sábado, 21 de janeiro de 2023

JUNTO E MISTURADO

  
   Esse negócio de aquecimento global ainda vai dar muito pano pra manga, principalmente quando a discussão sair do plano político, econômico, social, ambiental, cultural e sexual também, porque com certeza rola um clima quando essa gente se encontra pra falar que a chapa tá esquentando; que o couro vai comer se ninguém cumprir suas metas, enfim. Eu estava doido pra falar isso, só esperava o momento ideal.
    Aquele tradutor deve ficar meio que embaralhado pra desenrolar a fala do palestrante na língua de cada ouvinte, o que mostra que essa questão de interpretação de texto vai bem mais além das tretas no Facebook, mas isso é outro assunto que pode ser resolvido quando todo mundo estiver mais unido, porque o aquecimento ou outro processo qualquer está abalando as estruturas do planeta. Pois é, parece que os continentes estão se aproximando um do outro, olha que bacana.
     Estamos na iminência de virar a Pangeia novamente, pois o sistema geológico ou metafísico, talvez, já identificou e entendeu que esse negócio de subcontinentes não tá dando muito certo não. E melhor voltar como era antigamente. E as placas tectônicas estão fazendo o movimento inverso, revertendo as engrenagens, fazendo voltar a roda da história. Seria um grande paradoxo classificar esse recuo de um ciclo de evolução natural. Mas por pura necessidade a gente vai comemorando esse retrocesso como se fosse um grande avanço global.
   Agora, resta saber se vai ser na mesma configuração de antes, acho meio difícil. Muitos vão se dar bem com novos vizinhos. Outros vão fazer parede e meia com velhos inimigos, imagina. Quem vai fazer fronteira com Kim Jong-un, Putin? Imagine a praia de Copacabana banhada pelo Pacífico, caraca.
    Por outro lado, vai ter gente vendo a miséria alheia mais de perto, ou morrendo de bala perdida num desses conflitos só vistos na televisão.
    Em compensação, pense em quem vai poder ir ali de metrô comprar um vinho em Paris; pagar bem menos para ver o Pateta; pular de asa-delta do Everest com vista panorama do Piscinão de Ramos.
    Novos relacionamentos. Povos de cores e tamanhos diferentes beijando na boca sem fiscalização aduaneira e outras barreiras alfandegárias, e o velho processo de paz no mundo finalmente se concretizando sem a interferência de religião e sigla partidária, já não era sem tempo.
    Só que o efeito de tudo isso será a longo prazo. Nós, certamente não veremos esse modelo menos globalizado de pegação, tolerância, liberté, fraternité, égalité, ordem e progresso. Vai ter muita escavação por aí. Antropólogos de cabelo em pé com tanta bizarrice; outros, realizados diante de grandes achados.
    Mas, pense no quanto a gente seria considerado um povo moderno e visionário quando eles acharem muros pichados com as expressões “tamojunto” e “chapa-quente".

domingo, 15 de janeiro de 2023

CURRÍCULOS



   É tanta gente para ser identificada que certamente vai levar um tempo tão longo e incerto quanto o necessário para juntar aqueles caquinhos dos vasos, uma escultura ou algum outro objeto devastado pela ira daquela horda de pessoas estúpidas, violentas, imbecis, preconceituosas, ignorantes, gananciosas, hipócritas, imorais, desonestas, fraudulentas, destruidoras, ladronas, mal-educadas, grosseiras, incivilizadas, selvagens, e por aí vai que o nosso idioma oferece mais adjetivos, mas o espaço aqui é restrito.
    A parte mais complexa de todo o trabalho de investigação é identificar o que cada um fez naquele lugar, porque é isso mesmo, cada um fez aquilo que é pertinente ao seu caráter, à sua personalidade, à sua herança. Cai por terra aquela baboseira de que o movimento ia ser pacífico, quando na verdade corria na veia de cada gente opressora o sangue com o fator da estupidez, da truculência e da desordem acima de tudo.
    O expediente de quem quebrou, vandalizou, defecou, roubou e infernizou é uma reprodução clara do que o sujeito já realiza e opera em sua vida normal. Faz parte de sua agenda interferir da forma mais abjeta, repugnante e miserável na realidade das pessoas, das coisas, das situações.
     Não tem ninguém inocente naquele passeio gratuito com destino ao inferno. Deus, Pátria e Família, ora veja. Ninguém ali tem a verdadeira noção do que é Deus, no momento em que falseia e distorce o mais simples desígnio como instrumento de evolução espiritual, humana e social para vestir a capa da entidade mais demoníaca de que se tem notícia.
     Não parece que alguém ali com a mentalidade tão infértil e irracional tenha assimilado o verdadeiro sentido de Pátria em toda a extensão da palavra, porque tudo que foi destruído faz parte do acervo nacional, da riqueza do país, do patrimônio da nação, da identidade do Brasil, do povo brasileiro, o conjunto da sociedade brasileira que inclui até os imbecis.
     Ver essa gente falar de Família, automaticamente nos remete à ideia de alguém que vai deixar como herança algo que poderá comprometer o crescimento e a formação de sua prole; um elemento qualquer que vai contaminar o seu círculo de camaradagem ou cumplicidade, ampliando cada vez mais sua própria zona de conforto, porque assim é melhor.
    Se o terrorismo no Brasil é pouco frequente, a sua fórmula de impor pela força é uma receita conhecida, toda vez que a sociedade se defronta com registros de estupro, feminicídio, trabalho escravo, matança de índios, de negros, bala perdida, enfim. Ali tem gente que rouba, mata, trapaceia, corrompe e bate na mulher, pode crer.
     São práticas conhecidas de muita gente que deixou num canto qualquer daqueles escombros suas digitais, que revelarão, não só sua culpa como também seu currículo, seu histórico de vida.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

EUFEMISMO



   Um sujeito passa com o carro na poça d’água bem em frente ao ponto de ônibus. Ele chega a se aproximar mais das pessoas para que o impacto com a água fosse maior. Com o local bem lotado de gente, eu ouvi palavrões de toda ordem lançados ao piloto sacana.
    Mas no meio de toda aquela gente encharcada e pê da vida havia uma senhora que, talvez resignada ou de bem com a vida, sei lá, simplesmente falou para alguém ali ao lado, “é um abençoado mesmo, né!!”.
    Se tem uma coisa entre várias que ainda alimentam o sonho de um mundo melhor é o esforço que algumas pessoas fazem para medir as palavras, ou usar um termo mais ameno para expressar uma revolta, enfim, se controlar mesmo em estágio de cólera, o fogo já quase saindo pelas ventas, mas a pessoa ali, ó, mantendo a linha, vai vendo.
    Na minha época do quartel, num evento de instrução, um sargento nos aconselhou a manter sempre a ternura, mesmo em casos extremos, como medida de bom comportamento, educação, disciplina, ordem e progresso, essas coisas. É claro que ele falou isso com muito cuidado naquele ambiente, pois, esse negócio de ter de endurecer sem perder a ternura já deu muito problema aqui no paisano.
    De qualquer forma, foram as minhas primeiras lições de autocontrole, mas depois lembrei que já tinha visto isso na escola naquelas figuras de linguagem. Então, descobri a importância do eufemismo, não só na minha vida como no mundo todo. O eufemismo é uma instituição formada a partir da ternura, essa parada que já vem embutida em qualquer homo sapiens. Não sei de registro de eufemismo na escrita rupestre, os hieróglifos, mas na era moderna viralizou bastante esse negócio.
    Hoje, é fácil ver o quanto o eufemismo está incorporado à realidade humana. Mesmo que não evite uma grande tragédia, pelo menos funciona para manter a boa aparência. No cenário político a gente vê muito eufemismo. A imprensa mesmo trata algumas figuras assim também. O cara envolvido em tramoia, documento comprovando e tal, mas a matéria diz que ele praticou ato ilícito, subtraindo recursos públicos, porque assim fica melhor.
   Em tempos de guerra também. Os caras quase saindo na porrada, mas rola um tratamento afetuoso. “Vou te quebrar, irmão!”. É o que certamente o abençoado do Putin já deve ter disparado para o Zelensky.
    E falando em abençoado, os evangélicos, então, amam esse eufemismo, claro, como forma de ver melhor o seu semelhante. O cara se converte, mas cheio de pecados no currículo e as irmãs entre os dentes comentando. “Olha lá, irmã, três Maria da Penha nas costas, é um abençoado!”.
    E por aí vai. Agora, tudo bem que tem gente que gosta de falar na cara, na íntegra o recado, papo reto, sem medir as palavras, mas pense no quão conflituoso seria o mundo, mais do que já é, não fosse o eufemismo.
    Se o eufemismo for exclusivo na linguagem do nosso planeta, a gente vai ficar conhecido pelas inscrições nas lápides, nas pichações dos muros, nos stories, nos livros de história, claro, se sobrar alguma coisa quando a Terra partir dessa pra melhor.

                                        Arte: Brasil Escola- UOL

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

TERRORISMO NÃO ROLA



   Há um simbolismo específico no ataque em caráter de terrorismo às dependências do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, que vão bem além da baderna de um grupo que se organiza para depredar bens públicos, como ocorreu em Brasília.
    Se antes esse grupo organizado só mirava o Executivo, mais precisamente a figura do presidente Lula, com ameaças veladas pelas redes sociais às suas diplomação e posse, estendeu-se agora os atentados aos outros poderes constituídos, o Legislativo e o Judiciário.
    Depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa e levou consigo representantes de segmentos que agora começam a ganhar voz no cenário político, isso certamente incomodou muita gente que não admite espaço a uma parcela há muito tempo relegada ao segundo plano.
   São vozes que se levantam para reivindicar suas demandas e projetos dentro do princípio de liberdade e direitos garantidos a todos os brasileiros, como sugere a própria constituição do Brasil.
    Além do Executivo, que no novo governo do Lula cria órgãos específicos à questões importantes para a sociedade, como a causa indígena, direitos humanos, feminicídios e demais políticas públicas de alta relevância, também o Legislativo ganha uma nova composição à medida que aquela casa recebe e assenta outros representantes da sociedade brasileira.
    Só isso explica o ataque orquestrado aos três poderes constituídos. A agenda do Executivo que estende e investe na diversidade do povo brasileiro, com ênfase do desenvolvimento do Brasil como um todo; o Congresso Nacional, que nas falas de representantes emergentes naquele ambiente reforçam a importância de novos projetos; e o Judiciário que referenda as ações dos outros poderes, dentro, claro, do que reza a Constituição, assim como também interfere quando as letras da Carta forem desrespeitadas.
   Nesse sentido, qualquer ameaça a qualquer instituição, em qualquer poder, é um ataque ao povo brasileiro. O Brasil tem demandas e urgências pertinentes a todas as classes e estratos sociais, e isso precisa seguir dentro da normalidade.
    Agora, se novas ações do Executivo, do Legislativo e do Judiciário ganham força e causem sentimento de repulsa em alguém ou em algum grupo, que esse sentimento não se transforme em violência que possa comprometer o funcionamento das instituições que têm cada uma suas prerrogativas de cuidar e gerir as coisas do Brasil, bem como de seu povo.
    Nesse ataque de agora que tem a face do terrorismo, é urgente uma resposta de todos os órgãos que vão cuidar dessa verdadeira afronta à sociedade. A legislação vigente permite uma punição rigorosa a todos os envolvidos. E seja lá quem for, terão de se acostumar com essa nova composição no cenário político, num desenho que ilustra perfeitamente o que é a diversidade do Brasil.
    Que ecoe por todos os quadrantes do país terrorismo nunca, democracia sempre.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

DEMOCRACIA SEMPRE

   

    Não poderia ser diferente o resultado de mais uma mudança de rumo na vida de todos os brasileiros. Não poderia ser de outro jeito uma consagração dessa magnitude que envolve todos os segmentos da sociedade brasileira, embora haja sempre opiniões divergentes, divisão das pessoas, polarização, o que é normal numa sociedade que goza de toda a liberdade para decidir os rumos da vida brasileira.
    O que não é normal é haver ruptura de todo esse processo, como chegaram a sugerir, ventilar, esbravejar, tentar impor a todo custo como alternativa ao cenário de democracia que o Brasil desfruta, só porque esse estado de coisa, essa tal democracia, ainda não é vista com bons olhos por uma parte da população que ainda reivindica o caos e o retrocesso.
   Mas o melhor de tudo é que não houve nada que pudesse desconstruir a democracia brasileira, porque faz parte da cultura política e da alma de cada brasileiro a oportunidade de fazer suas escolhas.
    E isso fica evidente cada vez que começa um novo ciclo da história política do Brasil, e é motivo de muita comemoração, como se viu agora na posse de Luiz Inácio Lula da Silva para mais um mandato, naquele cenário de festa que é a própria essência do povo brasileiro.
    Ainda mais que vários segmentos da sociedade brasileira, sistematicamente relegados ao ostracismo, se viram agora representados ali na cerimônia, fazendo desse momento o ponto alto de todo o evento. O mais importante se a gente considerar que o retrato do povo brasileiro em toda a sua diversidade cultural, étnica, geográfica, social e econômica deve se fazer valer sempre no cenário político.
   Qualquer governo que se preza tem de considerar essa premissa básica, porque qualquer decisão que o governo tomar, uma medida, um decreto, vai ter efeito na vida brasileira, sim, com a prevalência de um grupo e em detrimento de outros, enfim.
    Toda vez que um governante movimenta recursos de um setor, extingue ministérios, secretarias e demais órgãos, isso também se reflete nos direitos e oportunidades de determinados estratos, num expediente que acaba excluindo parte da sociedade em ações que devem efetivamente contemplar todos os brasileiros.
    Que o presidente Lula retome essa agenda da diversidade brasileira. É saudável para o país que ninguém fique de fora das ações do governo. É importante para o Brasil que nos vejam empenhados nessa missão de convergência social, com ênfase na pluralidade do nosso povo. Por uma questão de sustentabilidade, é importante que a sociedade tenha essa garantia.
    Saúde, Educação, Meio-Ambiente, Cultura, Segurança, Trabalho e qualquer outro setor igualmente estratégico para a população requer o compromisso do gestor de contemplar todo o conjunto da sociedade brasileira.
   A alma brasileira agradece. Democracia sempre.

sábado, 31 de dezembro de 2022

FELIZ ANO NOVO PRA VOCÊ!

   

    Aconteceram várias coisas em 2022 que deram uma balançada geral na vida das pessoas. Mas no final das contas a gente está aqui prosseguindo com a perseverança e dedicação de sempre, lamentando, claro, aqueles que ficaram pelo caminho por força do destino que é reservado a cada um.
    Nós que ficamos por aqui para continuar a caminhada ficaremos empenhados em comemorar e agradecer essa oportunidade de chegar até aqui. Não deixa de ser um privilégio poder usufruir de tudo que a vida nos proporciona e poder resistir a todas as coisas e situações que abalaram nossa estrutura, incluindo nossas emoções, coragem, competência e fé.
    Estarei sempre concentrado para absorver as melhores energias, que vão permitir que meus projetos de vida se concretizem, e mentalizando positivamente para que ventos renovadores soprem em todos os quadrantes do mundo e descortinem um novo horizonte para a vida do planeta como um todo.
    Acredito firmemente que as pessoas estarão também envolvidas em grandiosos projetos com o objetivo de alavancar suas vidas nos planos pessoal, financeiro, profissional, sentimental, espiritual, enfim, dentro daquilo que é prioritário e necessário para cada um. Que bom essa liberdade que a gente desfruta para escolher o que é melhor.
     Aproveito a oportunidade para agradecer a você que ocupou um tempo precioso em sua agenda para ler todas essas coisas e assuntos que eu tenho abordado aqui nesse espaço. Eu imagino alguma coisa que você deixou para fazer depois porque foi ler meu texto. Muitas vezes te decepcionei com algum assunto que não te agradou, um tema que não te interessa, uma mensagem que não lhe causou empatia alguma.
     A cada notificação que você recebia, a expectativa do que viria dessa vez, caraca, de novo, toda hora! O cara escreve uma coisa, agora é outro assunto, pelo amor de Deus!
     Já tive de voltar muitas vezes ao texto para endireitar erros que a gente vê depois, uma passagem qualquer que não caiu bem, uma sintaxe diferenciada, esquisita, uma construção infeliz, uma gramática fora do padrão, enfim, uma preocupação do mesmo tamanho da sua perplexidade com algo que pareceu bizarro já no primeiro parágrafo. Foi mal.
    Está sendo um aprendizado pra mim lidar com toda essa expectativa de ser razoavelmente agradável, independente de você discordar ou curtir. Eu aceito da mesma forma, obrigado.
    Vou continuar gastando minha energia, meu tempo e minha petulância para escrever, simplesmente, porque eu amo muito tudo isso e está dando pra conciliar com a minha agenda, sem trazer prejuízos pra ninguém, sem comprometer a atenção que eu sempre dispenso ao meu pessoal e às minhas tarefas.
    Agradeço a você que me encheu de esperança para produzir mais. Obrigado pela moral!
    Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A FITA DO PELÉ

   

   Eu já vi muitas vezes em bancas de jornais aquelas fitas em VHS com vídeos de vários jogadores do passado, que certamente serviram de inspiração para muitos meninos que acalentavam o velho sonho de jogar futebol.
   Não precisa nem fazer muito esforço de consciência, pois a própria lógica já revela qual era a fita mais solicitada.
    Agora rola nas redes sociais um vídeo que mostra vários craques do presente executando jogadas de gols e dribles, em edição com a sobreposição da mesma jogada executada por Pelé.
    O material revela momentos de jogadores já consagrados no futebol, numa mostra de que muita gente conseguiu aprimorar a arte de jogar bola, a ponto de se consagrar cada um no seu tempo e oportunidades, jogar nos principais clubes do Brasil e da Europa, ganhar dinheiro, fama e ficar rico, sem, no entanto, atingir as maiores marcas do Pelé.
    Pode ser que lá na frente alguém consiga suplantar os feitos de Pelé. As novas filosofias e tecnologias que o futebol utiliza atualmente pode permitir de uma hora para outra o surgimento de personagens com um currículo cada vez mais próximo do que Pelé construiu em sua majestosa trajetória.
    Só que com o futebol ganhando cada vez mais protagonistas, o triunfo de Pelé vai se tornando também um desafio maior a ser superado.
    De qualquer forma, ninguém tira de Pelé o pioneirismo de transformar o futebol em arte. Isso mesmo. Num tempo em que o velho esporte bretão ainda era feio de se ver, os caras maltratando a bola em gramados mundo afora, Pelé incorporou beleza no trato com a bola.
    O rótulo de astro do futebol que tantos boleiros mereceram ostentar foi Pelé quem inaugurou, pela forma como envergava as camisas que vestia, pela manha com que iludia seu oponente, pela inteligência com que concluía a jogada, pelo talento com que operava o gol, pela maestria com que transformava uma partida de futebol num espetáculo maior.
    A partir de agora, qualquer forma de preservar a memória de Pelé e eternizar seus feitos é tão somente uma forma de agradecimento por tudo que Pelé realizou, porque o futebol certamente seria outra coisa, outro esporte, não fosse Pelé fazer do futebol a arte de jogar bola.
     De todos esses craques que dão brilho ao futebol e contribuíram para toda essa projeção que o futebol ganhou no mundo, pode acreditar, muitos deles certamente compraram a fita do Pelé, entende.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

UM NOVO TEMPO

 

   Não é de hoje que eu vejo as pessoas muito metódicas nesse período de Natal, fim de ano, enfim. Todo ano há uma métrica certa pra ajeitar tudo, mesmo pra quem deixa tudo para última hora.
   A arrumação da casa, aquela correria toda no supermercado, no shopping, fora os projetos de desapego total prometidos para próximo ano, já no primeiro dia útil. Nada de fumar, beber, só agenda fitness, vida nova. Tem gente que só limpa as gavetas e troca a cortina nessa época. É uma agenda tão certa quanto à Missa do Galo.
     Mas, quando alguma coisa sai errado cada um escolhe seu culpado preferido, aquele em quem certamente vão atribuir a culpa pelo contraste à estética das coisas que sempre funciona direitinho, mas que esse ano deu ruim. Quer dizer, ainda é estranho para muita gente quando algo foge do padrão.
   Pra mim, a culpa disso tudo é do Galileu Galilei. Antigamente, era tudo aleatório, aí vem o cara com mania de perfeição e começa a medir as coisas, fazer com que tudo fosse certinho, todas as ordens de grandeza, inclusive o tempo, fazendo com que as pessoas escolhessem um momento ideal pra fazer algo, quando na verdade o fortuito e o inesperado também podem trazer soluções e mais felicidade. Rabanada, por exemplo, é coisa pra se fazer quando se tem vontade, em qualquer época do ano. A mesma coisa bacalhau, panetone, fazer regime e malhar.
    Definitivamente, essa simetria do mundo, de tudo certinho sempre, atrapalha a evolução das coisas e das pessoas. Já notaram que muitas coisas só dão certo dentro da margem de erro, pra mais ou pra menos? O acaso está aí para reforçar isso. As preliminares podem ser melhores que o coito em si, por que não? Quantas peladas são decididas já nos acréscimos?
    Pois é, e nesse cenário muitas coisas boas estão no lugar e num tempo diferente do costume. Eu sempre digo que chutar o pau da barraca faz bem pra humanidade, desde que não traga más consequências para o mundo, apenas o torne mais agradável ou dentro dos padrões de cada um. Às vezes dar sete pulinhos só não adianta, porque o fardo do cara é tão grande que precisa de mais ondinhas, vai vendo.
     Portanto, abaixo o modelo padrão do mundo! É preciso rever todos os manuais de instruções através de emendas também, e elaborar novas formas de vida. Repaginar também as velhas teorias. Até Freud voltaria para reformular o princípio do prazer, só que agora com a rabanada como objeto de estudo, olha que delícia.

sábado, 24 de dezembro de 2022

FELIZ NATAL



   Praticamente em todo o mundo é celebrado o Natal nessa época do ano, até mesmo em lugares onde há a prevalência de outras denominações, outro calendário, enfim, onde há uma cultura bem diversa do que parece ser o Natal para determinado povo, segundo as tradições de cada um.
     É preciso destacar, porém, que dentro da esfera espiritual que cerca uma crença religiosa, há toda uma questão humana, no momento em que as falas, as pregações que procuram difundir um valor, um ensinamento, acabam por impregnar nas mentes o que pode ser o mais adequado para as relações humanas.
     E nesse expediente Jesus Cristo seguiu firme em seu propósito, tanto que Ele é considerado até mesmo nas práticas anteriores, milenares, que veem Jesus Cristo como uma grande referência de como deve ser o olhar para as pessoas. Inclusive, há literatura religiosa de matrizes diferentes que fazem essa consideração da importância de seu legado para o mundo.
     Eu sou muito leigo para falar sobre religião. Sei apenas da importância da fé na vida das pessoas como forma de cada um seguir adiante com seus anseios, suas aspirações, seus projetos de vida. Foi assim que me livrei de alguns vícios. É assim que eu procuro me moldar, sem pretensão alguma de ser perfeito, essas coisas.
    Mas sei também que de dentro para fora eu preciso estar preparado para oferecer o que eu sei que tenho de melhor, porque foi isso que Jesus Cristo empreendeu ao longo daquelas andanças com seu cajado. A cada obstáculo à sua frente, o terror, a ira, ou qualquer tentativa de impedimento de seu propósito, ele ia se fortalecendo.
     Se a gente hoje luta contra tudo que afeta nossa dignidade e vai resistindo bravamente, é porque se entendeu o grande projeto de Jesus Cristo de cada um com sua cruz, seu fardo, diminuindo ou aumentando seu peso ao longo do caminho de acordo com as ações de cada um no trato com as pessoas nesse mundo velho sem fronteira.
   A gente usa esse período do ano para reflexão, mas esse cuidado, esse zelo, essa concentração, esse respeito, esse amor são práticas cotidianas que não dependem de calendário nem de festa. Se na consciência humana é fundamental esse estilo de vida, então a gente incorpora de vez em nossa agenda social tudo que nos faça evoluir como pessoa humana, tanto os sonhos que cada um procura realizar quanto a capacidade de conviver com as diferenças entre as pessoas em todos os aspectos de vida em comum.
    É importante não desistir, não esmorecer nunca, porque nossas ações também servem de referência no seio familiar, no ambiente de trabalho, social. Tem sempre alguma coisa em nós que é importante para muita gente. É isso que fica, o tal legado que a gente deixa, que as pessoas seguem e compartilham.
     Que possamos sempre dar essa contribuição para o mundo, para as pessoas que nos rodeiam. Que a Luz do Senhor possa iluminar nossos caminhos e clarear nossas mentes. Que a nossa rabanada seja cada vez mais suculenta e o nosso amor cada vez maior.
    Feliz Natal!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

PRORROGANDO A RABANADA



   Não tem jeito, todo ano é assim. No começo até a metade do período tudo flui dentro dos conformes. Na outra metade parece que toda aquela arrumação vai ficando fora de ordem.
    Na folhinha do calendário é fácil reparar que nos primeiros meses do ano as anotações estão bem grafadas, as letras bem certinhas. Tem até aquelas setinhas apontando um assunto importante para o tal dia especial.
    Do meio do ano em diante os lembretes já começam a surgir em forma de garrancho, rabiscado de qualquer jeito e até tapando uma daquelas fases da lua. O aniversário de muita gente que você lembrava todo ano foi esquecido; não tem mais a marcação do dia em que comprou o gás; o dia das bodas passou em branco. Cadê aquele coração ao lado de um número referente a alguém? As flores que sugerem afeto. A lâmpada de uma grande ideia.
     Na verdade, não tem tristeza alguma nisso que parece um vazio. Pense no quanto de tempo as pessoas levaram cuidando e investindo nos outros, sem que o seu próprio dia do mês lá no papel não tenha uma menção qualquer a respeito de si mesmo.
    A representação da ordem e disciplina das coisas e fatos da vida que o calendário revela a todo instante vai esvaziando, sim, à medida em que seus anseios e aspirações vão se tornando prioritários, e agora você já reserva mais tempo e espaço para si. Isso, sim, já pode ficar marcado na folhinha como um dia grandioso, uma conquista, marca lá.
    Uma coisa é ter a capacidade de acumular funções, de conciliar as tarefas, os projetos. Assobiar e chupar cana como as pessoas se gabavam de realizar com facilidade. Tem ações em todo esse pacote que são metas dos outros que lhe impõem. São favores que te suplicam por graça ou exploração. E objetivos sem garantia de sucesso, sem planejamento.
     Outra coisa é a velha lista de prioridades, onde o que fica para depois não quer dizer que é menos importante, apenas mais complexo, o que vai te exigir mais espírito, mais concentração, mais conhecimento, mais equilíbrio, enfim. Daí a necessidade de você ser o primeiro da fila, só isso.
  Antes que pensem que sou narcisista, individualista, egoísta, em detrimento do que posso oferecer de melhor, devo dizer que precisamos estar preparados em todos os aspectos até para massagear o ego de alguém, senão o serviço não fica perfeito. Imagina, o ano passou e eu acabei adiando meu ensaio de aprender a fazer rabanada, justamente pensando nos felizardos que vão degustá-la depois.
     Talvez seja meu projeto para o ano que vem. Só não sei se será o primeiro da fila.

domingo, 18 de dezembro de 2022

O HOMEM DE UMA CAMISA SÓ



  Quando começa uma Copa do Mundo aparecem também várias seleções, vários jogadores cotados para serem campeões, aqueles em quem as pessoas comuns, a crítica especializada e demais palpiteiros apostam suas fichas num desfecho de vitória.
    Mas, na verdade, só uma figura no meio de toda uma constelação de boleiros vindos de todos os cantos do planeta como tamanho desafio estaria predestinado a terminar com o maior triunfo.
    Ao mesmo tempo em que o mundo se rende à consagração da Argentina na Copa do Qatar, o protagonismo de Lionel Messi em toda a campanha é uma vitória à parte do maior atleta desses últimos tempos, por tudo que o astro maior da Argentina conquistou antes de chegar agora ao ápice da carreira.
    Lembrando que Lionel Messi se consagrou jogando fora de sua pátria, na Espanha, onde cresceu, fez fama, carreira e família, mas nunca se desgarrou de sua pátria de berço, a Argentina, que hoje chega ao topo do mundo. Eu mesmo cheguei a imaginar o Messi virando um cidadão espanhol, por sua ligação forte com o Barcelona, jogando por quem o recebeu desde criança, como acontece com vários atletas que se aventuram em outros países e acabaram trocando a camisa, o amor e a torcida a seu favor.
    É muito comum numa Copa do Mundo algumas seleções cheias de atletas vindo de outras praças, com nova trajetória, um novo desafio, uma nova vida, enfim, um novo caminho a percorrer no mundo da bola.
    Mas Lionel Messi é um astro diferenciado até nisso e soube com muita sabedoria, amor e talento driblar o que parecia ser uma realidade em sua vida também, como já foi para outros boleiros. E Lionel Messi é assim, o homem de duas pátrias, mas com um só camisa. Todo o tempo em que o argentino construiu sua vida fora de casa não foi suficiente para que Lionel Messi vestisse outra camisa, senão a da Argentina, sua pátria de fato, de raiz, de amor e agora de glória também.
    Agora que Lionel Messi entra na última curva de sua grandiosa trajetória, não poderia faltar em sua bagagem esse troféu maravilhoso de campeão do mundo pela seleção argentina. Seria uma injustiça muito grande não ficar marcado na história de Lionel Messi essa consagração maior.
   Se a Argentina hoje está em júbilo pela vitoriosa campanha no Qatar, Lionel Messi entra definitivamente na galeria dos grandes astros do futebol, porque o mundo todo agora o consagra, o cidadão de duas pátrias, mas com um só sentimento, de amor pela Argentina, campeã mundial.