamente seu espírito festivo.
   Não é porque a festa maior do Carnaval foi suspensa que vai perder o seu valor. Tem uma galera bem bacana fazendo live, cada um com sua fantasia, em família, com toda segurança e animação, num espírito que deve prevalecer mesmo com toda a tristeza, mas com a expectativa de a alegria voltar a contagiar todos no próximo Carnaval.
   De qualquer forma, é animador saber que a maioria entendeu perfeitamente a gravidade da pandemia e guardou a fantasia, reservando a festa pra depois, quando haverá de fato algo especial pra comemorar.
    Por enquanto, ainda falta um envolvimento maior de muita gente, sem essas aglomerações, e o governo também acelerando a vacinação, sem deixar faltar, para que a gente tire dez em harmonia.
  

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

ESQUECIMENTO

 
   O Supremo Tribunal Federal deu um desfecho favorável à sociedade brasileira sobre um caso de uma jovem assassinada em 1958, em que a família da vitima vinha ao longo desses anos por meio jurídico tentando fazer com que o caso caísse no esquecimento, ou seja, impedir que os meios de comunicação tornassem público, trazendo à tona, ou melhor, à lembrança, um fato que certamente repercutiu bastante.
   Nunca é demais lembrar que a imprensa é sempre o primeiro alvo quando se aventam a possibilidade de ocultar fatos, situações, realidade. Claro, a imprensa de uma maneira bem ampla mesmo, estendendo a tempos bem distantes, quando antes de Jornal, Rádio e Televisão, as artes e a literatura é que tinham essa função de divulgação universal de tudo que se inventava e jogasse pra rolo para as considerações da opinião pública.
   Aqui a gente fala do esquecimento de uma forma conceitual, à margem de todo o processo natural em que a mente falha de fato, como ação daquele alemãozinho, o Alzheimer, que acelera naturalmente  o enfraquecimento da mente humana, que mesmo em processo de degeneração ainda mantém acesos fatos bem distantes. É um outro mecanismo que reproduz, de repente de uma forma até mais eficaz, o expediente de apagar da memória as coisas, as pessoas, as histórias,  enfim.
   Eu não lembro porque eu ainda não vagava por aqui, mas me contaram que a Inquisição tinha essa agenda de isolar das pessoas trabalhos científicos, teses, tratados, lançando na fogueira criador e criatura, tudo junto e misturado pra que não houvesse chance de ressurgimento daquelas coisas hereges. Eu mesmo ficava chateado quando mamãe escondia ou jogava fora minhas revistinhas. Só sobravam os gibis, sobre os quais  dona Zélia não via perigo algum, menos mal.
   Quantos reis, imperadores, ditadores já apagaram registros importantes que só foram descobertos porque essa gente sempre deixava rastro? O próprio Hitler não tinha paciência pra esperar a fogueira arder até o fim, aí, sempre aparecia um desses garimpeiros de rua, catando latinha, que acabavam montando um sebo também, reforçando a tese de que o senso comum também contribuiu bastante pra que nada caísse no esquecimento.
  Com o tempo foram surgindo novas modalidades de ocultação da realidade ao redor do mundo até o aprimoramento das mentiras disparadas em larga escala, depois que a invenção de Goebel caiu em domínio público.
   Agora, quando a gente ouve a fala da ministra Cármem Lúcia do STF lembrando que há um esforço para que tudo seja lembrado no Brasil, é bem abrangente a explanação da magistrada com pitadas até de mea-culpa, pois, a própria instituição já proferiu sentença cerceando a liberdade da imprensa em prol de gente incomodada com a publicação de tretas de interesse público. Um caso recente são as rachadinhas do filho do homem, ninguém pode tocar no assunto.
   Se duvidar, até a Lava Jato vai cair no ostracismo, quem diria, já até se descentralizou. Agora que o Centrão, na figura do Arthur Lira, cheio de processo nas costas, certamente não vai manifestar interesse algum, ainda mais que o presidente nem pensa nessa possibilidade, sei lá,  com alguma PEC ou um projetozinho de lei sequer, mas, esquece, que essa gente de repente tem outros projetos para o Brasil.
   Tanto no espectro da imprensa, do poder ou da justiça, não há garantia de que o melhor para a sociedade será revelado naturalmente ou oculto de propósito, vai depender do interesse de cada parte envolvida resolver o que você pode saber e o que você deve esquecer, vai vendo.
    
  
 
  
  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

EXTREMOS

 
      Há quem prefira aquele sol escaldante, como eu, por exemplo, mas há quem se delicie com uma chuvarada também. Pra muita gente, se vier então acompanhada de uma geada, de um vento congelante, melhor ainda. Uma prova de que tudo que cai do céu também divide a humanidade.
    Eu acredito até que num futuro ainda bem distante os climas do planeta serão apenas de extremos, sem essa chatice para alguns de clima tropical, porque aí é como o cara ficar em cima do muro, coisa politicamente incorreta nos dias de hoje. Fresco mesmo só quem ficar lembrando dessas coisas. Saudosista vai até sofrer bullying, tipo, sai pra lá, ô, viadinho...
  Pois bem, será assim, frio pra burro ou calor do caramba em polos equidistantes e de forma alternada, podendo até provocar migrações de quem puder tirar onda, ah, muleque. Por exemplo, o cara que tiver grana vai ter uma casa em cada hemisfério, tudo pra fugir do calor dos infernos ou da era glacial com a família,  de acordo com o gosto de cada um, mas sem polarização, por favor, porque certamente vão lembrar que no passado a chapa costumava esquentar  por causa de algumas diferenças, inclusive climáticas, vai vendo.
   Problema maior vai ter aquele casal dividido pela temperatura, ele friento, escolhendo tudo; ela, calorenta, queimando em brasa. Ele na Europa; ela, na América do Sul, só se encontram no traslado, nas escalas de voo. Os aeroportos já terão até ambiente reservado pra encontros íntimos, olha só.
   E assim a humanidade vai levando a vida, a Terra vai girando. Enquanto a natureza agrada a gregos e troianos, cada um vai formando a capacidade e o privilégio de conviver com as diferenças, e assim, o prazer alheio deixa de ser um infortúnio ou desgraça pra quem quer que seja. Tanto a nesga de sol pela manhã quanto as gotículas de chuva ao entardecer trazem a sensação de um novo olhar sobre o outro, o que alimenta a esperança  de que outras manifestações entre o céu e a terra também nos inspirem enormemente nesse sentido.
   Tanto num dia deslumbrante quanto em outro nebuloso, há um sol que nasceu pra todo mundo nesses extremos da vida.
 
                       

sábado, 30 de janeiro de 2021

A DOCE ZOAÇÃO

 

  Foi uma semana bem doce, considerando o assunto que norteou as conversas e, claro, as discussões, porque isso já é praxe, principalmente nas redes sociais, por onde não faltaram postagens, memes, enfim, toda sorte de publicação com o malfadado leite condensado como pano de fundo.
   Misturado ao maçarico que já está apontado para o Rio há mais de uma semana, antigamente até se colocava ovo no asfalto pra medir a temperatura ambiente, mas como o ovo também está os olhos da cara, a gente segue tendências e coloca uma xícara e meia de leite condensado na pista que fica tipo cocada.
  Pois é, e baseado nisso dá pra ter uma noção de como foi acalorado o bate-boca com a descoberta de que o governo gastou uma fortuna com a guloseima. É impressionante como as pessoas perdem tempo com futilidades. Em uma semana dava pra fazer coisas muito mais produtivas do que alimentar discussões em torno de algo que não traz resultado promissor algum.
   Essa pandemia até tem provocado essas mudanças de como utilizar melhor nosso precioso tempo, de se reinventar cada um em sua agenda pessoal, mas parece que neguim gosta de fragilizar sua própria capacidade e inteligência. O cenário político até permite discussões, mas no sentido de encontrar soluções, não de complicar ainda mais o processo, como insistem essa massa acalorada.
   Se tem alguém que pode tirar proveito de tudo isso, as empresas que agradecem a moral pela propaganda compulsória e gratuita com vários rótulos do produto estampados nos feeds de notícias, até nos Storys o leite condensado ficou badalado, tamanha a dimensão que a publicidade alcançou. Até o presidente botou uma latinha em cima da mesa em sua coletiva particular e exibiu como um troféu, numa clara demonstração de zoação, que ninguém é de ferro. Mais uma semana de veiculação tá arriscado a cotação dessas empresas darem um salto no mercado de ações, com o Mark Zuckerberg de repente até aventando a possibilidade de uma participação nesse negócio por motivos óbvios, né.
   A própria imprensa em todo o seu conglomerado, sempre concentrada nos desdobramentos da pandemia, ficou mais à vontade, com mais espaço para a Covid- 19, nem precisou de se ocupar dos gastos do governo, pois o Portal da Transparência tratou de replicar o assunto, já apostando que houvesse mesmo toda essa falação muito mais alardeada que as hashtags da vida. E assim assuntos banais vão ganhando importância e tomando uma dimensão sem sentido algum.
   Agora, para efeito de transparência há um desvio de atribuições, em que a realidade das coisas fica oculta automaticamente, como se quisesse de fato escamotear o que não rola, porque nesse ambiente é o escárnio que define o melhor cenário, e com isso fica parecendo que o único pecado do Bolsonaro foi gastar uma fortuna pra adoçar a boca de sua tropa.
   Em vez de o presidente esbravejar contra a imprensa pela explanação do caso, ele deveria era comemorar que, sem querer desviaram a atenção dos verdadeiros problemas do país. No lugar de mandar geral pra pqp, Bolsonaro poderia agradecer pela moral de rotularem apenas essa babaquice como o único infortúnio de sua gestão. Por um momento ficou a impressão que o país está às mil maravilhas, e que toda essa algazarra é só pra descontrair.
   A gente sabe que a zueira é um modus vivendis dos brasileiros. Só não podemos é aceitar que isso se transforme numa cortina de fumaça, ainda mais para o presidente Bolsonaro que inverteu todos os prognósticos a seu favor, inclusive sobre esse velho expediente de gastança desenfreada como marca da velha república que o próprio Bolsonaro também contribui pra repaginar.
   Enfim, o Bolsonaro está longe de adoçar a boca dos brasileiros. Se ele falou alguma coisa nesse sentido, sei lá, de repente o presidente estava de zoação.