sexta-feira, 7 de abril de 2023

DEIXEM AS CRIANÇAS EM PAZ


 
  Afinal de contas, qual será o destino da humanidade? Com certeza é uma pergunta que sugere várias respostas. Quanto mais o tempo passa, mais as culturas vão se envolvendo, se conectando, e com isso abrem-se várias possibilidades para onde caminhará essa gama de gente respirando a todo instante, e os homo sapiens ocupando quase o lugar um do outro ao mesmo tempo.
    A gente já tem uma ideia de como vamos sobreviver a essas transformações todas, seja no plano ideológico, cultural, ambiental, religioso, enfim, não faltarão elementos para discórdias. O problema maior é a sociedade lidar com essas tragédias e barbaridades sem que essas aberrações não se banalizem de fato, pois, já há sinalização nesse sentido.
    Já há indícios de que teremos de correr contra o tempo para salvar o que ainda está de pé, conservar o que ainda pode ser útil, preservar tudo aquilo que ainda pode trazer esperança, sem que a gente precise arrastar correntes como fórmula de sobrevivência, de evolução. Sem que a gente continue assim, respirando por aparelho e fingindo que está tudo bem.
     A vida está perdendo valor e ninguém interfere nesse processo. As crianças estão morrendo, vítimas do ódio. As leis em vigor não são suficientes para punir com o rigor necessário. As tecnologias estão virando vilãs da humanidade.
    O que já era ruim está ficando pior com o advento dessa inteligência artificial, que certamente vai contribuir também para distorcer os fatos, a realidade, as verdades, os valores, a razão, com efeito irreversível na vida das pessoas.
   E assim vai caminhando a humanidade, protelando o fim de suas desgraças, desviando o foco de suas atrocidades, enquanto surge uma novidade tecnológica que só instiga ainda mais as indiferenças, as desigualdades e a intolerância.
    É uma passagem infeliz da história humana interromper os sonhos, matar as crianças, fechar os livros, riscar as poesias e ignorar os benfeitores, aqueles que servem de referência até hoje nas artes, nas ciências, na fé, enfim, um monte de gente que deixou um legado que serve de exemplo, mas neguim não se emenda.
   É verdade que devemos estar sempre concentrado em pensar de forma positiva, praticar as melhores ações, canalizar as melhores energias e projetar o melhor para o futuro, mas a gente alerta também sobre o mal que nos ronda constantemente, e infelizmente a gente usa nosso tempo precioso para falar desses assuntos nebulosos e tristes.
    Nesses tempos de reflexão sobre como diminuir o peso da cruz que cada um nasceu fadado a carregar, é triste constatar, pelo contrário, o fardo cada vez mais pesado dessa gente cruel e desumana.
                                                                        
                                                                               Foto: R7

terça-feira, 21 de março de 2023

TEM UM VENTO LÁ FORA

 

    Eu tenho estado muito envolvido com a morte. É natural que pelo tempo que já vivi, um monte de gente que eu vi em plena atividade, gozando a vida, produzindo, procriando, suando a camisa e carregando sua cruz, muitas se foram.
   São amigos, parentes, outras que a gente conhecia de vista, mas que fazia parte do cotidiano, principalmente no ambiente de trabalho, aquele cliente antigo, enfim, estão debandando assim do nada.
    Um vento soprando e arrastando as pessoas do nosso convívio, sem que possamos nos preparar. É uma lei dura, mas é lei, fazer o quê? Uma cláusula pétrea. Não tem como derrubar o conceito de aceitar a morte. Ela vem de forma aleatória. A escolha é feita em outro lugar, sem a interferência de quem vai morrer.
    Num padrão completamente equivocado, segundo nossa lógica, a gente vai criando sem querer aquela fila cronológica das pessoas que poderão partir a qualquer momento, porque estão velhas, doentes, que horror. E eis que vão quem ninguém imaginava.
   A gente até vê uma nova geração chegando. Uma criança que chegou na família, na vizinhança, lá na creche, alguém que se tornou pai, mãe, e uma dessas crianças ainda vai cruzar com você e sorrir, de repente, num novo cotidiano, como parte da renovação, na mesma audiência em que vemos uma plantinha brotando em algum lugar.
   É a lei da compensação que também é dura lex, sede lex. No lugar das que já sorriam sempre e muito. No lugar das outras que poderiam ficar mais um pouco. Vou sentir saudade do café, do abraço, do bom dia, da preferência no balcão, das piadas, das curtidas, dos conselhos. Tem gente que eu nem sabia o nome, mas deixou um vazio, porque a viúva agora passa do outro lado da rua sem alegria alguma no semblante.
   O que vai sobrar da morte é a outra realidade, outro lugar para quem se foi. Talvez até haja por lá, não sei, uma expectativa sobre nós que ficamos por aqui. Uma novidade, uma surpresa, um reencontro, um prêmio, um drinque, uma senha, um código de barras, uma audiência com alguém. É meio trágico, meio cômico ficar especulando se a gente vai mudar de fase ou de plano como dizem.
   A minha expectativa sobre o que a morte reserva não é saber quando cada um vai partir, e sim, até quando ficaremos por aqui. Parece que não, mas é uma perspectiva diferente para quem, assim como eu, não tem pressa de ir embora.


sexta-feira, 17 de março de 2023

O TEMPO DE CADA UM

 

  Está um tempo tão sinistro e absurdamente violento que passou batido de muita gente a fala odiosa e infeliz daquela garota universitária de instituição particular de Baurú, zombando de uma colega de turma, que por já ter mais de 40 anos, não teria a menor chance de sucesso no meio acadêmico.
   Eu confesso que fiquei tentado a discorrer sobre mais uma filial dessa rede de preconceitos que assola a sociedade de uma maneira bem plural nos dias de hoje. Mas, particularmente, eu prefiro me ater à virtude que ao delírio.
    Nos mesmos moldes em que já vemos no dia a dia o escárnio à raça, sexo, religião e condição social, também se junta ao pacote maldito o tal etarismo, sobre o tempo em que cada um escolhe para seus planos e sonhos, como se isso também tivesse um modelo a ser seguido, uma lógica certa para as chances na vida, as oportunidades e sortes condicionadas ao ponteiro do relógio ou ao calendário.
   Talvez essa garota que zomba, que zoa está tão lacrada em sua bolha que não vê aqui fora as pessoas quebrando velhos paradigmas de como e quando se firma os projetos de cada um. Onde está escrito que tem um tempo certo para o sucesso e o fracasso?
   A gente vê toda hora por aí cada vez mais indivíduos que só chegam ao apogeu depois de uma longa caminhada, porque sua jornada teve essa dimensão diferenciada, esse destino, e daí? Para quem começa depois, é quase certo que não estivesse preparado lá atrás; com o vigor necessário para aguentar o rojão; com ânimo suficiente para dar o primeiro passo; com a fé à altura da vitória que cada um pretende para si.
   As pessoas interrompem seus projetos por fraqueza, dúvidas, desânimo, comodismo, mas depois encontram alguém que as encorajam a retomar e prosseguir; alguém que as oferecem o que tem de melhor. E assim as pessoas ascendem ao poder, ao sucesso e à fama pelo impulso do outro, porque nós somos bem assim, movidos pelo amor e pela coragem de quem aposta em nós.
  Até mesmo uma tragédia em família, a perda de alguém importante, uma ferida, uma lacuna qualquer servem de impulso para que não se perca a autoestima, a dignidade.
   Mas tudo isso sem um tempo determinado, um prazo, um tempo hábil. Talvez isso explica porque alguém escreveu seu primeiro livro na velhice; compôs sua primeira música aos sessenta; ou se formou depois de anos de estrada; ou deixou para plantar uma árvore depois de tudo resolvido na vida.
   Não importa o quão diferente é o tempo de cada um. Não interessa pra ninguém que os ponteiros do meu relógio vão girando num outro compasso. Não só o tempo das coisas, mas o tempo das pessoas também é relativo. Nem Einstein ousaria propor uma equação para algo tão subjetivo.
   E assim a gente galga degraus até atingir o nirvana, o apogeu, a apoteose, dentro do prazo de validade de cada um. Afinal de contas, eu tenho meu QR Code e você tem o seu.

segunda-feira, 13 de março de 2023

UMA NOVA ENTIDADE



  Toda vez que surge uma novidade na praça é sempre uma expectativa de um mundo novo surgindo no horizonte. Uma realidade que muitos imaginam estar perfeitamente adequada aos tempos atuais.
  Já estavam há muito tempo ventilando as maravilhas da inteligência artificial e cada vez mais facilidades e as soluções mais importantes com o menor esforço possível. Pelo menos é isso que os desenvolvedores dessa nova ferramenta sugerem.
    A gente já estava tão acostumado a gastar menos energia para realizar tarefas que eu mesmo já considerava o controle remoto como a maior revolução da humanidade.
   E como os homo sapiens já vêm ao longo de sua existência tentando aprimorar cada vez mais sua capacidade cognitiva, depois que o cérebro tomou outra dimensão, eis que agora parece que nem neurônios vai ser preciso gastar, coisa que muita gente já não gostava de fazer mesmo, veio em boa hora essa novidade, é verdade.
   Imagine que agora qualquer um terá alguém para tirar conclusões, fazer reflexões, considerações sobre qualquer situação da vida humana em que se necessite fazer juízo de valor ou tirar proveito, enfim, levar vantagem em alguma coisa. A própria evolução humana tem essa premissa básica. É só buscar lá de trás o quanto as tecnologias estimulam as disputas, o acirramento, essas coisas, sob o manto da competitividade. Eu tenho cá minhas dúvidas se a roda foi mesmo uma grande invenção. Mas isso é um outro assunto que também dá pano pra manga.
   De qualquer forma, eu nem sei que recurso poderei usar dessa nova geringonça. Vai depender da minha demanda, embora ache que dificilmente essa nova entidade venha trazer as respostas que eu procuro. Sou muito crítico para achar que haverá, enfim, soluções para o mundo nessa descoberta.
    A princípio, quando tiver vontade, só vou pedir para tocar o hino do Botafogo, alguns clássicos do U2, do Led Zeppelin, do Vivaldi, as minhas preferidas do Milton Nascimento e da Marina, somente, tá maneiro.
   Mas vamos ficar por aqui esperando a forma como essa entidade vai se comportar, se vai ser sustentável, romântica, humanista ou predadora. Eu digo entidade porque é alguma coisa sem um coração batendo, mas criando um fluxo capaz de mover o mundo e deixar muita gente perdida por aí, vai vendo.
   Que possamos sempre evitar falsas expectativas, ainda mais agora que a inteligência artificial faz parecer aos olhos do mundo o advento de uma nova era. E a gente sabe muito bem que criador e criatura nunca tiveram boas relações. Nunca foi fechamento, sempre foi fachada.
   Mas, fiquemos atentos para saber se essa inteligência é artificial mesmo como estão falando por aí.

quarta-feira, 1 de março de 2023

PARA UM DIA COMEMORAR



    Estive pensando porque não é feriado no dia primeiro de março na cidade maravilhosa. Pois é, quase passa despercebido quando a cidade do Rio de Janeiro faz aniversário. Não por causa do barulho ensurdecedor de uma metrópole efervescente no seu dia a dia.
    Para um povo acostumado a festividades, agora mesmo seria uma ocasião muito especial para se levantar um brinde, tomar uma, dar a volta olímpica, soltar fogos, virar a noite na Lapa, enfim,  não faltariam opções para o carioca festejar o glamour da cidade maravilhosa na virada de mais um ano de sua longa trajetória.
     O que sobra hoje para manter de pé o orgulho de cada habitante por essa cidade é a resistência da população até que alguém consiga transformar o Rio de Janeiro num recanto viável, funcional, aprazível para quem aqui vive.
   Mas vamos combinar também que no meio de todo esse amor e orgulho de sobra falta também a mesma medida de cuidado, zelo, responsabilidade, respeito e dignidade. A gente cansa de cobrar da prefeitura uma política à altura do que representa o Rio para o Brasil e para o mundo, e tudo que é feito por aqui ainda não deixou a cidade do Rio adequada ao status de uma grande metrópole, moderna, eficiente e completamente inserida no plano global em todos os aspectos.
    É bom lembrar que o cidadão tem o direito de exigir, sim, o melhor, mas ele também é responsável por manter tudo no lugar. Quem chega de fora para o Carnaval, Réveillon e outras resenhas, anda pelas ruas e vê indícios, tanto de descaso do poder público quanto de desleixo da própria população. Poucos cuidam da cidade como deveriam.
   Toda essa propaganda institucional que fazem para a imagem da cidade fora do Brasil já não tem mais sentido algum. Nativos e forasteiros já estão cientes dessa fake news. Até as empresas que meteram o pé do Rio tiveram motivos óbvios para riscar a cidade de seus roteiros de empreendimentos.
   Agora, depois de todo esse tempo de fundação, civilização, povoamento e modernidade, o ideal é que estivéssemos agora consagrando nossas conquistas, organização e potencial para funcionar a plenos pulmões. A gente era para estar aprimorando tudo que precisou ser feito lá atrás, atualizando uma coisa aqui e ali, para tudo continuar funcionando de fato, sem interrupções na nossa agenda, sem treta de qualquer natureza.
    Infelizmente falta muito para chegarmos a um patamar aceitável. É preciso mudar a narrativa de como fazer o Rio de Janeiro ser verdadeiramente a nossa cidade. Feito isso, pode-se até instituir um feriado nesse dia de hoje.
  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

TRAGÉDIA REPETIDA



  Toda vez que eu escrevo sobre essas tragédias provenientes de temporais eu tomo um certo cuidado pra não estar repetindo sempre a mesma coisa, porque parece até que eu colo aqui nesse espaço o mesmo texto sobre o assunto já abordado em outros eventos dessa natureza.
  Se antes a gente focava no descaso das autoridades, não é difícil perceber que tudo continua do jeito como sempre esteve. Quando se menciona a solidariedade das pessoas num momento difícil como esse, é animador saber que tem gente disposta a minimizar o sofrimento das vítimas. E sobre os recursos que o governo federal sempre envia às prefeituras, a primeira dúvida que surge é como e em que é usada aquela grana, enfim.
   Essa questão financeira é importante destacar porque tem de estar atrelada a um projeto, um estudo já feito sobre cada situação. Assim como já ocorreu em outras regiões devastadas por temporais com registros de destruição e mortes, não é diferente que nesse novo evento, agora no litoral paulista, já tenha sido feito todo um estudo técnico com todas as informações, recomendações e procedimentos que o poder público deve seguir para ir diminuindo os efeitos de eventos naturais na vida das pessoas.
    Depois de todo esse tempo com inúmeros registros de calamidades em regiões críticas, a única certeza é que o Brasil como um todo não está preparado para o extremismo climático que afeta todo o planeta. E o que pior, não há nada sendo feito ou discutido nesse sentido, apenas sucessivos alertas de estudiosos e os velhos paliativos nesses encontros das três esferas de governo.
     É claro que todo mundo se envolve numa hora dessa. Os governos federal, estadual e municipal, cada um no papel que lhe cabe na questão. Mas é preciso entender que todos esses eventos são assuntos pertinentes à cidade afetada. Os relatórios são feitos baseados no relevo, geografia, condições locais.
   De todos os encontros para tratar do assunto o mais importante foi o Rio +20, em 2012. Tudo bem que houve impasses como nos outros fóruns, mas esse encontro, particularmente, focou na questão das cidades. Não é à toa que aquele evento foi uma reunião de prefeitos.
    A gente vê o presidente e o governador também chegando junto, mas a responsabilidade é do prefeito. Ele dele que tem de partir a iniciativa de botar em prática as intervenções que precisam ser feitas, porque cada cidade tem uma particularidade, uma característica específica na sua geografia.
    O mau uso do solo urbano como efeito de construções irregulares tem a leniência da municipalidade. É o prefeito que faz vista grossa quando as favelas se proliferam em áreas críticas. É de responsabilidade do chefe do executivo municipal quando constroem em áreas de proteção ambiental toda sorte de empreendimentos para fomentar o turismo local, numa total desobediência as leis ambientais.
    Em todos essas localidades onde ocorrem essas tragédias, isso tudo se repete sempre, como se já fizesse parte do calendário das cidades. É só olhar a região serrana aqui no Rio de Janeiro, que tem o seu tempo exclusivo de calamidades, mortes e descasos também.
    No caso do litoral paulista são seis cidades afetadas pelas fortes chuvas, incluindo Caraguatatuba, que em 1967 um acidente da mesma natureza matou 450 pessoas. Pois é, não fizeram nada. É mais uma região que sofre com chuvas constantes, e sem nenhuma iniciativa para minimizar os impactos de eventos naturais.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

PEDAÇOS DA HISTÓRIA

 

   Quantas histórias já foram contadas na Marquês de Sapucaí? Um pergunta que já deve ter fervilhado a cabeça de muita gente. Já tive pensando nisso, mas sem tentar especular o quantitativo, imagine, já passou tanto tempo.
    Hoje, o que se pode de fato constatar é a forma como são contadas essas histórias na avenida. Os enredos, além de uma ilustração clara do que está sendo proposto apresentar ao público, revela também um viés, uma ótica diferenciada de como se deu um episódio qualquer que o carnavalesco resolveu levar para a passarela.
     Até mesmo quando a escola traz um fato já bem conhecido pela sociedade, há sempre uma informação nova, um dado qualquer que automaticamente dá ao assunto abordado uma outra dimensão. O propósito do carnavalesco é justamente criar uma perspectiva diferente, porque as histórias precisam ser contadas da forma como aconteceram de fato, diferentemente de como a gente soube pelos livros de história.
     O cara vai pesquisar, colher informações, entrevistas, depoimentos, buscas, e o resultado acaba sendo um retrato mais fiel da história que a gente já conhece ou de um episódio desconhecido do público, que foi pouco difundido, mas que agora vem à tona.
    E o carnavalesco, por todo esse trabalho de imersão na história, ele mesmo faz descobertas, claro, e com isso acaba contribuindo para grande parte da nossa história. Quanta coisa que passou ao longo desses tempos completamente despercebida do público e agora ganha publicidade, vai formando uma espécie de quebra-cabeça, porque em nossa história está sempre faltando um pedaço.
    Para parte do público que se interessa pela história é sempre gratificante conhecer novos elementos de tudo que se passou lá atrás e uma criar nova consciência e esclarecer melhor, formar opinião sobre tudo que é importante saber sobre nossa formação como sociedade, nossa cultura, origem de nossa gente com efeito na diversidade do povo brasileiro, as etnias, religiões e toda forma de vida.
   É isso que basicamente as escolas trazem, só que com um olhar diferente, o que se reflete até na maneira como a escola evolui na Marquês de Sapucaí.
    A magia do carnaval não se restringe à estética das cores, dos batuques e das performances dos passistas. A importância do carnaval na avenida é a oportunidade de se fazer uma leitura de como vem por exemplo, um carro alegórico, as alas e suas representações, a comissão de frente com aquele teatro maravilhoso como cartão de vista da escola, tudo com uma mensagem embutida.
   Se não for assim nem adianta atravessar a avenida, porque a cultural em geral tem essa premissa básica.
    Mais do que uma grande festa, o carnaval é a cultura que enriquece a nossa história.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

JÁ É CARNAVAL


   O Carnaval tem sofrido muitas mudanças nos últimos tempos, principalmente no período que consta no calendário. Antigamente, era um corre-corre danado para aproveitar os quatro dias de folia, mais o restinho da semana. Quando geral retomava suas vidas, ficava sempre aquele gostinho de quero mais.
    Só que há muito tempo que ninguém respeita e segue à risca o que determina de fato o calendário gregoriano. Se a Igreja escolhe os dias para o diabo e sua tribo se divertirem, os foliões de verdade, que não fazem parte dessa turma, querem mais tempo para se refestelarem nas ruas depois um ano dando duro direto.
   Quem não gosta de carnaval até fica resmungando pelos cantos, reclamando que neguim já começa a esquentar os tamborins bem antes do tempo certo, e ainda estica um pouco depois, quer dizer, bem depois da tal terça-feira gorda.
    É que parece que havia um trato firmado entre cariocas e baianos pra esticar a folia um pouco mais. Os daqui do Rio começariam antes e os da boa terra, depois. Era um acordo de boca, não esses contratos lavrados em cartório com firma reconhecida e tal.
    Hoje, pelo menos no eixo Rio-Salvador, ninguém obedece mais esse compromisso de lábia, e geral vai ampliando a festa até o próprio mês de fevereiro ser exclusivo do carnaval, sem interferência alguma da Cúria Romana. A própria Igreja só vai contar o período de quaresma a partir de primeiro de março, que por coincidência, é o aniversário da fundação da cidade, e agora?
     Bom, isso dá pano pra manga se forem mexer na maior festa popular do Brasil, querer tudo certinho, religiosamente no tempo certo. Se for para mexer em alguma coisa, que tratem de desassociar essas figuras que não têm nada a ver com o carnaval.
     Eu já pesquisei e vi que o Marquês de Sapucaí nem gostava de carnaval. Aquela avenida tinha de ter o nome de gente que usou sua competência e arte para chegar à apoteose e serviu de referência para a nobreza do carnaval até hoje. Eu sugiro o Joãozinho Trinta, o cara que deixava aquele lugar um luxo e ainda fez escola para quem veio depois.
    Mas isso fica pra depois. O negócio agora é deixar fluir. E é isso que o povo já começou a fazer, cada um dentro de suas possibilidades, sua grana, alegria e descontração, que vão definir a fantasia que cada um vai querer vestir.
    O Carnaval vai rolar no momento em que vários eventos ruins estão ocorrendo pelo mundo, e a gente, infelizmente, não pode interferir, apenas mentalizar positivamente para que as partes se entendam.
     E nós aqui que já temos nossa cruz pra carregar, vamos dar uma pausa nessa via-crúcis para pular bastante e fazer valer o ritual da maior festa popular de que se tem notícia.
   Bom Carnaval.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A AGONIA DOS PEQUENOS

  

    Uma mulher dá à luz uma criança em meio aos escombros do terremoto que atingiu a Síria. Ela não resistiu, mas a criança foi resgatada com vida, ainda presa ao cordão umbilical.
     Há todo um simbolismo nesse quadro cruel, em que o futuro ganha um fôlego a mais, no momento em que a vida fica por um fio, mas segue em frente respirando e ressurgindo das cinzas, dos rescaldos, dos entulhos, dos escombros.
    Eu vi a imagem da remoção do bebê e lembrei daquela plantinha que nasce na fenda de uma pedra, por entre o limo, onde só um passarinho ou uma abelha podem pousar. A própria natureza se encarrega de reforçar para nós a possibilidade do renascimento, a iminência de um sopro de vida, quando tudo se mostra sombrio e desanimador.
    Aquela cena do menino quase engolido pelas pedras, quase sugado pela energia do solo instável, mas firme ali com os olhos expressivos, bebendo água na tampinha de garrafa oferecida pelo pai, é doído, mas é também um fio de esperança, tanto para quem sente na pele quanto para nós que vemos de longe as vísceras e a aflição daquelas crianças.
    Pelo menos é assim que eu vejo o retrato de quando a vida das pessoas beira o precipício, principalmente as crianças, que além de serem as mais indefesas, são as que não têm culpa alguma. Tudo bem, é um evento natural, vão falar, mas, há tecnologia capaz de prever essas catástrofes e fazer o país tocar rumo seu novamente.
   No caso da Síria, há anos em conflitos internos, o ambiente e situação política impossibilita qualquer tentativa de união em torno de um problema que afeta a todos. Reconstrução é sempre difícil, ainda mais com a economia fragilizada, embargos econômicos e dependendo de ajuda externa.
   O que ameniza um pouco é a solidariedade dos países, da ONU. Mas já já as placas tectônicas voltam a bater em níveis críticos e recomeça o mesmo martírio de sempre, porque a região ali tem essa falha geológica, é normal ter esses eventos assim por lá.
    Como já ocorre em outras regiões de fortes abalos, é urgente a cooperação com aparato tecnológico de nações que resolveram esse drama por terem recursos suficientes até para auxiliar os países que agora choram a baixa de sua gente.
    Pelo bem da humanidade e, principalmente, das crianças, já era pra ter rolado uma discussão nesse sentido.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O CARIOCA NÃO MERECE ISSO

 

    Esse temporal que atinge a cidade do Rio de Janeiro já faz parte do calendário das cidades que compõem a região metropolitana da maioria dos estados do Brasil. É uma situação pertinente às maiores concentrações urbanas, enfim.
   Apenas esse aspecto sazonal já seria suficiente para implementar uma reformulação completa na vida, na agenda, na realidade de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo.
   Não faltam estudos sobre o crescimento, as necessidades e o que precisa ser feito para adequar a gestão da nossa cidade com o seu potencial, que incluem a população, os serviços, as demandas, os recursos naturais, a geografia local, relevo, tudo que é levado em conta para se criar um modelo adequado de vida para a população.
    Só que quanto mais vai se protelando um projeto de grande magnitude, que poderia efetivamente trazer o tão esperado bem-estar para todos, piora ainda mais a situação, porque é preciso refazer até os estudos, os dados, as informações que vão ficando defasadas pelo acúmulo de pontos e itens não executados. Daí esse cenário cada vez mais catastrófico na realidade da cidade maravilhosa.
     E o que a gente vê hoje nesse cenário caótico nas ruas da cidade é fruto de várias décadas de descaso. Lembram do grande temporal de 1968? E do outro transtorno em 1988? Pois é, não houve nenhuma ação impactante para amenizar o sofrimento da população, e se naquela época já havia uma urgência enorme, imagine agora com um acúmulo maior das ações que ficaram só no papel, nas promessas de campanha ou nos compromissos de fóruns sobre questões urbanas.
     Se a cidade do Rio de Janeiro foi crescendo ao longo dos tempos, é natural que um temporal que sempre acontece afete um número cada vez maior da população, e o que é pior, comprometendo os principais serviços.
  Pela importância do Rio de Janeiro para seus próprios habitantes, não rola mais as pessoas penarem na volta para casa, porque trem, ônibus e metrô não têm a estrutura estabelecida nas regras de concessão dos serviços. Não tem cabimento um cidadão ser arrastado por uma correnteza, ter a rua e a casa alagadas, pela ausência de políticas públicas amplamente discutidas em sucessivos encontros sobre a questão.
     Não tem como esperar mais que o poder público inclua nas ações de intervenção urbana as pautas da agenda ambiental que vão embasar os projetos de transportes, moradia, segurança, saúde, saneamento, substituindo essas maquiagens que prefeitos e governadores vêm sistematicamente implementando e empurrando goela abaixo da população faz tempo.


                                                                  Foto: O Globo 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

OS DESAFIOS DE GLÓRIA MARIA



   No dia 20 de novembro de 1971, quando o Elevado da Paulo de Frontin caiu, a Glória Maria encarou o que ela mesma já havia classificado como seu primeiro e grande desafio na carreira.
    Se for considerar o que era a jovem repórter e o status do noticiário em tv naquela época, não há dúvidas de que havia um grande desafio pela frente, tanto para Glória Maria em início de carreira quanto para o telejornalismo, ainda ampliando seu espaço.
   De lá para cá, o próprio telejornalismo foi se aprimorando ao longo dos tempos, numa época em que o noticiário de uma forma bem ampla ainda estava muito ligado ao meio Rádio. A televisão ainda estava se inserindo no seio do público.
    Então, nesse espaço de tempo em que o noticiário televisivo foi ampliando seu campo de atuação, inovando através de novas tecnologias até os dias de hoje, Glória Maria acompanhou todas essas mudanças, assim como fez parte de praticamente todos os fatos e acontecimentos ocorridos no Brasil e no mundo.
    Quando a gente vê esses relatos emocionados de figuras já consagradas dando depoimentos sobre a trajetória de Glória Maria, não é difícil imaginar a referência que ela foi para uma gama de profissionais, com quem ela conviveu ao longo de mais de 50 anos de carreira.
   São figuras que certamente incorporaram esse modelo desafiador de buscar a informação, porque a própria imprensa tem esse caráter desafiador. E apesar das dificuldades que ela certamente enfrentou, foi nesse cenário de desafio que a Glória Maria conseguiu imprimir sua marca em todas as pautas que lhe foram confiadas.
    Dificilmente há alguma coisa, algum lugar, uma situação qualquer que Glória Maria não tenha vivido com um microfone na mão, porque desde que eu me conheço assistindo televisão eu já vi Glória Maria cobrindo política, tragédias e paisagens. De gabinete de político, passando por escombros de conflitos à desfiladeiros e montanhas de gelo, a trajetória de Glória Maria se confunde com a própria história do telejornalismo.
    Por todas as vezes que Glória Maria se dispôs a buscar a informação, indo, inclusive, muitas vezes, além de seus limites, fica o registro de toda a contribuição que Glória Maria deu para tornar o telejornalismo cada vez mais abrangente e desafiador.