sábado, 18 de fevereiro de 2023

PEDAÇOS DA HISTÓRIA

 

   Quantas histórias já foram contadas na Marquês de Sapucaí? Um pergunta que já deve ter fervilhado a cabeça de muita gente. Já tive pensando nisso, mas sem tentar especular o quantitativo, imagine, já passou tanto tempo.
    Hoje, o que se pode de fato constatar é a forma como são contadas essas histórias na avenida. Os enredos, além de uma ilustração clara do que está sendo proposto apresentar ao público, revela também um viés, uma ótica diferenciada de como se deu um episódio qualquer que o carnavalesco resolveu levar para a passarela.
     Até mesmo quando a escola traz um fato já bem conhecido pela sociedade, há sempre uma informação nova, um dado qualquer que automaticamente dá ao assunto abordado uma outra dimensão. O propósito do carnavalesco é justamente criar uma perspectiva diferente, porque as histórias precisam ser contadas da forma como aconteceram de fato, diferentemente de como a gente soube pelos livros de história.
     O cara vai pesquisar, colher informações, entrevistas, depoimentos, buscas, e o resultado acaba sendo um retrato mais fiel da história que a gente já conhece ou de um episódio desconhecido do público, que foi pouco difundido, mas que agora vem à tona.
    E o carnavalesco, por todo esse trabalho de imersão na história, ele mesmo faz descobertas, claro, e com isso acaba contribuindo para grande parte da nossa história. Quanta coisa que passou ao longo desses tempos completamente despercebida do público e agora ganha publicidade, vai formando uma espécie de quebra-cabeça, porque em nossa história está sempre faltando um pedaço.
    Para parte do público que se interessa pela história é sempre gratificante conhecer novos elementos de tudo que se passou lá atrás e uma criar nova consciência e esclarecer melhor, formar opinião sobre tudo que é importante saber sobre nossa formação como sociedade, nossa cultura, origem de nossa gente com efeito na diversidade do povo brasileiro, as etnias, religiões e toda forma de vida.
   É isso que basicamente as escolas trazem, só que com um olhar diferente, o que se reflete até na maneira como a escola evolui na Marquês de Sapucaí.
    A magia do carnaval não se restringe à estética das cores, dos batuques e das performances dos passistas. A importância do carnaval na avenida é a oportunidade de se fazer uma leitura de como vem por exemplo, um carro alegórico, as alas e suas representações, a comissão de frente com aquele teatro maravilhoso como cartão de vista da escola, tudo com uma mensagem embutida.
   Se não for assim nem adianta atravessar a avenida, porque a cultural em geral tem essa premissa básica.
    Mais do que uma grande festa, o carnaval é a cultura que enriquece a nossa história.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

JÁ É CARNAVAL


   O Carnaval tem sofrido muitas mudanças nos últimos tempos, principalmente no período que consta no calendário. Antigamente, era um corre-corre danado para aproveitar os quatro dias de folia, mais o restinho da semana. Quando geral retomava suas vidas, ficava sempre aquele gostinho de quero mais.
    Só que há muito tempo que ninguém respeita e segue à risca o que determina de fato o calendário gregoriano. Se a Igreja escolhe os dias para o diabo e sua tribo se divertirem, os foliões de verdade, que não fazem parte dessa turma, querem mais tempo para se refestelarem nas ruas depois um ano dando duro direto.
   Quem não gosta de carnaval até fica resmungando pelos cantos, reclamando que neguim já começa a esquentar os tamborins bem antes do tempo certo, e ainda estica um pouco depois, quer dizer, bem depois da tal terça-feira gorda.
    É que parece que havia um trato firmado entre cariocas e baianos pra esticar a folia um pouco mais. Os daqui do Rio começariam antes e os da boa terra, depois. Era um acordo de boca, não esses contratos lavrados em cartório com firma reconhecida e tal.
    Hoje, pelo menos no eixo Rio-Salvador, ninguém obedece mais esse compromisso de lábia, e geral vai ampliando a festa até o próprio mês de fevereiro ser exclusivo do carnaval, sem interferência alguma da Cúria Romana. A própria Igreja só vai contar o período de quaresma a partir de primeiro de março, que por coincidência, é o aniversário da fundação da cidade, e agora?
     Bom, isso dá pano pra manga se forem mexer na maior festa popular do Brasil, querer tudo certinho, religiosamente no tempo certo. Se for para mexer em alguma coisa, que tratem de desassociar essas figuras que não têm nada a ver com o carnaval.
     Eu já pesquisei e vi que o Marquês de Sapucaí nem gostava de carnaval. Aquela avenida tinha de ter o nome de gente que usou sua competência e arte para chegar à apoteose e serviu de referência para a nobreza do carnaval até hoje. Eu sugiro o Joãozinho Trinta, o cara que deixava aquele lugar um luxo e ainda fez escola para quem veio depois.
    Mas isso fica pra depois. O negócio agora é deixar fluir. E é isso que o povo já começou a fazer, cada um dentro de suas possibilidades, sua grana, alegria e descontração, que vão definir a fantasia que cada um vai querer vestir.
    O Carnaval vai rolar no momento em que vários eventos ruins estão ocorrendo pelo mundo, e a gente, infelizmente, não pode interferir, apenas mentalizar positivamente para que as partes se entendam.
     E nós aqui que já temos nossa cruz pra carregar, vamos dar uma pausa nessa via-crúcis para pular bastante e fazer valer o ritual da maior festa popular de que se tem notícia.
   Bom Carnaval.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A AGONIA DOS PEQUENOS

  

    Uma mulher dá à luz uma criança em meio aos escombros do terremoto que atingiu a Síria. Ela não resistiu, mas a criança foi resgatada com vida, ainda presa ao cordão umbilical.
     Há todo um simbolismo nesse quadro cruel, em que o futuro ganha um fôlego a mais, no momento em que a vida fica por um fio, mas segue em frente respirando e ressurgindo das cinzas, dos rescaldos, dos entulhos, dos escombros.
    Eu vi a imagem da remoção do bebê e lembrei daquela plantinha que nasce na fenda de uma pedra, por entre o limo, onde só um passarinho ou uma abelha podem pousar. A própria natureza se encarrega de reforçar para nós a possibilidade do renascimento, a iminência de um sopro de vida, quando tudo se mostra sombrio e desanimador.
    Aquela cena do menino quase engolido pelas pedras, quase sugado pela energia do solo instável, mas firme ali com os olhos expressivos, bebendo água na tampinha de garrafa oferecida pelo pai, é doído, mas é também um fio de esperança, tanto para quem sente na pele quanto para nós que vemos de longe as vísceras e a aflição daquelas crianças.
    Pelo menos é assim que eu vejo o retrato de quando a vida das pessoas beira o precipício, principalmente as crianças, que além de serem as mais indefesas, são as que não têm culpa alguma. Tudo bem, é um evento natural, vão falar, mas, há tecnologia capaz de prever essas catástrofes e fazer o país tocar rumo seu novamente.
   No caso da Síria, há anos em conflitos internos, o ambiente e situação política impossibilita qualquer tentativa de união em torno de um problema que afeta a todos. Reconstrução é sempre difícil, ainda mais com a economia fragilizada, embargos econômicos e dependendo de ajuda externa.
   O que ameniza um pouco é a solidariedade dos países, da ONU. Mas já já as placas tectônicas voltam a bater em níveis críticos e recomeça o mesmo martírio de sempre, porque a região ali tem essa falha geológica, é normal ter esses eventos assim por lá.
    Como já ocorre em outras regiões de fortes abalos, é urgente a cooperação com aparato tecnológico de nações que resolveram esse drama por terem recursos suficientes até para auxiliar os países que agora choram a baixa de sua gente.
    Pelo bem da humanidade e, principalmente, das crianças, já era pra ter rolado uma discussão nesse sentido.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O CARIOCA NÃO MERECE ISSO

 

    Esse temporal que atinge a cidade do Rio de Janeiro já faz parte do calendário das cidades que compõem a região metropolitana da maioria dos estados do Brasil. É uma situação pertinente às maiores concentrações urbanas, enfim.
   Apenas esse aspecto sazonal já seria suficiente para implementar uma reformulação completa na vida, na agenda, na realidade de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo.
   Não faltam estudos sobre o crescimento, as necessidades e o que precisa ser feito para adequar a gestão da nossa cidade com o seu potencial, que incluem a população, os serviços, as demandas, os recursos naturais, a geografia local, relevo, tudo que é levado em conta para se criar um modelo adequado de vida para a população.
    Só que quanto mais vai se protelando um projeto de grande magnitude, que poderia efetivamente trazer o tão esperado bem-estar para todos, piora ainda mais a situação, porque é preciso refazer até os estudos, os dados, as informações que vão ficando defasadas pelo acúmulo de pontos e itens não executados. Daí esse cenário cada vez mais catastrófico na realidade da cidade maravilhosa.
     E o que a gente vê hoje nesse cenário caótico nas ruas da cidade é fruto de várias décadas de descaso. Lembram do grande temporal de 1968? E do outro transtorno em 1988? Pois é, não houve nenhuma ação impactante para amenizar o sofrimento da população, e se naquela época já havia uma urgência enorme, imagine agora com um acúmulo maior das ações que ficaram só no papel, nas promessas de campanha ou nos compromissos de fóruns sobre questões urbanas.
     Se a cidade do Rio de Janeiro foi crescendo ao longo dos tempos, é natural que um temporal que sempre acontece afete um número cada vez maior da população, e o que é pior, comprometendo os principais serviços.
  Pela importância do Rio de Janeiro para seus próprios habitantes, não rola mais as pessoas penarem na volta para casa, porque trem, ônibus e metrô não têm a estrutura estabelecida nas regras de concessão dos serviços. Não tem cabimento um cidadão ser arrastado por uma correnteza, ter a rua e a casa alagadas, pela ausência de políticas públicas amplamente discutidas em sucessivos encontros sobre a questão.
     Não tem como esperar mais que o poder público inclua nas ações de intervenção urbana as pautas da agenda ambiental que vão embasar os projetos de transportes, moradia, segurança, saúde, saneamento, substituindo essas maquiagens que prefeitos e governadores vêm sistematicamente implementando e empurrando goela abaixo da população faz tempo.


                                                                  Foto: O Globo 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

OS DESAFIOS DE GLÓRIA MARIA



   No dia 20 de novembro de 1971, quando o Elevado da Paulo de Frontin caiu, a Glória Maria encarou o que ela mesma já havia classificado como seu primeiro e grande desafio na carreira.
    Se for considerar o que era a jovem repórter e o status do noticiário em tv naquela época, não há dúvidas de que havia um grande desafio pela frente, tanto para Glória Maria em início de carreira quanto para o telejornalismo, ainda ampliando seu espaço.
   De lá para cá, o próprio telejornalismo foi se aprimorando ao longo dos tempos, numa época em que o noticiário de uma forma bem ampla ainda estava muito ligado ao meio Rádio. A televisão ainda estava se inserindo no seio do público.
    Então, nesse espaço de tempo em que o noticiário televisivo foi ampliando seu campo de atuação, inovando através de novas tecnologias até os dias de hoje, Glória Maria acompanhou todas essas mudanças, assim como fez parte de praticamente todos os fatos e acontecimentos ocorridos no Brasil e no mundo.
    Quando a gente vê esses relatos emocionados de figuras já consagradas dando depoimentos sobre a trajetória de Glória Maria, não é difícil imaginar a referência que ela foi para uma gama de profissionais, com quem ela conviveu ao longo de mais de 50 anos de carreira.
   São figuras que certamente incorporaram esse modelo desafiador de buscar a informação, porque a própria imprensa tem esse caráter desafiador. E apesar das dificuldades que ela certamente enfrentou, foi nesse cenário de desafio que a Glória Maria conseguiu imprimir sua marca em todas as pautas que lhe foram confiadas.
    Dificilmente há alguma coisa, algum lugar, uma situação qualquer que Glória Maria não tenha vivido com um microfone na mão, porque desde que eu me conheço assistindo televisão eu já vi Glória Maria cobrindo política, tragédias e paisagens. De gabinete de político, passando por escombros de conflitos à desfiladeiros e montanhas de gelo, a trajetória de Glória Maria se confunde com a própria história do telejornalismo.
    Por todas as vezes que Glória Maria se dispôs a buscar a informação, indo, inclusive, muitas vezes, além de seus limites, fica o registro de toda a contribuição que Glória Maria deu para tornar o telejornalismo cada vez mais abrangente e desafiador.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

AS SACOLAS DA MAMÃE



      Já faz muito tempo, mas a imagem e a lembrança são bem nítidas até hoje.
     Ela estava arrumando cada uma daquelas sacolas de supermercados, que naquela época eram de papel, e foi dobrando uma por uma, cuidadosamente. Havia um cuidado especial para não romper a alça, senão estragava a sacola, perdendo a serventia, pois a sacola era reaproveitada, mais como bolsa que como saco de lixo, como são transformadas as sacolas plásticas hoje.
     As pessoas usavam as bolsas de papel de supermercado como se usam mochilas hoje. Pareciam bolsas de grife das Casas da Banha.
    Naquele dia, ela resolveu dar uma arrumada geral naquele monte de bolsas enfurnadas num canto qualquer da casa. Ela abria novamente as bolsas para dobrar direito e ficar mais arrumadinho. E usava a própria bolsa para acondicionar as demais. Cabia bastante dentro de uma. Deu para encher duas bolsas, ficaram bem cheias.
     Quando eu achava que aquele expediente era uma rotina normal, arrumar a casa, enfim... Para minha surpresa, ela tinha outra intenção com toda aquela arrumação. “Bota o chinelo, vamos sair!”, decretou ela. E lá fomos nós. Eu perguntando no caminho para onde iríamos, e nada. Já estávamos no ônibus e eu ainda sem resposta. Em momento algum fui reprimido por tanto questionamento. Talvez por estar compenetrada, concentrada em seu projeto, nada respondia.
     Na verdade, um silêncio que fazia parte do processo, fui ver depois. Tem de estar pronto para a glória, para a penúria, para a providência, para as provações.
    Chegamos ao destino, enfim. Era a Feira de Santa Cruz, muita gente, eu ainda tentando encaixar uma razão para aquilo tudo. De repente, ela arranja um lugar ali no percurso das pessoas, junto de alguma barraca, uma gritaria só. Parecia um lugar reservado, mas, não, ela inventou aquele espaço ali.
    Pronto. Agora eu entendi. Dentro de umas das bolsas cheias de bolsas havia várias folhas de jornal, que mamãe esticou ali no chão, ocupando um espaço necessário e suficiente para a empreitada. Todas aquelas bolsas cuidadosamente dobradas, agora eram abertas com o mesmo cuidado. Não lembro quantas, mas eram muitas, emparelhadas, expostas ali. Era a banquinha de bolsas. Bolsas de grife.
    Vendeu tudo, porque eram de marcas. Vendeu tudo, porque tudo conspirava para o sucesso da empreitada. Vendeu tudo, porque ela planejou não sonegar a necessidade, o aperto, mas contemplar a escassez das coisas, dos tempos, com afinco e honestidade.
     Mamãe tinha essa habilidade, essa arte de encontrar soluções para o que poderia ser uma calamidade, uma tragédia, uma miséria. Eu acho até que essa capacidade que ela tinha de reverter um cenário de penúria em bonança é que me estimulou a considerar apenas as melhores possibilidades na vida.
    Depois de 45 anos que ela partiu, carrego até hoje uma saudade imensa, que dói, mas por sorte, maturidade e o espírito calejado já não machuca mais, pois o orgulho que eu sinto dela acabou preenchendo o que antes era uma grande lacuna.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

AS LINHAS DA VIDA

  

   Não tem jeito. A gente está sempre tendo que bater um papo com o médico periodicamente, mesmo que não haja alguma coisa que tenha de ser investigada pelo doutor.
    É uma preocupação quase que desnecessária, no momento em que você se sente bem, mas de tanto ver alguém próximo falando e alertando que pode ter algo que a gente não sabe, enfim, aí você se arruma e vai munido de exames e uma série de preocupações e perguntas que a gente joga nos peitos do médico, e ele, candidamente, responde cada uma com aqueles dois monossílabos conhecidos.
    Tanto o sim como o não são formas de te tranquilizar e eliminar aquele pânico que qualquer um sempre leva para o consultório, principalmente quando você vê essas linhas aí de cima cheias de oscilações. Em cada parte do trajeto que a linha vai fazendo há movimentos diferentes. Não há simetria alguma em todo aquele processo. Tem uns intervalos bem estranhos, uns sobressaltos, isso é grave, doutor?
    É claro que qualquer um sai daquele lugar com a alma renovada, quando o cara fala que no meio de todo aquele emaranhado de números, dosagens, índices e valores de sangue, urina está tudo normal, sem problema, relaxa.
    Quanto às linhas tortas, para de neurose, cara. É o que certamente diria o médico se ele deixasse um pouco de lado aquela formalidade pra falar. Eu penso que ele até quer ser assim menos pragmático, mas a profissão exige uma certa seriedade com o paciente. Não fosse isso, ele de repente até faria daquela mesinha um balcão de boteco e abriria uma pra comemorar ali na hora, ou então marcaria uma resenha lá na Lapa, olha só.
    E eis que nossas vidas têm também aquelas linhas com deformações de toda ordem. Realmente, não poderia ser tudo retinho do começo ao fim. No próprio equipamento do hospital, quando aquela linha se estabiliza sem pulsações pra cima ou pra baixo é o fim da linha de fato.
    Pois é, que graça teria se o seu, o meu, o nosso caminho não tivesse uma curva logo adiante, uma pane no percurso, um contratempo qualquer que te obriga a fazer uma manobra de última hora, porque surgiu um fator surpresa?
   Isso, num cenário emergencial, porque nos momentos de calmaria e no tempo adequado você vai mesmo é chutar o pau da barraca como estratégia de defesa, ou apertar o bom e velho botão do foda-se como meio de sobrevivência. Se o médico sabe disso e não pode recomendar por conta da ética profissional, tudo bem, mas o melhor é que são alternativas com eficácia comprovada.
     No mais, eu vejo mais sabedoria quando o médico recomenda a cada um eliminar suas crises e conflitos do que te entupir de remédio.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

YANOMAMI É NOSSO IRMÃO

 
   
    570 crianças yanomamis mortas num período de 4 anos é um número expressivo o suficiente para que não passe despercebido do olhar atento da sociedade, assim como dos órgãos e de todas as autoridades que vão apurar as responsabilidades por um cenário tão desumano e assustador como esse que todos estamos vendo de crianças completamente desnutridas na Terra Yanomami.
    Primeiro que morte de crianças em qualquer patamar é o primeiro indício de enfraquecimento da raça, etnia, em qualquer comunidade ou civilização. Nos conflitos mais sanguinários de que se tem registro na história da humanidade o extermínio de crianças é a ação mais cruel de todos os momentos de adversidade entre os povos.
    No caso dos yanomamis, não consta conflito algum naquela população, que possa servir de referência para uma perda tão significativa, triste e assustadora. Mas é igualmente estarrecedor que esse quadro de desnutrição e fome que infelizmente fulminou aquelas crianças tenha a implicação direta justamente dos órgãos que deveriam cuidar daquela população indígena.
    Além da apuração imediata que poderá confirmar a responsabilidade e culpa do governo anterior de Jair Bolsonaro em perdas humanas na nação yanomami, é necessário uma completa reformulação nas políticas públicas voltadas à causa indígena, tanto na questão da saúde, para que haja proteção e assistência no combate a toda sorte de enfermidades que venham afetar as comunidades, como também no que se refere à segurança daquele povo, de modo a resguardar toda a área já demarcada e definida por lei, mas que sempre sofreu a interferência de invasores, mais precisamente madeireiros e garimpeiros que vêm ao longo de décadas assoreando cada vez mais os territórios indígenas com atividades comprovadamente ilícitas.
    Se antes, com ações mais incidentes de combate, fiscalização e repressão, ainda assim havia constantes ataques e confrontos entre índios e invasores, na gestão anterior o próprio presidente Jair Bolsonaro autorizou em 2020 a atividade de garimpo nas terras indígenas. Uma decisão que impactou e muito a rotina e a realidade dos povos yanomamis.
    São relatos de violência física, destruição, estupro, matança, contra os nativos daquela região em Roraima, além dos prejuízos causados pelas atividades ilegais assentadas nos territórios, que interferem diretamente na saúde local, principalmente a ingestão de mercúrio, metal usado nos garimpos, que contribuiu para esse quadro atual de enfermidades em níveis absurdos.
    A saúde dos yanomamis precisa de assistência e exige respostas imediatas ao descaso da gestão Bolsonaro, porque, definitivamente não é normal que uma ONG evangélica administre parte dos recursos voltados à saúde daquele povo, no momento em que a esfera federal já tem diretrizes e toda uma estrutura de órgãos encarregados dessa missão na terra indígena.
    Que haja punição à altura da mesma agonia, sofrimento e morte causadas aos nossos irmãos yanomamis.


sábado, 21 de janeiro de 2023

JUNTO E MISTURADO

  
   Esse negócio de aquecimento global ainda vai dar muito pano pra manga, principalmente quando a discussão sair do plano político, econômico, social, ambiental, cultural e sexual também, porque com certeza rola um clima quando essa gente se encontra pra falar que a chapa tá esquentando; que o couro vai comer se ninguém cumprir suas metas, enfim. Eu estava doido pra falar isso, só esperava o momento ideal.
    Aquele tradutor deve ficar meio que embaralhado pra desenrolar a fala do palestrante na língua de cada ouvinte, o que mostra que essa questão de interpretação de texto vai bem mais além das tretas no Facebook, mas isso é outro assunto que pode ser resolvido quando todo mundo estiver mais unido, porque o aquecimento ou outro processo qualquer está abalando as estruturas do planeta. Pois é, parece que os continentes estão se aproximando um do outro, olha que bacana.
     Estamos na iminência de virar a Pangeia novamente, pois o sistema geológico ou metafísico, talvez, já identificou e entendeu que esse negócio de subcontinentes não tá dando muito certo não. E melhor voltar como era antigamente. E as placas tectônicas estão fazendo o movimento inverso, revertendo as engrenagens, fazendo voltar a roda da história. Seria um grande paradoxo classificar esse recuo de um ciclo de evolução natural. Mas por pura necessidade a gente vai comemorando esse retrocesso como se fosse um grande avanço global.
   Agora, resta saber se vai ser na mesma configuração de antes, acho meio difícil. Muitos vão se dar bem com novos vizinhos. Outros vão fazer parede e meia com velhos inimigos, imagina. Quem vai fazer fronteira com Kim Jong-un, Putin? Imagine a praia de Copacabana banhada pelo Pacífico, caraca.
    Por outro lado, vai ter gente vendo a miséria alheia mais de perto, ou morrendo de bala perdida num desses conflitos só vistos na televisão.
    Em compensação, pense em quem vai poder ir ali de metrô comprar um vinho em Paris; pagar bem menos para ver o Pateta; pular de asa-delta do Everest com vista panorama do Piscinão de Ramos.
    Novos relacionamentos. Povos de cores e tamanhos diferentes beijando na boca sem fiscalização aduaneira e outras barreiras alfandegárias, e o velho processo de paz no mundo finalmente se concretizando sem a interferência de religião e sigla partidária, já não era sem tempo.
    Só que o efeito de tudo isso será a longo prazo. Nós, certamente não veremos esse modelo menos globalizado de pegação, tolerância, liberté, fraternité, égalité, ordem e progresso. Vai ter muita escavação por aí. Antropólogos de cabelo em pé com tanta bizarrice; outros, realizados diante de grandes achados.
    Mas, pense no quanto a gente seria considerado um povo moderno e visionário quando eles acharem muros pichados com as expressões “tamojunto” e “chapa-quente".

domingo, 15 de janeiro de 2023

CURRÍCULOS



   É tanta gente para ser identificada que certamente vai levar um tempo tão longo e incerto quanto o necessário para juntar aqueles caquinhos dos vasos, uma escultura ou algum outro objeto devastado pela ira daquela horda de pessoas estúpidas, violentas, imbecis, preconceituosas, ignorantes, gananciosas, hipócritas, imorais, desonestas, fraudulentas, destruidoras, ladronas, mal-educadas, grosseiras, incivilizadas, selvagens, e por aí vai que o nosso idioma oferece mais adjetivos, mas o espaço aqui é restrito.
    A parte mais complexa de todo o trabalho de investigação é identificar o que cada um fez naquele lugar, porque é isso mesmo, cada um fez aquilo que é pertinente ao seu caráter, à sua personalidade, à sua herança. Cai por terra aquela baboseira de que o movimento ia ser pacífico, quando na verdade corria na veia de cada gente opressora o sangue com o fator da estupidez, da truculência e da desordem acima de tudo.
    O expediente de quem quebrou, vandalizou, defecou, roubou e infernizou é uma reprodução clara do que o sujeito já realiza e opera em sua vida normal. Faz parte de sua agenda interferir da forma mais abjeta, repugnante e miserável na realidade das pessoas, das coisas, das situações.
     Não tem ninguém inocente naquele passeio gratuito com destino ao inferno. Deus, Pátria e Família, ora veja. Ninguém ali tem a verdadeira noção do que é Deus, no momento em que falseia e distorce o mais simples desígnio como instrumento de evolução espiritual, humana e social para vestir a capa da entidade mais demoníaca de que se tem notícia.
     Não parece que alguém ali com a mentalidade tão infértil e irracional tenha assimilado o verdadeiro sentido de Pátria em toda a extensão da palavra, porque tudo que foi destruído faz parte do acervo nacional, da riqueza do país, do patrimônio da nação, da identidade do Brasil, do povo brasileiro, o conjunto da sociedade brasileira que inclui até os imbecis.
     Ver essa gente falar de Família, automaticamente nos remete à ideia de alguém que vai deixar como herança algo que poderá comprometer o crescimento e a formação de sua prole; um elemento qualquer que vai contaminar o seu círculo de camaradagem ou cumplicidade, ampliando cada vez mais sua própria zona de conforto, porque assim é melhor.
    Se o terrorismo no Brasil é pouco frequente, a sua fórmula de impor pela força é uma receita conhecida, toda vez que a sociedade se defronta com registros de estupro, feminicídio, trabalho escravo, matança de índios, de negros, bala perdida, enfim. Ali tem gente que rouba, mata, trapaceia, corrompe e bate na mulher, pode crer.
     São práticas conhecidas de muita gente que deixou num canto qualquer daqueles escombros suas digitais, que revelarão, não só sua culpa como também seu currículo, seu histórico de vida.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

EUFEMISMO



   Um sujeito passa com o carro na poça d’água bem em frente ao ponto de ônibus. Ele chega a se aproximar mais das pessoas para que o impacto com a água fosse maior. Com o local bem lotado de gente, eu ouvi palavrões de toda ordem lançados ao piloto sacana.
    Mas no meio de toda aquela gente encharcada e pê da vida havia uma senhora que, talvez resignada ou de bem com a vida, sei lá, simplesmente falou para alguém ali ao lado, “é um abençoado mesmo, né!!”.
    Se tem uma coisa entre várias que ainda alimentam o sonho de um mundo melhor é o esforço que algumas pessoas fazem para medir as palavras, ou usar um termo mais ameno para expressar uma revolta, enfim, se controlar mesmo em estágio de cólera, o fogo já quase saindo pelas ventas, mas a pessoa ali, ó, mantendo a linha, vai vendo.
    Na minha época do quartel, num evento de instrução, um sargento nos aconselhou a manter sempre a ternura, mesmo em casos extremos, como medida de bom comportamento, educação, disciplina, ordem e progresso, essas coisas. É claro que ele falou isso com muito cuidado naquele ambiente, pois, esse negócio de ter de endurecer sem perder a ternura já deu muito problema aqui no paisano.
    De qualquer forma, foram as minhas primeiras lições de autocontrole, mas depois lembrei que já tinha visto isso na escola naquelas figuras de linguagem. Então, descobri a importância do eufemismo, não só na minha vida como no mundo todo. O eufemismo é uma instituição formada a partir da ternura, essa parada que já vem embutida em qualquer homo sapiens. Não sei de registro de eufemismo na escrita rupestre, os hieróglifos, mas na era moderna viralizou bastante esse negócio.
    Hoje, é fácil ver o quanto o eufemismo está incorporado à realidade humana. Mesmo que não evite uma grande tragédia, pelo menos funciona para manter a boa aparência. No cenário político a gente vê muito eufemismo. A imprensa mesmo trata algumas figuras assim também. O cara envolvido em tramoia, documento comprovando e tal, mas a matéria diz que ele praticou ato ilícito, subtraindo recursos públicos, porque assim fica melhor.
   Em tempos de guerra também. Os caras quase saindo na porrada, mas rola um tratamento afetuoso. “Vou te quebrar, irmão!”. É o que certamente o abençoado do Putin já deve ter disparado para o Zelensky.
    E falando em abençoado, os evangélicos, então, amam esse eufemismo, claro, como forma de ver melhor o seu semelhante. O cara se converte, mas cheio de pecados no currículo e as irmãs entre os dentes comentando. “Olha lá, irmã, três Maria da Penha nas costas, é um abençoado!”.
    E por aí vai. Agora, tudo bem que tem gente que gosta de falar na cara, na íntegra o recado, papo reto, sem medir as palavras, mas pense no quão conflituoso seria o mundo, mais do que já é, não fosse o eufemismo.
    Se o eufemismo for exclusivo na linguagem do nosso planeta, a gente vai ficar conhecido pelas inscrições nas lápides, nas pichações dos muros, nos stories, nos livros de história, claro, se sobrar alguma coisa quando a Terra partir dessa pra melhor.

                                        Arte: Brasil Escola- UOL