quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A democracia ainda é melhor

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   Não é porque a democracia está esculhambada que não devemos mais preservá-la. De todos os momentos de revisão e reflexão sobre a nossa trajetória, o pior é quando optamos por andar pela contra mão de nossa própria história.
   Nessa grita para mudança de regime por parte de  uma parcela da população falta um pouco mais de análise sobre o esforço que todos fizemos para que chegássemos aonde estamos. Digo todos porque a sociedade não se dividiu quando reivindicamos a redemocratização do país. Se havia alguém contra todo aquele estardalhaço era mais interesse individual. ou no máximo corporativo, que coletivo.
   Se hoje há várias tribos sequiosas de poder, a própria democracia instaurada permitiu essa oportunidade, essa liberdade a quem quer que fosse, trazendo à nova cena política novos personagens e também velhas raposas que, juntos, redigiram uma nova constituição.
   Mas, apesar de a nova Carta recuperar as garantias individuais e coletivas que a ditadura militar havia interrompido, não houve muita preocupação em resguardar o patrimônio público tanto no plano institucional como no campo jurídico. A legalização da imunidade parlamentar é uma prova do que consideramos hoje uma grande aberração.
   A indignação que hoje pesa sobre o Partido dos Trabalhadores nesses registros de malfeitos dos integrantes da sigla faz sentido pela bandeira da moralidade pública que o PT levantava quando era oposição, e depois se curvou às incongruências do status quo, mas não se pode, nem tirar-lhe o peso da culpa nem atribuir ao partido o pioneirismo da corrupção no Brasil.
   Das velhas figuras que sempre dão cria na política até os dias de hoje, a sombra e a herança daquele regime opressor e excludente que tenta se eternizar no tecido social, enquanto a liberdade conquistada vai dando confiança aos filhos da velha política.  
    Já passou da hora de as eleições renovarem apenas nossas expectativas de tempo em tempo. É a democracia que escolhemos que nos permite a liberdade de escolher quem pode nos representar de fato; é através da democracia que podemos trocar as peças de nosso tabuleiro.
   É compreensível esse sentimento de revolta que passa ao largo da razão, mas não é voltando no tempo que se recomeça tudo novamente. Há registros do quanto foi doloroso aqueles anos de chumbo, quando tudo era precário e limitado e não se podia levantar a voz contra os protagonistas daqueles tempos nebulosos.
    O saudosismo não pode estar atrelado ao retrocesso. Ao contrário do que pensam uma parcela significativa, é melhor que tenhamos sempre essa liberdade de escolha.
     
  
   
     

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A polarização da mediocridade

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  Não é de hoje que a velha polarização entre forças opostas ilustra o cenário político brasileiro. A diferença é o viés ideológico de hoje, bem diferente daqueles tempos de outrora, quando a política do Café com Leite inaugurou esse expediente de cada um governar um pouco.
   Mas, agora já não basta analisar essa disputa sob a ótica do juízo de valor, em que discussões incansáveis e inúteis dividem a sociedade tentando sobrepor uma verdade à outra. 
    No caso dessa contenda entre a esquerda e a direita é inútil nesse momento especular quem é mais importante para o Brasil, e sim, analisar a performance de cada um quando tiveram o poder nas mãos, pois, desde a época em que paulistas e mineiros se alternavam no poder, também não é diferente que as correntes opostas de hoje tenham que rever seus conceitos, porque num breve balanço é possível concluir que há em ambos os lados mais momentos de timidez e inoperância que instantes de consagração.
   A direita, tanto a conservadora quanto a liberal, sempre figuraram por mais tempo na administração do país. Desde a época em que o Brasil se tornou independente, passando pela Velha República e as fases conturbadas do cenário politico brasileiro, o país criou seu mapa geopolítico, se industrializou e fortaleceu suas instituições, criando condições para que atingíssemos patamares importantes que outras grandes nações já detinham.
   Mas questões fundamentais que envolvem a riqueza do país, meio-ambiente, legislação e reformas em geral são pontos que ainda deixam a desejar, considerando os benefícios à população.
   De qualquer forma, houve mudanças profundas e o Brasil ganhou dimensões continentais, mas sem que isso elevasse nosso país a níveis de uma nação de primeiro mundo, e tampouco diminuísse os números de nossos mais preocupantes indicadores. Por isso, ainda estamos nessa expectativa de grandes transformações.
   Com relação à esquerda, enquanto almejava o poder, para a sociedade ou parte dela, uma alternativa às lacunas deixadas por administrações conservadoras, ligadas à elite do país, permitindo desigualdades pelo Brasil afora. Finalmente no poder, houve conquistas importantes, principalmente na área social.
   Mas vale destacar as alianças que a esquerda precisou costurar para comandar a nação e implementar seus principais projetos. Na verdade o mesmo modelo de administração baseado em acordos, parcerias e negociações políticas que a direita já adotara como paradigma, revelando os velhos vícios de sempre.
    Hoje, a corrupção deixa à mostra as vísceras do poder, tornando completamente inútil essa polarização entre forças opostas, mas irmanadas na mesma expropriação da coisa pública, igualando ambas as correntes no mesmo perfil vacilante.   
     Agora, mais do que nunca, não há´garantia de que essa disputa será saudável como sugere a própria democracia brasileira, enquanto a direita e a esquerda não reverem seus conceitos.
    Se parece utópico em meio a um período conturbado do cenário politico, enquanto a possibilidade de união em prol de um só país continuar relegado ao segundo plano, dificilmente reverteremos esse quadro caótico.
    Enquanto houver essa polarização nivelada por baixo, tanto à direita quanto à esquerda o Brasil estará sempre fadado à mediocridade.
     

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O velho tempo da política

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   Já saiu da boca de muita gente que a política se renova a todo instante, mas quando se ouve também que tudo ou quase tudo que gira em torno da política continua no mesmo há controvérsia nessa máxima inicial.
  É mais seguro dizer que a política só se renovará quando quando seus elementos principais estiverem de acordo com a realidade atual. Não adianta olhar a forma como a sociedade se organiza politicamente e enxergar vestígios do passado; identificar como sendo de outrora essa fórmula de agora, que se for de agrado de uma parcela, ainda assim não se poderá enquadrá-la como moderna e eficaz até que ela seja o mais abrangente possível. 
   Talvez esteja nesse período de sufrágio universal a oportunidade  de reflexão sobre os caminhos que já percorremos como sociedade organizada sem longos passos e grandes conquistas.
   Os próprios discursos revelam o estágio em que se encontra a sociedade brasileira. As promessas e otimismos exacerbados são sinais de expectativa constante, a prova cabal de que ainda não somos o que queremos ser.
   É na hora de fazermos essa troca de tempo em tempo que vemos mais claramente que tudo que se reivindica agora já era para ter sido realizado. Os principais serviços públicos ainda são precários porque não se criou um modelo ideal de saúde, educação e segurança. Era para estarmos discutindo como aprimorar a excelência de nossas conquistas e realizações.
   Por tantas vezes que nos convocamos para trocar as peças de nosso tabuleiro, o Brasil já seria uma nação próspera. Nossa economia, nosso PIB poderia inspirar outras administrações além fronteira.
   Com relação aos principais personagens desse cenário ainda cheio de incertezas, convencionou-se criar a polarização entre o anjo e o demônio em busca do poder. São figuras que invertem seus papéis sistematicamente, demonstrando que caiu em desgraça esse velho expediente de alternância de poder.
   O próprio tempo mostrou que esse negócio de  cada um governar um pouquinho em nenhum momento sugere renovação. Muito pelo contrário, parece que o relógio para enquanto as velhas raposas se divertem no poder, ou com o poder para ser mais atual.
   O desafio agora não é recuperar o tempo perdido, porque até isso dá errado na política quando aventam essa possibilidade. O grande lance é ir encurtando a distância entre o tempo da política e o tempo dos homens. A renovação da política está condicionada a essa aproximação. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Um novo cenário

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   Mesmo antes do resultado final das eleições, é possível perceber as transformações que o eleitorado operou para o próximo ano.
   É bem verdade que é cedo para assegurar que haverá mudanças de fato, mas pela configuração que está se desenhando, por exemplo, nas cadeiras de parlamentares no âmbito estadual e federal, pelo menos por parte do eleitor o manifesto desejo de mudança é explícito.
   Não deixa de ser animador ver aquelas velhas raposas da política saindo de cena. São figuras que tiveram a oportunidade de mudar retrospectos amplamente desfavoráveis à população e acabaram se comportando com um misto de timidez, passividade e irresponsabilidade com a coisa pública e foram com o tempo perdendo a confiança do publico em geral.
   Agora, cabe a esses novos personagens do cenário político, justamente com aqueles que ganharam uma nova chance, retribuir a confiança neles depositada. Embora ciente das dificuldades que poderão encontrar para exercer com responsabilidade suas funções, a sociedade certamente estará atenta a qualquer comportamento que destoe do perfil do homem público de boa-fé.
   Com relação ao novo presidente e os governadores, todos sabemos das dificuldades financeiras que eles encontrarão pela frente para implementar novos projetos e retomar aqueles que foram interrompidos por uma razão qualquer nesses tempos de crise financeira que ronda as três esferas de governo.
   Pelo lado dos parlamentares escolhidos para legislarem com vistas ao interesse público, cabe lhes seguir à risca as prerrogativas do cargo de cada um, nas câmaras estaduais e no Congresso Nacional.
   Nunca é demais lembrar que toda essa movimentação operada pelos eleitores foi movida pela indignação  da sociedade com os registros de corrupção que ilustram o cenário político nesses últimos tempos, além da precariedade dos principais serviços públicos oferecidos à população, como sáude, educação e segurança, cujos números vêm sistematicamente afligindo os brasileiros.
   Portanto, não resta outra alternativa ao novo presidente, governadores e legisladores eleitos senão criar mecanismos para reverter esse quadro caótico na administração pública e colocar em prática as reivindicações da população. Se não for desse jeito, de nada terá adiantado o barulho produzido até aqui.
   E independente da corrente politica que se sobressair ao final do segundo turno, os projetos com suas urgências e necessidades são comuns a todos, e a sociedade sempre rachada e dividida  tem também a responsabilidade de formar uma mesma massa num só Brasil nesse novo cenário. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Eleição não é festa



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 Toda eleição é assim. Um clima festivo toma conta da população às vésperas da votação. As discussões, as brigas, a efervescência das redes sociais, tudo faz parte dos preparativos para aquela velha peregrinação de todo mundo rumo às urnas, e mais uma vez um esforço para que tudo que tiver de renovar aconteça.
   Só que diferente dos outros eventos do nosso calendário, as eleições não têm o caráter festivo, de entretenimento, enfim. Não é uma consagração  com cenário de fogos, bebedeira, comemorações, dança e alegria exacerbada. A forma como tudo acontece até parece festa, mas há um ar de seriedade em toda essa atmosfera no momento em que a população é conclamada a traçar seu próprio destino.
   As diferenças de opiniões que dão o tom aos debates são o combustível para as infindáveis rusgas em qualquer ambiente em que haja manifestações de toda ordem ideológica. É nesse momento que o ambiente de bandeiras flamulando, a alegria incontida e a idolatria incontrolável ganha o aspecto sério de chamamento coletivo, em que o destino de um povo, das cidades e do país está em jogo.
    Se em outros tempos o cenário político foi palco de festa, o processo de redemocratização do país permitiu um clima de festa e consagração pela guinada que o Brasil deu ao sair de um ambiente de opressão para um horizonte totalmente favorável ao desenvolvimento do Brasil com ênfase na liberdade dos cidadãos.
    Mas em tempo normal do processo eleitoral a palavra de ordem é consciência, e todo aquele ar de festa fica para depois, quando o resultado final revelará os personagens e a forma como nossas vidas serão conduzidas no espectro político.
   Portanto, deixemos de lado esse clima festivo porque o momento exige seriedade pelas incertezas do cenário político, o que interfere automaticamente na vida de todos os brasileiros.
       

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Tempo perdido


   Se tem uma coisa que é quase impossível mensurar é o tempo em que nada acontece; aquele período em que tudo é inviável; aquele espaço de instantes em que nada condiz com as voltas que o ponteiro dá.   Para ser mais preciso quanto às incertezas do homem, voltemos ao tempo em que a areia escorria pelo funil da ampulheta, numa mostra do quanto já dura essas vacilações.
   Se outros eventos nos permite essa transposição, não é diferente em período eleitoral entrar nessa máquina do tempo e constatar as lacunas que ficam para trás na trajetória do homem público. É impressionante como o sujeito que é escolhido para representar perde a chance de um grande efeito perante a sociedade.
   Hoje é muito comum essas pessoas saírem da vida pública pela porta dos fundos, em vez de figurar na galeria das grandes personalidades. 
   Há uma gama de personagens que se perdem em seus próprios projetos de vida como quem tropeça em suas pernas, transformando seus ideais num verdadeiro cipoal.
  Se o fracasso do homem comum fica restrito a seu mundo particular, sua dores e revezes não fustigam ninguém além de si mesmo. Para o homem público suas limitações no trato com a coisa publica surtem efeito em outra dimensão porque habita o campo do interesse coletivo.
    Andando pelas ruas do Rio de Janeiro é fácil perceber que as promessas que foram feitas em prol de nossa cidade ficaram presas no discurso. O Rio que sempre teve o status de uma grande metrópole vai perdendo essa característica à medida vemos cada vez mais precários os principais serviços públicos.
   Nessa campanha, especificamente, vemos as figuras que tiveram a oportunidade de realizar grandes feitos na cidade maravilhosa em ocasiões anteriores, e agora surgem com as mesmas propostas em outras funções, passando despercebido para muita gente que eles podem frustar a população novamente, por, simplesmente, prometerem algo completamente fora da alçada do cargo que reivindicam ocupar.
   E com isso mais uma eleição com a expectativa de sempre, mas sem a garantia das mudanças necessárias, porque a ação do homem público é tímida por força de interesses e falta de coragem.
   Ao cidadão cabe sua cota de responsabilidade por insistir nesse modelo de administração que fica restrito à superficialidades, em que, não só a cidade como o estado e o país vão sendo maquiados apenas.
   Para não imperar mais essa sensação de tempo perdido, seria ideal que ficasse para a posteridade a marca dos grandes homens públicos estampada na transformação da cidade, em vez dessa eterna expectativa de dias melhores.
  

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A culpa é dos santinhos

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   Eu estava dia desses revirando coisas antigas guardadas e encontrei o título de eleitor de minha mãe. Automaticamente me reportei àquele tempo em que as ruas ficavam cheias daqueles papeizinhos de candidatos, os famosos santinhos, que certamente contribuíram muito mais para entupir bueiros do que convencer o eleitorado. 
  Pode ser, inclusive, que as ruas da cidade fiquem alagadas em boa parte por causa desses malditos panfletos. Mas isso é assunto para depois, até porque não está na pauta dos candidatos de agora.
  Voltei lá atrás, indo votar com a d. Zélia, naquela confusão nas ruas, e mamãe escrevendo o nome dos candidatos na cédula. Nossa... lá se vai tempo! E aquela mesma expectativa que se vê hoje, de discussões acaloradas e inúteis.
  Daquele tempo, de quatro ou cinco décadas atrás, até os dias de hoje, todas as mudanças no processo eleitoral não traduziram efetivamente um cenário adequado à realidade desses novos tempos.
  Ao longo dessas décadas, quem se propôs governar nossa cidade, o estado ou o país não operou as transformações necessárias. Houve mudança de regime, de tecnologia e tudo mais, mas sem, contudo, reverter o quadro geral em todas as esferas de governo.
   Assistindo agora a esses bate-bocas sem fim nas redes sociais, o eleitor mais antigo vai lembrar que essas brigas e discussões já existiam nos bares, nas praças, nos transportes, enfim, em qualquer lugar onde havia aglomeração de pessoas, como é hoje o ambiente virtual, mas que reproduz fielmente tudo aquilo que acontecia em período eleitoral naquela época.
  Não é verdade que aquele período foi melhor como afirmam muitos. Foi apenas diferente. A expectativa de dias melhores que marca os discursos e promessas em todos os pleitos é a prova de que tudo continua a mesma coisa, pois, todo mundo bate nessa tecla para atrair seus seguidores, usando a linguagem bem adequada aos tempos atuais de como se define os eleitores.
   Quem ainda vota hoje com a mesma esperança e euforia dos tempos de mamãe também nutre a frustração de outrora, e minha certamente estaria nesse rol.
  A continuar esse estado de coisa em todos os pleitos só nos resta reivindicar o fim dos santinhos. São eles os maiores culpados por comprometerem nosso futuro, entupindo nossos bueiros.
   

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Vida longa aos contadores de história

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  De tanto a gente ver sumindo do mapa nossos registros antigos, não demora muito e vamos reivindicar aos céus vida eterna aos contadores de história, aqueles personagens que vão sempre espalhar por aí que um dia já tivemos um cérebro bem menor que hoje, mas que não adiantou nada essa mudança.
   Até os fofoqueiros, tão execrados pela vizinhança, ganharão status de celebridade e nesses tempos de redes sociais terão mais seguidores que políticos em propaganda eleitoral.
   Pela velocidade com que nossos vestígios vêm sendo deletados, não há garantias de que esse acervo ficará guardado por muito tempo. Assim, pode ser que não consigamos mais provar que já saímos da caverna faz tempo, o que pode, de repente, fazer surgir questionamentos sobre nossa própria existência.
   De qualquer forma, independente de os contadores de história ganharem ou não o reino dos céus, essa era contemporânea já pode ser considerada o período em que os tempos se confundem. Muito menos pela relatividade que o velho Einstein teorizou, mas sobretudo pela mudança de rumo que o homem dito moderno operou em sua própria história, desconstruindo o passado, o que, automaticamente, compromete o futuro.
    Não é de hoje que rola esse expediente de apagar os vestígios de quando tudo e as coisas engatinhavam. De tempo em tempo o que muda é a forma como a gênese das coisas vão de esvaindo como fumaça.
   Se hoje é um feito inédito queimar museus, em outros tempos a Inquisição e outros regimes totalitários já queimavam livros. O objetivo é o mesmo: frear a difusão do conhecimento.
    Aqui no Brasil, esse descaso com a cultura e seus elementos de maior valor não deixa de ser exclusão do saber da vida social. Não interessa que se saiba de onde viemos. Só importa traçar os rumos da humanidade e a dimensão de seu buraco, até que caibam todos dentro.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Inimigos do estado

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   Houve um tempo em que a questão da segurança se tornava mais complexa pelos números cada vez mais alarmantes da violência em todos os seus quadrantes. A cada política de segurança que se instalava uma expectativa ainda maior por resultados imediatos.
   Hoje, o alcance e dimensão tomados pela causa desnudaram outros elementos e revelaram outros fatores a serem considerados nessa velha tentativa de trazer sossego para a população fluminense.
   Nesses tempos em que a corrupção norteia o cotidiano do serviço público em todas as esferas de governo, não é diferente esse cenário na área de segurança, onde certamente o desvio de conduta de agentes públicos vai interferir diretamente em qualquer proposta de segurança pública, independente do âmbito em que se realiza.
   É bom que se lembre que os agentes de segurança dentro de sua prerrogativa de guardiães da população merecem todo o reconhecimento da sociedade pelo trabalho de combate à criminalidade, inclusive com a proteção de uma legislação rigorosa a quem atentar contra sua integridade em seu campo de atuação, pois, é triste ver essa estatística de policiais mortos cotidianamente.   
    Só que hoje, diante de registros de má conduta de agentes de segurança, é preciso repensar outros modelos de penalizações a esses desvios como forma de trazer à população a credibilidade do aparelho de segurança, porque não é menos chocante aos olhos de todos o alinhamento de alguns desses agentes à criminosos que o poder publico tem de combater permanentemente, e não haver punição exemplar ao mau servidor público.
  Portanto, parece ser um ponto importante a ser visto com outros olhos essa questão sobre o envolvimento de policiais com a criminalidade, não só pela preocupação da população como também nos prejuízos ao estado, no momento em que agentes excluídos da corporação se integram às milícias, onde já se encontram agentes reformados, ainda recebendo proventos do governo. Um absurdo. Há que se rever esse modelo de penalização.
    Se existe a possibilidade de inserção desses agentes à criminalidade, é melhor que eles, em vez de expulsos, fiquem reclusos por um tempo que os impeçam de se associarem às forças do mal. A sociedade deve exigir que o regimento disciplinar da corporação se adeque à atual realidade.
   Porque, inimigos o estado já tem demais para combater, e a população, prejuízos à mesma proporção para contabilizar.
 
 
   
     

domingo, 5 de agosto de 2018

Tempos de medo

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  Que a violência já faz parte do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, até quem não vive por aqui já sabe. Pelo tempo que passou de tantas medidas paliativas, qualquer plano que se traçar daqui pra frente, por mais que ele apresente a seriedade que a questão exige, já nasce sem a garantia dos resultados que a população espera.
  A própria intervenção militar que no momento faz as vezes no combate à violência na cidade é tímida em seu organograma se compararmos a dimensão do problema, ainda mais que essa medida nasceu em caráter de emergência, sem nenhum planejamento, na verdade, nos mesmos moldes de outros pacotes que igualmente frustaram a população do Rio de Janeiro.
   Não tem como tratar essa questão como se os eventos de violência de hoje ainda ocorressem com a mesma dinâmica de tempos atrás. A violência hoje fecha escolas, unidades de saúde e vias públicas, pondo em risco cada vez os moradores no dia a dia da cidade.
  Não pode esses ensaios de política de segurança investirem apenas na infraestrutura do aparelho policial, como aquisição de viaturas e policiamento reforçado em regiões específicas, no momento em que há urgência em sua totalidade territorial, além de outros pontos que precisam ser observados com a mesma atenção.
   Até porque a violência foi ganhando novos contornos e outros ambientes. Além dos inimigos de sempre, os marginais conhecidos de todos, a corrupção do agente público, aquele de quem se esperava a ética, o compromisso e o combate sem trégua aos criminosos, acaba por interromper e minar qualquer possibilidade de resultados imediatos e promissores.
  De tão complexa que se tornou a questão da violência, não basta que a causa fique restrita ao âmbito estadual, onde só os governadores ficam responsáveis pela gestão da política de segurança pública. A violência é uma causa que afeta cidadãos de norte à sul do país, principalmente nos grandes centros urbanos. Portanto, como já foi ventilado diversas vezes, é necessário um modelo nacional de segurança pública com ênfase nas especificidades e geografia de cada região, além, é claro, de reformas profundas nos códigos e legislações vigentes para que surta efeito positivo, mesmo que a longo prazo.
    Esse quadro é o que mais se aproxima de algo eficaz para o combate à violência. Fora disso, o que vier é paliativo nesses tempos de medo.
 
 
 
    

sexta-feira, 4 de maio de 2018

As cinzas do descaso

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   Já foi o tempo em que os velhos "paus de arara" intensificavam o movimento migratório para os grandes centros urbanos do país. Se hoje o êxodo rural já não tem o mesmo fluxo de outrora, ainda que em outros meios de locomoção mais modernos, os efeitos dessa concentração nas grandes metrópoles são cada vez mais visíveis.
   A tragédia que marca a vida das pessoas que vivem de ocupações irregulares vai muito mais além da queda do edifício que desabou em São Paulo. Por entre as cinzas e os destroços revela-se uma mazela que se arrasta faz tempo: o inchaço das grandes cidades.
   Por ser o destino final da maioria daqueles que fugiram da seca nas regiões norte e nordeste do Brasil há décadas passadas, São Paulo hoje registra os piores indicativos para o déficit habitacional que acomete outras cidades que também se tornaram o destino dessa massa de retirantes.
   Como bem declarou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, após o incêndio e queda do edifício do Largo do Paissandú, se existem mesmo cerca de 70 prédios públicos invadidos e habitados irregularmente na capital paulista, o desafio para solucionar o problema certamente é maior do que se imagina.
   No caso específico do prédio que caiu, muitos moradores daquela unidade já tinham sido deslocados de outra comunidade também destruída por incêndio, o que demonstra a falta de interesse do poder público para solucionar o problema.
   Se antes não havia nenhum programa que abarcasse essa massa que veio para ficar, as administrações que vieram depois também não criaram nenhum mecanismo que adequasse a prestação dos principais serviços públicos à nova demanda que só aumentava cada vez mais. Por isso que além de escola e hospital, não há casa para todo mundo nessa metrópole chamada São Paulo.
   E aquele velho jogo de empurra só piora a situação, pois, além dos governos estadual e municipal, a esfera federal também tem sua cota de culpa e responsabilidade.
   Na época em que se intensificava o fluxo de migrantes provenientes de regiões afetadas pela seca, as administrações da cidades de origem não tinham condições  de assentar seu próprio povo, e o governo federal, ciente da urgência de um grande projeto para fixar o homem do campo em seus domínios, não teve força e vontade política para implementar, por exemplo, a obra de transposição da águas do Rio São Francisco, que até hoje se arrasta por força do choque de interesses políticos nas localidades contempladas pelo empreendimento.
   Por conta disso, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais do país tiveram crescimento demográfico desproporcional à oferta de serviços públicos à população.
   Dentro do espectro das ocupações irregulares, apenas a questão do déficit habitacional se destaca, mas é claro que a reboque disso a precariedade dos demais serviços vem à luz dessa realidade.
   As comunidades carentes de todos os centros urbanos do país ilustram perfeitamente esse cenário, onde a exclusão e o descaso norteiam a vida das pessoas dessas localidades, que só diferem de imóveis habitados irregularmente pela dimensão maior, pela geografia, mas com a mesma distância do poder público, demonstrando que o déficit habitacional nos maiores centros urbanos do Brasil é muito maior do que se parece.